Montessori: A Luta e a Graça

Todos os dias, em quase todos os países, pessoas buscam Montessori. Pessoas tentam fazer Montessori. Nós, as pessoas, tentamos construir Montessori. E todos os dias, em todos os países, os hábitos, os governos, as corporações e as crenças vão na direção contrária à das nossas buscas e tentativas. Nós queremos acreditar em Montessori e queremos fazer Montessori, mas todos os dias é necessário nadar contra quarenta correntezas se queremos trazer Montessori para nossos atos, para nossa realidade. Isso transforma fazer Montessori em uma Luta.

Todos nós sentimos essa luta. Ela está nas nossas peles, nos movimentos dos nossos músculos, nos nossos olhares. O tempo todo em nossas respirações e nossos corpos. Para muitos de nós ela está em nosso sono e em nosso olhar no espelho. Essa luta faz parte de nosso dia a dia quando queremos, em um restaurante, permitir que nossas crianças comam sozinhas, com pratos e copos de verdade, e talheres de metal… Enquanto o restaurante parece montar uma força tarefa de boa vontade para ajudar-nos a fazer a criança comer em pratos de plástico estampados, copos coloridos, e devorar um menu todo feito de comidas salgadas demais ou doces demais, enquanto nós tentamos que ela aproveite a comida de verdade, aquela comida pelos adultos.

Sentimos a luta de Montessori quando não percebemos assento nos ônibus para nossas crianças, e quando não há um vaso sanitário, um mictório, uma pia ou um secador de mãos adaptados no banheiro, e sentimos quando temos casas e apartamentos pequenos demais, longe demais, para que nossas crianças possam ter áreas grandes e abertas. Sentimos quando as escolas têm métodos apostilados comprovadamente eficientes e não tem um metro quadrado de área verde, ou têm e não usam, porque há de se ficar em dia com o planejamento, e intervalos longos nem sempre são possíveis. Sentimos a luta de Montessori em cada olhar quando permitimos que nossas crianças se esforcem, tentem e falhem em público, e quando, em particular, pensamos muito seriamente se isso que estamos fazendo está mesmo certo. Afinal, faz sentido, mas é tão contrário a tudo – e a todos.

Há um outro lado, porém, para Montessori. Um lado que não é de luta, que não é de esforço contínuo e cansativo, e que não é de contrariar e discutir. Há um lado outro que é de perceber luz, brilho e florescer. Há um aspecto que é de descoberta contínua, de desabrochar constante, de desenvolvimento pleno, de alegria, de contentamento, de Paz. Esse é o lado da Graça.

Nós percebemos a graça quando nossos filhos e nossos alunos, nossas crianças todas, não nos pedem para beber água e levantam sozinhas de suas camas, fazem-no e retornam, tranquilas. Percebemos a graça quando vemos nossas crianças tentarem comer com os talheres de verdade e não conseguirem por repetidas vezes, até que de repente conseguem, e comem com mais prazer do que poderiam comer qualquer garfada dada por mãos adultas. Nós notamos a graça quando percebemos que nossas crianças comem melhor, dormem melhor e vivem com mais alegria quando caminham em direção à sua independência e, mais tarde, à sua autonomia.

A graça se faz notar quando transparece no brilho dos olhos de nossos alunos e nossos filhos no instante em que eles se abaixam na calçada ou no parque para observar uma formiga, uma folha, uma lagarta ou um graveto. Ela aparece para nós quando, apesar de tudo, eles dão um jeito de viver e nós notamos que nossos esforços fizeram diferença. Quando suspiramos gratos porque conseguimos entender os movimentos, as tentativas, as caminhadas, as buscas dos pequenos. Quando fazemos uma mudança nos ambientes de nossas casas e o fascínio deles nos mostra que acertamos, quando falamos baixo, devagar, e o comportamento deles nos mostra o quanto isso está correto.

De repente, hora ou outra, percebemos que estamos fazendo aquilo porque aquilo nos fez, aquilo nos construiu, aquilo passou a nos ser. Nós somos. E aí fazer diferente não faz o menor sentido. E nós até podemos entender melhor quem faz diferente, porque agora que aquilo nos é, nós não precisamos pensar tanto no fazer, e podemos entender quem é de um jeito diferente. Embora a gente creia com muita certeza e saiba, porque estudamos, que há coisas boas e ruins para a criança, agora podemos conversar em paz. Porque não estamos mais fazendo Montessori. Agora, estamos sendo.

O estado de graça de Montessori chega em nossas vidas quando damos o salto entre fazer Montessori e ser Montessori. Não é algo que possamos fazer muito rápido. Não é uma mudança realmente automática, e ela exige de nós esforço para acontecer. É preciso fazer Montessori com bastante frequência e por bastante tempo para podermos contar com o futuro certo de que aquilo passará a fazer parte de nós.

Não há milagre, na verdade. O que acontece é que quando insistimos por bastante tempo em uma forma de pensar e agir, os nosso cérebros mudam algumas ligações (elas se chamam sinapses) e quando essas sinapses estão alteradas com coerência e por algum tempo, nossas personalidades mudam – todo o nosso cérebro se adequa a conhecimento novos, a novos hábitos e a novas formas de agir. Aí, de repente, nós nos damos conta de que somos o que fizemos, e que fazemos agora aquilo em que nos tornamos. A coerência atingida é que nos permite fluidez e sossego. Nos permite a tranquilidade de sentir se aquilo está certo. Não é obediência aos instintos – nós, culturalmente, os perdemos quase todos. É obediência inconsciente a uma nova gama de atos automáticos de pensamento, e nós podemos sentir se está certo, porque dentro de nós temos tudo delineado com clareza.

O estado de graça de Montessori é quando Montessori acontece mais. E não é possível passar a vida no estado de luta. A luta cansa, exaure, exige mais do que podemos dar. A luta pede de nós tentáculos argumentativos e uma biblioteca de conhecimentos. A luta nos coloca no lugar difícil do soldado, do guerreiro, do explorador, daquele que busca, constrói e faz. A graça nos coloca no lugar pacífico do monge, do amante, do admirador. A luta e a graça se alternam em Montessori, há momentos de luta na graça, e momentos de graça na luta. Mas uma delas se faz predominante em momentos diferentes de nossas vidas.

O estado de graça tem um momento para surgir, o ponto da virada. Ele aparece quando nos conscientizamos de nossa própria suficiência. Quando, sem deixar por um instante de tentar melhorar e superar a nós mesmos, nós nos damos conta de nossa suficiência, de nosso merecimento. Quando sossegamos dentro de nós, sossegamos fora de nós. A graça percebe, sabe que é então bem vinda, e devagarzinho, ela chega.