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A Humilhação do Adulto

Em A Criança, Montessori nos impele a um alto grau de aperfeiçoamento interior:

A preparação que nosso método exige do professor [adulto] é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta.

Para ela, os defeitos adultos mais nocivos à criança eram a ira e o orgulho, que juntos produzem a tirania. Por um momento, considere o orgulho que você tem de ser adulto. Considere a ênfase com que felicitamos uma criança porque ela cresceu e pense em como rimos graciosamente dos esforços de bebês e crianças em vídeos de YouTube enquanto eles aprendem aquilo que há muito já sabemos. Há, em nós, uma compreensível sensação de sucesso por termos chegado onde chegamos, e a também compreensível impressão de que somos de algum modo superiores, porque somos maduros. De alguma maneira, enxergamos em nós mesmos a perfeição ainda não alcançada pela criança pequena, tão cheia de inabilidades e incompetências.

Esse orgulho pode ser grande. Muitos de nós temos orgulhos grandes. E a vida com uma criança é difícil quando nossos orgulhos são inchados. Um orgulho pequeno se machuca pouco, é difícil de ser atingido e ferido, e sofre somente de quedas pequenas. O orgulhão não. Esse é ferido por qualquer coisa, mesmo que por acidente. Ele é grande demais e fica no caminho das ações da criança. Quando ela desobedece, quando demora mais do que alguns segundos para seguir uma ordem, ou quando opta por um caminho diferente do que sugerimos, tudo isso atinge o orgulho grande. Quando ela enfrenta, desafia, responde, nega e pergunta, o orgulho grande se sente oprimido, porque vê no comportamento independente e livre da criança uma ameaça à sua frágil soberania.

Ocorre, infelizmente, que o orgulho, se ferido, ira-se. Perde a calma, a compostura e a gentileza. O orgulho é medroso, fraco e inábil, se embaraça todo quando algo o contraria, como um rei-palhaço, e sua irritação seria risível se não fosse trágica. É pena que seja trágica. Quando o orgulho ferido se torna raiva, usa do que tiver à disposição: o olhar cruel, o grito, as mãos, o autoritarismo punitivo e o cinismo crudelíssimo do adulto irônico contra a criança que não pode ainda compreender ironias e perguntas retóricas. O orgulho é uma muralha que não permite a participação da compaixão no nosso comportamento.

O rei absolto nesse território murado e protegido contra o sofrimento do outro é o adulto despreparado. O tirano. O tirano é um produto desatento dos conselhos do orgulho e das ações da ira. Isso é verdade para os reis históricos e para os monarcas domésticos. É difícil abrir mão do trono, mas o caminho para a vida além das muralhas passa por isso. Passa pelo abandono de nossa posição de poder, certeza e proteção ilusórias, e pela caminhada, rente ao chão, na direção da verdadeira vida, pelo caminho de poeira, luz e esperança. O caminho em direção à vida é o caminho da humilhação.

Humilhação tem, na sua raiz, o húmus. A terra. Humilhar-se é descer à terra. Descer ao chão. Ajoelhar-se diante do menor entre nós e olhá-lo nos olhos com absolta reverência. É essa a única entrada para uma nova vida: nossa e da criança, doméstica e universal.

Em uma primeira, segunda e centésima leitura, soou-me estranha a ideia da humilhação no texto de Montessori. Eu não conseguia entender ou aceitar. Humildade, sim. Humilhação, dificilmente. Soava-me absurdo que para enxergar a dignidade da criança fosse necessário abrir mão da minha. Achava, eu, que era possível e necessária a existência das duas concomitantemente. Na ignorância de que existe uma dignidade superior àquela comum e orgulhosa, eu resistia a abrir mão desta pela humilhação conhecida, por medo do que viria depois. Eu não sabia que era possível atravessar a humilhação e encontrar uma dignidade mais bela, mais forte, completa e imponente do que aquela a que eu me apegava miseravelmente.

E então, Fábio deixou cair uma bolinha debaixo de uma cama elástica, na lama. Fábio é nome fictício, e ele tinha cerca de dois anos e meio. A cama elástica estava no parquinho de uma escola, e a bolinha era laranja com relevo em azul. O menino recorreu a mim para socorro, sem conseguir ainda articular frases inteiras. Eu entendi o geral da situação, porque assisti a tudo. Disse que ele podia ir, e eu olharia de longe. Não. Medo. Eu tinha de ir junto. Naquele dia, porque trabalhava com crianças, vestia uma camisa social, calças novas e sapatos. E a bolinha estava na lama. Mas Fábio tinha medo. E eu, sem pensar muito, dobrei as mangas da camisa, apoiei os joelhos na terra (húmus…) e fomos juntos até o meio do caminho, em quatro apoios. De lá, ele seguiu sozinho até o meio da cama elástica e pegou a bola. Voltou confiante e feliz, sorrindo e abraçando. Me abraçando, a mim, que estava sujo e não sabia bem como ficar limpo de novo. A professora dele me perguntou, depois, se era aquilo que Montessori queria dizer com “deve saber humilhar-se”. Eu não sabia responder.

Mas era. A humilhação do adulto acontece no chão. Quando nos ajoelhamos na lama no meio de um dia de trabalho cheio de reuniões porque uma criança precisa de apoio moral. Quando sentamos na calçada porque nosso filho viu uma formiga carregando uma pétala de flor. Quando esperamos, sob sol quente e suor salgado, enquanto nossa criança sobe e desce de um degrau na calçada, cinco, dez vezes. Quando na noite de Natal deixamos o sofá para estar com os pequenos no chão, e deitamos para colaborar na montagem de uma estrutura difícil de erguer com blocos e peças de encaixar. Só descendo de nossos tronos de testa sem suor, calças sem manchas, e sofás socialmente bem-vindos é que poderemos ver o mundo sem orgulho.

Trata-se de um caminho sério. É um ponto de partida e uma meta. A humilhação não é o começo, para depois melhorar. Ela é a coisa toda. E a dignidade que surge também não surge só mais tarde. Ela surge desde o começo. Nossa dignidade não vem mais dos olhos adultos, que não compreendem que o mundo só pode ser transformado quando descemos ao chão. Ela vem dos olhos da criança, que compreende nosso esforço, valoriza imensamente nossa dedicação, e surpreendentemente admira o adulto que por ela deixa de lado todo o orgulho, a ira e a tirania. Descobrimos, com um misto de surpresa e encanto, que nossas sugestões são então obedecidas como ordens, e que nossas ordens são quase mandamentos. Porque a criança nos viu, e nós vimos a criança, agora podemos falar e ouvir como não podíamos antes.

É claro, deve-se dizer, que nada disso significa abandonar os limites que se deve ensinar aos pequenos. Prejudicar-se, prejudicar outros seres vivos ou prejudicar o ambiente não pode jamais ser permitido ou tolerado, em nome da compaixão é que algumas ações da criança precisam ser interrompidas e é nossa responsabilidade ajudá-la a compreender o certo e o errado. Mas essas leis não são nossas. São leis do mundo, desde tempos imemoriais, e não são impostas por reis, mas pelo coração do humano: fazer bem a si, ao outro e ao mundo. É impossível ensinar isso por meio da tirania, com ações iradas dirigidas por um orgulho insano. Um bom caminho só se faz com passos bons, um de cada vez, não chão, na terra viva, que é húmus.

Sobre gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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  1. Lindo texto!! E veio em um momento perfeito. Tenho uma pequena de 2 anos e está passando por momentos difíceis, de transformação e hoje em um destes momentos de crise, descobri como ainda sou um adulto despreparado….. Descobri que ainda tenho um caminho muito longo a percorrer. Obrigada por dividir o seu conhecimento conosco!

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  2. Essa perspectiva do comportamento do adulto para com a criança é sensacional! Até me emocionei com o texto! Parabéns!

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