Montessori Exige de Nós um Posicionamento Frente ao Mundo?

“… ‘Como vou me manter?’ é a pergunta que todos se fazem, neste mundo maravilhoso, cheio de recursos e de novas formas de viver. Muitos estariam prontos a sacrificar tudo para se livrar dessa angústia, que se assemelha em muito com a ansiedade dos pacientes que sofrem da neuroses patológicas. […]

Observem, então, o que acontece com o tipo de educação dada pelos pais e professores. Eles dizem à criança: ‘Vamos, você tem de se concentrar em seus estudos! Você tem de obter um diploma! Você tem de conseguir este ou aquele emprego! De outra forma, como você viverá?’ Pais e professores de hoje esquecem de dizer as palavras que foram a pedra de toque da educação: ‘Todos os homens são irmãos'”. – Maria Montessori, A Educação e a Paz, Cap. 5.

Tive, então, uma visão […] de uma criança de pé, de braços abertos, convidando a humanidade a segui-la.” – Idem, Cap. 15.

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Montessori exige de nós um posicionamento frente ao mundo. Um posicionamento difícil, mais desafiador que os outros todos, eu sinto. E este texto não termina o raciocínio que começa. Ele começa e convida você a pensar conosco, a refletir também, a levar a reflexão a outros – especialmente outros que possam ajudar, mais do que destruir, aquilo que você já foi capaz de compreender. Nós vamos só começar.

Montessori, o método, a forma de viver, a forma de criar, a forma de educar e ajudar a vida, exige de nós uma forma de agir na Terra. Um jeito de debater, um foco para as questões da humanidade, e uma escolha de caminhos a seguir com as ações que levamos a cabo em nossa vida diária. O caminho não parece muito exato, mas talvez possamos entrever algumas coisas.

Primeiro, Montessori defende a interdependência de todos os seres. Todos mesmo. Ela nos lembra de que a forma da Terra hoje é um resultado da ação da vida sobre o relevo, e que o humano é parte da vida e tem um papel fundamental no equilíbrio do todo. Nesse sentido, nos traz à memória o papel que o humano parece desempenhar no mundo: ele busca melhorar a Natureza. Muitas vezes, necessário dizer, com sucesso. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que uma pessoa pudesse morrer por doenças banais e que podem ser prevenidas ou tratadas. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que um membro ferido de família estivesse fadado à morte certa. Nenhum de nós – ou só algumas exceções bastante pontuais – gostaria de voltar para o tempo em que qualquer alimento só poderia ser conseguido por caça e coleta. Nós progredimos, e progredimos bastante, e progredimos positivamente, em nosso trabalho de modificar e melhorar a Natureza. Nós, infelizmente, também modificamos e pioramos a Natureza, mas isso se explica por um outro caminho humano.

Nós por algum motivo desenvolvemos em nós a insaciedade eterna. O humano quer mais, e mais. E não quer dividir. E se recusa a reconhecer que tudo o que lhe pertence também ao outro, porque no fim de qualquer raciocínio, a Natureza produz sem exigir nada em troca, e então todos nós temos exatamente o mesmo direito sobre todas as coisas. Mas o medo profundo de que não haja o suficiente, o medo incutido de que não haja o suficiente, nos leva a lutar por um excesso absolutamente desnecessário.

Também em A Educação e a Paz Montessori defende o ensino de métodos de análise sociológica e econômica para o adolescente, para prevenir o que ele chama de sentir-se um grão de areia em um imenso deserto que não pode ser compreendido. O adulto que pode analise o meio humano, social, econômico, que pode compreender as condições materiais de existência em que se encontra, encontra-se menos órfão, menos perdido, e menos desesperado.

Sobretudo, no entanto, em nosso avanço material esquecemos quase completamente de nosso trabalho interior a ser realizado. Só hoje aos poucos retornamos a pensar sobre o trabalho que precisa ser desenvolvido do humano para dentro, e não tanto do humano para fora. As revoluções, as leis, os decretos, as inúmeras tentativas de progresso baseadas nos meios exteriores ao humano são de total validade. São fundamentais, têm sua importância e precisam ser reconhecidas. É necessária a luta constante por melhores condições de trabalho, salários dignos, e não de sobrevivência, igualdade de gêneros, igualdade de raças, fim das condições de vida degradantes e da humilhação social de grupos humanos imensos. É necessário que haja leis para proteger mulheres, negros, gêneros não-heterossexuais, e para proteger o pobre – uma das grandes faltas da atualidade é a microluta (no sentido da microfísica, e não em qualquer sentido pejorativo) para a proteção de grupos específicos e o esquecimento (proposital?) de que uma imensa parcela do mundo ainda é pobre e ainda é miserável, e de que essa parcela precisa ser protegida, amparada e ajudada.

Ainda assim, entretanto, esquecemos o que está dentro do humano. Nós esquecemos de que há, dentro de nós, potencial infinito. Nós – como pudemos? – esquecemos de que o humano não vem pronto e predestinado, como as lagartas, os golfinhos e as cianobactérias. Nós nos esquecemos de que podemos fazer qualquer coisa. Esquecemos de que somos capazes de tudo. E nós nos esquecemos, embora todas as religiões tenham repetido, que os lírios do campo não trabalham nem fiam, mas se vestem melhor do que nossos maiores CEOs, as majestades da contemporaneidade. Nós ainda não conseguimos nos lembrar de que é possível salvar a humanidade. E de que, como só nós podemos fazer isso, é essa nossa maior responsabilidade, ela é coletiva, e é necessário que todos tomemos parte no progresso interior do humano.

Para caminharmos na direção do infinito, precisamos de um rumo, e não de um objetivo. Não nos cabe procurar um objetivo. Nós não conhecemos o melhor possível para toda a humanidade. Mas nós sabemos que há algo essencial para que o melhor do humano possa brotar. E o essencial é o respeito profundo, feito de conhecimento, amor e reverência, à majestade da criança. A criança como construtora da humanidade, a criança como mãe do adulto.

Assim, parece-nos, devemos buscar tudo aquilo que propicie à criança a melhor condição de vida, de desenvolvimento, de liberdade e de progresso no mundo. Somos a favor de tudo o que ajudar a caminhada nesta direção, e somos contra tudo aquilo o que de alguma forma atrapalhar. Somos a favor de parques e praças, e somos contra o tratamento violento dispensado a crianças e adolescentes. Somos a favor de refeições saudáveis, e somos contra o movimento industrial que impõe pela autoridade médica a famílias e escolas o consumo de produtos alimentícios desnecessários e prejudiciais. Somos a favor de professores que possam viver, dormir, estudar e criar(em-se), para que possam ser melhores professores, e somos contra a destruição progressiva do sistema escolar por sistemas apostilados e provas sistematizadas. Somos a favor de licenças maternidade e paternidade que permitam o convívio dos pais com seus filhos, e contra qualquer desigualdade de gênero, cor ou classe econômica que force o adulto a ser incapaz de dar à sua criança a vida que ela merece ter. Somos a favor de uma comunhão internacional para reconhecer, finalmente, que as crianças são criadoras da humanidade inteira, e não só de seus próprios pais, sua própria religião ou seu próprio país, e que então a criança é cidadã universal e é papel de todo o planeta garantir a qualidade de vida da criança pequena, e não só papel de seus pais, sua escola ou seu governo. Somos contra as fronteiras, a guerra e a política de exclusão internacional.

Somos, por fim, a favor de uma paz que ainda não existe, e que não sabemos como se comportará quando existir. Mas somos a favor da busca por essa paz, uma paz que somente nascerá de gerações vindouras que, respeitadas na geração de seus primeiros pensamentos, movimentos e vontades, for capaz de construir um mundo novo, cheio de milagres.

Este texto foi escrito com base em todo o livro A Educação e a Paz. Também, foi escrito ao som de Imagine, de John Lennon, e qualquer intertexto não é mera coincidência. Por fim, haverá aqui resquícios das ideias do autor, em geral emprestadas de Zyngmunt Bauman, Foucault, Terry Eagleton, Clarissa Pinkola Éstes, Madre Teresa e o Dalai Lama. A sua opinião é muitíssimo bem vinda e, mais uma vez, ressaltamos que a tentativa deste texto é iniciar um processo de pensamento sobre o posicionamento social mínimo do adulto montessoriano.