A Paz de Montessori

As citações deste texto pertencem ao primeiro capítulo
do livro “A Educação e a Paz”, de Maria Montessori.

Em um jogo de antônimos, oporíamos com facilidade: bom x mau, grande x pequeno, vazio x cheio. E a despeito de reflexões filosóficas improváveis, consideraríamos corretos todos os pares. Em algum momento chegaríamos a parear, com alguma confiança: guerrapaz. Nós acreditamos, e somos feitos a acreditar, que em um lugar em que não se tem guerra, a paz habita. É assim nos condomínios fechados, nas comunidades pobres pacificadas, nos países em que se morre de fome, mas não de tiros. Montessori, entretanto, pensava radicalmente diferente. Para ela, a paz não se opõe à guerra. É claro que onde há uma não pode haver a outra, mas não é verdade que onde uma se ausenta a outra habita.

A história humana nos mostra que, assim que o invasor consolida sua vitória, a paz significa, para os vencidos, a submissão forçada, a perda de tudo o que mais lhes importa e a impossibilidade de usufruir dos frutos de seu trabalho e de seus sucessos“, nos diz a educadora em “A Paz”, o capítulo que resgatamos aqui. “Os vencidos são constrangidos a sacrifícios“, continua, “como se, do único fato de terem sido vencidos, fossem os únicos culpados, como se merecessem uma punição“. Esta paz, para Montessori, a paz dos povos vencidos e mesmo a paz dos vencedores, que se arrogam direitos sobre os vencidos, não é verdadeira e é, fundamentalmente, diferente daquela paz que reina entre os povos que nunca entraram em guerra ou que não conhecem seus flagelos.

A comparação que lemos em seu capítulo é entre a paz daquele que descansa em paz e a do que vive em boa saúde, tranquilo e feliz. Não se trata do mesmo fenômeno, do mesmo sentimento. E enquanto desejamos ardentemente a segunda, recusamos a nós mesmos e aos que amamos, sempre que podemos e com grande intensidade, o infortúnio da primeira. Nossa autora finaliza seu raciocínio dizendo-nos que “atualmente, a vida dos povos que não estão em guerra consiste em aceitar uma situação que foi criada por seus conquistadores“.

A verdadeira paz só poderá ser alcançada sob a influência direta do amor e sob os auspícios da harmonia universal. Se, em um plano ideal, todos concordamos com estas afirmações de Montessori, não nos cabe rejeitá-las por serem “pragmaticamente impossíveis”, mas buscar, com todas as forças e todos os recursos, as formas de possibilitar estas condições.

 

A Causa Fundamental do Conflito na Humanidade

Para isso, o primeiro passo é investigar as causas mais profundas e originais dos conflitos entre os homens. Os primeiros elementos que nos vêm à mente, é natural, são as injustiças sofridas pela população e as consequências de guerras anteriores que necessitam ser vingadas o tempo todo. Estes fatos, porém, são somente o estopim do conflito, na visão montessoriana. A causa é algo muito mais profundo. A outra opção que nos vêm à mente é imputar toda a culpa da guerra sobre um governante ou vários deles. É tentador. Mas verdadeiramente, se toda a população decidisse não lutar, jamais haveria guerra. Novamente, o líder que leva à guerra é somente uma figura que corresponde ao pensamento do povo.

Em Montessori, lemos que todas as guerras derivam, na verdade, de uma primeira: a guerra entre o adulto e a criança.  Esta acontece todos os dias, nos domínios da casa e da escola. Enquanto deveríamos “acreditar na criança como num messias, como num salvador capaz de regenerar a raça humana e a sociedade“, colocamo-nos, nós, nas posições de seres moralmente superiores, e deixamos à criança a impossível tarefa de satisfazer as nossas expectativas.  O trabalho fundamental da criança é criar-se. Para isso, precisa de liberdade, estímulos adequados, um ambiente preparado, e respeito a si, ao seu tempo, seu espaço e suas atividades. Precisa de silêncio, organização, tranquilidade e humildade por parte do adulto, para estar aberto a compreendê-la. O que fazemos, entretanto, na maior parte do tempo, é dificultar o trabalho da criança.

Quando ela tenta amarrar seu tênis, interrompemo-la, dizendo que está atrasada e retirando suas mãos dos cadarços, amarrando-os nós mesmos, e carregando-a no colo para o transporte que usaremos até a escola. Na volta, quando ela tenta desamarrar os tênis, fazemos o mesmo, dizendo – geralmente de forma rude –  que está atrasada para o banho. Quando se veste com os pijamas, está atrasada para dormir, e quando acorda de manhã cedo, atrasada para o café da manhã, e por isso precisa de nossa ajuda para vestir suas roupas e despir-se, para tomar banho e comer, para levantar e dormir. Às nossas vistas, a criança é um pequeno adulto absolutamente dependente, que precisa com urgência aprender a viver no mundo real.

Vimos uma guerra incessante que assola a criança desde o dia de seu nascimento e faz parte de sua vida durante todos os anos de sua formação. Esse conflito confronta o adulto e a criança, o forte e o fraco e, devemos acrescentar, o cego e o vidente. […] O adulto é verdadeiramente cego diante da criança, pois ela é dotada de uma visão real, de uma pequena chama luminosa que nos traz como presente.

Se, durante toda sua vida, a criança está em conflito com o adulto, se precisa todos os dias, incessantemente, por doze anos ou mais, lutar para conquistar sua independência, sua liberdade, para ter respeitadas suas necessidades – mesmo biológicas – mais básicas, e se esta luta é empreendida contra ela por aqueles a quem mais ama e admira, “logo que a criança chega à idade adulta, ela guarda, para sempre, para o resto de sua vida, os sinais característicos de uma paz que nada mais é do que um pós-guerra: destruições e ajustes dolorosos“.

Pensamos então que, desde o início dos tempos, o homem vem guerreando contra a criança. Talvez assim seja, mas não nos parece. “Construindo um ambiente cada vez mais distante da natureza“, nos explica Montessori, “e, portanto, cada vez mais inadequado à criança, o adulto ampliou seus poderes e, dessa forma, aumentou seu controle sobre a criança“.

A raiz primeira da guerra é enfim, compreendida;

A ideia errônea segundo a qual o adulto deve fazer a criança entrar no molde desejado pela sociedade continua a reinar. Esse desprezo grosseiro, consagrado pelo tempo, é a fonte do conflito fundamental e da guerra entre os seres humanos que, com toda a justiça, deveriam se amar e querer bem uns aos outros, em particular quando se trata de pais e filhos ou de professores e alunos.

 

A Solução Total para os Conflitos Humanos

Pelo fato de a tarefa fundamental da criança ser encarnar em si a personalidade humana – e encarnar aqui pode ser compreendido desde como metáfora espiritual até como o vocábulo exato para o desenvolvimento das conexões neuronais necessárias e dos músculos exigidos para a libertação da criança – pelo fato de ser esta sua tarefa, é a criança quem tem poder maior de alteração do ambiente, pois pode enxergá-lo de forma nova, utilizá-lo de forma outra e reformá-lo à sua visão. Creditamos aos artistas e aos gênios a capacidade de enxergar o mundo de outra ótica, e a louvamos. Toda criança, porém, carrega dentro de si esta possibilidade, e a desenvolverá se não a forçarmos a “esconder suas aptidões e se moldar às expectativas dos adultos que a sufocam“.

A criança, se não destituída de seus poderes e sua forma de ação pelo processo conflituoso e pernicioso que usamos chamar de educação, age de forma exemplar.

Cumpre sua tarefa com uma sabedoria interior, guiada por leis análogas às que guiam toda outra tarefa da natureza, seguindo ritmos de atividade que não têm qualquer semelhança com os do adulto agressivo inclinado à conquista.

O respeito à criança, o meio adequado ao seu desenvolvimento, a compreensão de suas necessidades de vida, são para Maria Montessori o verdadeiro elo entre educação e paz, a única forma de educarmos para a paz e garantirmos que o mundo caminhe, com seus habitantes mais importantes porque responsáveis pelo nosso futuro, em direção à paz verdadeira. Educacar para a paz não é transmitir determinados conteúdos da cultura à criança, mas é transformar-se como adulto e respeitar a criança.

Para nossa educadora, há duas soluções para a Paz, e que só podem existir unidas: um novo ser humano, melhor, e a construção de um ambiente que não deve mais fixar os limites às aspirações infinitas do homem. Para ela, “As leis e os tratados não são suficientes; o que é preciso é um mundo novo, cheio de milagres“. E diante da descrença pretensamente adulta de que não há milagres, afirmou:

Milagres? A criança pode realizá-los bem! Basta ver a maneira como ela procura avidamente a autonomia e a possibilidade de trabalhar, é suficiente constatar os imensos tesouros de entusiasmo e de amor que ela demonstra. […] Um mundo novo para um homem novo, é essa nossa necessidade mais urgente.

 

Breves Reflexões

Uma educação na qual se mande calar quarenta enquanto um fala é uma educação que prepara a todos para “uma atitude de respeito, quase idolatria, entre os adultos, paralisados diante dos dirigentes públicos, que se transformam em substitutos do pai e do educador, figuras que a criança foi obrigada a ver como perfeitas e infalíveis”. Uma educação assim prepara o mundo para massacres como os do regime nazista, na Alemanha, e para governos totalitários, como o Fascismo italiano.

A “fraqueza, o servilismo e a anulação da personalidade” resultantes de uma escola em que se tenha como objetivo ser “melhor que seus colegas, [ser o] primeiro e que [passar] triunfalmente pelos exames efêmeros que regulam a monótona vida escrava”, estas qualidades servis são aproveitadas por aqueles que, sendo líderes, levam às guerras desiguais tais quais a que hoje ocorre entre Estados Unidos e Oriente Médio.

Os homens que foram educados deste modo, que foram obrigados a não ajudar seus colegas de escola durante as provas, de quem se exigiu que trabalhassem sempre sozinhos e em concorrência, estes não foram preparados para “serem caridosos com os outros, nem a cooperar com eles para criar um mundo melhor para todos”. São força de trabalho aproveitada para conflitos de duração infinita, tais quais os que assolam territórios de África e como o que perdura entre Israel e Palestina.

O homem hoje dorme na superfície da Terra que está prestes a engoli-lo.

E entretanto, já se acende a seu lado uma chama, a chama interior da criança, conhecida e explicada por Montessori, e que pode orientar seu caminho em favor de um mundo pacífico, e não pacificado, resultado dos esforços coletivos por um mundo novo para um homem novo. Nosso tempo anuncia, pela universalidade possível pela comunicação, um momento de decisão sem igual na história. Devemos finalmente escolher a forma de educar todas as crianças, e é importante que tenhamos em mente a necessidade de educá-las para sentirem dentro de si a influência direta do amor e perceberem a harmonia universal que pode reinar entre todos os seres da Terra.

Postado em Paz

6 comentários sobre “A Paz de Montessori

  1. Muito bom! Me fez refletir por que eu sempre achei absurdas as provas, as “colas” para os amigos, o clima chato na hora de saber as notas e os elogios por ser uma boa aluna ao mesmo tempo a sensação de não fazer parte do grupo por tirar boas notas… Que Montessori possa transformar essa realidade tirando de vez da história humana tamanha comparação e competitividade desnecessária! Ótimo texto Gabriel!

  2. Texto muito bom, inspiirador, a única saída para um mundo de paz, é realmente a gente parar com essa guerra, com essa cultura de guerra.
    Obrigado por compartilhar conosco.

    De qual livro são retirados estes trechos?
    Abraços

  3. Gabriel, esse trecho: “Todos falam de paz, mas ninguém educa para a paz. As pessoas educam para a competição e esse é o princípio de qualquer guerra. Quando educarmos para cooperarmos e sermos solidários uns com os outros, nesse dia estaremos educando para a paz.” é realmente de Maria Montessori? Encontrei esse trecho em diversas buscas na internet com assinatura de outros autores.

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