Da primeira vez em que vim à cidade de Fortaleza, vi uma sementinha vermelha no chão, peguei e coloquei no bolso, pensando que seria excelente para um material de Vida Prática. Quando cheguei na casa onde fiquei hospedado, fui pegar a sementinha e ela não estava mais no meu bolso.
Nos anos seguintes, eu usei milhares dessas sementes para montar materiais. São sementes de Olho de Dragão. Mas aquela lá, a primeira, eu perdi.
É fácil perder coisas pequenas.
Das vezes em que você perde a calma com as crianças, quantas vezes é porque a criança fez alguma coisa que não devia, e quantas vezes é porque a sua calma estava tão pequenininha que foi fácil perder?
Na maior parte das vezes foi porque a sua paciência estava pequenininha, não foi?
Eu sei, porque não é diferente comigo. A minha é maior hoje, porque foi treinada. Mas no passado era minúscula.
Pema Chodron, uma monja querida, me lembrou de um poema de Shantideva, autor de uma linhagem budista. O poema diz:
“Onde eu poderia encontrar couro suficiente
Para cobrir toda a superfície da Terra?
Mas com solas de couro debaixo de meus pés,
É como se todo o mundo estivesse coberto.”
Esse é nosso desejo, às vezes, não é? Cobrir o mundo inteiro com uma camada protetora. Fazer um planeta de almofadas. Mas talvez a gente precise aprender a ser mais fofo, mesmo. A se ferir menos, não porque somos duros, mas porque somos protegidos. Chico Buarque dizia: “Eu não quebro, não, porque sou macio…”
Maria Bethânia, em um canto religioso, nos diz:
“Pedrinha miudinha de Aruanda, ê,
Lajedo tão grande…”
Aruanda é um tipo de paraíso das religiões afro-brasileiras. Talvez o nosso desafio seja tornar essa pedrinha pequenininha de paraíso, essa calma tão miúda que trazemos dentro de nós, em algo grande, firme e forte, um lajedo.
Tenho conversado com muitas famílias e muitos educadores que enfrentam imensa dificuldade em cuidar da própria paz. Não é fácil, e quando não temos estratégias, nem apoio, é mais difícil. Todo dia, recebo recados de adultos que gritam, batem, perdem o sono e a sanidade com as crianças, e querem mudar.
Eu quero ajudar, mas preciso entender a dificuldade primeiro.
Escreve para mim? Pode me contar a parte dura, difícil, densa. Se você se sentir segura, pode contar até a parte que te dá vergonha. Eu vou ler com o coração realmente aberto.
Cada uma das respostas vai me permitir criar um caminho que possa ajudar você de verdade nessa mudança.
Eu não prometo resposta a todas as mensagens de vocês, porque prevejo que serão muitas.
Mas eu prometo imprimir todas, ler com olhos de cuidado, e estruturar a melhor ajuda possível.
Um abraço enorme,
Gabriel
