A Tranquilidade Necessária

Acordamos com o despertador e o susto. Levantamos, lavamos o rosto e vamos rápido fazer o café, acordar as crianças, trocar a roupa, tomar o café, escovar os dentes, lavar o rosto de novo, rua. Trânsito, ou pressa, ou trânsito-e-pressa, escola. Trabalho. Escola, trânsito, pressa, casa, banho, brincar, jantar, escovar os dentes, contar história, dormir.

Com um pouco mais, um pouco menos, nossos dias se parecem mais e mais com isso. A urgência contraditória é encontrar tempo para estar. Estar é não pensar no futuro, no depois, no daqui a pouco, e nem no passado, nos erros do passado, no que podia ter sido e não foi. É estar aqui e estar agora. Olhar para as nossas crianças sem pensar no que elas vão ser quando crescerem, ou no que o filho vai fazer quando acabar de brincar de montar, e só olhar e ver como é bonito, como é curioso, como é incrível que ele brinque de montar com tanta presença.

Quando a criança brinca – ou quando ela trabalha – coloca-se inteira no que faz. Não resta nada. É comum encontrarmos nossas crianças isolando-se do mundo, quietas no quarto ou num canto, fazendo qualquer coisa que não sabemos bem o que é e que absorve toda a sua atenção e toda a sua vontade. Isso, segundo o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (daqui em diante só Mihaly), é o estado de Fluxo. O estado de Fluxo descoberto por Mihaly é uma joia da natureza humana e uma daquelas chaves para o bem estar, tanto do adulto quanto da criança.

Para Mihaly, o estado de fluxo é caracterizado, entre outras coisas, por concentração profunda, uma sensação de que a atividade oferece desafios interessantes, mas ao mesmo tempo desafios que podem ser superados com esforço, além da percepção de que a atividade é recompensadora por si mesma, sem que haja necessidade de prêmios externos. Embora os estudos só tenham ligado o estado de fluxo à escola montessoriana, a casa montessoriana também oferece o estado de fluxo o tempo todo:

O pequeno bebê que, a partir de sua cama baixa tenta ir para o chão, envolvendo todo o seu corpo e toda a sua vontade nessa tarefa, a criança um pouco maior que se esforça para ficar de pé segurando-se na barra e se olhando no espelho, com encanto, foco, concentração, empenho. Depois, o filho que descobre como é que se rega as plantas, e faz isso por muito tempo, e o outro que aprende a secar resíduos e entrega-se à tarefa completamente. Quando nossos pequenos usam os potes da cozinha para encaixar, empilhar, organizar, e quando absorvem-se em suas próprias roupas, tentando entender como é que se faz para vestir uma calça, puxar um zíper ou amarrar um cadarço com sucesso. Em todos esses momentos, quando vemos a criança verdadeiramente absorta no que faz, presenciamos o estado de fluxo.

O estado de fluxo é fundamental por suas consequências. Visitar essa sensação com frequência traz às nossas vidas uma sensação muito maior de bem estar e equilíbrio, satisfação pessoal e alegria. Nos estudos de Mihaly, nota-se também uma melhora no comportamento social – o que não é de se estranhar, considerada a mudança emocional interior – e uma facilidade muito maior para aprender.

Acontece, no entanto, que para o estado de fluxo acontecer, algumas coisas são necessárias. Coisas que devemos lembrar de manter como práticas constantes em nossas casas.

Primeiro, é necessário ter tempo. Sem tempo, não há possibilidade de um mergulho em si mesmo, de uma dedicação intensa a qualquer atividade. Com que intensidade você se dedicaria a qualquer coisa se soubesse que pode ser interrompido dali poucos minutos? A criança, embora inconscientemente, também escolhe não se entregar a atividades quando reconhece o padrão de interrupção frequente, e sabe que tudo o que ela começar vai ser interrompido antes do final. Simplesmente não vale a pena. Por outro lado, o tempo permite milagres. Se em casa a criança pode desfrutar de tempo livre, sem que sua atenção seja requerida pelo adulto a todo momento, e sem que inúmeros deveres – aulas tarefas, ordens – sejam a ela imputados, então se sente livre para empreender um esforço de maior duração e intensidade, abrindo assim o caminho para atingir o estado de fluxo.

Um segundo aspecto fundamental é que os adultos da casa sejam dedicados a preparar um ambiente que favoreça esse estado da consciência. Em ambientes com muito barulho, muita bagunça ou um nível alto de estresse, o início de qualquer atividade é difícil, a escolha também. Por isso, um clima emocional positivo é fundação necessária para o desenvolvimento do bem estar inicial necessário à dedicação intensa da criança. Nós sabemos que se nos sentimos emocionalmente confusos, incertos ou conturbados, não temos energia para uma tarefa longa e exigente. Acontece do mesmo jeito com os pequenos: é sobre uma base sólida de amor, tranquilidade e paz que a criança constrói seu trabalho interior.

Finalmente, é da maior importância que haja opções de atividade para a criança. O estado de fluxo não pode ser atingido enquanto assistimos televisão. Para isso, tudo vale: peças, blocos, material de arte, Vida Prática, quebra-cabeças, desafios lógicos – e isso pode ficar mais complexo conforme a criança cresce. Vale até mesmo permitir que a criança acesse nossos armários e objetos, quando for adequado. O que não vale é não permitir a ação da criança e confiná-la a um mundo de telas, do celular, para o tablet, para a televisão, para a cama.

Em uma casa em que se corre, se grita e se assiste televisão o tempo todo, o estado de fluxo – e a bem da verdade qualquer estado que dependa da tranquilidade – é impossível. Mas com pequenas mudanças no ritmo, no volume e na configuração de nossos lares, podemos, sim e sempre, oferecer à criança a tranquilidade necessária para o mergulho ativo em si mesma e a autodescoberta que são características tão fundamentais da infância. Assim, passo a passo, em fluxo, a criança pode construir a humanidade.

 

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Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

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