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O Segundo Plano do Desenvolvimento – Montessori #612

Este é o primeiro texto do Lar Montessori sobre as crianças entre 6 e 12 anos. Montessori chamava esse intervalo de Segundo Plano do Desenvolvimento. A ideia é que haja muitos textos sobre crianças dessa faixa etária aqui, e por isso criamos essa hashtag: #612. Com ela, fica mais fácil para você encontrar os textos (e futuros vídeos) que tratam especificamente do Segundo Plano entre tudo que o Lar produz. Antes do texto propriamente, um adendo importante: se você chegou aqui de dois ou três anos para cá, viu textos mais maduros, e talvez não tenha visto os primeiros textos do blog – eles recorriam o tempo todo a citações e traduções, porque eu não tinha conhecimento suficiente para escrever sozinho. Pois bem, voltamos ao princípio. Eu não tenho conhecimento suficiente para escrever sozinho sobre o Segundo Plano do Desenvolvimento, e recorrerei o tempo todo a livros, textos e vídeos para trabalhar os mais diversos assuntos. Tenha paciência e, se aceitar, vamos juntos. Como sempre, não dá para prometer que vai ser fácil. Mas dá para prometer que vale a pena.

O Segundo Plano do Desenvolvimento

A vida, do ponto de vista de Montessori, é uma sucessão de conquistas de independência. Na primeira infância, conquista-se principalmente a independência física, a criança aprende sobretudo a fazer sozinha. Agora, aos seis anos, essa criança já conquistou muito do mundo físico à sua volta, e o expande. Passa a incluir nele tudo o que vai além do imediato: espaços mais distantes, tempos diferentes do presente, relações pessoais excêntricas (fora do centro de seu próprio mundo). A criança precisa agora recorrer ao raciocínio, a um mundo muito mais abstrato, e tão arriscado quanto o mundo físico era quando ela começou. Agora, a criança precisa planejar, pesquisar, inquirir, duvidar. Sobretudo, agora a principal ferramenta da criança é a imaginação.

Paula P. Lillard, no livro Montessori Today, explica que há duas novidades importantes no segundo plano do desenvolvimento: a criança caminha corajosamente para o mundo abstrato, e a criança se desenvolve consideravelmente como ser social. Neste texto, trabalharemos um pouquinho essas duas novidades, a partir do capítulo “Changes at the Second Plane”, do livro de Paula Lillard.

Um sinal belo de que o segundo plano está chegando é a mudança na natureza das perguntas. Nos acostumamos com pequenos que perguntavam porquês e comos, mas não tinham paciência para a resposta longa e profunda que tentávamos dar no começo. Nós aprendemos que eles não queriam uma resposta complicada demais, e simplificamos. Mas agora, tudo mudou. As perguntas são de verdade. Quando a criança pergunta por que o céu fica cinza quando vai chover, ela não quer só ouvir “porque tem muitas nuvens”. Ela quer entender como as nuvens agem sobre a luz do sol, impedindo sua passagem, e vai adorar se você explicar para ela que nuvens escuras são como o fundo de um oceano, que a água não permite que a luz alcance.

As comparações, deduções, conclusões e – eu diria que especialmente – as inter-relações, são muito especiais para a criança. A inter-relação é a origem de todo interesse. É quando percebemos que as coisas são interligadas que o conhecimento sobre algo puxa a dúvida sobre alguma outra coisa. A criança que começa a ser capaz de pensar o mundo tem uma forte atração por tudo o que exercite o seu pensamento.

Mais do que entender respostas, as relações encantam. E entre elas, um tipo específico de relação encanta mais que os outros: aquela que se estabelece entre a vida e a descoberta. Para a criança de seis a doze anos, propõe Montessori em Da Infância à Adolescência, “os atos alcançados pelos seres humanos interessam mais do que as coisas”. Importa saber que foram necessários vinte anos e dezenas de milhares de vidas para erguer as pirâmides do Egito. Isso dá a elas um sentido especial. Saber que houve um homem, mil e duzentos anos atrás, que foi o inventor da primeira máquina de voar e viveu no Oriente Médio, e que um outro homem do Oriente Médio foi o primeiro a descrever usos de agulhas e seringas… Tudo isso permite à criança uma visão do mundo muito, muito mais ampla do que aquela que geralmente lhe oferecemos com livros infantis de fantasia e programas animados de televisão. Diante da imensidão do mundo – e do universo – aquilo que oferecemos à criança é quase de mau gosto.

A fantasia, diga-se de passagem, tem lugar no segundo plano do desenvolvimento. A partir de uma base sensorial sólida, muito bem estabelecida na realidade durante os primeiros anos de vida, a imaginação da criança pode lidar muito bem com a fábula, o conto de fadas e o mito. Todos têm o potencial de contribuir para a construção da moral. Voltaremos a isso num texto futuro.

Para que o mundo possa ser descoberto pela criança, é preciso que ela construa habilidades interiores – da mesma maneira que o bebê aprendeu a subir e descer de seu colchão, aprendeu a andar e correr, carregar e encaixar, agora a criança mais velha aprende, com a ajuda paciente e repetida do adulto, a administrar o tempo, planejar tarefas, fazer listas, mapas mentais, resumos, anotações, roteiros. Quem se organizava antes era o mundo físico, agora a criança trabalha em seu espelho: a mente humana infinita, que tudo pode e tudo alcança. Ainda regida pela Lei do Máximo Esforço, a criança de sete ou nove anos de idade faz esquemas imensos, maquetes, cálculos de páginas e mais páginas. Lê, copia, faz arquivos, coleciona, categoriza. Pede ajuda, aqui e ali – como sempre, nossa ajuda mínima e pontual importa muito, e é nosso papel ajudar a fazer uma ponte de conhecimento necessária para o progresso, sem tirar da criança a alegria da descoberta. É nosso papel ajudar a construir um planejamento, sem roubar da criança a autonomia que ela busca conquistar.

E esse pequeno, que é grande, desenvolve ao mesmo tempo uma percepção social aguçada. Argumenta-se por vezes que a educação infantil montessoriana – em casa e na escola – é muito pouco social. Temos essa impressão porque as crianças são independentes e trabalham no que lhes importa, em lugar de fazerem todas juntas uma mesma tarefa que não importa para ninguém. Essa impressão se dissipa completamente no segundo plano do desenvolvimento.

Conforme a criança aprende que para existir hoje a máquina de Raio X que ajuda a lhe curar cada pequena doença ou fratura uma mulher entregou a vida a um laboratório e morreu em nome de suas descobertas; quando ela aprende que outra mulher foi tão grandemente responsável pela diminuição da mortalidade infantil que pode ter, indiretamente, garantido a vida de seus melhores amigos… o que a criança sente é gratidão por toda a humanidade.

Esse sentimento de gratidão é uma das bases da moral que se desenvolve na criança entre seis e doze anos. A outra é uma forma inicial de compaixão, baseada na justiça. Notamos isso quando a criança se torna, de repente, uma pequena delatora. Corre para nós a dizer o que foi que Fulano fez de errado para Siclano, e nada daquilo tem a ver consigo. Nós por vezes nos incomodamos, sem notar que ali começa a aparecer uma vontade de compreensão: isso é correto? Errado? Eu copio ou não copio esse comportamento?

Para ajudar esse ser social em seu desenvolvimento, é claro que devemos ser bons modelos de ação. Mas também podemos ensinar coisas. De forma paralela ao que fazíamos mais cedo, quando mostrávamos a forma educada de abrir a porta, limpar a boca com um guardanapo e tossir cobrindo a boca com o braço, agora podemos ensinar à criança as formas polidas de existir socialmente. Em um curso de 1943-4, Mario Montessori lista algumas das coisas que fariam parte das lições de Vida Prática a serem apresentadas para a criança dessa faixa etária. No que diz respeito ao desenvolvimento social, alguns itens são: ajudar os mais fracos, cuidar dos feridos, respeitar plantas e animais em nosso caminho e evitar discussões inúteis.

O adulto é, sempre, um guia mínimo, um auxiliar do desenvolvimento. Isso não muda. Ele deve se manter observador atento da vida, para ser capaz de compreender a necessidade da criança.

É nesse universo incrível, composto de sofisticado pensamento abstrato, relações sociais ricas e profundas, imaginação e inter-relação que a criança do segundo plano vive, aprende e se desenvolve. O mundo não é grande demais para ela, e seu raciocínio tem poderes imprevistos. A compreensão agora é todo-abarcante e tem prazer verdadeiro em enxergar as causas e consequências da realidade. As histórias e as perguntas fascinam, os esforços humanos inspiram e os sofrimentos despertam compaixão. Os segundos seis anos do desenvolvimento talvez não sejam tão cheios de transformação quanto a primeira infância ou a adolescência, mas são anos de abraçar a Terra, e trazer o cosmos para dentro de si, encontrando, como propunha Montessori, o próprio centro no universo inteiro.

Sobre gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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