Montessori e Porque Crianças não Precisam Competir

Montessori tinha uma postura interessante diante dos valores morais da sociedade de sua época. No que dizia respeito às crianças, não interessava a ela avaliar se eram boas ou más, e não lhe interessava fazê-las boas. O objetivo de nossa precursora era descobrir a criança – encontrar, no comportamento infantil natural, as características fundamentais do humano. Para isso, ela estruturou um ambiente e uma forma de educação que, sobretudo, permitissem a liberdade e o desabrochar da criança, com o mínimo possível de limites impostos pelos adultos.

Deixando-as em liberdade nesse ambiente preparado, Montessori pode observar nas crianças o que hoje chamamos de reaquisição do equilíbrio natural. Utilizando os materiais, desenvolvendo sua independência na cozinha e nos cuidados do ambiente, de si e dos outros, cultivando um jardim de flores e uma hora… fazendo tudo isso, aos poucos as crianças encontravam um estado de ser que era sereno, concentrado, e feliz.

De forma muito curiosa, quando elas atingiam a concentração, muitos aspectos de seu comportamento geral mudavam repentinamente. Alguns desses mudavam, segundo os valores da época, para melhor: as crianças não mentiam mais, e não demonstravam mais arroubos de possessividade, por exemplo. Mas outros pontos sofriam transformações que deixavam – e deixam até hoje – os observadores confusos. As crianças passam a fazer muito mais silêncio, esforçam-se por períodos muito mais longos em alguma atividade, tem um controle muito maior de seus impulsos, de maneira que se chega a dizer, fora dos grupos com maior conhecimento de infância e Montessori, que nem parecem crianças. Nós sabemos, no entanto, que essas são as crianças em seu equilíbrio total, e que todas as crianças buscam isso incessantemente – tudo o que fazemos em Montessori é permitir.

Com a competição acontece algo semelhante. Se forçadas a ambientes nos quais sempre falta – atenção, atividade, gentileza, respeito – as crianças desenvolvem os mais diversos traços de comportamento para tentar remediar as feridas causadas por esses obstáculos. A vontade da competição é um dos traços que aparecem, então. Por isso, na escola comum e na casa comum, é tão habitual que as crianças e os adolescentes desejem competir, e construam, às custas de muita dor emocional, uma ligação profunda entre sua autoestima e suas vitórias em competições. Isso é trágico para um indivíduo humano, porque fragiliza em muito seu bem estar emocional e sua autoestima.

Porque nosso ser emocional infantil sabe disso (algo que Montessori chamava alternativamente de guia interior, psique, e embrião psíquico), ele busca constantemente o equilíbrio, em situações e atos que nos permitam uma construção adequada da personalidade. Assim, em um ambiente preparado, com adultos cujo comportamento para com a criança seja adequado, a competição desaparece. Ela não desaparece porque a diretora ou a mãe mandam. Ela não desaparece porque o pai ou o professor exigem. Não. Ela desaparece porque ela é um sintoma da falta e da presença de obstáculos. Ela é uma tentativa de remediar coisas. Quando não se infligem mais feridas à criança, ela descobre, por meio da concentração e do amor ao trabalho, que a competição (aquela agonia do ego frágil à espera da aprovação alheia ou pela comparação com o alheio) não é mais necessária.

Nas palavras de Montessori:

A criança tem a capacidade de educar a si mesma, não nas escolas comuns, com seus currículos precisos, onde as crianças precisam ser obedientes, mas numa escola onde elas não são controladas, não precisam competir, mas podem trabalhar com entusiasmo em acordo com leis naturais. – 1946, p.33

e

a competição [é] uma coisa ruim, [mas] depois da chegada da concentração, ela desaparece de toda forma, porque as crianças se interessarão pelo trabalho.- 1946, p.230

Ficam, então, duas perguntas que devemos responder agora. Primeiro, sabemos que a reaquisição do equilíbrio natural da criança acontece entre os 3 e os 6 anos de idade. E se a criança já é mais velha, como fazemos?

Se a criança tem entre seis e doze anos, então está em uma idade na qual o trabalho em grupo interessa-lhe sobremaneira. Devemos aproveitar isso. A criança dessa faixa etária deve ter não só permissão, mas estímulo da escola e da família para trabalhar em grupo. O adulto responsável por essas crianças deverá, então, ensinar como se dá um trabalho em grupo, auxiliando na divisão de tarefas, na coordenação do tempo e do seu uso e, especialmente, nas dificuldades interpessoais que as crianças não puderem resolver sozinhas. Esse adulto, como acontece sempre, deve ser um observador cuidadoso do comportamento infantil e necessariamente é profundamente compassivo: ele precisa saber que as crianças que ainda sentem um impulso para a competição não são inimigas do bem estar geral, mas estão antes feridas e incertas sobre seu lugar, sua importância e seu direito ao mundo e ao bem estar emocional.

Caso trabalhemos ou criemos adolescentes, a cura dos ferimentos aparece de outra maneira. O adolescente precisa descobrir para que é bom em uma microcomunidade. Ele precisa fazer parte de um grupo social (da igreja, dos escoteiros, da luta marcial, de uma ONG) e nesse grupo ele precisa ser útil para a comunidade. A utilidade é para o adolescente o que oferece a base para a construção psíquica saudável. Quando o adolescente não pode fazer parte de uma comunidade, ele busca outra – infelizmente, muitas vezes as pessoas erradas sabem bem demais como aproveitar a necessidade de comunidade do adolescente. Quando ele consegue ser útil, descobre-se tendo valor, e acontece o processo de que chamamos de valorização da personalidade, quando feridas antigas curam-se, e o adolescente pode voltar a se construir em paz e na paz de um grupo saudável.

A segunda pergunta que nos cabe aqui é como ficam os esportes, se a competição não pode ser alimentada? Montessori, para nossa sorte, teceu alguma observação sobre isso, e disse:

Não se faz esportes somente pela competição; ele é um exercício. 1946, p.120

Nesse sentido, o esporte precisa ser valorizado pelas habilidades físicas, sociais e psicológicas que pode gerar no indivíduo humano, muito mais do que pela sede da vitória a todo custo que pode surgir por uma péssima administração dos seres emocionais que habitam uma quadra ou um campo. É possível, por exemplo, fazer um jogo, com times e tudo, e valorizar nesse jogo quanto cada um melhorou, quanto cada time jogou bem entre si, onde é que há aperfeiçoamentos a fazer, e enfocar muito mais o fato de que Fulano não foi integrado no jogo tanto quanto poderia do que o fato de que Se tivéssemos integrado Fulano no jogo podíamos ter feito mais pontos antes do final do primeiro tempo.

Os valores humanos e as habilidades físicas podem ser mais trabalhados do que a vitória. Quanto a ela, existirá. Mas será compreendida pelo que é: um resultado do empenho verdadeiro de uma equipe, e não uma conquista sobre um oponente. Quando isso acontece, não vemos atletas cujos corpos são rapidamente destruídos pelo alto desempenho físico, nem vemos as trapaças mais diversas e tão comuns, mas sim humanos cuja autoestima e cujas habilidades físicas e sociais desenvolvem-se pelo bem de si e pelo bem do todo.

Referências principais para este texto:
A Criança, de Maria Montessori (livro)
The 1946 London Lectures, de Maria Montessori (livro)
A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown (livro)


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s