Cinco Coisas Boas (ou Como Amar as Crianças Quando é Difícil)

Às vezes, amar é difícil. Este texto não vai fazer ficar fácil de repente. Mas ele vai dar para você um exercício simples, que vai ajudar a tornar o amor possível. Um exercício que desenvolvi enquanto estudava com meus formadores em Montessori, e vivia com crianças, em casa e na escola.

Quando eu comecei a conviver com crianças e adolescentes, às vezes me via olhando e agindo com ira e tristeza. Para mudar isso precisei de mais de um exercício. Mas houve um que mudou minha vida, minha família, meu trabalho e minha forma de ver pessoas. Eu o chamo de Cinco Coisas Boas.

Geralmente, não sentimos raiva de repente. Quase sempre, são gotas de incômodo, que se acumulam, uma a uma, até tudo transbordar e despejarmos nosso excesso de sentimentos nos outros, fazendo com que eles também venham a transbordar no futuro.

A chave de tudo o que este texto ensina é parar nas primeiras gotas.

Quando você perceber que há uma gota caindo, pare bem aí. Deixe ela cair, se for o caso, mas pare bem aí. Um copo d’água, uma respiração profunda, uma caminhada e uma parada na janela ou na varanda. Dê-se trinta segundos (dois minutos, se alguém puder olhar as crianças), mas nesses trinta segundos, sinta o ar nas suas narinas, a água na sua garganta ou o vento no seu rosto. Então, pegue um papel e uma caneta.

No papel, enumere uma lista em branco, assim:

1.
2.
3.
4.
5.

Em seguida, pense em uma coisa boa sobre seu filho. Qualquer coisa. Anote na lista:

1. Um olhar cheio de amor.

A essa altura pode ser que você precise parar o exercício, porque a vida entra no caminho. Tudo bem. Retorne, dê-se mais 30 segundos, e complete o segundo item:

1. Um olhar cheio de amor.
2. Desenha com cuidado.

De agora em diante, o exercício não vai mudar. Duas coisas são importantes: A cada coisa boa, pense só em uma, encontre só mais uma. Encontrar cinco é difícil, encontrar uma é mais fácil. E a cada coisa boa, pare, respire, caminhe, beba água, por trinta segundos faça um intervalo. Só aí retome.

A minha lista ficou assim:

1. Um olhar cheio de amor.
2. Desenha com cuidado.
3. Faz carinho e protege o cachorro.
4. Tem um abraço gostoso.
5. Tenta entender as conversas dos adultos.

Depois de terminar a sua, fique mais dois minutos respirando. Permita que essas cinco gotas façam parte de você também. Não só a raiva. Não só a tristeza. Também a alegria, também o contentamento.

É só isso. É simples assim, mesmo. O desafio não é o exercício. O desafio é fazer. Parar nas primeiras gotas, trinta segundos, enumerar a lista, trinta segundos, e uma coisa boa de cada vez. Respirar. Permitir as novas cinco gotas boas.

Este exercício é o mais simples que conheço para transformação de relações, e funciona para nos relacionarmos com crianças ou com adultos. O desafio é fazer. Quando está muito difícil e eu demoro para achar cinco coisas, aumento o número. Em um dia muito difícil, cheguei a dezoito. Em dezoito gotas boas, eu estava bem, e podia ficar em paz de novo.

A raiva não vai sumir da sua vida, nem a decepção, a vergonha ou a tristeza. Mas se você puder perceber nas primeiras gotas, e lembrar de Cinco Coisas Boas, então haverá mais cinco suportes para você ficar em pé de novo, sorrir de novo, amar de novo. E esse amor não vai ser só uma ideia. O amor vai ficar com você, nas suas ações, mesmo quando não estiver tudo bem.

Se você usou este exercício e foi útil para você, por favor, leve adiante, divida com amigos, parentes, até com seus filhos se eles já tiverem idade para entender. Vamos criar um mundo em que gostas boas importem de verdade.


Transforme sua forma de ver a criança:

Curso Montessori

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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