Vinte Anos em Montessori

Lutar, e lutar pela Paz. – Maria Montessori

Hoje, agorinha, a página do Lar Montessori no Facebook chegou a 1.000 likes. Mil. Há três anos eu mal pensava que haveria dez. Faz três prazerosos anos que escrevo sobre Montessori e que falo sobre Montessori todos os dias. É uma realização que eu não sabia que se podia ter tão cedo na vida.

Mas faz mais anos que vivo Montessori. Fui matriculado em uma escola montessoriana aos dois anos de idade, e lá permaneci por doze, até sair no meio de minha adolescência, porque a escola terminava na antiga oitava série e eu devia seguir para o primeiro colegial em um Ensino Médio tradicional.

Durante os três anos do Ensino Médio não passei mais de um mês sem revisitar a escola onde estudara, e fui lá conversar com os adolescentes sobre Montessori e sobre como estudar, e como fazer valer a pena o tempo que eles estavam passando lá. Ainda na faculdade, retornava mês a mês na escola.

Eu estudei Letras na minha graduação. Ler era minha paixão – ler ainda é minha paixão. E ler era pelo menos um bom passatempo para a maior parte dos colegas que vinham da escola montessoriana onde eu havia estudado. Mas ler não era uma passatempo para os meus colegas de Ensino Médio tradicional, nem para os meus alunos de aulas de reforço e aulas particulares.

Buscando entender isso melhor, eu voltei para a escola onde estudara ao longo de toda a infância e parte da adolescência. E sentei para observar – a minha coordenadora não quis me explicar nada antes de eu sentar e observar – à época, eu não entendia quão montessoriana era a prática à qual ela me submetia. Mas sentei e observei.

A revelação de dez horas de observação seguidas foi chocante. O que fazia aqueles alunos gostarem de ler era poder escolher o que eles leriam. Não só em literatura, romance, conto, poesia, crônica… Também em Geografia, Ciências, História, e para meu espanto, inclusive em Matemática se podia escolher o que ler. É muito diferente ser aluno em uma realidade, e depois olhar para ela de novo, com olhar investigativo. Minha coordenadora confirmou minha hipótese, mas jogou um geladíssimo balde d’água em minhas expectativas de levar a prática para a escola tradicional. “Ou você adota o modelo inteiro, ou não consegue adotar nada”, foram mais ou menos as palavras dela.

E se era questão de adotar o modelo inteiro, eu fui fazer o que tinha aprendido com ela, e com a escola: fui estudar o modelo, estudar Montessori. Lia um artigo aqui, um ali, meia dúzia de vídeos, mais uns sites interessantes, e ia achando tudo muito bonito, muito com cara de solução mágica para os problemas do mundo.

Em uma noite, assisti ao filme “Maria Montessori: Uma Vida Dedicada às Crianças” e li o livro “Dr. Montessori’s Own Handbook”. Foi então que entendi: não era mágica, mas era mesmo a solução para muita coisa. O problema de não ser mágica era que, por ser ciência, precisava ser muito bem compreendida, e se era algo científico, ia ter de ser feito por muita gente. Então eu precisava ler e escrever, assistir e falar, aprender e espalhar muito.

Por uma trilha que começou com Formação do HomemA Educação e a Paz, continuou com Pedagogia Científica e depois migrou para as edições em língua inglesa de Mente AbsorventeA CriançaA Descoberta da Criança, fui (re)conhecendo o caminho pelo qual eu caminhei, por doze anos, e o caminho que eu decidia, página a página, trilhar a vida toda.

Completam-se agora vinte anos de Montessori em minha vida, e eu preciso dizer: o fato de poder dividir com todos vocês os três anos mais recentes, de poder entrar um pouco na casa de vocês, na intimidade absoluta dos quartos dos seus filhos, na delicadeza sutil e frágil dos olhares que vocês laçam às suas crianças, nos movimentos de suas mãos quando lidam com os pequenos, tudo isso fez dos últimos três anos os melhores da minha vida.

O Lar Montessori começou muito frágil, simples, pequeno (você pode ver o começo dele nos posts mais antigos). Começou com traduções de artigos estrangeiros, e aos poucos uma ou outra opinião, uma ou outra reflexão. Isso aos pouquinhos tomou corpo, eu tomei um pouco de coragem – um pouco, só, confesso – e treinei os ombros para a responsabilidade de que me alertou a diretora da escola montessoriana, quando lhe contei que o Lar havia sido visitado 10.000 vezes.

Hoje, são quinhentas visitas por dia, de dezenas de países, e a responsabilidade é muito grande. Quando parece demais, quando parece muito, lembro-me do que escreveu Montessori:

 “Lutadores – é o que somos: lutamos pela “paz na terra” […] neste momento, não podemos fazer diferente – continuamos ‘porque devemos’, porque ‘é assim que as coisas são’ e ‘é assim que devem ser'” e  “Este é nosso destino: semear! Semear em todos os lugares, sem cessar, nunca colher”.

Pessoalmente, parece-me momento oportuno para, com uma frase de Montessori, finalmente colocar a missão do Lar Montessori, muito genericamente expressa na frase “Montessori para Todas as Crianças”, como sendo a de ajudar a levar a cabo as medidas expressas na declaração seguinte:

“Nossa preocupação principal deve ser educar a humanidade – os seres humanos de todas as nações – para orientá-los a buscarem objetivos comuns. Precisamos nos voltar e fazer da criança nossa principal preocupação. Os esforços da ciência devem se concentrar sobre ela porque ela é a chave para os enigmas humanos… A sociedade deve reconhecer completamente os direitos sociais da criança e preparar para ela e para o adolescente um mundo capaz de garantir o seu desenvolvimento espiritual” (em A Educação e a Paz).

O Lar Montessori, e vocês, fizeram juntos muita coisa por Montessori. Juntos fomos muito longe. Há muitas crianças que vivem melhor hoje do que há três anos atrás, em decorrência do trabalho desenvolvido por um grupo de pessoas extremamente dedicadas, que se empenha na moderação de grupos em redes sociais, e mais um grupo maior de famílias e educadores muito conscientes da importância da criança, e que não perdem a chance de despertar mais um adulto para o tipo de comportamento que precisamos ter no mundo se desejamos honrar a vida daqueles que são os melhores entre nós.

Se é possível lhes fazer um pedido, nesta data que para mim é especialíssima, peço encarecidamente:

Fale com seus conhecidos, parentes, colegas de trabalho, amigos mais próximos. Você não precisa dizer a palavra Montessori se achar que vai assustá-los de início, ou que vai afastá-los. Mas converse com eles, conscientize-os sobre a importância da criança. Juntos, e só juntos, nós podemos fazer muito.

Juntos nós podemos tornar concreta uma “educação capaz de salvar a humanidade”.

vamos?


6 comentários sobre “Vinte Anos em Montessori

  1. Parabéns Gabriel. Muito inspiradora a sua história.
    Efetivamente, de forma prática, co eu posso fazer mais pelas crianças da minha comunidade além de dar o exemplo em casa com a minha filha e de falar sempre q possível sobre o método?
    Um super abraço,

    1. Valéria, você pode montar grupos de famílias e conversar sobre – e se você se encantar demais, pense em uma escola! Não sei se há uma na sua região. Não se sinta pressionada. Algumas reuniões por ano com algumas famílias já seriam preciosas para muitas crianças!

  2. Quanto mais humildemente me ponho a tentar conhecer,sobre “ela” mais me emociono, me transformo e sonho em ser e fazer o melhor.Parabéns Gabriel, você realmente é a sensibilidade em pessoa, quando “crescer” quero ser como você.

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