Imaginação e Fantasia: Datas comemorativas

Maria Montessori era uma corajosa defensora da imaginação na primeira infância. Ela diz em seu A criança, a Sociedade e o Mundo que “A imaginação é a verdadeira substância da inteligência. Toda a teoria e todo o progresso vêm da capacidade mental de reconstruir alguma coisa” (eu descobri isso aqui).

Uma dúvida frequente sobre o método Montessori trata da presença, ou ausência, de brincadeiras de faz-de-conta em escolas montessorianas e também sobre a (ir)relevância de contos de fada e personagens de fantasia em datas específicas do nosso calendário. Neste artigo vamos começar por explicar como Montessori compreende a imaginação, em oposição ao conceito de fantasia e em seguida comentar comemorações de datas que em geral trazem personagens mágicos.

Abaporu

Nós, adultos, imaginamos a partir da realidade. Uma pintura como “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, um poema como “Os Sinos”, de Manuel Bandeira ou mesmo uma música de letra quase surrealista, como “Livros” de Caetano Veloso são peças de imaginação construidas a partir da observação atenta e aprofundada da realidade do mundo. Quando desejamos trabalhar a nossa imaginação, para escrever um poema, compor uma música ou pintar um quadro, o que fazemos é ir a um local que seja adequado aos nossos propósitos, permanecer em um silêncio concentrado típico de quem observa e então iniciamos a tradução do mundo em arte.

Com a criança, o mesmo deve acontecer. A imaginação infantil se desenvolve com base no conhecimento da realidade, e toda a educação montessoriana é baseada no conhecimento e na categorizarão do mundo real. Para que Olavo Bilac escrevesse “Ouvir Estrelas” não foi necessário que ele acreditasse que as estrelas realmente falavam. Bilac sabia que estrelas são corpos celestes, e talvez soubesse que estão muito distantes da Terra e que várias delas, na verdade, já morreram. Mesmo assim, do ponto de vista lírico, as estrelas transmitem mensagens às quais é necessário ouvir com amor.

Se, no entanto, o nosso poeta parnasiano tivesse ouvido durante toda a vida que as estrelas de fato transmitem mensagem, o que haveria de poético em dizê-lo? O que haveria de criativo se aquilo que ele diria em belíssimos versos nada mais fosse do que o que todos sabiam, ou acreditavam?

O mesmo se dá com a imaginação da criança. Ela não é bela se não for criada pela criança. Se a criança diz que crê na Fada do Dente porque seus pais a fizeram acreditar que essa fada existe, não há imaginação envolvida no processo. A criança, neste caso, crê, e crê em algo que todos sabem que, em última instância, é mentira, menos ela. Quando uma criança consegue realmente criar, desenhar algo a partir da realidade, criar pequenos versinhos, cantar para o irmão mais novo dormir, isso é belo, porque é fruto do esforço da criança de elaborar uma super-realidade a partir do que ela observa.

A imposição de peças da fantasia adulta sobre a criança não ajudam na criação da super-realidade, mas geram, isto sim, uma a-realidade, que por sua vez impede a criança de ver o mundo como ele realmente é. Uma criança que brinca de ser uma princesa ou de ser um cachorrinho pode encarar a brincadeira de duas formas diferentes: em um caso não lhe faz diferença ser princesa ou cachorro, e aí sabemos que trata-se de um faz-de-conta inofensivo porque é evidente que é faz-de-conta. Em outro caso, a criança pode se recusar a ser o cachorrinho e impor sua vontade (condicionada, em geral, pelos pais, pela TV ou pela escola) de ser a princesa todas as vezes: neste caso, a percepção do faz-de-conta não é clara, e é a ilusão de realidade que leva a criança a desejar brincar de faz-de-conta – brincadeira que, para ela, nada tem de imaginativa, mas sim de substituição a uma realidade que não a satisfaz.

O faz-de-conta saudável, assim como o desenho de observação, a escrita e diversas outras formas de arte são, para Montessori, imaginação. A crença imposta em personagens variadas, o faz-de-conta ilusório e até o medo de seres mágicos são formas de fantasia. A primeira se desenvolve naturalmente quando a criança é deixada em liberdade, a segunda surge a partir da vontade do adulto.

Datas comemorativas são convenções sociais com símbolos criados muito antes de a criança nascer e sobre os quais ela não tem nenhum poder – e os quais ela deve conhecer, reconhecer e compreender. Ainda assim, o significado destes símbolos é individual, e a criança deve ser deixada em liberdade para significá-los como lhe for mais natural, em vez de ter de aceitar passivamente a interpretação dos adultos para símbolos que ela só está aos poucos vindo a conhecer.

As comemorações do período da páscoa, no nossa calendário, são em geral celebrações que envolvem meditação sobre ações passadas e esperança quanto a tempos futuros. Alguns atribuem esta meditação a eventos na vida de algum profeta religioso, outros não, e alguns preferem não comemorar a data. O mesmo acontece com as comemorações de dezembro, que em geral servem às meditações de caridade e perdão. Realizá-las é opcional, claro, e o que fazer nelas também.

Contar histórias para as crianças é uma forma de dar a elas possibilidades de contato com o mundo. A criança acredita em nossas histórias e é só assim que ela pode conhecer aquilo que é muito distante no tempo ou no espaço – é uma forma de contato com o mundo mais sutil e difícil, mas tão válida e útil em alguns casos quanto o manuseio de materiais sensoriais. Assim, devemos cuidar para só contar à criança histórias nas quais ela possa acreditar.

Contar a história do Papai Noel, por meio de São Nicolau, ou a do coelho da Páscoa recuperando o antigo costume russo de presentear ovos pintados é dar à criança a origem de costumes sociais, e não tem nada de nocivo. Nocivo é fazê-la acreditar que há uma espécie de coelho que põe ou faz ovos de chocolate e os entrega, assim como um senhor idoso que viaja a partir do Pólo Norte para o mundo todo em uma só noite voando em um trenó puxado por quadrúpedes típicos de regiões temperadas.

Shiva, divindade hindu
Por fim, gostaria de abordar o tema delicadíssimo da religião nas datas comemorativas. Algumas famílias acreditam em Jesus Cristo, outras em Moisés, algumas em Buda, Tao, Shiva ou na Grande Mãe. Nenhum destes profetas ou divindades é fruto da fantasia. São, para aqueles que crêem, formas supremas da verdade – em alguns casos, um dos nomes da divindade é, justamente, “Verdade”. Assim, contar a história destas crenças não é errado do ponto de vista montessoriano, porque estamos dando à criança a forma de contato possível com uma verdade não-sensorial.

Para famílias que não crêem em nenhuma forma religiosa, não há porque inseri-las na comemoração, a não ser pelo ponto de vista cultural, como se faz com São Nicolau ou os ovos coloridos da Páscoa. Para aquelas que crêem, no entanto, é importante ressaltar: a liberdade da criança deve sempre prevalecer, e ela pode, se achar por bem, não acreditar em nada ou desejar não participar das orações – isto deve ser encarado com compreensão, e não só com tolerância, e devemos permitir à criança simplesmente permanecer de forma educada no mesmo ambiente que seus iguais, sem tomar parte nas solicitações que os hábitos culturais, e mais nada, exigiriam dela.

Crianças trabalhando em um
lar Montessori

Espero que a diferença entre imaginação e fantasia tenha ficado bastante clara, e me coloco, como sempre, à disposição para responder quaisquer dúvidas, ressaltando sempre que o objetivo do Lar Montessori é oferecer uma possibilidade de compreensão do desenvolvimento da criança e de respeito a isso, e não dizer que esta é a única possibilidade ou que só nossos princípios devem ser respeitados.

Contamos com os seus depoimentos sobre como funcionam as comemorações na sua casa! Até mais!


4 comentários sobre “Imaginação e Fantasia: Datas comemorativas

  1. Gabriel esse foi sempre um assunto que me confundiu e confesso que ao começar ao ler o texto entortei o nariz e achei que tinha encontrado um ponto de Montessori que não concordaria em nada. Sorte que venci o pré-conceito e li até o final!Eu não fui criada acreditando em nada dessas coisas, principalmente Papai Noel e Coelhinho da Páscoa e não pretendia que meu filho acreditasse. Porque sempre tive a sensação que inventar e montar todo um aparato para parecer verdade é enganar a criança, e não acho que nada que parta do foco de mentira (mesmo que com boas intenções) seja interessante. Até que alguém comentou sobre a importância da criança fantasiar, a imaginação e que eu ia estar tirando uma coisa gostosa da vida do meu filho.Entrei em parafuso, sério, não queria que ele perdesse o dom de imaginar, mas não queria mentir!Com esse texto acabei de solucionar meu paradoxo, não preciso mentir, só permitir que ele mesmo crie seu mundo, sem imposições. Só mostrando o que eu acredito, e deixando que ele decida o que é bom para ele.Para o Natal, posso por exemplo, explicar que essa história do Papai Noel vermelho que traz presente foi criada só para vender (hoho), mas que eu acredito que exista sim um espírito natalino (deixe a criança dar cara para ele, né? rs) que traz bons sentimentos e esperança nessa data. Esse assunto me levou a outra, a criação de rituais familiares em datas festivas. Eu acho isso importante para lembranças, a pintura de ovos e depois uma caça, por exemplo, na Páscoa. Poderia abordar isso se achar relevante em algum momento?

  2. Para vencer o meu conflito (que começou de trás pra frente, sempre ADOREI o bom velhinho, tenho um carinho especial por ele, independente da cor de sua roupa. ehehhe), abri a discussão em outros grupos que participo. Uma mãe comentou que na casa dela fazem os rituais, de deixar presentes "secretos", de caçar ovos pintadinhos e etc, mas sem dizer de onde vem. Simplesmente fazem e curtem. Achei a solução maravilhosa pq daí a criança pode ir criando suas hipóteses e os pais podem ir curtindo. O que vcs acham?

  3. Perfeito, Grabriel. Dessa forma que pretendo apresentar o Natal para meus filhos. Estou pensando algumas atividades para inseri-los nesse universo, além das historias. Se tiver alguma dica, agradeço!Ana

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