Montessori e Concentração

“A alegria e o contentamento vêm da concentração” – Thich Nhat Hanh

Se você acompanha o Lar Montessori há algum tempo, sabe da relação profunda que existe entre o método Montessori e o desenvolvimento da concentração. Essa relação não pode nunca ser esquecida ou desprezada. Montessori é explícita quando, em Mente Absorvente, declara que a concentração é o primeiro e o maior objetivo de seu método, e o surgimento da concentração, junto com os traços de caráter daí decorrentes são os únicos objetivos de seu trabalho.

A professora e pesquisadora da Universidade de Virgínia, Angeline Lillard, dedica-se, entre outras coisas, a descobrir as implicações de Montessori para o bom desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança pequena, utilizando-se das ferramentas da psicologia cognitiva. Em um trabalho recente (Mindfulness Practices in Education: Montessori’s Approach, 2011), Lillard expõe argumentos para defender a relação entre Montessori e o que chama de práticas de atenção. Nosso texto é baseado no artigo de Lillard, que você pode ler em inglês aqui.

Recentemente, enfrentamos uma onda de diagnósticos – verdadeiros e não-tão-verdadeiros – de crianças com Transtorno de Desvio de Atenção e Hiperatividade. À parte disso, professores reclamam o tempo todo da falta de atenção de seus alunos, e os alunos reclamam entre si de sua incapacidade de manter o foco de sua atenção por mais de alguns minutos. Há inúmeros culpados, mas decididamente enfrentamos uma pandemia de falta de concentração.

Esse texto é menos sobre a aplicação de Montessori em casa e mais sobre a aplicação de Montessori na escola. O Lar Montessori quase não faz isso. Mas dessa vez é importante. Esse texto está aqui para ajudar você a escolher a escola Montessori de seu filho. Procure uma escola que favoreça a concentração verdadeira, e então você poderá encontrar uma escola Montessori. Montessori não está em centenas de materiais em uma sala de aula, nem em professores com anos de experiência, não está em salas grandes e bastante decoradas, nem em ambientes que desejam preparar para o mercado de trabalho ou preparar as crianças para o mundo. Montessori está em escolas que buscam uma educação para a vida na vida, e que alcançam belos estados de concentração.

O ambiente escolar montessoriano é uma casa, que deve se parecer com uma casa doméstica, com mobília bonita e bem distribuída, sem excesso de móveis que impeça o movimento ou a circulação do ar. Há janelas amplas e que permanecem abertas quase sempre, permitindo o arejamento e a iluminação da sala. Os materiais nas estantes não precisam ser impecáveis (os de Montessori não eram) – eles precisam preservar suas características mais importantes e precisam estar em bom estado. Eles também não precisam ficar todos os dias exatamente no mesmo lugar, embora um bom nível de organização seja muito importante. As paredes são claras ou neutras, o chão pode ser de pedra, madeira, piso, ou algum material emborrachado, mas sempre de uma cor que não cause fortes impressões à criança, para que seja parte do ambiente e não mais um estímulo a ser absorvido. Sobre os materiais, novamente, devem ser escolhidos os melhores de que a escola puder dispor. Brinquedos tradicionais são habitualmente muito coloridos, e apresentam uma quantidade de desafios à criança que a confunde, sem ensinar ou organizar sua mente, e não levam à concentração.

Também é importante, e isso contraria o senso comum profundamente, que não haja muitos professores na sala. Uma quantidade grande de professores para poucos alunos transforma a sala em um ambiente tradicional, no qual os professores controlam tudo o que as crianças fazem, inviabilizando a liberdade de ação infantil.

Finalmente, não deve haver muitos materiais. Montessori foi explícita de novo aqui: “Enganamo-nos pensando que a criança ‘cheia de brinquedos’, sempre cercada de ajuda, ‘deveria ser a mais evoluída’. Muito pelo contrário, a multidão desordenada de objetos agrava seu estado de espírito semeando nele, novamente, o caos, oprimindo-a e desencorajando. / Os meios destinados a auxiliar a criança a pôr em ordem seu espírito e facilitar-lhe a compreensão das inúmeras coisas que a envolvem deverão ser limitados ao mínimo necessário para poupar suas forças e fazê-la avançar com segurança pelo árduo caminho do desenvolvimento” (Pedagogia Científica, p.107).

Todas essas características trabalham pelo desenvolvimento da concentração na criança pequena. Mas além delas há ainda outras. Em qualquer escola montessoriana, você encontrará crianças agindo como pequenos adultos. Servem sua comida, comem educadamente, lavam seus utensílios, secam tudo, guardam. Varrem o chão que sujaram e enxugam a água que deixaram cair. Ajudam-se mutuamente em suas tarefas diversas, cuidam do ambiente e de si mesmas e interagem livremente. A vida real que se faz presente na sala é chamada por nós de Vida Prática. Não se tratam de exercícios em bandeja somente, mas de aprendizados que podem ser estendidos a todas as ações no ambiente e que passam a fazer parte do dia a dia de cada criança.

O fato de as crianças aprenderem a como agir em sua vida, passo a passo, ajuda no desenvolvimento de suas funções executivas e joga a favor de altos níveis de concentração advindos de uma certa prática ritualística, que serve para organizar o pensamento infantil. Ensinamos tudo devagar, parte por parte, com detalhes e ênfases nos gestos, e em absoluto silêncio, para não roubar a atenção do trabalho em si. Assim, quando a criança parte para a ação, age com muito cuidado e atenção, consciente de cada detalhe de seu trabalho e – por que não dizer? – de sua existência no ambiente.

Para que os pequenos possam agir com liberdade é necessário, como se diz frequentemente, respeitar seu tempo. Montessori mediu o que isso significa e encontrou uma forma adequada de fazê-lo. Precisamos garantir períodos ininterruptos de três horas no mesmo ambiente preparado. Chamamos esse período de ciclo de três horas. É ele que permite à criança chegar na escola, começar a trabalhar com algo simples e ir numa curva ascendente até algum desafio realmente maior e que lhe exija de fato um alto grau de concentração. É como se a criança, sozinha, fizesse um aquecimento de concentração, focando sua atenção pouco a pouco, até estar pronta para o maior desafio do dia. Depois, ela ainda tem tempo para esfriar, admirar sua conquista, e proceder para mais algum trabalho que não lhe exija um nível tão alto de esforço ou simplesmente descansar e observar a sala. A presença de muitas atividades extracurriculares, ao contrário do que se pensa, não é positiva para a criança, pois quebra seu percurso de concentração e trabalho, desrespeita seu ímpeto natural de ação, fere seu direito de escolha e inibe sua liberdade. A garantia de um período de trabalho contínuo de três horas é um dos pilares práticos do método Montessori, e é o que permite o desenvolvimento pronunciado das mais diversas habilidades cognitivas.

É no momento de mais alta concentração da sala, quando o silêncio reina quase absoluto, que chamamos as crianças a um jogo breve, do qual se participa voluntariamente, e que leva a concentração a um nível que não se imaginava possível a crianças pequenas. O Jogo do Silêncio é um exercício que fazemos em sala, quando as crianças estão perfeitamente concentradas, e que as transporta para um patamar superior de apreciação da própria consciência e de reconhecimento do silêncio que nos habita, individual e coletivamente. Aproxima-se muito da contemplação ou da meditação, mas é realizado voluntariamente por crianças de três a seis anos, e mais velhas, e lhes permite um mergulho intenso na própria personalidade e no nobre valor do esforço realmente coletivo.

Todo o tempo na sala, inclusive durante o jogo do silêncio, o corpo e a mente da criança funcionam juntos. Tudo o que a criança faz, faz com as mãos e o corpo. Tudo ela sente, tudo manuseia, tudo carrega, ajeita, empurra, encontra, levanta, transporta. Seu pensamento se expressa claramente por suas mãos. Essas últimas, disse Montessori, são os instrumentos da inteligência humana, e vale pensar nesses instrumentos como instrumentos musicais, que permitem à criança tocar, em cada um de seus aprendizados, a harmonia do universo em seu constante processo de desenvolvimento. Carl Sagan, astrônomo de imenso destaque, dizia que “Nós somos uma forma de o universo conhecer a si mesmo”, e quando vemos a sincronia entre mente e mãos na atividade de uma criança pequena nos tornamos testemunhas da intimidade absoluta que há entre o universal e o fundamentalmente humano.

Qualquer interação entre professor e aluno que iniba a atividade das mãos da criança é uma privação de sua liberdade. Por isso, as apresentações de materiais duram poucos segundos, e por isso ensinamos muito pouco. No mais das vezes, permitimos que a relação entre a criança e o material lhe ajude em suas descobertas e dê suporte para sua organização mental.

As atividades de Vida Prática, todo o trabalho Sensorial, o entrelaçamento entre mão e mente mesmo em estágios mais avançados da Aritmética e da Gramática, o Jogo do Silêncio, as Caminhadas na Linha, a análise dos movimentos, a simplicidade do ambiente, a liberdade para trabalhar, o ciclo de três horas, a restrição no número de materiais e de professores, tudo isso cria o ambiente perfeito para o desenvolvimento da atenção, da concentração e da consciência. “A felicidade”, disse Montessori, “não é todo o objetivo da educação. O ser humano deve ser independente em seus poderes e em seu caráter; capaz de trabalhar e afirmar seu domínio sobre tudo aquilo que depende dele”. E entretanto, todas as crianças são felizes em Montessori. Talvez Hahn esteja certo: da concentração vêm a alegria e o contentamento.


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