O que podemos aprender com as crianças

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Fotografia de Thomas Hawk¹, “What a child sees”

Portanto, quem se tornar humilde como
esta criança, esse é o maior… (Mateus 18:4)

Maria Montessori disse, em 1946²:

 Sempre soubemos que os adultos poderiam ajudar as crianças, que os adultos eram necessários para sua existência e desenvolvimento. Mas a criança poderia nos ajudar? Ela poderia ser de ajuda para a civilização? Essa ideia nunca entrou na mente dos seres humanos. No passado, e especialmente ao longo da última geração, as pessoas, e mesmo os grupos sociais, trabalharam para melhorar as circunstâncias da infância, e por criar condições cada vez melhores para ajudar o desenvolvimento das crianças. Mas nunca ninguém pensou que a criança poderia nos ajudar! A ideia de que a criança pudesse ser a esperança de nosso futuro, a esperança de um futuro melhor do que qualquer coisa no passado – isso seria absurdo!

E mesmo assim, desde tempos primevos, todas as crenças humanas nos lembram de que as crianças sabem o que fazem. Aqueles que olharam com mais cuidado, carinho e generosidade para a humanidade não hesitaram em dizer que são elas os mais perfeitos entre nós. Essa é uma mensagem de esperança e de amor, que deve permear toda a civilização, de desejamos verdadeiramente construir futuro melhor do que qualquer coisa no passado. Isso não é mais um absurdo, mas é o caminho certo de uma sociedade que deseje caminhar na direção do amor e da verdadeira natureza humana. Neste texto, vamos ver cinco coisas que podemos aprender com as crianças para melhorar o nosso próprio comportamento, para com elas, para com outros adultos e, talvez mais especialmente, para que possamos ser mais felizes em nossas próprias vidas.

1. As crianças sabem que cada dia trará seus desafios e elas não se preocupam com os desafios de amanhã. Importam para elas aquilo que devem superar agora. As conquistas de hoje são as únicas que ela pode fazer, e por isso concentra todas as suas energias no processo que tem em mãos. Porque ela sabe que é durante o processo que aprende e se desenvolve, esforça-se nele sem pensar no resultado – ela conhece as leis da vida e ainda não esqueceu que é por meio do esforço que alcança seus melhores resultados, e que o maior prazer não está no resultado, mas no esforço em si. Além disso, ela fica genuinamente feliz com desafios maiores, porque são eles que permitirão a ela se tornar, cada vez mais, um ser humano completo e perfeito. Ela colabora para a criação da humanidade todos os dias.

2. Elas perdoam infinitamente as mesmas pessoas, pelos mesmos erros, sem que essas pessoas peçam desculpas. As crianças são melhores em perdão do que qualquer adulto, e o fazem rapidamente e sem reservas. Se num minuto um adulto ou um amigo grita com elas (ou, cruelmente, bate nelas), em dois minutos ela pode rir com o que lhe agrediu, em renovada simpatia. Elas nos curam das feridas que nós causamos a elas, e seu perdão é tão mais belo porque é incondicional: ela não nos perdoa sob a condição de que não repitamos o erro. Ela sabe que nós repetiremos. E perdoa mesmo assim. Se esse amor e essa capacidade de perdão e fé no outro poder penetrar os nossos corações, nós mudaremos a Terra.

3. Elas estão sempre dispostas a aprender, sem se importarem com quem ensina. Ninguém é pequeno demais ou sabe pouco demais para ensinar uma criança. Não importa se o português do adulto respeita ou não a engessada gramática normativa. Não importa se ele é alfabetizado ou não. Nem importa se quando ele encaixa as peças de madeira elas caem ou não – a gente sempre pode mostrar de novo, e a criança, perdoando nossas falhas, busca em nossos atos o que ela pode aprender. Um colega de sala, ou uma criança mais nova, que faça algo que outro ainda não faça, pode ser um professor, às vezes de grupos inteiros, sem que ninguém se preocupe com nada que não seja o aprendizado sendo transmitido. Se alguém sabe alguma coisa, e está disposto a ensinar, sempre haverá uma criança disposta a aprender.

4. Elas aproveitam as alegrias de agora, e as cócegas e o pega-pega, e a comida gostosa e o carinho e os beijos. E elas não se preocupam se, depois de tudo isso, vier um pedido apressado para sair para a escola, uma exigência às vezes ríspida de que elas arrumem o quarto, um anúncio de um passeio indesejado ou até um corte brusco nos carinhos ou nas brincadeiras porque qualquer coisa aconteceu. Se está tudo bem agora, então nós devemos aproveitar agora. Para uma criança, a vida é cheia de desafios. Elas precisam obedecer o tempo inteiro, têm os seus tempos e espaços – e as suas ações – sempre reguladas por outros mais fortes do que elas. Mas elas sabem que aqui e ali há espaço para alegrias, e elas aproveitam essas alegrias com todo o seu ser.

5. Elas são humildes de verdade. Não há, na criança, qualquer traço de orgulho, arrogância ou vaidade. Elas têm vontades, é claro, e impulsos. Elas têm necessidades íntimas também e lutam pela satisfação dessas com todos os parcos recursos à sua disposição. Mas elas não têm orgulho. Não há nada que seja baixo demais, simples demais, pobre demais para uma criança. Não há ninguém feio demais, errado demais, desvirtuado ou desonrado demais para ser um amigo de brincadeiras, um colega de trabalho, ou um mestre. A criança sabe que em todos há qualquer coisa de muito bom e ela sabe enxergar esse detalhe brilhante. Ninguém e nada é pouco demais para uma criança pequena, porque em todos ela enxerga a semente de perfeição que ela mesma luta, todos os dias, para fazer desabrochar.

Que nós possamos aprender com elas e permitir que elas ajudem a humanidade!

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¹ A fotografia que ilustra esse post é de Thomas Hawk, fotógrafo que se posicionou frontalmente contra a prática de Jill Greenberg de provocar estresse emocional e psicológico em crianças para fotografá-las chorando.

² MONTESSORI, M. The 1946 London Lectures, em processo de tradução.