O Tempo que Temos Juntos

Todos concordamos: Seria incrível ter todo o tempo do mundo para usar com nossas crianças. É importante para elas que os momentos em família sejam muitos e muito bons. Dizer que só o que importa é a qualidade do tempo que se passa junto, e não a quantidade de tempo que se passa junto não é dizer a verdade. A quantidade de tempo importa também, e se o tempo for longo e de qualidade, muito melhor. É bom que haja famílias que optem – ou possam optar – por estabelecer rotinas mais flexíveis para os adultos, de forma a estar mais presentes nas vidas das crianças. É bom quando os pais podem se revezar e cuidar de seus filhos da forma como acreditam, sem depender de escolas em que não confiam e pessoas que não conhecem.

Essa, no entanto, não é a vida da maior parte de nós. Para quase todos nós, não é todo o tempo do mundo aquele que podemos dedicar a nossas crianças, mas só uma parte dele. Só uma pequena parte, às vezes. Famílias que trabalham de manhã à noite, famílias que trabalham em cidades diferentes daquela em que vivem, famílias que fazem plantões, ou que têm por obrigação estarem disponíveis para seus empregadores mais do que podem estar disponíveis para seus filhos. Não faço eco ao discurso de quem diz que “se gosta tanto de trabalhar, não devia ser mãe/pai”. Para muita gente, o trabalho é um pilar de sanidade, e muitas famílias vivem melhor (todo mundo, incluindo as crianças) quando os pais trabalham do que quando um deles deixa de trabalhar e leva a frustração da falta do exercício profissional para casa… Não é incomum que essa seja uma das principais causas da hiperestimulação de crianças.

A ideia desse texto é trazer algumas dicas. Dicas de como melhorar o tempo que passamos com nossas crianças, seja ele quanto for.

1. Fale baixo. Escute. Preste atenção. – É comum que estejamos tão ansiosos para passar algum tempo com as crianças que esqueçamos de ser tranquilos. Nós temos planos para diversão. Vivemos numa sociedade que gira no eixo de “work hard, party harder” (trabalhe muito, divirta-se mais ainda). Queremos brincar, falar alto, dar risada e fazer cócegas. Buscamos a euforia. Mas nossas crianças precisam de equilíbrio. A família muitas vezes é quem melhor entende as primeiras palavras e a fala inicial de uma criança. É muito importante deixá-la falar. Se queremos ter diálogo em nossos lares, esse diálogo precisa começar muito cedo, com respeito, com atenção e cuidado. Às vezes as crianças não querem brincar do que nós queremos brincar. Às vezes elas não querem brincar em absoluto. Só ficar em paz, agasalhadas por você, ou te mostrar alguma coisa interessante que fizeram ao longo do dia.

2. Valorize o silêncio e a observação – Aproveite esse momento de paz, de encontro, de conexão entre você e seu filho, para descobrir de que ele precisa, o que ele conquistou, o que tem despertado seu interesse recentemente, como ele tem se comportado, o que o frustra e o que o alegra. Olhe para ele, com silêncio e admiração, e busque compreendê-lo em suas ações, em suas emoções, em seus atos e no desenvolvimento de sua inteligência. Por outro lado, valorize também o silêncio e a observação que partem de sua criança. Se, na rua, ele para e abaixa para ver qualquer coisa, abaixe-se, olhe com ele. Esteja lá, mas sem interferir, sem dizer nada. Permita que essa outra conexão preciosa – entre a criança e a realidade – se estabeleça e aprofunde suas fortes raízes.

3. Brinquem com o corpo e a voz – Uma boa parte de seu tempo precisou ser entregue ao dinheiro. Inevitavelmente, você já entregou horas a corporações e marcas – no trabalho, na comida comprada, no carro dirigido, no celular. Não entregue esses poucos momentos que você tem com sua criança para mais corporações e mais marcas. Evite a televisão com desenhos fabricados por empresas imensas e de interesses escusos. Evite os tablets com propagandas constantes e perniciosas. Evite os computadores com jogos construídos para alimentar o modo de ser de uma sociedade de consumo. Brinque com aquilo que a natureza deu: o corpo e a voz. Se quiser – se vocês dois quiserem – use brinquedos. Mas use brinquedos que não brinquem sozinhos. Brinquedos que dependam de vocês para funcionar, para acontecer. Brinquedos que sem vocês sejam pedaços de qualquer coisa. Brinquedos nos quais você, e principalmente seu filho, soprem alma e vida.

4. Em casa, a casa basta – Brinquedos muito sofisticados não são uma necessidade da criança. Eles são uma necessidade dos adultos e uma necessidade das empresas. Coordenação motora, equilíbrio, desenvolvimento da fala e do raciocínio lógico… Tudo isso se desenvolve muito bem na vida, sem que sejam necessários brinquedos, softwares e vídeos especializados. O material montessoriano, inclusive, funciona muito bem na escola, onde ele é compreendido em sua inteireza, usado de maneira correta e reaproveitado, auxiliando no desenvolvimento da individualidade e na construção da vida comunitária. Em casa, ele é inútil e, a depender do comportamento do adulto, pode ajudar em formas de opressão variadas – se, por exemplo, forçamos a criança a usar as letras de lixa porque sinceramente acreditamos que será bom para ela. Em casa, use a casa. Limpe, lustre, lave, corte, cozinhe, pendure, enxugue, arrume, separe, organize. Na minha opinião, especialmente cozinhe. Cozinhar com crianças é uma grande diversão, ajuda na alimentação de todo mundo e garante que o tempo da criança será usado de forma maravilhosamente produtiva para sua personalidade: há um trabalho intenso com os sentidos e com a coordenação motora, há a sensação da independência que se desenvolve, há o prazer puro de desfrutar de um bom sabor e a sensação de conquista por comer aquilo que se fez, para dizer o mínimo.

5. Permita a independência – Quando ficamos fora de casa por períodos longos, muitas vezes nos sentimos indevidamente culpados. A sensação de culpa nunca tem boas consequências. Uma das consequências negativas é que, voltando para casa, desejamos proteger nossas crianças de tudo, inclusive de qualquer esforço. E, fazendo isso, protegemos nossas crianças da possibilidade de um desenvolvimento saudável. Permita que sua criança seja independente. Permita que ela se esforce e falhe, permita que ela faça coisas sozinha mesmo nesse curto período que vocês têm juntos. Seu filho valorizará a possibilidade de ser independente na sua presença. A chance de conquistar a vida ao seu lado. Você vai perceber pelo olhar de sua criança quanto acertou em sua escolha.

Não há muito mais o que dizer. Seu coração, seu amor e o conhecimento que você tem de seu filho vão nortear suas ações melhor do que uma imensa lista de atividades sugeridas. Num próximo texto, pretendo abordar formas de melhorar o tempo da criança enquanto ela está longe de nós, na escola ou em casa.


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