Normalização I: O Respeito pela Criança

Este texto faz parte de uma série de dois artigos sobre normalização. Este é sobre o respeito à criança. O próximo será sobre a normalização em si, que já foi chamada de milagre da educação e conversão natural da criança, ambas denominações errôneas para um processo que nada mais é além da recuperação, por parte da criança, de tendências que lhe são naturais. Seja bem vindo, e antes de ler este texto, leia o Manual da Criança Montessori, disponível aqui no Lar!
   “Montessori segue os caminhos da Natureza”, disse E.M. Standing, explicando o ponto de apoio mais importante de todo o método Montessori. Temos sempre de lembrar que a Natureza sabe o que faz, e que os maiores milagres só podem ser operados pela natureza sendo deixada em liberdade para agir dentro e fora da criança. A natureza aprisionada perde sua magia – vemos isso claramente nos pássaros que nascem livres e são engaiolados, nos peixes capturados do mar, nas meninas e meninos que são colocados, contra a vontade, em clausuras e mosteiros.
Nasce daí uma obediência que pode ser interpretada como virtude, mas também nasce daí a diminuição da vontade de viver, e os seres vivos aprisionados deixam de emanar aquela energia que é tão bela de se ver numa criança livre, em um pássaro em liberdade ou em uma mata virgem: a Natureza livre não recebe esta liberdade de ninguém, ela nasce assim e só com esta liberdade mantida é que pode operar as maiores maravilhas do mundo.
A criança nasce livre. Se nós a mantivermos livre, ela, como todos os outros seres da natureza, agirá conforme sua capacidade e exigirá do mundo conforme sua necessidade. Se for deixada em liberdade, não irá querer mais do que precisa, não irá rejeitar o pouco de que precisa, irá se comportar como seu ambiente natural permite: com amor ao silêncio, amor ao esforço-aprendizado e amor à ordem interna e externa. Estas são as direções inatas da criança que Montessori percebeu por suas observações e que Standing tão sabiamente sumarizou em seu “Maria Montessori: Her Life and Work”.
Qualquer pai, mãe, irmão ou professor percebe algumas coisas em crianças muito pequenas: elas gostam de silêncio ou sons bastante suaves, mas o barulho incomoda muito, quase machucando. Gente falando muito alto com elas também é ruim, assim como pessoas muito bem intencionadas que falam com “voz de bebê”, ou pessoas ainda melhor intencionadas que lhes presenteiam com DVDs de programas de televisão, desenhos animados ou programas educativos. Elas gostam de silêncio, músicas baixas, suaves e tranquilas, sons da natureza e a voz humana em volume e quantidade moderada.
Todos nós também sabemos que crianças são curiosas. É por isso que não deixamos medicamentos ao alcance de crianças, que tomamos cuidado com brinquedos com peças pequenas que podem ser engolidas, que procuramos esconder todas as tomadas, colocar uma portinha na escada, ficar sempre de olho quando o fogo está aceso, e também é por isso que perdemos a calma com seus “por quês?”, “comos?” e “quandos?”. Evitamos que coloquem coisas na boca e que coloquem a mão em animais perigosos ou peçonhentos.
Por último, sabemos intuitivamente que as crianças amam a ordem, embora nem sempre respeitemos isso. Sabemos que gostam de roupas claras e suaves, que seus quartos lhes agradam mais quando tem poucas coisas, que elas não precisam de muitos brinquedos, de muitos objetos ou de muitos materiais, que lhes basta muito pouco para se sentirem realmente bem e que tudo de que necessitam é que esse pouco seja muito bem escolhido, muito limpo e muito bem organizado. Nada precisa ser muito, ser grande ou ser caro, basta que seja muito bem cuidado e organizadinho.
   Acontece, porém, que como não respeitamos sempre essas necessidades da criança, acabamos por reprimir (e eu não gosto muito dessa palavra, mas é isso) a natureza dela e forçamo-la a adotar posturas artificiais diante do mundo. É por isso que crianças que nasceram amando o silêncio acabam gostando de programas de televisão e desenhos animados irrealistas e violentos, é por isso que os pequenos bebês curiosos aos poucos se tornam cansados e apáticos diante do mundo e crescem como alunos que perguntam se “vai cair na prova” em vez de perguntar “Por quê?” e é também por isso que aquelas criancinhas que adoravam tudo no seu lugar acabam por largar tudo no meio do caminho e por jogar tudo no chão em sinal de protesto.
O respeito à natureza da criança vem de duas formas bastante simples, na verdade, e que englobam todas as outras formas menores: respeito pelo espaço e pelo tempo.
   O respeito pelo espaço da criança é manifestado pela escolha sábia daquilo que será útil. Não é útil comprar dez brinquedos antes de a criança nascer. Nem é útil que ela tenha vários brinquedos de um mesmo tipo ou qualquer coisa assim. Este tipo de presente alimenta uma forma nada natural de vontade de possuir.
É útil dar à criança aquilo que suas atividades ou manifestações pedem. Quando ela começa a querer ouvir sons mais de perto ou a provocar sons com o corpo e com o que está em volta, é interessante lhe dar pequenos instrumentos, chocalhos, o violão da família, ou mesmo permitir que batuque em potes, móveis da casa e lhe oferecer músicas clássicas, instrumentais e sons da natureza. Da mesma forma podemos estimular todos os outros sentidos.
Outro ponto muito importante para o respeito ao espaço é organizar a casa. Casas com crianças precisam ser casas arrumadas. Eu sei que é difícil, mas é assim que tem que ser. É da sua capacidade de organizar o caos que advirá a capacidade da criança de manter tudo organizado. A ordem lhe agrada, e agrada muito, mas ela só sabe que gosta de ver tudo organizado, não nasce sabendo organizar. Então, precisamos guardar as coisas que ela desarruma durante alguns anos, depois, aos poucos, podemos ensiná-la a guardar também. Tu-do or-ga-ni-za-di-nho!
Para tudo ficar em ordem e essa ordem poder ser percebida, não pode haver muita coisa. Um quarto de criança montessoriano é um quarto clean, minimalista (aprendi a palavra esses dias e adorei), quase vazio. Tem o necessário, e o necessário sempre é pouco.
O último ponto muito importante de respeito ao espaço da criança é que a casa inteira deve ser o ambiente dela (menos a cozinha, porque no começo é um ambiente perigoso demais. Aos poucos esse pode ser explorando junto com você e aos dois anos o acesso já pode ser livre). Não deve haver um quarto completamente adaptado ao seu tamanho e todos os outros com coisas grandes e inalcançáveis. Se você não conseguiu adaptar a casa toda ainda, feche as portas ou coloque grades nos ambientes não adaptados, assim você lembra que precisa adaptar o mais rápido possível e ela não se frustra por ser mais baixa que todo o resto do mundo.
   O respeito pelo tempo da criança é ainda mais simples: basta compreender que o ritmo dela é completamente diferente do seu. Algumas coisas, para você, são rotineiras e desimportantes. Para ela, nada é um hábito. Ela acabou de chegar no mundo, ainda não sabe como as coisas funcionam. Fechar o zíper é uma experiência sensorial, amarrar o tênis é um desafio motor, subir em uma escadinha é uma aventura cheia de suspense.
Dizer para ela ir mais rápido não adianta, porque não faz o menor sentido. Ela não entende porque alguma coisa é mais importante do que aquilo que ela está fazendo no momento. E na verdade ela está certa, nada é mais importante. Ela está construindo um ser humano lá dentro dela. Está desenvolvendo as habilidades necessárias para a manutenção da civilização. Ela é responsável pelo trabalho mais nobre do mundo e deve ser respeitada e admirada por isso. Hierarquicamente, a criança sempre estará acima de nós, porque é ela que nos cria.

Precisamos organizar o nosso tempo para que possamos respeitar o tempo dela. Se sabemos que demora demais para comer, precisamos começar a almoçar mais cedo. Se demora muito para se vestir, teremos de marcar o passeio para mais tarde. Ela vai demorar bastante para muita coisa, quase sempre, e vai querer repetir tudo de que gostar. A repetição é fundamental e agradável para ela. Permita.

Respeitar o tempo não significa desistir da rotina. Veja o texto sobre rotina e ritual para entender melhor esse assunto, mas saiba desde já: estabelecer um horário para dormir é bom, mas isso não deve ser forçado demais. A criança pode indicar devagar qual a hora mais apropriada para seu sono, ou você pode induzir devagar um horário necessário para a família. A mesma coisa para comer. Pode haver horários para as refeições, mas eles precisam respeitar o apetite dos pequenos. 
  Tenho certeza de que fazendo tudo isso você estará respeitando a natureza da criança que vive com você. E uma natureza respeitada leva inevitavelmente a uma vida mais prazerosa, mais cheia de energia, de sorrisos, de alegrias e de contentamento. Haverá episódios de manha, de rebeldia. Analise essas situações, tente entender porque elas aconteceram. Não se vingue com broncas fortes demais ou palmadas. Entre vocês dois, você tem de ser o ser humano que sabe mais e o mais maduro. Ela está aprendendo, e está criando, lá nas profundezas de sua natureza, um próximo ser humano, sábio e maduro também.

5 comentários sobre “Normalização I: O Respeito pela Criança

  1. Daniela, para a alegria de todos nós, cientistas por todo o mundo estão descobrindo que não é só nossa intuição que considera tudo isso certo. Muitas das pesquisas feitas com comportamento e aprendizado de crianças apontam para Montessori! :)Obrigado a você!Gabriel

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