Períodos Sensíveis VII – Refinamento dos Sentidos

Os sentidos são as portas e as janelas do conhecimento humano. Por eles, o conhecimento entra. Mas não é pelos sentidos que o conhecimento se organiza, nem é nos sentidos que o conhecimento passa a fazer parte da personalidade humana. Os sentidos são os receptores do mundo: lemos, ouvimos música e observamos a realidade com os sentidos. Sentimos prazer e dor em decorrência daquilo que nossos sentidos absorvem ou não. Mas tudo isso faz sentido para nós e forma nossa identidade particular porque é relacionado, articulado e reconstruído no cérebro.

Durante todo o primeiro ano de vida, a criança absorve seu ambiente, mas está realmente preocupada em desenvolver habilidades iniciais de movimento para que possa selecionar em seu ambiente os elementos com os quais se envolverá.  Lillard explica, em “Montessori From the Start” que nos primeiros doze meses, o interesse maior da criança é a exploração de texturas, assim como de sensações variadas (desde peso até sons), sem muita ordem ou racionalização. A escolha do que se vai absorver é muito pequena, a criança é em grande parte refém de seu ambiente nos primeiros tempos de vida, por mais ativa que seja – e é – internamente.

A partir do segundo ano, considerando sempre pequenas diferenças individuais para cada criança, os pequenos começam a escolher o que vão fazer. De hábito, já conseguem andar, falam um pouco e controlam razoavelmente bem as mãos e os braços. Nessa idade começa o pico do período sensível para pequenos detalhes, assim como cuidados maiores com a ordem. Tudo isso leva a criança a desejar ser um mestre de seu ambiente, e para isso ela trabalha duro.

O refinamento dos sentidos é o processo por meio do qual a criança se torna capaz de perceber aquilo que, conscientemente ou não, deseja absorver do ambiente. Enquanto é muito pequena, pega o que lhe cai perto das mãos, cheira o que o vento lhe traz e vê o que seu assento ou leito permitem. Quando cresce um pouco, escolhe o que vai pegar e o que fará com isso, chega perto do que é aromático e inspira, vira para olhar e se aproxima para ver melhor. Sabemos bem dos perigos de uma fase em que “menores de três anos” podem pegar qualquer coisa e colocar na boca. O refinamento dos sentidos, até os três anos, é voluntário, mas inconsciente. Somente após os três anos a criança irá, além de escolher o que sentir, racionalizar suas escolhas.

Em “Pedagogia Científica”, Montessori explica que “a educação dos sentidos tem como objetivo o refinamento da percepção da diferença de estímulos por meio de exercícios repetidos”. Dito de outra maneira, o processo por meio do qual a criança educa a si mesma para agir no mundo é permeado pela repetição de atividades que atendem às suas necessidades interiores e formativas. Uma criança pode gostar, por exemplo, de encaixar potes uns nos outros – e quando os recipientes da cozinha ficam em uma prateleira baixa, qualquer família descobre isso rapidamente. Encaixar os potes é uma atividade que não tem um fim exterior. Não importa para a criança deixar tudo encaixado para caber melhor no armário ou ficar esteticamente agradável. Importa encaixar os potes e, em um nível mais fundamental, importa realmente desenvolver a percepção visual e a habilidade motora para selecionar os potes cada vez menores e encaixá-los uns dentro dos outros com sucesso.

O objetivo de qualquer atividade desenvolvida pela criança nessa faixa etária é refinar sua percepção do mundo. Ser capaz de distinguir objetos cada vez mais semelhantes em suas dimensões como sendo maiores ou menores entre si, e tornar-se capaz de selecionar nuances idênticas entre diversos tons da mesma cor são objetivos reais da criança. As atividades exteriores de encaixar ou enfileirar objetos e brinquedos, assim como o exame atento de figuras e padrões coloridos são só manifestações e exercícios para o desenvolvimento daquelas habilidades.

Montessori sempre partiu do interesse da criança para o desenvolvimento de seu método educacional, e disse, ainda em “Pedagogia Científica”: “com crianças pequenas, precisamos proceder por meio de tentativas, e selecionar os materiais didáticos nos quais elas se mostrem interessadas”. Em casa, não são necessários materiais didáticos. Em casa, a casa basta. Há frutas, verduras, potes, panelas, botões, grãos, tecidos. Em casa há tudo, e pode haver também alguns brinquedos educativos ou mesmo alguns materiais montessorianos, caso seu filho não estude em uma escola Montessori. Mas o necessário para a educação dos sentidos está em casa. O que precisamos fazer é aprender a enxergar com outros olhos aquilo que temos por perto.

Um canto da cozinha pode se tornar “o canto dos sabores” e todos os dias uma pitadinha de sal, açúcar, temperos variados, ou pedaços de um tipo de alimento podem ser colocados ali. Ainda na cozinha, pode-se fazer diversos exercícios de pareamento ou classificação utilizando-se pedaços de alimentos diversos, além de tarefas simples tais quais escolher grãos (como feijões e lentilhas) e mesmo cozinhar, com as crianças mais velhas, aproveitando para explorar os cinco sentidos com cada ingrediente e no preparo da receita. Aqui, aproveito para confessar que meu livro de cozinha favorito foi escrito pela ex-professora montessoriana Alice Waters, líder mundial do movimento Slow Food, que advoga que se ensine o cultivo e o preparo de alimentos para crianças e defende que assim elas têm mais prazer em comer de forma saudável.

A cozinha é um dos lugares onde há mais sensações a explorar. Mas a sala e o quarto podem guardar atividades incríveis também. Na sala, por exemplo, uma atividade com pareamento de figuras, formas ou cores, assim como um exercício com texturas de tecido ou ordenação por tamanho podem ser bem interessantes. Discriminação por peso é algo mais difícil de se fazer, mas ainda assim é possível ter uma caixinha com pedrinhas embrulhadas em tecido, por exemplo, que tenham mais ou menos o mesmo tamanho e formato, mas que por serem minerais diferentes, difiram no peso. Materiais presentes em casa não faltam, mas é necessário colocar a criatividade para funcionar. O quarto ou a varanda podem ter espaços de arte, onde a criança exercite livremente sua vontade de criar, e pinte, borde (literalmente falando), cole e desenhe à vontade, e você certamente saberá desenvolver ainda várias outras opções de atividade para sua criança.

A chave para ser capaz de auxiliar a criança no desenvolvimento de seus sentidos é observá-la atentamente, manter um registro destas observações, onde se note quais são os estímulos que lhe chamam mais à atividade e quais os exercícios que repete com maior concentração e por períodos mais longos. Tudo, na vida da criança, é exercício. Basta que nos eduquemos para perceber o mundo por seus olhos, e possamos, assim, oferecer a ela aquilo de que necessita nos diversos momentos de seu desenvolvimento. Lembrando que os períodos sensíveis acontecem em união quase sempre, é importante que o conhecimento sobre eles, separado para fins didáticos, esteja bem unido na sua cabeça, e possa ser articulado com suas observações e sua criatividade para preparar brincadeiras e trabalhos interessantes para a criança.

O objetivo da educação sensorial não é o aprendizado de conteúdos, mas o desenvolvimento dos sentidos em si. Acontece, no entanto, que a criança está desenvolvendo, ao mesmo tempo, sua linguagem e seu amor à ordem. Assim, desejará sem dúvidas ser capaz de nomear o que percebe no mundo, de forma a adquirir mais vocabulário e organizar mentalmente a realidade em categorias vocabulares. Depois da[s] primeira[s] vez[es] que a criança já tiver se aplicado com concentração e vontade a uma atividade determinada e tiver absorvido dela pelos cinco sentidos aquilo que pode absorver, nós podemos intervir e apresentar a ela os nomes das coisas. Para isso, e para finalizar este artigo, segue um exemplo de atividade com nomeação de cores.

Digamos que se esteja fazendo uma atividade de pareamento de cores (que pode ser realizada com cartolina, madeira pintada ou tecido colado a uma pequena peça de superfície dura). Depois de a criança ter trabalhado por algum tempo no pareamento silencioso das cores, usualmente alguns dias, ensinamos os nomes de duas cores. Para se ensinar à criança os nomes das coisas pela primeira vez, utiliza-se a Lição em Três Tempos:

1º Tempo: Inicialmente se mostra duas cores cujos nomes a criança não conheça e se nomeia a ambas: “Isto é vermelho; isto é azul. Vermelho. Azul.”.

2º Tempo: Em seguida, pede-se que a criança aponte, pegue ou mova “o azul”, ou “o vermelho”.
A lição no primeiro dia termina aí. Você pode descobrir, para sua grata surpresa, que a criança vai nomear estas duas cores em seu ambiente.
3º Tempo: Se isso não acontecer e você quiser checar se ela aprendeu os nomes, depois de um ou dois dias, pegue uma das cores que você já ensinou e mostre a ela, perguntando gentilmente, “você lembra o nome dessa cor?”. Caso ela não se lembre, você não precisa passar a uma nova lição – faça-o somente se perceber um grande interesse por parte da criança. Caso contrário, espere, pode ser que esse período sensível ainda esteja por chegar.

Munido do conhecimento sobre a necessidade do trabalho repetido para o desenvolvimento da própria sensibilidade e sobre o prazer que a criança sente em ser capaz de distinguir entre sensações cada vez mais próximas, assim como conhecendo algumas possibilidades de atividades que podem ser feitas em casa a partir de hoje, você só precisa observar atentamente sua criança, para começar a identificar sinais de quais sensações ela quer desenvolver. Ela está atenta às cores? Está produzindo sons batendo ou chacoalhando coisas? Está encaixando? Empilhando? Organizando de alguma forma? A partir das dicas que sua criança der, e levando em consideração os períodos sensíveis pelos quais ela provavelmente está passando, você será capaz de ajudá-la muito mais em sua conquista do mundo.


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