Dia das Crianças, não dos produtos

“Gosto muito do pôr do sol.
Venha, vamos ver um pôr do sol”.
(Antoine de Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe)
   Hoje, quando estava almoçando, liguei a televisão no jornal da tarde. O âncora dizia, enquanto víamos imagens de lojas e ruas: “E a 25 de Março está vazia! Para quem quer comprar o presente de dia das crianças, ainda dá tempo!”. 25 de Março é o principal centro de comércio a varejo em São Paulo, e é famosa por seus descontos fantásticos em produtos de qualidade baixa ou média.

   Na hora, veio-me à mente uma fala que havia lido no Facebook, dias antes: Neste 12 de outubro, faça com que o dia seja das crianças, e não dos produtos. Lembrei-me também do livro que já mencionei aqui em um artigo anterior: “The World Needs Your Kid” e do blog sobre miniamlismo da Jéssica, o Minimal Student.
   Crianças não ligam para brinquedos. Os pais que já conhecem e praticam Montessori há algum tempo sabem disso. Elas ligam para o prazer advindo do aprendizado que a experiência com o brinquedo proporciona. Então, não é o brinquedo que importa, são três outras coisas:
  1. o prazer
  2. o aprendizado
  3. a experiência
   Como o prazer certamente advirá do aprendizado e o aprendizado só pode surgir a partir da experiência, vamos pensar em experiências. Sabemos que a criança pequena gosta de usar os sentidos e adora ter trabalho. No dia das crianças, podemos proporcionar isso a ela de várias maneiras.
   Uma ideia é organizar um passeio em família para um parque, praça, ou oficina infantil. Em um parque, a criança pode explorar todo o entorno natural que lhe faz tão bem. Pode aprender as texturas das folhas, troncos, da grama e da terra. Ela pode sentir o cheiro das flores, pode ver (e pegar!) insetos, lagartas, minhocas… Cuidado com aranhas, taturanas e animais com ferrão, mas de resto, toda experiência sensorial é científica!
   Passear pelo parque pode proporcionar para ela a oportunidade de conhecer plantas diferentes, e lembre-se de que crianças adoram categorizar. Separar as coisas em flores, arbustos, árvores e ervas-daninha pode ser um jeito de ajudar seu filho a organizar o mundo. Além disso, claro, vale comer uns sanduíches feitos em casa com suco, água, leite ou chá e brincar de roda-roda, pular corda, esconde-esconde, pega-pega, rolar na grama e todas as outras brincadeiras que você e seu filho conhecem bem!
   A praça é um passeio menor, mas muitas vezes é tão bom quanto o parque. Aqui em São Paulo sei que há várias praças com parques de diversão e outras de beleza natural que vale a pena. Conheço uma chamada Praça do Por do Sol, que fica em um local bem alto da cidade e que permite ver o por do sol de um ponto de vista fantástico. Além disso, tem muita grama, árvores, espaços amplos para brincadeiras e conversas. Ir a uma praça pode ser mais fácil para uma família em que todo mundo trabalhe ou para uma criança que não goste de ficar muito tempo no carro, até chegar em um parque que fique longe.
   As oficinas infantis acontecem em várias cidades do Brasil durante o dia 12 de outubro e o fim de semana que o segue. Nem todas são legais. Algumas funcionam com base em competições, outras têm como tema personagens de desenho animado. Mas há um punhado que oferece oportunidades incríveis para as crianças: utilizar materiais recicláveis, superar obstáculos físicos como montanhas de almofadas ou ladeiras de borracha, conviver com crianças de outras classes sociais. Passar um dia em uma oficina assim pode ser muito, muito mais divertido do que ganhar um carrinho, uma bola ou um quebra-cabeça.
   Em alguns casos, porém, pode estar chovendo, pode estar trânsito, e um passeio pode ser bem complicado. Aí vale a pena dar o presente? Não. Não, por dois motivos: primeiro, as coisas são mais caras no dia das crianças, não compensa. E em segundo lugar, seu filho não pode associar seu afeto com objetos, com presentes. Seu afeto tem de estar nas suas palavras, nos abraços, no carinho que você pode e deve oferecer todos os dias.

   Se não houver nenhum passeio para fazer, não tem problema. Faça uma atividade sensorial, faça um pão e peça ajuda para fazer a massa, faça uma salada de frutas e precise de ajuda para cortar as frutas, uma faxina de mentira com ajuda para varrer um pedaço da sala ou do quintal. Se estiver frio, faça tudo de dentro de casa, e se estiver quente, plante uma flor no quintal, use a varanda para montar um brinquedo com tecido ou papel (e o principal não é o brinquedo, mas montar o brinquedo).

   Se você faz parte de uma família que aprecia uma boa educação social, também há vários locais que propiciam o contato entre diversas classes sociais, organizações que dão espaço para algumas crianças darem brinquedos para outras, e você pode ensinar sua criança a dar, sem esperar nada em troca.
   Finalmente, o que importa é fazer deste dia um Dia das Crianças, no qual seus pequenos sejam prioridades completas, em primeiro, segundo e terceiro plano. Dia 12 de outubro não é dia de dar presentes para seu filho, mas é dia de despertar o prazer advindo do aprendizado que surge a partir da experiência.
   Um abraço e feliz Dia das Crianças!

   

3 comentários sobre “Dia das Crianças, não dos produtos

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