Ontem, depois da cerimônia do Oscar, Fernanda Torres deu uma entrevista para o Jornal Nacional. Na entrevista, Fernanda disse algo muito importante:
“São duas mulheres que viveram um período muito terrível no Brasil, no mundo, que é a Guerra Fria, e elas criaram filhos que depois foram capazes de escrever livros e de atuar… Eu gosto de pensar que esse filme foi feito por duas crianças, […], que estavam naquela casa e que sofreram por tabela uma violência de Estado e que, décadas depois, criaram algo para que nunca aquela história fosse esquecida…”
– Fernanda Torres (video aqui, texto aqui).
Fernanda percebeu, com um olhar muito delicado, que a história não é a memória de um adulto. Porque adultos não têm memórias de infância.
Quem tem as memórias da infância é a criança que forma o adulto.
E algumas crianças, entre elas Marcelo (Rubens Paiva, autor do livro), Ana (irmã de Marcelo) e Walter (Salles, amigo de Ana, e diretor do filme), guardaram memórias dos terríveis acontecimentos da Ditadura Civil-Militar Brasileira. E escolheram contar essa história depois.
Uma história de crianças.
Algumas coisas não são coincidências. Tanto Fernanda Torres quanto Walter Salles estudaram em escolas experimentais, e os filhos da família Paiva todos estudaram no Colégio Sion, assim como a mãe deles, e heroína nacional, Eunice Paiva.
As escolas experimentais foram uma tentativa de melhorar a educação brasileira na década de 50 e início da década de 60. Deu certo. Eram escolas inspiradas em diversas abordagens pedagógicas não-convencionais, como o método Montessori. A ditadura que levou o pai de Marcelo também levou embora a experimentação pedagógica que poderia ter mudado a história da educação brasileira.
Por sua vez, o Colégio Sion fazia parte de uma rede de escolas que abraçou o desafio de implementar Montessori no Brasil quando ninguém mais estava fazendo isso.
O primeiro Oscar brasileiro tem alguns premiados invisíveis:
- As crianças que sofreram, guardaram, e reviveram essa história;
- A educação transformadora, experimental, que ajudou essas crianças em seu trabalho de formação;
- Todos aqueles que lutaram para que histórias assim pudessem ser contadas, e para que uma educação assim pudesse existir.
Não se engane: A construção de uma obra que desafia a opressão só pode ser feita por adultos que foram crianças um dia, e que trazem dessa infância a força, a inteligência, e a emoção capazes de contar essas histórias.
O legado da infância não acaba nunca.
O legado da educação das infâncias é quase sempre invisível, mas é sempre presente.
Ontem, ganhamos um Oscar por uma história dolorida.
Amanhã, com a mesma criatividade e a mesma força, contaremos uma história mais feliz.
Um abraço grande,
Gabriel
