A Relação da Criança com a Verdade

Mentimos para proteger aos outros e a nós mesmos. Falamos a verdade por inocência e por princípio. Mentimos para obter vantagens. Falamos a verdade por medo. Sejam quais forem os motivos, falar a verdade e mentir, com consciência da verdade e da mentira, são processos sociais complexos que exigem um trabalho mental de igual complexidade.

Do ponto de vista da linguagem, existem dois princípios que organizam nossa comunicação, e que estão em relativa oposição. O primeiro é o princípio da Verdade, e o segundo é o princípio da Proteção.

O princípio da Verdade estabelece que, para a comunicação funcionar bem, é necessário que falemos com o máximo possível de verdade e que acreditemos, constantemente, que o outro também está falando a verdade. Se, por exemplo, perguntamos as horas a alguém, e a pessoa nos informa que são “três e quinze”, nós não olhamos com uma expressão desconfiada para o informante e insistimos: “ah, fala a verdade, vai? Que horas são?”. Com raríssimas exceções, a comunicação existe sobre pressuposto de que todos os envolvidos falam o que acreditam ser verdadeiro.

O princípio da Proteção estabelece que nós nos comunicamos buscando, por um lado, proteger a nós mesmos – da vergonha, do constrangimento, de olhares negativos – e ao mesmo tempo tentamos proteger o outro das mesmas coisas. Assim, alguém pode dizer que não é culpado por algo, ou que nunca participou de um tipo qualquer de ação, para se proteger do constrangimento que a confissão engendraria. Por outro lado, podemos dizer que “esse sapato fica ótimo em você”, “o seu trabalho ficou muito interessante”, ou “sua participação na reunião foi valiosa” para proteger o outro da vergonha ou do constrangimento, também.

Em um primeiro momento, a verdade e a proteção parecem se chocar. E do ponto de vista filosófico é válido dizer que se chocam, abstratamente. Mas, na prática, todos os falantes de uma língua sabem com um alto grau de precisão quando e quanto quebrar cada um desses princípios, quando valorizar um deles em lugar do outro, e quando abandonar um deles deliberadamente. Os efeitos dessa flexibilidade com os princípios da comunicação também são conhecidos de todos nós. Para retomar o exemplo dos sapatos, um colega poderia se aproximar e perguntar: “Esses sapatos ficam bem em mim? Eu comprei ontem e adorei, mas são tão diferentes…” – E nós poderemos responder: “Ficam! Ficam interessantes. São diferentes mesmo, mas são bem legais.” – Talvez nós não tenhamos gostado dos sapatos, e há pessoas que seriam mais verdadeiras e menos protetoras, mas no exemplo, o que ocorre é que eu quebro o princípio da verdade e obedeço ao da proteção, enquanto que sei que o meu interlocutor continua considerando que o princípio da verdade está sendo obedecido e não considera que o princípio da proteção tomou a frente nesse evento de comunicação.

O trabalho envolvido na inverdade, mesmo na mais banal delas, é intenso, profundo e complexo. É um trabalho executado o tempo todo pelo adulto, para falar ou perceber mentiras, mas são habilidades que se desenvolvem devagar, na infância, por um processo de adaptação ao ambiente. Processo esse que a criança leva a cabo em vários aspectos de seu desenvolvimento, dos quais somente um é o exercício da flexibilização dos princípios da verdade e da proteção. Nós chamamos esse de mentira.

Um estudo desenvolvido na Universidade da Califórnia identificou que mentimos, em média, uma ou duas vezes por dia. Em geral, tratam-se de mentiras inócuas, para proteger a própria imagem, ou para dar desculpas. Eventualmente, mentimos para parecermos melhores do que somos. Mas, num estudo subsequente, foi identificado que a maior parte das pessoas já mentiu pelo menos uma vez sobre algo realmente sério – para esconder uma traição ou conseguir um emprego, por exemplo.

Essa manifestação tão onipresente da mentira ocorre também porque mentir é uma maneira de dobrar o outro à nossa vontade, e é muito mais fácil que o uso da força física. Segundo reportagem recente da revista National Geographic, a verdade seria natural, mas a mentira exigiria de nós algum esforço e um raciocínio aguçado e flexível. A mentira seria parte do desenvolvimento, como andar e falar. E as crianças aprenderiam a mentir entre os dois e os cinco anos, quando testam sua independência.

A habilidade de se relacionar com a verdade de forma dúbia, entretanto, muda com a idade. Crianças de dois anos têm imensa dificuldade em esconder a verdade, enquanto que metade das de cinco anos são capazes, e somente vinte por cento das de oito anos não conseguem fazer isso.

Montessori enumera diversos tipos de mentiras em seu livro A Criança. Algumas delas mais inócuas e outras menos. Há, para Montessori: a mentira inconsciente, à qual a criança é induzida pelo adulto; a mentira que funciona como uma defesa atrás da qual se esconde a criança; a mentira que é o desejo de narrar algo incrível e toma quase a forma de arte e a mentira racionalizada.

O que ocorre de mais curioso aqui é que em nenhum dos casos Montessori culpa a criança pela mentira e, por isso, eu gostaria de passear com você por todos essas variações da inverdade na infância, e quem sabe assim nós possamos entender melhor como funciona, e como podemos ajudar, a relação de nossas crianças com a verdade.

A mentira inconsciente é objeto de preocupação de quem trabalha com a lei e com a pesquisa. Com grande frequência, a criança é induzida à mentira pela criação de falsas memórias, por parte do adulto, pela incorporação de narrativas adultas alternativas ao fato, ou por perguntas que induzem a um raciocínio que, pela lógica, desaguará em uma conclusão distinta daquilo que efetivamente ocorreu. Por exemplo, o relatório da UNICEF sobre violência contra a criança enumera, entre as dificuldades do levantamento de dados, a forma flexível do relato infantil, que pode comunicar a inexistência da violência, quando de fato ela ocorre, mas não é dita porque a criança enxerga o acontecido pelo ponto de vista de um adulto que narra a ela uma história diferente da real, e distorce sua percepção do mundo.

A mentira que é uma defesa, talvez uma das mais frequentes na infância, é, para a Montessori, “uma defesa óbvia contra a violência adulta”. Não exige muito para que percebamos que a maior parte das mentiras defensivas da criança ocorrem mesmo por medo. Esse medo, entretanto, não precisa ser do que enxergamos como castigo. Pode ser o medo de uma conversa desagradável que necessariamente se seguiria ao malfeito, ou o medo da perda da independência de fazer algo que a criança já se julga capaz de fazer sozinha. Trabalhar com as más ações com sucesso significa muito mais do que simplesmente não “colocar para pensar” ou não bater na criança. É adentrar sua fragilidade e ajudá-la sem causar nenhuma ferida, no terreno especialmente frágil da culpa, da vergonha e da autoestima.

A mentira pelo desejo de se narrar algo incomum tem uma origem curiosa. Ela é explicada de forma bela por Donna Goertz em um texto muito interessante. A criança vê o adulto narrando coisas que virão a acontecer e, por mais improváveis que sejam, elas geralmente acontecem mesmo. Os adultos sabem quando alguém vai chegar, quando vai fazer frio ou calor, se vamos ou não chegar a tempo de fazer alguma coisa… Os adultos que não vivem com Montessori sabem até quando chegará o Papai Noel e o Coelho da Páscoa, esses seres de (in)existência complexa. A criança acredita que pode, ela também, saber das coisas. Que ela também pode criar a partir das palavras. Que se o mundo obedece às palavras do adulto, poderia também obedecer às dela. E abracadabra. Cria máquinas que não existem, passeios que não acontecerão, presentes que nunca vieram. Para além do refúgio em mundos de fantasia, a criança pode tentar criar no mundo real, com a ilusão de que a realidade possa se dobrar ao verbo.

A mentira racionalizada, que é uma variação da mentira de defesa, pode vir a ser porque a criança precisa dizer algo que “não pode”. Bastante comum em casos de pedofilia, por exemplo, em que a criança pode criar um desgosto de ir até algum lugar ou ficar na companhia de alguém, por motivos aleatórios e improváveis, e que de fato escondem uma narrativa mais complexa e mais trágica do que aquela costurada pela criança. O processo aqui pode ser consciente ou não, mas se trata de algo mais complexo do que somente historinhas como “não fui eu que quebrei o copo, foi o gato” e, de novo aqui, a criança não mente por imoralidade, mas por medo.

Porque em ambientes montessorianos as crianças sentem menos medo, não estão sujeitas a ameaças adultas e não sofrerão punições, a mentira é muito menos frequente e, de fato, a sinceridade da criança montessoriana é notável e, por muitas vezes, desconcertante. Porque fala sem medo, sem a necessidade da proteção constante, e sem a necessidade de proteger o outro – já que a vergonha tem uma participação insignificante na sala –, a criança pode dizer a verdade inteira, o que é um procedimento de comunicação incomum e frequentemente malvisto pelo adulto menos preparado.

Donna Goertz é uma adulta que sabe navegar o território da verdade com as crianças, e gentilmente ela nos oferece muitas sugestões em um texto interessante, chamado – em uma tradução livre – “Mentiras, não. Desejos e sonhos”. Os conselhos de Donna são numerosos, e eu selecionei alguns para trazer aqui.

A todo custo, evite o medo. Amedrontar uma criança é uma estratégia pobre de educação. É um recurso que exige muito pouco de nós e que não funciona de verdade. E é abrir a porta para a criação. Quando uma criança enxerga na flexibilização da verdade a única maneira de escapar de nossa ira e tirania, ela muito provavelmente narrará uma história diferente daquela que envolve sua parcela de responsabilidade no acontecido.

Podemos deixar clara nossa inabilidade de criar com as palavras. Com frequência, cometemos erros. Também com frequência, nossas crianças nos veem remendando a situação. Na hora em que alguém nos pergunta, por exemplo, “Você deixou a chave em algum lugar?” ou “Você perdeu as chaves?”, nós podemos, na frente da criança, responder: “Eu adoraria dizer que não perdi, mas eu perdi sim”, ou “Eu queria poder dizer que foi o gato, mas eu deixei em cima da pia”. Isso mostra à criança que a realidade é menos flexível do que parece, mesmo quando isso é desconfortável.

Dar vazão à criatividade em lugar da competição. Às vezes, as crianças criam histórias para se equiparar aos amigos. Se um andou a cavalo no final de semana, o outro diz que andou de bicicleta. Se um voou de avião, o outro voou em um foguete. Se um foi à casa da avó, o outro foi à casa do tio avô. Nessas horas, quando sabemos que há uma criação em jogo, podemos sugerir uma atividade que derive daí. “Eu também estava imaginando isso. Como será que era essa casa das nossas imaginações? Pensei nela vermelha, com um telhado colorido… Quem será que pode fazer o desenho dessa casa? / Quem será que pode escrever sobre isso? E quem pode pensar em um começo para essa história?…”

Evitar rotular crianças e julgar comportamentos. Mesmo quando uma criança vem delatar outra por uma mentira, podemos pensar juntos que ser capaz de criar histórias não é de todo mal, vide autores de fantasia preciosos, como Tolkien e Lewis. Mas, podemos também expressar compreensão pela importância que a criança que delatou dá à verdade, e a como chateia essa criança escutar coisas em que ela não acredita. Ao mesmo tempo, podemos explicar que aquela criança que criou a história ainda não consegue contar o que aconteceu, mas que está cada dia mais próximo disso, e que logo será capaz de o fazer. Então, podemos dizer à criança que contou a história: queremos ajudar você a ter coragem para contar o que aconteceu de verdade, em vez daquilo que você gostaria que tivesse acontecido. Sabemos que você vai conseguir.

Conversar sobre os sentimentos da criança que levaram a uma ação errada pode ser mais interessante que acusá-la da ação simplesmente. A criança podia estar frustrada, chateada, incomodada, com raiva, contrariada, triste, com saudades, sentindo-se sozinha, querendo carinho, ou muitas outras coisas. E conversar sobre os sentimentos que causaram o comportamento dá-nos chance de uma conexão profunda com a criança.

Nesse ponto, ajuda-nos também pensar no que aprendemos com Brené Brown. Brown, que é pesquisadora de conexão, vulnerabilidade e vergonha, explica que estamos dispostos a muita coisa para não perdermos a chance da conexão com nossos pares. A chance de nos sentirmos dignos de amor. Se isso é colocado em risco, podemos mentir e ter comportamentos pouco saudáveis para nós e para os outros. Por isso, preservar ambientes emocionalmente seguros é tão importante. Só num terreno seguro, sem risco de perda de afeto, a verdade pode brotar e se desenvolver com segurança.

A criança se adapta ao seu meio. Seu desenvolvimento não é alheio ao comportamento dos adultos à sua volta, mas é profundamente influenciado por eles. Por isso, em um meio no qual haja constante necessidade de luta, proteção e defesa, a criança criará muralhas e rotas de fuga, na forma do refúgio em mundos de fantasia e na forma do afrouxamento de sua relação com a verdade.

A verdade não pode fincar raízes e brotar em um terreno no qual pode, a todo momento, ser atacada, ferida, isolada, castigada e excluída. Fica, como em terra seca, retorcida, pequena, estranha. Mas em terra fértil, onde pode ser aceita, onde não precisa ter medo de se manifestar, onde seus brotos tímidos serão recebidos com gratidão, paciência e afeto, a verdade cresce, frondosa e forte, e produz não somente frutos, mas condições para que mais verdades manifestem-se também. A criança que pode falar a verdade é uma força para a melhora do mundo. Ela ajuda o mundo a ver a si mesmo com mais realidade, com menos medo do que se é.

Cada verdade é um broto pequeno e tímido, que nós devemos ajudar com conexão, segurança e amor, dando exemplos de uma relação pacífica com a verdade e oferecendo sempre a proteção necessária. De maneira que, na nossa relação com a criança, e na relação dela com a verdade, os princípios da verdade e da proteção não sejam contraditórios, mas complementares. Uma outra comunicação se faz assim. Uma que tem algo da verdade que queremos ver no mundo.


Você gostou e quer descobrir mais?

selocurso


4 comentários sobre “A Relação da Criança com a Verdade

  1. Boa noite,
    Achei o texto um pouco complexo,
    um tanto cansativo, para uma avaliação de comportamento. Sendo mais enxuto, e com uma leitura mais fácil, acredito que o objetivo ao qual se destina se tornaria mais interessante.

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    1. Obrigado, Soeli! De fato, o texto é muito longo e muito complexo. O assunto é dificíliimo de ser tratado de forma breve. Em textos seguintes, poderei abordar aspectos do assunto, e aí será com certeza mais breve e fácil de ler. Esse, como alguns poucos outros textos do Lar, é um texto base. Os textos base são grandes e difíceis. Obrigado por mesmo assim se interessar.

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  2. Obrigada!!!.começei recentemente a trabalhar em uma escola de educação infantil,aqui na minha cidade.de CAXIAS DO SUL.RS. como educadora,,a escola utiliza os metodos montessori, acredito ser a unica daqui,pois eu nunca tinhavsto falar. Fiquei maravilhada e encantada com o ambiente, brinquedos ou atividades,tapetes, fui sugada e estou adorando, embora na minha atual ignorancia do assunto,estando em fasede aprendizado… procurei na internet, pelo assunto,me inscrevi no canal LAR MONTESSORI e no canal do GABRIEL,descobrindo sim que na pratica existe um lugar parecido ..com o dos videos..gostaria imensamnte de saber mais, estudar e pesquisar sobre o metodo,tão sabio e diferente de tudo aquilo do qual fui criada e que aprendi no magisterio… me chamo Veridiana dos S. Leite.tenho 40 anos e meu primeiro trabalho foi aos 17 anos de idade como recreacionista ouatendente de maternal em uma escolinha….mas ha uma semana conheci a escola descobrindo o mundo. e estou feliz e orgulhosa.054996669200-resid 05430252549. abraço a todos voces.. e muito obrigada pelos videos….aguardo mais. sobre o assunto..fiquem com DEUS.

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