Reflexões Sobre a Infância Líquida

Em 1949 Maria Montessori escreveu:  O mundo civilizado torna-se um imenso campo de concentração onde todos as pessoas que nascem são relegadas e feitas escravas, diminuídas em seus valores, alienadas em seus impulsos criativos, subtraídas dos estímulos vivificantes que cada pessoa tem direito de encontrar entre os que amam. Para Montessori, na metade do século XX, a humanidade enfrentava uma escravização – em outros termos, era escrava de seu ambiente: “É o ambiente que devora e tritura o homem”.

Outros já o haviam notado à época, já haviam percebido que a educação, como todo o resto da sociedade, era opressora demais, e decidiram por abolir toda forma de limite no ambiente escolar, em experiências pedagógicas interessantes, porém ineficientes. Montessori as avalia assim: “As tentativas da assim dita educação moderna, que procuram simplesmente livrar as crianças das supostas repressões não são o melhor caminho. Deixar o aluno fazer aquilo que quer, diverti-lo com leves ocupações, leva-lo quase a um estado de natureza selvagem não é suficiente”. Tudo isso está em A Formação do Homem.

Cerca de vinte anos antes, outro grande pilar da investigação do humano publicava O Mal-Estar na Civilização. No livro, Freud coloca (e aqui reforço minha sempre presente ignorância sonora acerca da obra completa de Freud) a importância da repressão social, especialmente de ordem moral, sobre o sofrimento humano. Trago os dois exemplos para iniciar uma linha de pensamento. À época, a grande busca dos pensadores era por compreender de que maneiras se podia buscar mais liberdade.

O horror do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália começava a despontar pela época do livro de Freud, e quando da escrita de Montessori, Stalin devastava vidas na União Soviética. O mundo da época havia feito uma opção pela segurança, pela certeza e pela fixidez que havia, por um lado, gerado os regimes totalitários e, por outro, estruturas familiares e escolares extremamente rígidas.

De lá para cá muito mudou. Iniciamos uma incessante busca por liberdade, por mudança, por educações alternativas e por formas de trabalho diferentes. Hoje, uma parte nada desprezível da população global trabalho como nômade, de qualquer lugar, a qualquer momento. Algumas famílias inclusive optam por viver em nomadismo, e cada vez mais se foge daquilo que é fixo ou eterno. Os casamentos (para o bem ou para o mal) são cada vez menos frequentes, e cada vez menos duradouros, mas encontrar um par ou uma companhia para uma noite é cada vez mais fácil. Em nossos tempos, não se aceita bem que se gaste muito dinheiro em bens materiais, mas viajar, sair do lugar, é onde todo o dinheiro pode ir. A Geração Y (que é o nome dado ao grupo populacional do qual eu faço parte) muda de empregos muito rapidamente, e busca oportunidades que não envolvam compromissos de longo prazo… Enfim, nos nossos tempos nós não aceitamos ficar parados, não aceitamos compromissos, não aceitamos não sair do lugar.

Zingmunt Bauman fala sobre isso em seu livro Modernidade Líquida (calma, você não entrou no blog errado, vamos chegar nas crianças no próximo parágrafo). Para ele, na sociedade de hoje nós não mais sofremos pela falta de liberdade, mas pelo excesso dela. Para que possamos ser completamente livres, nos fazemos gradativamente mais solitários. Especialmente quanto aos laços afetivos, ele coloca, separamo-nos de nossos afetos quando “não estamos mais felizes juntos”, em uma velocidade pouco vista antes de nossa época. Substituímos afetos reais por afetos virtuais – mais fáceis de desfazer – e, o mais possível, experiências duradouras por objetos que possam ser trocados quando se tornam tediosos ou duradouros demais.

A criança entra nesse rodamoinho de liberdade desprovida das ferramentas de artificialismo necessárias para lidar com ele. Ela não sabe ter laços que possam ser rapidamente desfeitos, não sabe mudar o tempo todo, não sabe não ter rotina, e não sabe trocar experiências por objetos. Esses são os quatro sofrimentos da criança na modernidade líquida, pelo que eu pude notar até agora. Adicionados de um quinto, um pouco mais grave: o adulto inserido nessa modernidade, desejando ardentemente ser livre, usa das ferramentas que tiver à mão para que a criança não atrapalhe sua liberdade.

1. Laços – Pelo que pude pensar até o momento, isso se dá muito mais na escola que em casa. Exige-se da criança, no ambiente escolar, que rompa relações com uma brutalidade ímpar. Ao final de um ano escolar, uma criança pode ser aprovada ou repetir. Se é aprovada, vai para a sala seguinte com todos os seus colegas, ou quase todos eles, mas é forçada a deixar para trás o professor (ou professora, quase sempre) que admirava ou a quem se afeiçoou. Se é reprovada, talvez continue com a mesma professora, mas deve então abandonar todos os seus colegas. Em um tempo no qual as salas eram conjuntas – como são ainda nas zonas rurais – ou quando as crianças de uma mesma escola moravam bem perto e brincavam juntas, isso era um problema, mas não afetava necessariamente os laços. Hoje, num tempo no qual se vai com frequência da escola para casa e da casa para a escola, ou para ainda outras atividades extraescolares, o rompimento de laços é uma tristeza recorrente. Vale ainda dizer: segundo o Laboratório de Desenvolvimento Infantil de Harvard, ter o mesmo cuidador por mais anos é positivo para o desenvolvimento de algumas funções cruciais no cérebro da criança.

2. Mudança de local – Para nós, adultos, mudar pode ser renovação, pode ser sinônimo de novos ares, de esperança e de oportunidades. Para a criança, mudança é uma coisa só: confusão. Mudar o tempo todo, viajar sem avisar, ou viajar demais, geram confusão na mente da criança. Ela está tentando formar um retrato mental de seu mundo, entender o lugar de cada coisa, o que é adequado e o que não é, como se mover no espaço. Repare que a criança pequena esbarra em muita coisa. Ter a mobília sempre no mesmo lugar é um alívio para quem está aprendendo a se movimentar. Mudar as coisas, que para nós é cada vez mais essencial, é danoso para a criança pequena. De novo aqui, Harvard diz que ambientes estruturados e previsíveis ajudam no bom desenvolvimento cerebral dos pequenos.

3. Rotina – O medo moderno da permanência no mesmo lugar se estende à rotina. Temos medo de fazer tudo igual para sempre, embora inúmeras gerações tenham nos precedido e construído a civilização exatamente assim – repetindo incansavelmente a mesma coisa, e melhorando lentamente. Nosso medo da rotina nos leva a uma flexibilidade considerável, mas leva a criança a uma instabilidade quase total – ao ponto de algumas famílias buscarem escolas para as quais as crianças possam ir só quando necessário, transformando a escola, mais ainda, em um depósito sempre à mão para as crianças. Como nossa liberdade não pode ser travada pelas necessidades dos pequenos, e como as restrições que eles nos colocam são cada vez menos aceitas, ou entram conosco num imprevisível tabuleiro de mudanças ou são relegados a outros cuidadores, que possam fazer tudo sempre igual. A rotina, sabemos, é um dos pilares da construção da personalidade da criança.

4. Coisas – Nossa sociedade trocou, em grande parte, experiências por coisas. Ao extremo de haver hoje, companhias que vendem experiências, em caixinhas mesmo, você compra em livrarias. Mas mais do que isso, nós hoje precisamos ter comprado para ter vivido. Quantas vezes, entre adultos, dizemos que “não fizemos nada” no final de semana, porque não saímos de casa? Não é real. Descansamos, assistimos televisão, cuidamos das crianças, cozinhamos em família… Com as crianças é igual. Colocamo-las em inúmeras atividades diárias, além da escola, que começa cada vez mais cedo, e quando estão em casa damos a elas brinquedos e mais brinquedos, para que não corramos o risco de elas decidirem brincar com as coisas de adulto. Nossas panelas, batatas, roupas, toalhas, caixas em geral que são sempre tão mais interessantes do que os multicoloridos encaixes sonoros de plástico que lhes oferecemos. Precisamos com alguma urgência realizar um esforço intenso e parar um pouco, e valorizar um pouco mais de perto, um pouco mais de verdade, um pouco mais… As experiências em si. O que a criança faz, e não com o que ela faz ou o que é que ela tem.

5. Nossa Liberdade – A liberdade é hoje nosso bem maior e mais precioso. A liberdade de podermos fazer o que quisermos e quando quisermos, e de não precisarmos oferecer explicações de nossas atitudes a nenhum outro membro do corpo social. Uma criança, porém, é um membro do corpo social que, de alguma maneira, sempre nos exige explicações. Se mudamos algo, se estamos ausentes, se a submetemos a ambientes inadequados à sua pouquíssima idade, ela nos exige explicações: chora, tem insônias, fica ansiosa, tensa, triste, agitada. A criança não nos permite um passo em falso sem uma reação. Mas nos perdoa a todos os passos em falso tão rápido quanto pode. Para que não precisemos abrir mão de nossas liberdades, lançamos mão de escolas em período integral, cuidadores, incontáveis atividades extraescolares sob o pretexto de um preparo para um mercado de trabalho que sequer sabemos como estará quando nossas crianças forem adultas, e do qual não sabemos se elas participarão. E lançamos mão de telas eletrônicas em todos os lugares. Uma grande, na sala, uma menor em cada cômodo da casa, e uma portátil, para salas de espera, transportes, aeroportos, encontros com amigos. Nossos aliados são alienantes. Nos permitem nossa intensa liberdade sob pena de uma carga de responsabilidades e stress que infância alguma deveria enfrentar, ou sob a condenação da capacidade de atenção de uma criança pequena, já que sabemos hoje quão mal faz a televisão aos cérebros de nossos pequeninos.

A modernidade líquida vem condenando a criança de uma forma distinta daquela usada pelas fases anteriores da história. Mas agora nós temos algo a nosso favor: temos amplo acesso à informação, e podemos saber o que estamos fazendo. Montessori nos disse, em Mente Absorvente, que suas descobertas e a mudança que propunha seriam uma revolução sem igual, talvez a última revolução, e não deixaria de transformar nenhum aspecto de toda a sociedade. De fato, se enxergamos nas descobertas de Montessori algo acertado, é uma responsabilidade imensa e uma série consideravelmente grande de desafios que precisamos enfrentar. Mas temos a vantagem de poder assistir, dia a dia, o tempo todo, cada um dos pequenos e imensuráveis resultados de nossa mudança de atitude. A criança merece que nós abramos mão de um pouquinho de nossa liberdade, e ela merece ser preservada do mal-estar inerente à modernidade líquida, tanto quanto possível. Ela nos mostrará a recompensa de nossos esforços de várias formas. Algumas imediatas e mais perceptíveis talvez sejam sua respiração tranquila, seu rosto sorridente e seu olhar, genuinamente feliz.


3 comentários sobre “Reflexões Sobre a Infância Líquida

  1. Obrigada, Gabriel. Bauman é uma ótima referência para nós. Precisamos pensar mais sobre nossa escolhas, ações e atitudes que não fortalecem, mas servem para distrair a nossa atenção das necessidades das crianças. PG

    1. Paige, puxa, que honra! Obrigado pelo comentário e pela visita. Quero definir uma agenda de publicações para o blog do CEMSP no segundo semestre, e Bauman estará entre elas, com certeza! Obrigado!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s