Paz VI: Esperança e Fé

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Há crianças para quem Montessori parece encaixar-se como uma luva. A criança vem em uma direção, caminhando tranquila, sorridente e em silêncio. Na outra direção vem Montessori, nobre, silenciosa, encantadora. As duas se abraçam e caminham juntas a partir de então, em uma vida de concentração, trabalho, empenho contínuo e alegria sublime. Este texto não é sobre essas crianças. Este texto é sobre as outras.

Este texto é sobre aquelas que, ao avistarem Montessori longe à frente, param estagnadas, em susto, medo, dor e desespero. É sobre aquelas que arregalam seus olhos, gritam e se jogam no chão rindo escandalosamente. É sobre aquelas que começam a brincar com seres inexistentes e a fazer seres de fantasia a partir das pedras do chão. É sobre aquelas que correm, abraçam Montessori e depois puxam-na pela mão, querendo que derrube todos os objetos, quebre todos os pratos, empurre todos os colegas, em infinita e temível liberdade. É, finalmente, sobre aquelas que se recolhem, temendo o olhar firme, a mão refinada, as palavras diretas e simples. É sobre aquelas que se rodeiam de um fosso cheio de perigos e, enquanto impedem Montessori de entrar, proíbem a si mesmas de sair.

Este texto é sobre aquelas crianças acerca de quem, em um momento de desespero, dizemos: “Acho que Montessori não serve para ela” ou, em um desespero e desamparo ainda maior: “Acho que ela não serve para Montessori”.

Essas crianças existem. Montessori encontrou algumas delas ao longo da vida – várias. E muitas entre as classes mais abastadas. Montessori comentou sobre essas crianças em capítulos pelo meio do livro A Criança. E nós, famílias, educadores, cuidadores, profissionais da infância, encontramos essas crianças em nosso caminho. Elas desafiam nossas suposições, nosso conhecimento, nossa competência. Essas crianças nos fazem duvidar de nós.

O professor que era tradicional e optou por tentar Montessori, em um gesto de imensa coragem e ousadia, ao encontrar a criança que chuta o material apresentado pensa que quem sabe falte a este método a possibilidade de colocar limites… as crianças precisam de limites. O pai ou a mãe que foram criados com castigos, prêmios e imposições também sussurram para si, ou para quem confiam, que o quarto montessoriano funcionou muito bem, mas que Montessori precisa ser adaptado às crianças de nosso tempo, e precisa de alguns ajustes para o mundo de hoje.

Ainda mais difícil é o que acontece com a criança que, diante de todo material, recua. Com aquela que não deseja ouvir uma história, cantar uma música, participar de uma caminhada no jardim, trabalhar com um colega ou alimentar os animais da sala. Esta é silenciosa, fica a olhar a sala sem destino, e pode passar desapercebida ao professor. Para os pais, passa como um filho tranquilo, obediente. Mas ele não deseja fazer nenhuma daquelas coisas que se sugere em Montessori para casa. Só fica em seu canto, e só o que parece tomar sua atenção é a televisão… e então se vê televisão. Não é Montessori, mas, pensa o adulto, pensamos nós, mas Montessori não tem que ser igual para todo mundo.

A primeira criança é castigada. A segunda, ignorada ou esquecida. A primeira criança é reprimida, a segunda pode ser superestimulada ou deixada de lado. As duas correm um risco em comum: serem deixadas às margens de Montessori. Utiliza-se com elas os materiais todos, mas se abre mão da busca pelo Equilíbrio Natural da Criança. Nós lembramos que a criança deve aprender. Mas esquecemos de que ela pode e deve ser feliz. Lembramos de educar suas mãos para que ela escreva – antes de ler! -, mas nos esquecemos de ajudar a fazer brotar a sua concentração. E aí começam os nossos erros.

Educar as mãos humanas, fazer com que se aprenda um conteúdo, incutir uma habilidade, isso não precisa de Montessori para acontecer. A escola comum ensina a escrever. A família comum ensina a tomar banho e a comer. A escola comum ensina as cores. A família comum ensina a não bater a porta e a escovar os dentes. Nós não precisamos de Montessori para que os aprendizados ocorram e as habilidades sejam adquiridas. Nós precisamos de Montessori para o milagre científico do desenvolvimento fabuloso do cérebro humano. Precisamos de Montessori para a concentração, a alegria, o amor ao trabalho e ao silêncio, a autonomia. Precisamos de Montessori para a independência e a vida.

Mas isso é fácil de esquecer. É fácil esquecer que Montessori não é um conjunto de brincadeiras para deixar o filho ocupado. Que não é uma moda gourmet de decoração infantil. É fácil esquecer que Montessori não é o método da moda, que não é um cult. É fácil esquecer que Maria Montessori não é uma dessas personalidades que surgem para abalar os debates sobre educação e depois sumir em segurança, deixando tudo intocado. É fácil esquecer que Montessori não desenvolveu o método Montessori, mas a Pedagogia Científica, o Método de Ajuda à Vida. É fácil esquecer que o objetivo de Montessori era salvar a humanidade, que era um mundo novo, cheio de milagres e que, sobre os milagres, ela dizia que as crianças sabem fazê-los bem.

Montessori exige de nós, especialmente com as crianças que se fecham ou fogem, esperança e fé. É necessário crer profundamente, em todos os recantos de nossos corações inconscientes, que a criança irá se revelar por meio do trabalho com as mãos. É necessário esperar pacientemente, cheio de energia e vida, cheio de atenção no olhar, pelo momento em que uma criança e um trabalho falarão um com o outro, e o mundo ganhará mais uma peça no lugar certo. Isso, entretanto, não significa esperar inerte. Significa esperar agindo, ajudando, observando, dando distância.

Nós muitas vezes desejamos que as crianças se apaixonem pelos trabalhos disponíveis em nossa sala de aula na mesma sequência em que gostaríamos de apresentá-los. Seria magnífico, quase coreográfico. Mas não é sempre assim. É necessário ter flexibilidade. Acreditar na criança. Ter fé. É necessário lembrar que podemos estar errados sobre um interesse, um período sensível, uma capacidade já (ou ainda não) adquirida. E quando percebemos nosso erro é necessário ter esperança. Esperança de que seguindo a criança poderemos acertar da próxima vez.

Nós temos obrigação de conhecer os planos do desenvolvimento. De saber pelo menos os principais períodos sensíveis. Nos cabe, se queremos Montessori, conhecer as características que um trabalho deve ter para ser digno de nossas crianças. Precisamos saber pelo menos os princípios mais gerais da preparação de um ambiente. É necessário que conheçamos as propriedades da mente infantil e seu estado de graça, o Equilíbrio. Mas isso não basta.

Quando colocamos tudo para funcionar, quando damos o primeiro impulso na teia de relações entre todos os fatores do método Montessori, precisamos alimentar essas engrenagens com esperança e fé. Precisamos crer que, demorando mais, ou demorando menos, a criança surgirá. Que em um ambiente realmente preparado, com trabalhos realmente adequados, em algum momento a criança abraçará Montessori. Em algum momento elas caminharão juntas.

Talvez não para sempre. Talvez haja uma nova discussão, uma nova briga. Talvez aquela criança que demorou sete meses para se concentrar verdadeiramente, por vinte, trinta, quarenta e cinco minutos, sem desviar seu foco, recusando outros estímulos ou interferências externas, talvez aquela criança que depois de um semestre letivo finalmente entrou no caminho do Equilíbrio, talvez ela fraqueje. Especialmente se seu contexto extra-escolar dificultar demais as coisas. Especialmente se, ao contrário da casa, a escola não é Montessori. É nosso trabalho acreditar de novo. Nós não a perdemos para sempre. Nós não a perdemos. Ela só saiu um pouquinho do caminho da alegria, do bem estar, da tranquilidade. Mas ela vai voltar, por vontade.

Não nos cabe chamá-la. Montessori é concentração. E ninguém se concentra porque assim foi mandado. Só é possível se concentrar por vontade. Só é possível retornar ao caminho da felicidade por decisão interior. Nosso trabalho é crer e esperar. Fazer tudo a nosso alcance e então crer e esperar.

Algumas crianças nos desafiam. Desafiam nossa fé. Desafiam nossa esperança. Algumas crianças desafiam tudo o que sabemos. E elas são especiais. São essas crianças que nos farão dar mais um passo, ir um pouco mais longe. São essas crianças que nos obrigarão a saltar uma fenda em pedra mais larga que nossas pernas. São essas que nos farão correr o risco de cair, de desmontar, de falhar sonoramente. Essas crianças são aquelas que nos darão o impulso necessário para tentar algo que jamais tentaríamos antes. São essas que nos farão olhar para Montessori, para seus livros, para nossos treinadores e, gritando com os olhos, silenciar enquanto dizemos: vocês estão todos errados! Montessori não é para todas as crianças.

São essas crianças que nos farão crer que Montessori é para todo mundo. Para cada um. Sem exceção nenhuma. São essas crianças que nos empurrarão até o limite de nossa resistência e nos farão lembrar das palavras da mulher de Calcutá: amando até doer, descobrimos que em um momento não pode haver mais dor – só mais amor. Confiando até o limite, crendo até além de nossas capacidades, descobrimos em um momento que não há mais opção senão acreditar. Senão aperfeiçoar o que sabemos e fazemos de Montessori, acreditar e esperar.

Então, um dia, descobriremos impressionados, incrédulos, cansados, que aquela criança se concentrou. Que ela aceitou saltar a fenda conosco. E que ela chegou do outro lado. Olharemos para todos os livros, para Montessori, para nossos treinadores, com a garganta em um nó de vergonha. Eles estavam certos. Montessori serve para cada uma. Para todas. E nós descobriremos que assim é porque o objetivo de Montessori não é que se aprenda mais e melhor. O objetivo de Montessori é ajudar a vida. E onde há vida, pode haver ajuda. Onde a vida brota, pode haver Montessori.

Este texto foi integralmente baseado em crianças reais. Cada frase, exemplo, metáfora e exagero retrata um caso específico de criança presenciado pelo autor. Os números relativos ao tempo de concentração e a atitude das crianças também foram observados de verdade. Algumas dessas crianças exigem esperança e fé ainda hoje. Outras são bálsamos que garantem: se deu certo com elas, pode dar certo com todas as outras.


10 comentários sobre “Paz VI: Esperança e Fé

  1. Sabe Gabriel, esse texto é tão verdadeiro, que remete à minha própria história em uma análise pessoal. Eu como criança, aprendiz de Montessori, tenho as emoções acima de tudo, a necessidade de proximidade e de presença a todo instante. A concetração nem sempre em apenas uma tarefa e o silêncio… ah, vc sabe quantas palavras por minuto eu falo quando estamos próximos.

    Mas Montessori é para todos, e eu pude me apaixonar por esse método, por tudo que ele trouxe para minha vida e pela compreensão da criança, e de uma em especial para mim, meu filho.

    Eu sempre vou ter muito a agradecer à você meu amigo, que considero irmão e professor ao mesmo tempo, por ter toda paciência com as efusivas reações, com o não saber o que fazer e com as discordâncias por conta de fatos pontuais.

    Obrigada por responder muitas das perguntas que fiz a você com um só texto. Obrigada por relembrar os motivos da minha paixão por esse método e me dizer, entre uma linha e outras que meus novos caminhos são o rumo certo.

    Obrigada Gabriel Salomão​, obrigada Montessori.

  2. Fico muito intrigada com o fato das pessoas não compreenderem a simplicidade das coisas, apegam-se a marcas e não a emoções. É difícil até bater um papo profundo sobre filhos.
    Estou grávida pela terceira vez e as pessoas me olham na cidade grande como se eu fosse maluca. Não importa se quero ter uma família grande, ensiná-los o que aprendi, amor, respeito, humildade e tantos outros valores importantes para sermos felizes. Eles faltam sacar o celular e fazer as contas de quanto custam 1 filho (incluindo pagar um cuidador 24 horas ou nos dias de folga).
    Não quero julgar ninguém sei que cada pessoa tem as suas lamúrias, isso é apenas um desabafo de uma mãe que saiu do interior e veio para a cidade grande … Jaqueline Sicupira, 36 anos, Mãe de 2 e grávida de 21 semanas; bióloga, mestre em Ciências Florestais

  3. O Método Montessoriano de educação infantil é Fenomenal. Tenho orgulho e prazer do meu filho(desde os 3 anos, hj com 7) estudar em uma escola Montessoriana, escola a qual incentiva a potencialidade da criança, respeita seus limites e estimula o seu desenvolvimento de maneira particular e único. Forma indivíduos para toda a vida com um alto grau de humanidade e respeito pelo próximo. Educação regada com muito amor e carinho e estímulo a independência. Métodos incríveis de aprendizado, como o material dourado e etc, facilitador do aprendizado. Uma escola(Colégio Maria Montessori- Maceió-AL) a qual você se sente em casa e seguro em deixar os nossos maiores tesouros… nossas crianças.

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