Maria Montessori: Feminista

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Montessori era feminista. A mãe de Montessori era feminista e ela cresceu em um lar no qual seu poder, suas capacidades e sua força eram respeitados e apoiados. Isso, ao longo da vida de Montessori, fez toda a diferença. Foi a mãe que a apoiou quando decidiu fazer curso técnico em Engenharia. Foi a mãe quem a apoiou quando decidiu por Medicina no curso superior – em uma época na qual isso era inadmissível para uma mulher. Foi a mãe que deu a ela suporte emocional ao longo de tragédias pessoais e durante os momentos em que enfrentou duras pressões sociais impostas a todas as mulheres. O pai era um homem bom e honesto, que nunca atrapalhou os planos de Montessori, um homem com a mente avançada para sua época, e que compreendia os pontos de vista de sua esposa e a força intelectual de sua filha.

Ao longo de sua graduação e depois, Montessori participou de congressos feministas, escreveu e falou em defesa da mulher, de suas condições de trabalho, da exploração a que era submetida. Eu, sendo homem, não me alongarei tentando refletir sobre isso. Entendo que não me caiba. Quero tentar, neste texto, deixar Montessori falar.

Em 1896 – Sobre a mulher pobre, que segundo a lei da Itália na época, deveria trabalhar quando o marido não mais tivesse força física para fazê-lo, Montessori expõe sua interpretação: “Você deve servir para meus prazeres enquanto eu puder ganhar a vida e trabalhar para mim quando eu não puder mais”. (POVELL, p.37).

“[A mulher] trabalha como um homem e em seguida suas responsabilidades domésticas não deixam de existir. Em vez do descanso, que seu marido tem depois do trabalho, tarefas domésticas a esperam e geralmente com uma criança sob seu coração ou em seu seio. Se o homem procura diversão no álcool, a mulher se torna aquele que recebe sua brutalidade e da bebedeira. Com frequência também ele prefere compartilhar seus ganhos com uma mulher menos carregada, em lugar de com a sua [esposa] cercada de crianças; por um sorriso ele priva os seus de um pedaço de pão”. (apud POVELL, pp.37-8).

Em 1899 – “As mulheres elas mesmas devem entrar nos ramos da ciência positiva [exatas e biológicas], devem argumentar com seus cérebros, e não seus corações. Mulheres… devem confrontar os homens, debater com eles, trabalhar ao seu lado, se juntar a eles na descoberta da verdade”

Montessori era excelente quando falava em público. Animava magistralmente milhares de pessoas de uma vez, com palestras que fazia sem anotações – ela levava blocos de papel em branco para o palanque ou a mesa, porque era educado que se tivesse sempre papéis à mão ao falar. Mas ao pedido de um jornalista para que os mostrasse, disse que estavam todos em branco, e em branco os mostrou. Era sempre assim.

Com sucessivas aparições na mídia nas quais sua fotografia era seguida por legendas como “A Bela Acadêmica” (KRAMER, p.79), Montessori decidiu afastar-se da mídia. Em carta de 1896 aos seus pais (Association Montessori Internationale, 1970, p.14 e POVELL, p.39), disse:

“Vejo que muitos jornais falam de mim. […] Falam bem de mim – e mal. Isso não importa. Farei de tudo para ser esquecida! Minha fotografia nunca mais aparecerá em jornais e ninguém ousará poetizar novamente minha suposta beleza. Vou trabalhar seriamente!”

Anos depois, no início de sua primeira grande obra escrita, Pedagogia Científica, incluiu o discurso que proferiu quando da inauguração das Casas das Crianças em Roma. Um trecho segue:

“E que seja lembrado que todas as mães do conjunto poderão aproveitar este privilégio, indo para seus trabalhos de mente tranquila. Até o presente, somente uma classe social podia contar com esta vantagem. Mulheres ricas podiam ir para suas ocupações e divertimentos, deixando suas crianças nas mãos de uma enfermeira ou governanta. Hoje em dia a mulher do povo, que vive nessas casas reconstruídas, pode dizer como a grande dama, “Deixei meu filho com a governanta ou a enfermeira”. Mais que isso, ela pode adicionar, como a princesa de sangue, “E o médico da casa os assiste e apoia seu crescimento são e forte”. Essas mulheres, como as classes mais avançadas das mães americanas e inglesas, possuem uma “Tabela Biográfica”, que, preenchida para a mãe pela diretora ou o médico, dá a ela o conhecimento mais prático do crescimento e das condições de sua criança.

“Estamos, então, tornando comunitária a “função maternal”, um dever materno, na Casa. Podemos ver nesse ato a solução de muitos dos problemas das mulheres que pareciam sem solução. O que acontecerá com a casa, se pergunta então, se a mulher sair dela? A casa se transformará e assumirá as funções da mulher.

“Eu acredito que na sociedade do futuro outras formas de vida comunitária virão.” – do Discurso Inaugural na ocasião da abertura das Casas das Crianças.

Em seu capítulo sobre Independência, no mesmo livro, lemos:

“…os homens trabalham não só para si mesmos, mas para as mulheres. E as mulheres desperdiçam sua força natural e sua atividade e definham em escravidão. Ela não é só mantida e servida, ela é, além disso, diminuída, menosprezada, naquela individualidade que lhe pertence por direito de nascimento como ser humano. Como membro individual da sociedade, ela é um zero. Ela é tornada deficiente em todos aqueles poderes e recursos que tendem à preservação da vida.”

Montessori viveu uma vida de transgressões. Ela viveu uma vida pisando em terrenos não-autorizados. Engenheira, Médica, Psiquiatra. Educadora de crianças “ineducáveis”, viajante em época de guerra, pacifista em época de guerra. Rebelde face a governos totalitários. Cientista de altíssima categoria adiantando, em pelo menos meio século, descobertas da Psicologia Cognitiva e da Neurociência modernas. Montessori fez de sua vida uma revolução de oitenta anos. Ela abriu caminho para outras médicas, outras educadoras, mães e mulheres que desejavam alçar voos amplos e encontraram nela exemplo e suporte. Ela não morou em lugar nenhum, dizia que sua pátria eram as estrelas. Montessori mudou o mundo. Ela não resolveu todos os problemas da Terra, mas junto com as mulheres que a precederam e ladrilhando o caminho das que vieram depois, Montessori foi uma feminista (e se a mim coubesse dizer, eu diria, de primeira grandeza), Montessori lutou pela criança sem esquecer a mulher.

Nesse Dia da Mulher, eu, como homem, talvez tenha muito pouco a dizer. Mas a História, e Maria Montessori na História, têm muito. Eu espero ter permitido a ela discursar por breves instantes em um palanque de nossas imaginações, nos animando para a longa luta da igualdade e do fim dos preconceitos contra a criança e contra a mulher.

As referências deste texto são:

ASSOCIATION MONTESSORI INTERNATIONALE. Maria Montessori: A Centenary Anthology. Amsterdam,AMI, 1970

KRAMER, R. – Maria Montessori: A Biography. Chicago, University of Chicago Press, 1988.

MONTESSORI, M. – The Montessori Method: Scientific Pedagogy as Applied to Child Education in the “Children’s Houses”. New York, Frederick A. Stokes Company, 1912.

POVELL, P. – Montessori Comes to America: The Leadership of Maria Montessori and Nancy McCormick Rambusch. Maryland, University Press of America, 2010.


14 comentários sobre “Maria Montessori: Feminista

  1. Excelente. Montessori realmente cumpriu um papel de protagonista que muito se visiona hoje, e em época tão conturbada. É estimulante.

  2. A análise profunda e séria típica de Maria Montessori é de impressionante atualidade. Como não pasmar diante de tamanha genialidade? Seu legado aparentemente fácil é de tamanha complexidade que poucos ainda hoje, ainda que tentem, conseguem de fato compreender o âmago de suas ideias. Sempre será uma mulher da qual todos os seres, mulheres ou não, podem se orgulhar e se inspirar para melhorarem as suas ações. Mas a Dra. Montessori surpreendentemente nem gostava de receber louros e dizia que deveríamos voltar o nosso olhar para onde ela aponta, o que indicava e não para ela. Coisas de pessoas admiráveis!

    Parabéns às mulheres!

    Obrigado Gabriel por mais essa oportuna reflexão,

    um forte abraço.

  3. texto lindo e que noa mostra o quão montessori tinha visão e acima de tudo que nos faz enxergar nos em cada palavra, o quanto ela nos encoraja com cada palavra. ..
    o quanto mais leio sobre montessori mais me apaixono e assim vou tentando me tornar uma maetessori

  4. Obrigada por partilhar, Gabriel. Recomendo a todos a leitura do livro The Mother and the Child, de Montessori. … infelizmente só tem em inglês, mas é maravilhoso e tem tudo a ver com seu texto. … abraços

  5. De pensar que hoje temos voz, liberdade e “respeito da sociedade”, ainda com tantos preconceitos de todos os tipos, mas mulheres como esta, Maria Montessori, nos orgulham e nos fazem imaginar por quantos e quantos séculos a mulher foi considerada incapaz e sem nenhum direito perante as leis da humanidade.

  6. Grande Maria, grande Mestra, sua história permanece conosco, suas seguidoras. Acreditando numa formação integral para um homem novo

  7. Não temos nem palavras para exaltar, o trabalho desenvolvido por montissori
    Simplesmente magnifica ,exelente Dr., cientista, pedagoga disposta para defender a causa das crinças e mulheres. Malssacradas.

  8. Gabriel, devido a minha falta de tempo, so hj consegui ler esse belíssimo texto! E tenha a certeza que Montessori falou, por seu intermédio, mas mentes daqueles que leram! Obrigada por tanta dedicação! Por através das palavra dela nos ensinar tantas coisas! Parabéns!

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