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Montessori: Uma Vida de Revolução Pacífica

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Novembro de 1907. Em um bairro muito pobre, de famílias trabalhadoras e majoritariamente analfabetas, Montessori está com a professora de uma sala de sessenta crianças, de três a seis anos, brincando à sua volta, quando pede a um garoto a quem entrega um pedaço de giz: “Desenha-me uma chaminé”, e sai, caminhando, para descobrir o que as outras crianças faziam. Minutos depois, ouve-se um grito de espanto, vindo do mesmo menino: “Eu sei escrever!”. Montessori, verificando o que ocorrera, viu que o garoto de fato tinha escrito, no chão: “chaminé”.

A isso se seguiu que dezenas de crianças de repente descobriram seu dom silencioso e, pedindo pedaços de giz, puseram-se, uma a uma, a escrever pelo chão e pelas paredes do bairro de San Lorenzo. Escreveram, e ao mundo pareceu que faziam coro ao que Montessori já há mais de dez anos dizia incansavelmente: Todos podem aprender, se permitirmos. O evento, de imensa fama por seu contexto incomum, ganhou, na mídia da época, o nome de “explosão da escrita”. Para Montessori, era mais um aspecto do que lhe parecia uma “explosão da alma”.

Essas crianças, que vinham de toda sorte de casas mal estruturadas, com famílias que podiam lhes dispensar muito pouca atenção, e muitas vezes com violência, sem organização, com pouquíssimas condições materiais, mostravam a Montessori e ao mundo o melhor da humanidade. Deixadas em liberdade para trabalhar, utilizando materiais cuidadosamente preparados para sua educação, atingiam um estado de espantoso equilíbrio emocional e psicológico, pareciam mais inteligentes, curiosas e capazes, buscavam sua independência com esforço contínuo. Aos poucos, naquela creche ignorada pelo mundo, se delineava para Montessori o segredo da infância.

Esse segredo, o estado de equilíbrio da personalidade alcançado pela criança por seus próprios e livres esforços, instalou no coração de Montessori a certeza de que as crianças poderiam ser as redentoras da humanidade, e de que o certo a fazer seria deixar tudo para trás e seguí-las aonde fosse necessário.

Não foi fácil. Montessori lutara muito para chegar onde estava: professora na Universidade de Roma, havia sido uma das primeiras mulheres a se formar em medicina na Itália, tinha renome internacional, publicara artigos e um livro e atendia clinicamente como psiquiatra. Abandonou tudo isso quando descobriu que a criança podia muito mais do que se imaginava, para, fundamentalmente, comunicar sua descoberta ao mundo.

Foi nessa pequena escola no começo do século passado que Montessori aprendeu que a paz é o estado humano natural, se a criança for deixada livre para se desenvolver e não se instalar, logo no começo da vida humana, aquilo que Montessori reconheceu em A Educação e a Paz como a raiz de todas as guerras: a que se dá entre o adulto e a criança. O adulto, ela disse em A Criança, precisava antes de tudo extirpar de sua personalidade três coisas: o orgulho, a ira e a tirania. Conjuntamente, era necessário aprender a humilhar-se e revestir-se de caridade.

De um ponto de vista, Montessori teve uma vida política intensa. Com uma inicial colaboração com o governo fascista na Itália, e um posterior arrependimento seguido de um rompimento definitivo, Montessori se viu inviabilizada de trabalhar suas ideias em sua própria pátria. Viajou por muito do mundo conhecido, e embora tenha tido seus trabalhos impedidos em todos os países de governos totalitários (como a própria Itália, a Alemanha e a União Soviética), continuou a formar professores e publicar livros em todo o período das grandes guerras.

Em um episódio especialmente fascinante, Montessori estava na Índia quando estourou a Segunda Grande Guerra, e por ser da nação errada no lugar errado, permaneceu impossibilitada de sair do país por toda a extensão do conflito. Durante todo o tempo, trabalhou, formando mais de 1.500 professores indianos e ministrando as palestras que viriam a se tornar o livro – em nossa opinião o melhor de todos eles – Mente Absorvente.

Não é na recusa ao totalitarismo, entretanto, que se firma a luta pela paz empreendida por Montessori. Essa é uma posição política que derivou inevitavelmente de suas experiências com a criança. Mas não é contra qualquer coisa que a luta pela paz se fez em Montessori. Essa busca foi sempre por uma realidade diferente daquela vivida no período de vida de Montessori, uma realidade que, pela mudança da educação da criança, permitiria um “mundo novo, cheio de milagres”. Temos algum retrato disso em suas obras.

Em seu primeiro grande trabalho pedagógico, O Método da Pedagogia Científica (sem edição em português), ela defende a utilização de uma perspectiva educacional que seja verdadeiramente racional, e se abra para observar a criança pelo que ela mostra, e não pelo que qualquer filosofia exige que ela seja. Esse caminho, para Montessori, permitiria a edificação de uma pedagogia que desse à criança toda a liberdade necessária para alcançar o melhor de si mesma. Nesse contexto, ela propunha já em 1909, os prêmios e os castigos se faziam absolutamente desnecessários. Nem os prêmios recebiam importância, ao olhar da criança apaixonada pelo trabalho em si, nem os castigos eram assim encarados, por crianças que eram ajudadas a todo momento por colegas compassivos e generosos.

Em O Manual da Doutora Montessori (sem edição em português), de 1914, ela nos propõe uma pedagogia simples, do tipo que poderia ser colocada em prática por todo mundo, e em todo o mundo. Não há qualquer complicação teórica no livro – toda a teoria do método só vai aparecendo bem aos poucos e mais tarde – e o que lemos é uma esperança para a educação da criança: com algum cuidado com o ambiente, alguma técnica e poucos materiais especificamente construídos de acordo com princípios de observação científica, Montessori garante ser possível a revolução da educação da criança. No enfoque desse livro, uma educação pautada pelo prazer de trabalhar e pela ausência de um professor que seja um corretor eterno dos erros da criança.

Mais tarde, em A Criança, Montessori faz seu primeiro grande apelo. Toda a humanidade, ela propõe, deve ser colocada em julgamento pelos erros que comete para com a infância. Inúmeras formas de opressão, como os castigos, o excesso de brinquedos, os elogios e a ausência de liberdade, vêm deformando a personalidade humana e impedindo seu desenvolvimento saudável e integral. A solução? Conhecer o segredo da infância. A partir do momento em que o adulto tomasse consciência da potência oculta na criança, sob a carapaça de um comportamento violento e violentado, desordenado e desordenador, consequência de maus tratos e repressões, e visse que verdadeiramente o humano pode ser equilibrado, gentil, esforçado e generoso, não mais trataria a criança como o menor entre todos, mas a veria pelo que é: a esperança e a promessa da humanidade.

Em A Educação e a Paz, lemos uma sequência de apelos aos líderes políticos do mundo todo: vimos guerras e mortes. Se queremos mudar essa realidade, não será suficiente que estabeleçamos leis e tratados, será necessário permitir à criança a realização de seus milagres. É pela revolução da infância, propõe Montessori aqui, que se salva a humanidade. Na infância, ela defende, todos os humanos são iguais. Na infância está o princípio comum de toda a civilização. Se os olhos dos governantes de todos os lugares puderem se voltar à criança com a máxima prioridade e eles souberem estimular em seus países uma educação para a liberdade, para a paz e para a vida, o mundo não precisará ver mais os horrores da guerra, pois que a criança, promessa do futuro, não fará a guerra se não sofrer da guerra com seus pais e seus professores.

Aproximando-se do fim de seu trabalho, Montessori reescreve, em uma quinta edição, sua primeira obra pedagógica, e a chama de A Descoberta da Criança (em português, Pedagogia Científica: A Descoberta da Criança). Em uma última edição, procura condensar uma quantidade de sua pedagogia que “seja suficiente para a aplicação pela professora”. Desenha-se todo um currículo de linguagem, matemática, vida prática e educação sensorial. Sobretudo, no entanto, o que aparece nessa obra de importância inominável é uma proposta revolucionária: aquela mesma simplicidade apontada no início de sua vida profissional aparece aqui outra vez: com muita observação e um pouco de bom senso, alguma técnica e material suficiente – pouco material, ela enfatiza – é possível oferecer à infância uma vida cheia de importância e dignidade. Daí, ela defende, brota a autodisciplina, e somem os problemas da escola tradicional. Todo o problema da atenção e do foco, que a escola comum luta por solucionar, já aparece solucionado nessa alternativa pedagógica, e então podemos ter preocupações muito mais elevadas, com o aperfeiçoamento das condições para o desenvolvimento do ser humano.

Em seu último livro, pequeno e forte, de título A Formação do Homem, Montessori é contundente: hoje o ambiente “devora e tritura o homem”. Para um mundo novo, será necessário que todos os seres humanos tenham domínio sobre seu ambiente, sem que alguns possam se aproveitar de outros, e que os proprietários do mundo sejam onipotentes como deuses. Desde a mais tenra infância é de fundamental importância que a humanidade se desenvolva em um ambiente de liberdade e que as fascinantes qualidades da personalidade humana possam se manifestar, excluindo, assim, do futuro, a possibilidade da continuidade da opressão social entre os adultos – essa também tem suas origens na opressão da criança, e pode então ser extirpada não por uma luta contra a opressão, ou não somente por aí, mas por uma educação a favor da liberdade, da paz e da vida.

Que neste aniversário de Montessori, algo de suas inúmeras mensagens nos fale à alma, e que possamos, em todo o ano que virá, nos dedicarmos com tudo o que somos à construção da paz no mundo por uma educação que permita milagres, que tenha suas bases no fascínio e no amor, assim como na cientificidade e no estudo profundo do segredo da criança. Que as exageradas profecias de uma mulher que, em 1907, acreditava que em uma escola livre poderia surgir um novo mundo, possam ser superadas, e que em cada casa, creche, clínica, família e escola, nos surpreendamos, o tempo todo, com o potencial infinito da criança para salvar a humanidade.

Sobre gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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