É Pra Ser Simples

A máxima elegância de qualquer sistema é seu máximo de simplicidade. Não fosse assim, seria impossível a nós o avanço da civilização. Vivêssemos nós num mundo cujo progresso dependesse de um aumento gradativo de complexidade, em algum momento, haveria um nó, e nós não conseguiríamos mais caminhar. A bem da verdade, é isso o que acontece nas grandes cidades, especialmente no que diz respeito à mobilidade urbana – um grau cada vez maior de complexidade impede que se saia de casa ou se volte para casa a qualquer horário. Mas é o oposto do que acontece com a tecnologia: aparelhos cada vez mais simples permitem que muita gente transforme a própria vida (a gente sabe que você não vai entender errado e vai continuar evitando a exposição de sua criança a telas eletrônicas de todo tipo).

Se é assim com coisas exteriores a nós, como o transporte urbano e os notebooks e celulares, que dizer então do que nos é interior? Sistemas diversos de cunho filosófico e religioso partem de uma estrutura extremamente simples, e as mais diferentes linhas de autoconhecimento vão pelo mesmo caminho. Não é coincidência que Montessori tenha chegado em um sistema de pensamento e ação de princípios gerais simplíssimos, possíveis de ser compreendidos por qualquer um.

Não é possível que nosso trabalho precise ser compreender Montessori. Isso é simples. Nosso trabalho precisa ser internalizar algumas ideias que contrariam fundamentalmente a forma de pensar moderna, esta sim, cada vez mais complexa. É notável, entretanto, quanto se conseguiu complicar Montessori desde sua morte. Ela insistiu inúmeras vezes na simplicidade científica de seu trabalho. Não na facilidade dele, mas na simplicidade dele. Um de nossos trabalhos, no Lar Montessori, é permitir que você compreenda Montessori, então, aqui vai uma explicação sintética do que Montessori compreendia como ambiente preparado. O texto foi inspirado no subcapítulo “Qualidades Fundamentais Comuns a Tudo no Ambiente que Circunda a Criança”, do livro A Descoberta da Criança, ainda sem publicação em português. Montessori falava da escola, a gente vai levar isso para casa.

 

Qualidade 1) O Controle do Erro

Tudo quanto possível no ambiente da criança deve permitir que ela perceba seus erros e imperfeições, especialmente de movimento, e melhore a partir da própria percepção, mais do que a partir da correção do adulto. Quando precisamos corrigir o tempo todo, a criança não se torna independente de nós. Ela precisa da gente, o-tempo-todo. Se o ambiente fala com ela, se ele explica para ela os pontos sobre os quais ela precisa trabalhar, então esse desenvolvimento ocorre de si-para-si, e ela é capaz de compreender-se e compreender o mundo ainda melhor, por meio desse trabalho interior.

Alguns exemplos podem ajudar a compreender. Nós costumamos rodear a criança de tudo o que não quebra, para que ela possa ter total liberdade de movimento. Entretanto, uma liberdade sem direção não leva a lugar algum. A criança que usa um copo que não quebra, joga esse copo no chão se sente alguma emoção negativa, porque sabe que nada vai acontecer. Uma criança que usa copos de vidro não age assim – ou age assim com muito menos frequência, para evitar universais – porque sabe que causará uma consequência definitiva.

A criança que mora em uma casa cujos móveis têm tecidos escuros ou impermeáveis não pode perceber a sujeira que causa quando sobe em algo de sapato ou quando deixa cair qualquer líquido. Toalhas de mesa entram nessa também. Vale a pena apostar no tecido claro, talvez num tecido protetor claro, no caso dos móveis, para que a criança possa enxergar a consequência de seu comportamento.

Quanto à mobília, o mesmo é verdadeiro. A mobília leve ajuda a criança a notar quando sua movimentação é descontrolada. Ela esbarra e as coisas se mexem, fazendo barulho. Isso a ajuda a não esbarrar da próxima vez. Mobília pesada, fixa, não mostra para a criança o resultado de suas ações.

Fala-se muito da correção e até do castigo como consequência. Está errado. Nós não “damos consequência” para a criança. Deixar a criança sem ir ao parque porque ela sujou/quebrou/derrubou não é dar consequência. É dar castigo. Consequência o ambiente mesmo dá, e com ele a criança aprende. Isso se chama controle do erro, essa consequência natural provocada pelo ambiente que responde às ações da criança.

 

Qualidade 2) Estética

A beleza não é opcional no ambiente da criança. Ela é absolutamente necessária. Uma beleza quase sublime, cuidadosa, pontual. Um amontoado de coisas sem sentido, como são quase todos os quartos infantis, e infelizmente muitos dos modernos quartos montessorianos, é feio, sem sentido e confuso. A beleza é pensada, cuidada, quase exata, e muito humana. É belo verdadeiramente o por-de-sol que poderíamos admirar por horas a fio, como fez o Pequeno Príncipe, que movia sua cadeira afim de rever o por-do-sol quarenta vezes, em um dia de especial tristeza.

É belo o céu estrelado, sob o qual nos deitamos e ao qual assistimos não fazer nada, a conversar com um amigo ou companheiro, por tempo sem fim. É linda a praia, a floresta, e é linda a flor e cada uma de suas pétalas, é belíssima a libélula que toca a água muito brevemente à caça de comida e gera círculos perfeitos, que só vão se quebrar à borda dos lagos. A criança quando encontra um pedaço de pedra no chão, um animalzinho novo, ou uma flor, e agacha-se para poder explorar e conhecer melhor, descobrir mais um detalhe do mundo, encaixar mais uma peça do infinito quebra-cabeças, que quando adultos esquecemos de completar.

É essa a beleza que devemos levar para nossos lares, se desejamos que sejam ambientes propícios ao desenvolvimento infantil. Poucos brinquedos, de cores bem definidas, atraentes com certeza e até brilhantes, mas não exageradas em número. Um dos materiais mais fundamentais dentro de Montessori é a Caixa de Cores, que contém 64 pequenos pedaços de madeira coloridos ou envoltos em seda tingida. São 64 cores, com certeza uma imensidão de cor e brilho. Mas são 64 cores que ficam dentro de uma caixa, que pode ser aberta e usada com beleza e cuidado pela criança, quando ela deseja. Não são 64 cores povoando e pululando no ambiente, a gerar tormentas mentais na criança que busca paz e tranquilidade para se desenvolver.

Essa beleza está em ambientes muito bem organizados, em objetos bonitos. Num prato de porcelana cuidadosamente acabado e em um copo muito limpo e sem riscos no vidro. Está em roupas organizadas nas gavetas do guarda-roupa e em roupas que permitam à criança apreciarem as peças do que vai vestir como se estivesse em um museu, e não tanto em frente a um muro decorado por uma profusão de pichações coloridas. Essa beleza está em quanto pensamos naquilo que deixamos à disposição da criança e quando consideramos com cuidado cada elemento do espaço onde ela viverá.

 

Qualidade 3) Atividade

Esta característica diz mais respeito aos brinquedos e objetos úteis do ambiente. Não vale o brinquedo que brinca sozinho. Lembram do cachorrinho que, bastava ligar, saia dando cambalhotas? Esse brinca sozinho, como brincam sozinhos os brinquedos em que basta apertar um botão para sair um som. Se queremos um brinquedo com som, por que não um sino? Um chocalho? Um pau de chuva?

Os materiais colocados à disposição da criança devem inspirar sua atividade. Devem servir à mais íntima necessidade de movimento, de descoberta e de organização mental. Quanto aos brinquedos que chamam a atividades demais, não servem também. Aquele, que tem quatro espaços em cima, cada um de uma cor e uma forma, mais dos espaços ao lado, além de seis peças coloridas de formatos semelhantes aos dos buracos, somados a oito pequenas portas, quatro de cada lado do brinquedo, que podem ser abertas por outras oito pequenas chaves coloridas, e que tem uma alça para que sirva como malinha onde se leva a infinidade de peças e chaves… Isso não serve para nada.

Nenhum adulto tem um só objeto com mais de dezessete opções de ação. Cada coisa tem seu propósito no mundo. Um brinquedo de encaixes é bem vindo. Um com dezesseis encaixes diferentes, coloridos, que abrem-e-fecham, é muito. É necessário pensar em brinquedos que permitam à criança que aja, e não que se ocupe. E é diferente.

Quando ela vai à cozinha, encontra as panelas e as derruba todas de uma vez do armário, para depois sair andando à busca de outras novidades, isso é uma criança só se ocupando. Quando ela retira os potes do armário e começa a encaixar um no outro, ou a tentar tampar um por um, isso é ação, com propósito, com finalidade real, e que ajuda no desenvolvimento. Isso leva a criança a um grau de concentração lindo de ver, e que nós devemos ajudar a surgir por meio dos brinquedos, objetos e materiais adequados.

 

Qualidade 4) Limites

Imagine-se por um momento em uma floresta. Sem trilha e sem bússola. No fim da tarde. Imagine que você pergunta a alguém a direção em que deve seguir para chegar a um local determinado, e imagine também que a pessoa lhe oriente corretamente: “Basta seguir reto, até amanhã cedo, você chega”. Você começa a andar. A probabilidade de você se perder e não chegar nunca, havemos de concordar, é altíssima. Para a criança, a vida é assim.

Se a criança tem coisas demais em seu ambiente, caminhar na direção de seu desenvolvimento é um desafio difícil demais, complexo demais. Não é simples. E precisa ser simples. Por isso, devem figurar nesse ambiente umas poucas coisas, que ajudem no momento do seu desenvolvimento, que sejam exatas para suas necessidades. Para entender exatamente essas necessidades, refira-se a textos sobre Períodos Sensíveis e sobre desenvolvimento do movimento das mãos, aqui no Lar Montessori e em outras páginas.

É muito difícil aceitar que a relação entre melhor desenvolvimentomais atividades ou mais auxílio não é direta, e ela não é direta. Em uma floresta como a que falamos acima, não é necessário derrubar todas as árvores, fazer uma estrada e colocar sinalização a cada dois metros. Só é necessário abrir uma trilha visível e colocar algumas placas de madeira ou pedra. Quem sabe baste uma bússola e um mapa. Mas é necessário alguma coisa.

E essa alguma coisa tem como finalidade colocar ordem na mente do caminhante. Ajudá-lo a organizar seu ambiente mentalmente. O excesso de brinquedos ou materiais (em casa ou na escola) é prejudicial, é como se além de todas as árvores, plantas e caminhos possíveis na floresta, ainda tivéssemos muitos rios e uma plaquinha com o nome de cada árvore por onde passamos. É informação, é caminho possível, mas é confuso, e só dificulta. É muito mais fácil se orientar em um bosque, por exemplo, ou em uma floresta aberta, e com uma bússola e uma trilha que, porque diminuem a quantidade de opções, facilitam a tomada de decisões corretas.

 

Como uma conclusão.

Montessori não é para ser um problema a mais na sua vida, uma árvore a mais em uma floresta na qual você está perdido. Não é para ser uma referência a mais na multiplicidade de referências sobre criação de crianças a que você tem acesso, gerando mais dúvidas e mais confusão, e piorando o chão firme, e não tão firme, sobre o qual você pisa para criar seus filhos.

A ideia de Montessori é ser uma trilha, um conjunto de placas, e uma bússola. Um caminho simples, belo, cheio de atrativos interessantes e ocasiões de encanto, mas um caminho simples, compreensível, que você pode percorrer. Porque Montessori dá certo com qualquer criança, em qualquer ambiente, em qualquer lugar do mundo em qualquer época (e é necessário muita coragem para dizer isso, mas também uma certeza absolutamente científica do que se diz), por causa de tudo isso, é possível afirmar para você: invista um pouco do seu tempo para entender Montessori.

Supere a fase de achar que tudo isso é complexo demais, e estude mais um pouco. Debaixo de uma quantidade imensa de informações, você vai encontrar um sistema muito bem definido, construído sobre sólidas bases de investigação científica, e um método que pode realmente ajudar você a simplificar sua vida e sua forma de criar as crianças. Durante esse processo, conte conosco. E depois desse processo, volte para contar como está sendo usar essa bússola, caminhar por essa trilha, e se encantar com cada sorriso aberto, olhar fascinado e disposição contente de seu filho em relação à vida e ao mundo, todos os dias.

 

ambiente


8 comentários sobre “É Pra Ser Simples

  1. Simplesmente perfeito. O que você fala sobre o método é o que a maioria pensa quando se depara com qualquer método. Acham a teoria interessante, mas não sabem e não conseguem por em prática. Aqui está a importância do seu trabalho, mostrar que é possível e que é simples.
    Isabel Lima

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