Comunicação e Montessori

Comunicação é a base de nossas vidas com os outros, e isso inclui as crianças. Todo o tempo que passamos perto de crianças envolve comunicação. Desde a escolha do silêncio, até a postura corporal, até as palavras, os gestos e os sinais, que são as formas mais óbvias de nos comunicarmos. Se pudermos nos comunicar em paz, podemos viver em paz. Neste texto, quero abordar o assunto de dois pontos de vista. Primeiro, o da linguística, depois, o da compaixão.

Linguística

Do ponto de vista linguístico, existem quatro grandes princípios para uma conversação eficiente. Elas são chamadas de “máximas conversacionais” e foram descobertas por Paul Grice, um filósofo da linguagem britânico. Essas máximas são (1) a da quantidade, (2) a da verdade, (3) a da relevância, e (4) a da maneira. Numa conversa comum, essas máximas são respeitadas e desrespeitadas o tempo todo. Vejamos como funcionam.

A Quantidade

Quando nos comunicamos, é esperado que falemos tudo aquilo o que é importante. Ninguém espera que deixemos de dizer algo que importa em uma conversa. Acredita-se que aquilo o que dissemos era tudo o que tínhamos para dizer de importante naquele momento. Também é assim com as crianças. Sinceramente, as crianças acreditam que quando falamos com elas, dizemos tudo o que é importante dizer. A questão com as crianças é que elas têm uma capacidade menor que a do adulto para a metonímia. Para um adulto, podemos dizer uma parte da informação, e ele pode entender a informação inteira. Se dissermos “precisamos sair agora porque vai chover”, o adulto entende facilmente que “precisamos sair agora porque vai chover daqui a pouco e não queremos pegar chuva”. A criança só entende que “como vai chover, temos que sair”, e isso pode levar a um desentendimento por parte de uma criança que se recuse a sair e não se explique sobre isso, porque do ponto de vista dela é óbvio que qualquer pessoa em sã consciência optaria por exatamente por não sair, já que vai chover.

A Verdade

Em qualquer conversa comum, é necessário partir do pressuposto de que o outro está falando a verdade, ou aquilo que ele acredita ser verdadeiro. Se precisarmos ficar alertas para mentiras o tempo todo, não há conversa que possa funcionar. Isso funciona exatamente do mesmo jeito com crianças. Elas creem que aquilo que dizemos é a verdade. Acontece, no entanto, que crianças têm uma sensibilidade muito menor para a ironia. Isso significa que se você disser uma coisa querendo dizer outra, a criança interpreta sua fala como verdadeira e, percebendo que é falsa, ofende-se profundamente pela zombaria e por ter sido enganada. Por exemplo, a criança pode perguntar: “Posso comer chocolate agora?” e o adulto responder “Comer chocolate antes do almoço, filho? Aham!” ao que a criança vai pegar o chocolate, e o adulto fala mais alto: “Filho, antes do almoço você não pode comer chocolate, você sabe disso! Larga o chocolate!”. E aí temos outra situação de incompreensão grave.

A Relevância

Para participar de uma conversa, não podemos falar de qualquer coisa, mas precisamos falar daquilo que é relevante no momento – continuar no assunto da conversa, mencionar algo que ambos os participantes do papo estão vendo, ou algo assim. A criança também espera que sejamos relevantes, mas acontece com frequência de aquilo que a criança estar vivenciando no momento ser completamente diferente do que nós vivenciamos, Primeiro por uma questão de ponto de vista, e segundo porque ela pode estar ocupada com uma brincadeira enquanto nós nos ocupamos do jantar ou do uniforme da escola, de manhã. Ambos (adulto e criança) esperamos que o outro seja relevante para conosco: a gente espera que a criança entenda logo que deve vir colocar o uniforme, e a criança espera que a gente entenda logo que o urso está brigando com a coruja no chão do quarto. Cabe a nós, adultos, enxergarmos a situação completa, cedermos, interrompermos a brincadeira com educação e cuidado, e inserirmos o novo tópico de conversação. Caso contrário, nossa falta de educação é pega em flagrante e a criança recusa-se a cooperar até que, finalmente, cedamos e digamos algo como “depois você continua brincando” (que é exatamente ser relevante e falar do que ele está fazendo) “agora vem colocar a blusa” (que é inserir um novo tópico de conversa). A criança ainda pode resistir, por nossa falta de educação, mas sabemos que agora estamos mais perto do acordo.

A Maneira

Para Grice, maneira quer dizer como falamos. Não tem tanto a ver com as boas maneiras, mas sim com clareza, brevidade, e organização. Sempre esperamos que falem conosco de forma clara, organizada e direta. Quando isso não acontece, ficamos com a sensação de que a pessoa “fala difícil”, ou que alguém “não sabe conversar”. Quando falamos algo para nossas crianças de maneira nebulosa, elas não conseguem responder ou não conseguem executar. Nossa expressão precisa ser clara. Ser breve significa, entre outras coisas, não se repetir. É comum que falemos a mesma coisa para uma criança várias vezes. Especialmente na escola, quando temos pressa de sermos obedecidos por muitas crianças de uma vez, damos a mesma ordem repetidamente: “senta, senta, isso, senta, senta, vamos rápido, senta”. Em um intervalo de cinco ou seis segundos, uma mesma ordem pode ser dada cinco ou seis vezes. O efeito? O mesmo de uma ordem dada uma vez só, se for falada com calma, cuidado, clareza, atenção, e esperarmos cinco segundos para que seja obedecida. A repetição, a falta de brevidade, a frase desorganizada (“Filho, nós vamos à missa, você precisa se arrumar, então vai guardar seus brinquedos, e se veste, depois escova os dentes”) e outras falhas de comunicação do dia a dia são alguns dos fatores que mais atrapalham nossa relação com nossas crianças.

 

A Compaixão

Nossa reação imediata a tudo isso pode ser algo como: “Mas se eu tiver que prestar atenção a tudo isso, não falo mais nada!”. É exatamente por isso que Montessori pode ser chamada de “uma pedagogia do silêncio”. Montessori citava Dante e dizia: “Que todas as tuas palavras sejam contadas”. Nós não precisamos ficar sempre em silêncio, e conversar com nossas crianças, especialmente se são filhos e filhas, é de importância fundamental. Mas devemos ter em mente que uma boa comunicação não é só uma forma de facilitar a vida. Ela é sobretudo uma maneira de diminuir o sofrimento.

O monge vietnamita Thich Nhat Hanh tem uma maneira belíssima de ver a comunicação. Para ele, devemos sempre falar e ouvir buscando diminuir o sofrimento do outro. Quando ouvimos, podemos escutar o sofrimento falando por trás da raiva, do desespero, da angústia e da tristeza. Podemos perguntar o que faz o outro sofrer, podemos descobrir se poderíamos fazer alguma coisa diferente, podemos nos disponibilizar, verbalmente, a estar sempre ali, presentes, e ajudar.

Em seu livro “Good Citzens” (Bons Cidadãos, sem tradução para o português), o autor propõe que entre companheiros adultos algumas expressões de altíssima vulnerabilidade sejam usadas, por exemplo: “Por favor, diga-me, ajude-me. Eu sei bem que se não compreender você, eu não serei capaz de ser o melhor companheiro para você” Essa frase vem em uma fala maior na qual se pergunta por que o outro sofre, com a disposição total de ajudar esse sofrimento a cessar.

Se pudermos, pacificamente, tocar o sofrimento de nossas crianças – sua dificuldade de acompanhar um mundo cujo ritmo há muito ultrapassou o natural, a opressão imensa que recai sobre elas de toda parte, o desafio constante de ser o que queremos delas, na hora que queremos, enquanto elas gostariam de ser e fazer outras coisas – se pudermos entender esse sofrimento, poderemos nos comunicar com elas de forma transformadora, e ajudar, genuinamente, a diminuir o sofrimento de nossos filhos e alunos.

“O que aconteceu?”; “O que eu posso fazer para ajudar?”; “Eu estou aqui para você” são frases que podem transformar nossos diálogos, substituindo outras como “Se você chora eu não consigo entender o que você diz”; “Bom, quando você quiser conversar direito, estou te esperando” e “Você sabe que eu não gosto quando você fala chorando”. O que deve nos importar, sobretudo, é uma comunicação que diminua o sofrimento, a possibilidade de ele surgir e sua intensidade.

 

Finalização

Uma comunicação que obedeça às cinco máximas de Grice e aos princípios do diálogo de Thich Nhat Hanh tem tudo para reverter a situação apontada por Montessori há quase cem anos: “Nenhum problema social é mais universal que a opressão da criança”. Isso ainda é verdade, e permeia nosso dia a dia.

Quando formos capazes de nos abaixar, falar olhando nos olhos das crianças, falar devagar e claramente, dizer tudo o que queremos que a criança entenda, sem metonímia, ironia, sarcasmo, sem esperar que ela entenda mais do que nós dissemos, mudamos nossa realidade. Quando usarmos toda situação de comunicação para diminuir o sofrimento das crianças, ouvindo com compaixão, falando com compaixão, perguntando e pedindo com compaixão, mudamos nosso mundo.

Que sejamos capazes de uma comunicação mais verdadeira, completa e transformadora com aqueles que são, nas palavras de Montessori, o futuro, a promessa, a esperança e os construtores da humanidade.

Postado em Paz

5 comentários sobre “Comunicação e Montessori

  1. Ola Gabriel, eu li este texto sobre comunicação e identifiquei várias coisas erradas que faço. Eu sinto que eles não me escutam, é muito sofrimento, todos os dias e noites é um transtorno, a casa esta sempre uma bagunça e suja, eles não comem direito e na hora de aprontar para escola é a pior parte, eles sempre enrolam o máximo possível. Socorro me ajude, eu já estou até tomando remédio psicotrópico para aguentar essa barra, me sinto sobrecarregada. Vou tentar aplicar suas dicas de comunicação.

    Um abraço,

    Lívia.

    ________________________________

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  2. Compartilho este texto com outras colegas pedagogas, por me identificar com tudo que é dito nele, mas me decepcionei com a devolutiva de colegas que não compreendem a dimensão de nossas palavras ao nos comunicarmos com as crianças. Ao menos espero ter plantado uma semente.

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