Ciência e Amor: Ingredientes para a Educação da Criança

Montessori disse: “Meu método é científico, tanto em seu objetivo quanto em sua substância”. Vale a pena refletirmos acerca desta expressão tão exata e totalizante de Montessori. Sabemos que nossa precursora era médica, professora universitária, pesquisadora, e portanto é fácil ligarmos sua pessoa à figura de uma cientista. Acontece, porém, que uma vez diante das crianças, vendo sua espontaneidade e alegria, é-nos difícil realizar as conexões necessárias entre nossas atitudes e aquelas próprias à ciência.

O adulto montessoriano deve ter, entranhado em seu pensamento e emaranhado em suas atitudes, o método científico. Só ele nos propiciará a capacidade de análise necessária para a compreensão da infância. Para iniciar esta explicação, permiti-me emprestar de outro montessoriano a imagem que segue, tirada da entrada da Wikipedia para “Método Científico”:

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Vemos que nosso quadro se inicia com “Observação“. Nas 13 dicas que demos no início de 2013, mencionamos a necessidade de um diário que realmente recebesse entradas todos os dias. Ele é sua ferramenta mais importante. É com um diário (que pode ser desde um monte de post-its colados num mural até um blog) que você vai ser capaz de rever os registros que fez sobre seu filho ou seus alunos, para que escrevendo e revisando tudo sistematicamente você possa ser capaz de perceber padrões de comportamentos e começar a investigar os motivos pelos quais eles ocorrem.

Logo em seguida, no nosso esquema, estão “Fatos“. Suas observações não são as suas opiniões. Se você gosta de registrar suas opiniões no Livro do Bebê ou em um blog educacional, por favor continue fazendo isso, pode ser precioso. Mas mantenha, paralelamente, um registro sistemático de fatos. Se a criança deixa cair seus brinquedos todos os dias, a anotação deve ser, dia-a-dia: “deixou cair o brinquedo” e não “ele sempre derruba os brinquedos, é desatento”. Em uma observação sistemática, podemos perceber que na verdade só caem os brinquedos que fazem mais barulho, por exemplo, ou que os brinquedos só caem de manhã cedo e depois do almoço, quando a criança ainda está sonolenta. Por isso é importante registrar só os fatos, e com um nível de detalhes que permita, em uma leitura posterior, compreender quando, onde e como esses fatos aconteceram.

Após as observações dos fatos, nós podemos começar a formular nossas “Hipóteses“. Uma definição de hipótese é “teoria não demonstrada, mas provável”. Quando observamos as crianças, temos uma tendência interessante a pressupor os motivos por trás de seu comportamento e aceitar nossa primeira explicação como correta. Crianças choram, por exemplo, por fome, sono e carência. Não é isso? Costumamos pensar que sim. Mas Montessori explicou que choram também quando qualquer um de seus períodos sensíveis deveria estar em ação e não está por impedimento imposto pelo adulto – então, expõem seu desespero pela linguagem que conhecem melhor. Para criar uma hipótese, precisamos observar um comportamento se repetir e tentar compreender os padrões por trás da repetição. Então, podemos criar nossa tentativa de explicação para ele, que vai servir para ajudarmos nossas crianças depois.

As nossas hipóteses, entretanto, não vêm sozinhas, vêm sempre inseridas em um conjunto maior de concepções sobre criança e sobre desenvolvimento. Para a criação de uma hipótese, partimos de tudo aquilo que sabemos sobre o desenvolvimento e as necessidades da criança, partimos de nossos saberes e de nossas crenças, levamos em conta as opiniões de pessoas que respeitamos, assim como os hábitos que fazem parte de nossa vida e o nosso próprio passado como crianças. Dentro de todo este conjunto, podemos compor uma “Teoria” sobre o que está acontecendo ou sobre o tipo de comportamento que observamos em diversas crianças. A teoria é um passo grande: é um todo que, teoricamente, explicaria muitos acontecimentos de forma relacionada e completa.

Se desenvolvemos uma teoria, ela implica em “Conclusões e Previsões”, e a partir da criação dela poderíamos antever o que acontecerá posteriormente com a criança. Assim, por exemplo, se segundo nossa teoria, a criança chora porque o ambiente está em desordem, a implicação direta é que a organização do ambiente deve fazer o choro parar. Isto ainda é uma ideia abstrata, é algo que planejamos ou compreendemos em nossas mentes, mas ainda não aconteceu no mundo.

Como temos as previsões, porém, nos damos a liberdade de levar à prática aquilo que, segundo nossa teoria, é o mais adequado. Essa prática é, em última análise, um “Experimento“. Tudo o que fazemos e não sabemos se vai dar certo é experimento, mas quando este se dá dentro de um conjunto de outras atividades do método científico, podemos dizer que realizamos ciência. Nosso experimento, aqui, é arrumar a casa. Se nossa teoria estiver certa, o experimento de arrumar a casa e trazer a criança para o ambiente arrumado deve surtir, como consequência, a tranquilidade do pequeno. Para que seja considerado científico, este experimento deve ser acompanhado de novas observações e análise lógica.

Lembre-se de que nesta nova observação e análise, somente os “Fatos” devem ser considerados. Digamos, então, que a criança parou de chorar! Isso quer dizer que nossos “Fatos corroboram a teoria“, ou seja: na nossa teoria, os períodos sensíveis precisam ser respeitados para a criança ficar tranquila. Nosso pequeno tem cerca de dois anos e está em uma casa desarrumada, e isso ofende seu período sensível para a ordem em um nível básico de ordem física mesmo. Ainda segundo nossa teoria, hipotetizamos que a organização do ambiente significaria respeito ao período sensível da ordem, e levaria à tranquilidade do bebê. Em nosso experimento, nós testamos a teoria, arrumando a casa, e trouxemos a criança ao ambiente organizado. Nossos novos fatos são que ele parou de chorar, não só comprovando nossa hipótese de que chorava pela desordem, mas também ajudando a comprovar a ideia mais geral de que períodos sensíveis existem e devem ser respeitados.

Se não tivéssemos um registro sistemático do comportamento de nossa criança, poderíamos não ter percebido que a criança chorou justamente no dia seguinte a uma festa de família, quando mudamos a disposição dos móveis da sala, e poderíamos supor que ela estivesse com fome, sono, dor de barriga ou, até, alguma doença que não teve antes. A observação sistemática nos levou ao início de nosso raciocínio. A partir dali, com os conhecimentos e experiências que tínhamos, caminhamos o resto.

Montessori não era, porém, uma cientista de jaleco branco (deixo aqui minha gratidão aos cientistas de jaleco branco que tanto fazem para que a humanidade continue sua incrível jornada). Ela era uma cientista da infância, e disse, uma vez: “De todas as coisas, o amor é a mais potente”, e noutra vez: “Não é suficiente que o professor [adulto] ame a criança. É necessário antes que conheça e ame o universo”. Ela era uma cientista cheia de amor. Assim, foi capaz de investir em um método científico toda a força de vontade e toda a paixão que dedicamos aos nossos amores. Em nossas observações da infância, nunca podemos deixar de olhar a criança com amor profundo e reverente, sejamos nós professores ou pais, e sejam as crianças nossos queridos filhos ou nossos alunos mais difíceis. Sem amor legítimo, sem reverência e humildade, sem paciência e devoção, nada se faz – ainda menos do que se faria com todo o método científico seguido à risca.

Montessori criou a Pedagogia Científica e iniciou a imensa revolução da infância. Uma revolução que precisa ser realizada em cada metro quadrado de Lar, em cada sala de escola, em cada olhar de adulto. Uma revolução que é, em suas fundações, científica e pacífica. Uma revolução que é, acima de tudo, cheia de amor e esperança.


Um comentário sobre “Ciência e Amor: Ingredientes para a Educação da Criança

  1. Excelente Gabriel!

    Seu post me ajudou muito a esclarecer algumas experiências que eu tive como pai durante esses seis meses de criação da nossa primeira filha.

    Desde o seu nascimento, há seis meses, eu venho observado atentamente e criado hipóteses sobre os motivos do choro dela.

    E talvez pela minha falta de conhecimento teórico, acabei naturalmente seguindo uma metodologia mais científica. O que parece um pouco paradoxal.

    Criei uma hipótese intuitiva que a pequena chorava porque tinha sede em conhecer sobre o mundo a sua volta e em desenvolver as suas capacidades. Isso mesmo antes de conhecer sobre a teoria dos períodos sensíveis.

    Com poucas semanas de vida e poucas oportunidades de observação sistemática, eu comprovava essa hipótese intuitiva através de pequenos experimentos que causavam um certo estranhamento nas pessoas, acostumadas a limitar a criança recém nascida às suas fragilidades.

    Experimentos que bem sucedidos tornaram-se em práticas de formação, como por exemplo, segurá-la a maior parte do tempo em pé e com a visão para frente, desde muito pequena, pois percebia que assim ela ficava feliz por poder observar o ambiente e as pessoas no ambiente.

    É importante ressaltar que essas ações não foram motivadas por qualquer teoria, mas pela pura observação, e por hipóteses intuitivas, já que não houve uma observação sistemática e escrita.

    Seguiu-se o experimento de levá-la sempre a observar detalhes de um novo ambiente, como um restaurante ou a casa de um amigo; de cantar músicas em idiomas diversos e produzir diferentes tipos de som com o corpo; de conduzi-la em movimentos corporais, como danças, exercícios abdominais, e pequenos treinamentos acrobáticos; de tocar junto com ela instrumentos musicais e permitir que ela possa experimentá-los; de conversar com ela e com a minha esposa de forma mais expressiva.

    Norteado pelos sorrisos e pelo brilho no seu olhar, e na sua expressão de interesse profundo (“cara de cientista”, como gostamos de chamar), hipóteses foram se confirmando. Outras para nossa tristeza foram se confirmando não benéficas (como tocar percussão com ela que percebemos que além de ensina-la a bater no tambor, aumentou seu grau de agitação). Nem sempre um experimento é bem sucedido, e por isso que a observação constante e atenta é tão importante.

    Espero que estes novos conhecimentos sobre as teorias do desenvolvimento da criança e dos períodos sensíveis não atrapalhem o processo de observação, hipótese e experimentação que é tão único em cada momento e que exige um elevado estado de presença que cria-a-atividade certa no momento oportuno.

    Grande abraço,

    Rafael

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