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Primeiros Passos de Montessori em Casa

Vamos fazer um favor a nós dois. Antes de começar a leitura deste texto, pare por um momento, e respire profundamente, duas ou três vezes. Sinta seu corpo, e relaxe. Eu também farei isso antes de escrever.

Pronto. Nós precisamos começar em paz, aqui. A mudança que vamos fazer em casa é essa: antes da respiração e depois da respiração. Mas vamos fazer isso no ambiente físico, dessa vez. Se você quiser ler sobre paz e comportamento, pode ir aqui ao lado e buscar o assunto que te interessa.

A casa montessoriana é simples. Muito, muito simples. Nem sempre fácil, é verdade. Mas não é complicada. O nosso objetivo mais amplo é gerar liberdade, e para Maria Montessori, liberdade é um conjunto de “condições favoráveis à vida”. A liberdade de uma árvore é equivalente à chance que ela tem de seguir sua própria natureza, ser nutrida pela Terra, alimentada pelo Sol, envolvida pelo ar e hidratada pela água. Pouca Terra, muito ou pouco Sol, má qualidade do ar ou água em excesso tiram a liberdade da árvore, porque a impedem de seguir os rumos naturais de seu desenvolvimento. Com as crianças, há diferenças individuais importantes, mas há condições básicas para a vida que, se puderem ser garantidas, permitirão um desenvolvimento livre de obstáculos maiores e, portanto, uma liberdade profunda e ampla.

O primeiro aspecto a que devemos prestar atenção é a liberdade para satisfação de necessidades biológicas básicas. A criança deve poder sobreviver em sua casa. Para isso, precisa comer, beber, dormir e realizar suas necessidades. Um primeiro passo interessante, na cozinha, pode ser deixar um ou dois potes pequenos com quantidades de alimento pronto para consumo (pedaços de frutas, verdura ou torradas servem bem) e utensílios simples de cozinha, como um prato e dois talheres disponíveis. A mesma coisa pode acontecer com líquidos, água ou suco, e uma jarra e copo. Aos poucos, é claro que você pode adicionar guardanapos, mais talheres, taças, vasilhas e recipientes diferentes. Mas comece devagar, em paz.

Vai ser importante ensinar a criança a usar cada uma das coisas que você adicionar à sua cozinha. A partir do momento em que ela consegue andar e pegar ou carregar coisas, isso já pode começar a acontecer. Se os pratos de porcelana e vidro ainda assustam você, use plástico por algumas semanas ou meses, mas ensine a criança a segurar essas coisas com cuidado (mostre, lentamente e em silêncio, como se faz) e depois de algum tempo, faça a mudança. Coisas que quebram nos ensinam o movimento cuidadoso, e isso importa. Uma mesinha com uma cadeira pequena são opções boas e válidas, se você puder adicionar isso à sua casa. Se não couber, tudo bem usar a mesa maior – não é tão fácil, nem é tão agradável para a criança, e uma quantidade maior de acidentes pode acontecer, tenha um pouco de paciência com os esforços da criança, e ensine mais do que corrija, demonstrações funcionam muito melhor do que broncas e repreensões.

No quarto da criança, o acesso também importa. Dormir suspenso em uma altura maior do que a sua e cercado por grades não é uma opção interessante. Para um adulto, essa reclusão seria um castigo indigno e humilhante, e por isso não forçamos a criança ao berço. Usamos uma cama no chão. Pode ser um colchão no chão, sobre um estrado ou borracha, ou pode ser algo um pouquinho mais estruturado, mas ainda bem baixinho, sem nenhuma proteção que impeça a queda – especialmente depois dos quatro meses – e sem nada que impeça a entrada e a saída da criança. Essa cama assim baixinha importa especialmente até os três anos, enquanto a criança é realmente pequena demais para alcançar com sossego uma mais alta.

Quanto ao banheiro, basta um banquinho. Um adaptador para o vaso é uma opção interessante, um facilitador útil para algumas crianças. Se a sua criança não quer usar e prefere se apoiar diretamente sobre o suporte adulto, isso não é um problema. Um banquinho ajuda as pernas e descansarem enquanto ela está sentada, ou a alcançar o vaso de pé, assim como possibilita o acesso a pia, então é uma modificação útil e importante.

Pronto. A sobrevivência da criança está garantida. Agora, podemos passar ao seu bem estar. Sobretudo, a criança pequena depende de atividade para se sentir bem. Agir com as mãos, com propósito e controle sobre os seus movimentos traz à criança serenidade, equilíbrio e alegria, suportes muito importantes para um desenvolvimento saudável da personalidade.

Em um retorno breve ao quarto, podemos olhar além da cama. Nele, há um espelho na parede, que fiz horizontal enquanto a criança engatinha, e vertical quando ela já fica em pé, e que vai ser importante para a identificação do rosto, dos movimentos, das expressões, e para o desenvolvimento de um senso estético saudável quanto a roupas, no futuro. À frente desse espelho, que tem cerca de um metro por cinquenta centímetros, pelo menos, podemos instalar uma barra de cortina forte, a mais ou menos 50cm do chão, para que a criança que está aprendendo a andar se erga com mais facilidade. Isso não é essencial, mas colabora para que a criança treine com segurança esse movimento, e use menos os outros suportes acidentais casa afora.

No guarda-roupas do quarto, podemos usar as partes mais altas para roupas que a criança não deve acessar, e podemos deixar a seu alcance uma seleção de peças entre as quais ela possa escolher o que vestir no dia a dia. Trocamos essas peças, evidentemente, a depender das opções que podem existir para a criança e, aos poucos, ensinamos a lidar com mais opções e com aquelas roupas que, mesmo podendo ser alcançadas, não podem ser usadas em tais e quais situações.

Repare que há poucos, pouquíssimos, brinquedos nesse quarto. Cinco, seis são suficientes. Muito mais do que isso e a confusão começa a reinar. Deixe disponíveis brinquedos com que a criança efetivamente brinca, e guarde para depois, ou doe, aqueles que já/ainda não interessam. Opte sempre por brinquedos que não brinquem sozinhos, por peças que dependam da criança para funcionarem como brinquedos e por objetos interessantes que só se movam ou façam coisas quando a criança faz, e nunca sem ela. Importa mais o brincar do que o brinquedo, e o que a criança busca é a ação com propósito.

Na cozinha, que começamos a preparar acima, há infinitas possibilidades de atividade. A criança pode nos ajudar com afazeres inicialmente simples, e depois mais e mais complexos, e pode ela mesma desenvolver ações independente de nós. No começo, a criança sobe em uma cadeira ou usa sua mesa baixinha, e nos ajuda a cortar bananas, ou a colocar legumes picados em uma panela, ou a misturar a massa de um bolo e de um pão. Com o tempo, felizmente, ela aprende as receitas, os modos de fazer e os pressupostos básicos de uma cozinha simples, e passa ela mesma a preparar saladas, biscoitos e lanches para si e para os outros, com cada vez menos ajuda adulta.

Aqui, vale ter em mente: para a criança, é importante treinar antes de fazer. Por isso, vale a pena estruturar algumas atividades de exercícios práticos. Alguns exemplos: dois copos para que a criança passe água, ou grãos, de um para o outro; duas vasilhas com bolinhas de madeira ou pedras, para que a criança transporte com um pegador; dois recipientes com água e uma esponja, para a criança passar a água de um para o outro; uma jarra e dois copos, para que a criança aprenda a distribuir a água igualmente e sem derramar… As opções são inúmeras, como as possibilidades de uma cozinha. Você notará que também para a limpeza da casa e das roupas há opções de atividades a desenvolver. A criança nos mostra o que lhe interessa treinar, e nós só temos que dar a estrutura física necessária (lembre-se: o tamanho dos objetos e a beleza importam para a criança). Quando a atividade estiver pronta, mostre em silêncio e bem devagar como é que se faz, e não se preocupe se a criança não se interessar imediatamente. Você pode mostrar mais de uma vez e, em algum momento, talvez distante da apresentação, ela se interessa – ou não, e aí tudo bem também, é só mudar a atividade.

Claro, há atividade para além da cozinha: pode-se varrer, lavar, esfregar, pendurar, plantar, regar, alimentar, limpar, lustrar, polir, colar, cortar, guardar… Tudo o que se faz na casa é atividade, e interessa para a criança pequena. Conforme você observa sua criança, isso fica claro, e fica claro também o que é que se pode fazer junto. É bom perceber sempre que o interesse da criança é muito mais o processo do que o produto, e que ela pode ter que experimentar muitas vezes antes de acertar – e repetir muitas vezes depois. A criança se interessa pelo mundo porque o mundo ajuda no seu desenvolvimento. O interesse verdadeiro é interior.

Pronto. Esse é só um texto de primeiros passos. Há muitos mais em uma caminhada do tamanho da vida. Mas esse começo é como uma respiração: depois dele, fica tudo mais fácil, mais claro e mais cheio de paz. Boa sorte!

Sobre gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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