Períodos Sensíveis III: Linguagem

Antes de ler este artigo, veja a Visão Geral sobre os Períodos Sensíveis

Do nascimento até os seis anos de idade a criança desenvolve sua linguagem com considerável rapidez e eficiência. Mas o período em que isto se dá com maior peso e velocidade é o dos quatro primeiros anos de vida. A partir do fim do quarto ano, muito do que virá a ser a linguagem da criança já está formado e então lhe basta aprender minúcias da gramática de sua língua e descobrir o mundo por meio de novas palavras. Neste texto, trabalharemos o desenvolvimento da linguagem que se dá desde o período pré-parto até o quarto ano de vida.

Desde antes de nascer, a criança escuta vozes humanas. A voz da mãe é, claro, aquela a qual ela está mais familiarizada. Ao nascer, é a voz da mãe que a criança reconhece com facilidade, e assim sabemos que desde antes do nascimento algum tipo de comunicação já se estabelecia entre estes dois seres humanos concêntricos.

Nos primeiros tempos de vida, a criança não sabe que língua se fala à sua volta, e tanto lhe faz que se fale checo, russo, francês ou tupi. Ela aprenderá qualquer uma destas línguas nos próximos três anos. Esta flexibilidade linguística, que se traduz em uma imensa plasticidade neuronal, diminui por volta dos quatro meses de idade, quando os sons da língua que a criança mais ouve começam a ter lugares específicos em seu cérebro e a introdução de sons novos fica, assim, mais difícil. É possível dizer que nos primeiros quatro anos a criança “percebe” qual o conjunto de sons que terá de dominar nos próximos anos. É claro que se aos seis meses sua vida mudar e ela tiver de aprender uma língua totalmente nova, isto é possível. Mas é mais natural e mais fácil de ter tudo bem absorvido pelo cérebro durante os quatro primeiros meses de presença no mundo.

Mesmo bem antes destes quatro meses se completarem, lá pelos dois meses de idade, a criança já se arrisca a balbuciar alguns sons. Vogais longas, em geral, “aaa”, “ooo” e outras variantes assim. Estas produções sonoras que precedem a fala vão se intensificando com o passar do tempo e passam por conjuntos de vogais do tipo “ae”, “ai”, e por gritos, às vezes bastante altos. Entre os cinco meses e o primeiro ano de vida a criança arrisca suas sílabas iniciais. A maior parte destas primeiras sílabas é composta de consoantes labiais ou nasais seguidas de vogais: “pa”, “ba”, “ma”, “na” são alguns dos primeiros sons produzidos. Isto acontece porque os lábidos são fortes na criança pequena, que os treinou ao ser amamentada. A língua também foi fortalecida neste processo, e o “ta” e “da” seguirão os sons labiais bem logo.

Até quase o décimo mês, no entanto, nenhuma das sílabas articuladas tem um significado específico para a criança. A existência da relação entre som e significado vai se fazer mais clara dois meses antes do primeiro aniversário e é um momento epifânico para a criança pequena, que descobre de repente que “tudo tem nome”. Se você tem curiosidade por imaginar e emoção deste momento e já não lembra mais de como foi com você, assista ao filme “O Milagre de Anne Sullivan”, que conta a história de Helen Keller e sua professora, na busca pela construção da linguagem da menina surda e cega.

A partir deste momento, a criança começará a tentar usar o que nós finalmente podemos chamar de “palavras” ela vai produzir “oi”, “tau” (para tchau) e “mama”, “papa”. É este o momento de emoção dos pais que percebem que “a criança falou”. Nós valorizamos esta primeira emanação da compreensão mais básica ao humano: a relação entre um significado e seu símbolo. Deste momento até a completude do primeiro ano, a criança aprenderá a produzir cerca de seis palavras. Um vocabulário mínimo composto de necessidades vitais, nomenclatura de parentes e mais uma ou duas palavras que lhe chamem a atenção. Talvez todo o glossário desta criança seja algo como “mama, papa, áua (água), xixi/pipi, coco e nana”, com muitas variações de família para família.

De repente, no entanto, como se num passe de mágica, a criança começa a aprender palavras e mais palavras, o tempo todo. Qando completa dois anos de vida, a criança já tem um vocabulário de cerca de 50 palavras! Como se não bastasse, do primeiro até o sexto ano de vida, o bebê aprende em média uma palavra a cada duas horas que fica acordado. É mais do que qualquer um de nós conseguiria aprender em um curso de imersão e uma língua estrangeira.

Mesmo com esta explosão de vocabulário, no entanto, a língua não está completa. Para estar, é necessária a explosão seguinte: a da gramática. A criança dos dois aos quatro anos compreende o que nós batalhamos tanto para aprender em cursos de língua estrangeira depois: passado, presente, futuro, plural, singular, conjugações de número e pessoa, preposições e conjunções adequadas. É incrível presenciar o desabrochar de toda a língua na boca e na mente de um pequeno ser em desenvolvimento.

Paula Polk Lillard, em cujo livro (Montessori from the Start) muitos dos textos dessa série são baseados, nos diz que há três pontos especiais desta fase do desenvolvimento da linguagem que merecem nossa admiração: primeiro, a criança consegue perceber que quando chamamos algo por algum nome, nos referimos a coisa como um todo, e não somente a um de seus aspectos (por exemplo, quando chamamos a xícara de xícara, nos referimos a tudo e não só à asa. Segundo, há termos que são usados para denotar conjuntos: a criança consegue perceber que quando falamos “árvores”, nos referimos a todas as árvores, ou a qualquer uma, e não a um tipo específico ou a uma família restrita de árvores. E em terceiro, os pequenos compreendem que quando damos um nome novo a um objeto que já tinha nome antes, estamos nos referindo a algo que é específico daquele objeto e os diferencia dos outros de sua classe: chamar a colher de “colher de sopa”, por exemplo. Outro bom exemplo para este último caso é a confusão, que dura anos, entre “caderno” e “livro”. Até que a criança consiga escrever, a diferenciação entre um e outro é muito difícil de se construir, mas tão logo escreva, o aspecto que justifica o nome “caderno” é compreendido e a confusão termina.

Por fim, ressaltamos dois pontos importantes para pais e mães de crianças que estejam no períodos sensível da linguagem. Primeiro, é importante falar com as crianças e falar perto das crianças. A sua voz importa. É sua voz e a de outros adultos próximos à criança que vai permitir a ela o desenvolvimento perfeito de sua fala. Fale claramente com a criança, não mude sua voz, o tom, nem fale com o vocabulário de bebê ou com a voz esganiçada. Isso tudo dificulta a vida da criança, e falar claramente e devagar ajuda imensamente o bebê a cumprir sua tarefa de aprendizado.

O segundo ponto é sobre eletrônicos. Eles não só não ajudam, como atrapalham. A criança não aprende linguagem fora de contexto. É desafiador compreender a relação entre o som e o significado, e esse desafio aumenta mais do que deve se o significado não faz parte da realidade, mas sim de uma tela brilhante e confusa. Para piorar, disponibilizar vídeos para a criança diminui o tempo de interação entre ela e você e diminui o tempo de sossego e solidão dela para produzir sons aleatoriamente. Uma destas frases que rodam a internet e é creditada a Nietzsche, diz: “Detesto quem me rouba o prazer da solidão sem me oferecer o prazer da companhia”. Façamos o oposto disso: nos cabe dar tanto o prazer da companhia quanto permitir o prazer da solidão. Assim, facilitemos a tarefa imensa de se tornar humano pelo desenvolvimento da linguagem.


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