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Trabalho e Brincadeira II

Atenção. Este é um texto longo. Se necessário, leia em partes.

Parte I

Em nosso artigo anterior sobre o trabalho e a brincadeira, expusemos sucintamente – apesar de o artigo ser longo – as semelhanças e as diferenças entre o trabalho montessoriano e a brincadeira. Vale dizer o trabalho montessoriano, porque ele é diferente dos trabalhos escolares em geral. Como já vimos, ele se assemelha à brincadeira em uma série de pontos, e é construído com o objetivo de seguir a natureza e as necessidades fundamentais da criança, por isso, agrada-lhe imensamente poder dedicar-se a este tipo de atividade.

trabalho montessoriano, nesse sentido, é uma atividade de contentamento. A criança que a realiza sente-se completa, preenchida. Montessori desenvolveu materiais que permitem à criança construir-se enquanto aprende sobre o mundo que a circunda. Nesse contexto, mesmo os assuntos que podem soar áridos a quem os aprendeu em um ambiente tradicional tomam ares de maravilha:

“Pode-se constatar”, diz Montessori, “em muitas crianças colocadas em condições adequadas, uma paixão pela matemática, pelos grandes números, pelas grandes operações aritméticas, como também pelos cálculos de nível muito superior, como o estudo das potências dos números, a extração da raiz quadrada e cúbica e especialmente pelos problemas de geometria” (Montessori, Formação do Homem)

Na escola montessoriana, quando o ambiente é perfeito e os adultos muito bem preparados, o trabalho basta. A brincadeira, ainda que sempre permitida, não é necessária. A criança não a busca, porque satisfaz todas as suas necessidades com o trabalho ativo, concentrado e feliz. A socialização é intensa na sala montessoriana, e as oportunidades para colocar em prática a criatividade também. As mãos estão sempre em ação e há inúmeros objetos belíssimos para utilizar e compreender.

Em casa, nem sempre é assim. Evidentemente, não há motivo  nem oportunidade para que um ambiente preparado com todos os materiais faça parte do âmbito doméstico. Em casa, a casa basta. Deve haver adequação dos ambientes às necessidades e possibilidades da criança, o que significa abaixar a altura de muita coisa, incluir alguma mobília pequena, permitir o acesso da criança ao que pertence a ela e dar a ela oportunidade de escolhas, liberdade de movimentação e respeito ao seu tempo. O ambiente deve ser ordenado, assim como a rotina. As regras devem ser sempre respeitadas, para evitar confusões, e os adultos precisam se esforçar por serem pacíficos. Isso, se feito, permitirá a você notar que a criança, na verdade, escolhe fazer o que você faz e se desenvolve assim.

Ela vai querer lavar a louça como você lava, mexer no computador como você mexe, dobrar as roupas, levar o cão para passear, colocar quadros na parede, limpar o banheiro, dar comida para o passarinho ou os peixes, cuidar das plantas, colocar a tirar a mesa, assistir TV, jogar videogame (cuidado com esses dois últimos), pintar, lixar, costurar, martelar, encerar, vai querer polir, lustrar, vestir e despir, banhar-se. Só viver já tomaria todo o dia da criança em casa, especialmente se ela vai para a escola em algum momento. Além de tudo isso, ainda há infinitas possibilidades de exploração do quintal, da varanda, da área comum do prédio, dos parques e das praças, de museus… Os espaços do mundo, todos eles, são espaços de aprendizado e desenvolvimento.

Parte II

Entretanto a brincadeira pode atender a diversas necessidades infantis, se bem pensada e cuidadosamente feita. Algumas formas de brincar são mais interessantes do que outras, para a criança pequena. Para além de entreter e fazer passar o tempo, a natureza de brincadeiras realmente interessantes ajuda a criança a conhecer melhor a si mesma e ao mundo que a rodeia. Por isso, vamos agora passar a uma lista breve de pontos a se pensar sobre os brinquedos e o brincar em casa:

1. Pouco vale muito - não tenha muitos brinquedos. Tenha poucos. Se você precisa de um número, tenha dez, e deixe seis à disposição da criança, no máximo. É pouco provável que ela tenha real paixão, ao mesmo tempo, por mais de seis brinquedos. Libere e adapte o resto de sua casa, e se lembre de que toda a casa é ambiente da criança, assim os seis brinquedos não são as seis alternativas dela, mas mais seis alternativas para ela. Além disso, tendo poucos brinquedos, você pode pensar mais em cada um que for fazer ou adquirir, e pode gastar um pouco mais (de tempo ou dinheiro) também, com coisas melhores. Fora isso, e você vai adorar ver acontecer, poucos brinquedos levam a uma fácil administração da ordem – tanto você quanto sua criança terão mais facilidade em manter tudo no lugar.

2. Ame e conheça o universo – os brinquedos e as brincadeiras vendidas nas lojas e nos programas de televisão são, em geral, vazios(as), bobos(as) e ausentes de sentido. São feitos para distrair, entreter e, no limite, alienar. A criança, diferente do adulto, não sente necessidade de descansar do mundo real. Ela deseja absorvê-lo inteiro. Quando for escolher um brinquedo ou uma brincadeira, pense: “Qual maravilha do mundo real estou levando para meu filho (ou aluno) agora?“. Maravilhar-se com o real é o grande segredo de todos os cientistas, artistas, filósofos e líderes políticos e religiosos – experimente tentar você também. O seu filho, com certeza, vai adorar.

3. Viver é desenvolver – A criança não quer perder tempo. Ela deseja, mais que tudo, desenvolver-se e tornar-se independente. Vai aproveitar cada chance que tiver, desde descer, com dificuldade e esforço, de seu colchão ao chão, até pegar as frutas e os legumes das cestas da cozinha e manipulá-los com a mão e a boca. A vida é toda uma grande descoberta e uma grande oportunidade de crescer. Com a brincadeira acontece exatamente o mesmo. Ao planejar uma brincadeira para seu filho, tenha em mente o momento de seu desenvolvimento, as necessidades que ele vem manifestando e você vem percebendo em uma observação atenta. Não compre brinquedos que sejam autossuficientes, que façam tudo sozinhos. Não compre brinquedos que não servem para nada. Você pode presentear seu filho com um boneco ou uma boneca, mas dê mais do que isso. Os brinquedos legais, aqueles pelos quais ele vai se apaixonar, são aqueles que exigem muito de seu cérebro em formação, e aqueles que permitem a ele o que chamamos de final aberto, em que é possível trabalhar por muito tempo livremente, ou descobrir pela exploração e o raciocínio a solução de um enigma.

Parte III

Se você considerar os três pontos que levantamos acima, vai acertar (quase) sempre. Todos nós estamos sujeitos ao erro, e uma das belezas da vida é justamente que encaremos essa possibilidade como algo inerente à existência. Montessori sugeria que tivéssemos o erro como um “caro e inseparável companheiro de jornada” e o conhecêssemos muito bem, não para evitá-lo, mas para controlá-lo. Sempre que entregar um brinquedo à sua criança, um material ao seu aluno, ou desenvolver com eles alguma brincadeira, observe-os. Atente bastante para não se fascinar mais com a brincadeira cuja ideia foi sua, com o brinquedo que foi difícil de encontrar, do que com a reação da criança. Só ela importa.

Isto dito, abaixo seguem sugestões de brinquedos e brincadeiras. O Lar Montessori evita listas de atividades, porque deseja que você descubra a magia do real e as maravilhas de seu lar. Mas aqui é pertinente ajudar você nos primeiros passos. Pelas informações que seguem, agradecemos especialmente à equipe de moderação do grupo Montessori para Mamães, que vem fazendo um serviço fantástico de divulgação e auxílio para aplicação de Montessori em família. Se você for pai (no masculino), também é muito bem vindo lá.

1. Brincadeiras que envolvam todo o corpo – Circuitos de tarefas nas quais a criança deva empenhar seus braços e pernas, atividades que envolvam equilíbrio, força, cuidado nos passos. Desde uma linha traçada no chão, para crianças pequenas, passando pela amarelinha e chegando até a princípios de arvorismo. Brincar com cordas, bambolês, labirintos (que podem ser feitos com traços, caixas de leite, tábuas ou papelão), obstáculos, passar por baixo, por cima, passar em volta, entrar em espaços pequenos, tudo serve, tudo diverte e tudo ensina, do jeito certo, por meio da atividade feliz. Um link simples com algumas ideias para inspirar você vai aqui.

2. Espaços naturais abertos ou parquinhos naturais - mais do que o parquinho com máquinas e equipamentos que fazem tudo pela criança, amplos espaços com troncos, pedras, areia, mato e terra oferecem possibilidades muitas de exploração e descoberta. Mexer com diferentes texturas, carregar peso, transplantar, plantar, empilhar e construir são algumas das muitas atividades que um espaço natural oferece. Se não houver nenhum planejado para crianças perto da sua casa, experimente visitar espaços de mato de verdade. Se seu filho não for muito pequeno e o espaço não for selvagem demais, haverá muito que fazer e pouco o que temer. Veja algumas imagens inspiradoras e pequenos comentários aqui. Para todos os links, se você não lê inglês, use o Google Tradutor. São frases curtas em geral, e ele deve ser suficiente.

3. Brincadeiras de minimundo – tratam-se aqui do que se chama habitualmente de small world play, e que traduzimos mais ou menos livremente. É um tipo de brincadeira que envolve pequenos bonecos, miniaturas do mundo real. Não é necessário que sejam muito fiéis, e podem ser feitas em pano, madeira, ou (até…) plástico. As miniaturas são usadas em maquetes, que também podem ser feitas de vários materiais. A interação entre as formas humanas ou animais e seu ambiente é uma mímica do mundo real e ajuda a criança a simbolizar sua realidade e compreender melhor suas características. Podem ser abordados temas tais quais esportes, profissões, escola, família, transporte, animais selvagens, animais domésticos, paisagens, localidades geográficas. Da mesma maneira que o mundo real é infinito em suas maravilhas, o minimundo também é.  Lembre-se de que o faz-de-conta que parte da realidade é muito mais interessante para a criança do que aquele que precisa gerar todo um mundo de fantasia para acontecer, e tenha em mente também que o minimundo não substitui o mundo real – ele é sua mímica, sua imitação, e conta com a exploração do real para fazer sentido. Veja ideias aqui e aqui.

4. Faz-de-conta – isso é um assunto controverso em Montessori. Não por culpa de nossa precursora, mas por culpa de seus leitores. Montessori nunca foi contra o faz-de-conta. A brincadeira de fingir que tem como base o mundo real é uma exploração psicológica, criativa e emocional do mundo que circunda a criança. Evitamos, isso sim, embarcar em um mundo de fantasia, com elementos que fogem ao que pode ser percebido pelos sentidos e, portanto, confundem a criança em sua percepção da realidade, não a auxiliando em nada em seu desenvolvimento. Mas o faz-de-conta que copia algo real é belíssimo, e ajuda a criança a compreender melhor o ambiente em que vive. O teatro, as roupas e a atribuição de papéis é algo que surge naturalmente entre crianças pequenas, e é também algo que pode ser utilizado em casa. Como adultos, adoramos esse tipo específico de brincadeira. Atente para não exagerar e utilizá-la, como às outras, quando perceber que a criança a pede, de alguma maneira. Veja uma bela sugestão aqui.

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Mais fontes:

Além dos quatro tipos de brincadeiras que enumeramos aqui, há outras que se pode fazer, lembrando dos três princípios que enumeramos acima, e que buscaremos chamar aqui de “Princípios do Brincar”. No álbum criado por Nádia Monteiro, responsável pelas dicas acima e moderadora do Montessori para Mamães, você encontrará fotografias e comentários sobre várias formas de brincadeira inspiradas nos princípios psicológicos e educacionais de Montessori.

Você pode, também, visitar os links abaixo para conhecer mais sobre o assunto:

1. Artigo de Angenline Lillard sobre Montessori e Brincar: http://www.journalofplay.org/sites/www.journalofplay.org/files/pdf-articles/5-2-article-play-learning-and-montessori-education_0.pdf

2. Brincadeira ou Trabalho? Alternativa Errada – http://mariamontessori.com/mm/?p=2353

3. As Cinco Características da Brincadeira e do Trabalho Montessoriano – http://mariamontessori.com/mm/?p=2374

4. Recuperando o Trabalho como Alegre e Edificante: uma missão montessoriana – http://mariamontessori.com/mm/?p=2381

5. Montessori e Brincadeira do ponto de vista da família – http://www.howwemontessori.com/how-we-montessori/2011/05/montessori-and-play.html

 

Sobre gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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  1. “Pode-se constatar”, diz Montessori, “em muitas crianças colocadas em condições adequadas, uma paixão pela matemática, pelos grandes números, pelas grandes operações aritméticas, como também pelos cálculos de nível muito superior, como o estudo das potências dos números, a extração da raiz quadrada e cúbica e especialmente pelos problemas de geometria” (Montessori, Formação do Homem)

    Tão a cara do meu filho Vinícius isso. Comecei a introduzir Montessori, tanto o método como a filosofia, em nossa casa, quando ele tinha cerca de três anos (hoje tem seis). Como infelizmente não temos acesso à escola montessoriana, tenho feito ou adquirido alguns materiais ao longo desse tempo, e estudo bastante em fontes confiáveis sobre como usá-los. Atribuo ao método Montessori o amor dele pela matemática, e o desempenho acima da média para idade dele, o que acontece de forma absolutamente natural, movido pela curiosidade a respeito da ciência. Só para ilustrar: ontem ele chegou da escola, e como sempre acontece, reservo esse horário para ele usar livremente, ler ou brincar. Ele correu e pegou a tábua de furinhos da divisão. Ele chama de “jogo da divisão” e lhe causa tanto prazer ficar pescando divisões e completando os furinhos quanto qualquer outra brincadeira. Outro brinquedo que está muito em alta por aqui, com ele e com meu outro filho de 4 anos é o playmobil. Como são temáticos, há sempre oportunidade de ensinar algo através deles (faço cartões de definição para acompanhar), e os dois passam horas montando histórias e aventuras com soldados da revolução francesa, viagens espaciais ou homens da caverna.

    Obrigada pelos textos, Gabriel, abraços!

    Resposta
  2. Pingback: Sobre Brinquedos que Brincam Sozinhos | Lar Montessori

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