Montessori e Elitismo

Há alguns meses, uma conversa recorrente sobre Montessori ser uma pedagogia elitista ressurgiu em um blog de maternidade, e apareceu também no maior grupo de Montessori em Família do Brasil. Diante disso, um posicionamento é necessário. Rapidamente, quero passar por alguns pontos aqui.

1. Montessori é Elitista?

Não, não é. Elitista, por uma definição simples, é aquilo que adere à elite, que é feito para ela, ou que se busca reservar para ela. Na raiz, Montessori foi feito com e para crianças e famílias muito pobres, mas isso por si só não quer dizer nada. O que, para mim, demonstra o não-elitismo de Montessori é que eu ainda não conheci uma só pessoa envolvida há muitos anos em Montessori que de alguma maneira não tenha se dedicado a levar Montessori para crianças que, ainda hoje, não são a população atendida pela maior parte das escolas.

Praticamente todas as direções de escolas mais antigas e reconhecidas do Brasil já desenvolveram algum esforço nessa direção. A inquietação que se sente hoje não é nova, nem é surpreendente. Querer que Montessori chegue a toda a população como uma possibilidade de educação é desejo de montessorianos desde há mais de um século. Mas só aconteceu até agora em pequeníssima escala e muito lentamente. Por enquanto Montessori é muito caro. O que nos leva ao segundo ponto.

2. Montessori é Elitizado?

Sim. Isso é. Elitizado é aquilo que por um processo social acabou ficando restrito a uma classe privilegiada da população. E infelizmente Montessori ficou aí, sim. A diferença entre ser elitista e ser elitizado é que coisas elitizadas podem ser popularizadas e diminuir o problema.

O que levou Montessori a ser elitizado eu não sei dizer exatamente. É preciso um estudo muito aprofundado da história geral da educação no Brasil. Mas vale dizer que por anos, se não me engano décadas, as escolas públicas brasileiras receberam kits de materiais montessorianos que, desacompanhados de uma formação específica, foram inúteis e esquecidos [edit: uma leitora acaba de comentar que houve formação, sim, à época, e que não sabemos mesmo porque isso mudou depois].

Aconteceu com Montessori um paralelo estranho do que aconteceu com tantos outros teóricos da Educação. Pensem em Freire, Vigotsky, e nos outros tantos pensadores da Pedagogia. Quem era, para eles, a preocupação maior? Sempre as crianças pobres, ou vítimas da guerra. Para todo mundo, sempre elas. Onde estão a maior parte das pessoas que estudam esses teóricos a sério? Em universidades públicas, grandes, de excelência, excludentes, pouco acessíveis, com péssima comunicação com o público exterior. Nessas universidades eles são estudados até o limite. Na imensa maioria das universidades, estuda-se, sim, com seriedade, sim, mas com um nível de exploração menor, com um rigor frequentemente menor também.

Com Montessori, caímos fora da academia. Ela era mulher, católica e italiana, e dizia coisas que a academia tem dificuldade em aceitar até hoje. Ficou sendo estudada por pequenos círculos, centros e grupos especializados. Também excludentes, também com uma péssima comunicação com o público mais amplo. E ao público mais amplo sobraram noções gerais, formações precárias e livros sem reedição. Isso, por inúmeros fatores históricos, dificultou imensamente que Montessori se espalhasse.

3. O que se está fazendo sobre isso?

Bastante coisa. Mas o processo é lento. Há alguns anos surgiu o primeiro curso de formação no Brasil com certificação internacional, em São Paulo. Isso é um passo importante porque garante que avançamos na direção de uma formação com um padrão mundialmente buscado, e quer dizer que como país estamos tentando avançar na direção de um Montessori melhor aplicado.

Por que é que é importante um Montessori melhor aplicado se ainda é elitizado? Porque nós vamos precisar de muita gente muito boa se quisermos popularizar Montessori. Não se populariza educação com formação precária, como nosso sistema público vem mostrando bem. Tanto São Paulo como todos os outros centros formadores do Brasil estão vendo uma crescente demanda por Montessori, com números maiores de alunos buscando formação. E isso é feliz, porque vamos precisar de todas essas pessoas se quisermos Montessori em mais espaços.

Além disso, Organizações diversas têm iniciado trabalhos bonitos. Eu sei do Sul do Brasil e de Campinas, mas há mais lugares. Pessoas com algum conhecimento de Montessori começaram trabalhos, e buscaram, com os recursos que tinham e a colaboração de quem se dispôs, a estruturar espaços bonitos, caminhando na direção de Montessori. E se não chegaram lá, vão chegar. Já é tempo de aprendermos que Educação é um processo urgente e de longo prazo, ao mesmo tempo. Que nos cabe trabalhar com a urgência de quem precisa resolver o problema hoje, mas sabendo que ele se resolverá só muito aos poucos.

Há alguns anos a Organização Montessori do Brasil retomou a publicação de livros de Montessori, com livros menores, e nos dá a esperança de retomar as dos livros grandes também. O grupo Montessori para Mamães, mantido por quase vinte pessoas, atende sessenta mil, e populariza Montessori massivamente todos os dias – e aqui há espaço para dizer que se há no grupo coisas que não são precisamente montessorianas, isso faz parte de qualquer processo de popularização, as pessoas testam para saber o que cabe ali. O Lar Montessori e cada vez mais alguns outros blogs e sites trazem informação sobre criança e método para um sem número de famílias que dentro de suas possibilidades podem utilizar as descobertas de Montessori, antes encasteladas em livros de capa dura e formações especializadas. Nada disso pode ser desprezado.

Há esforços nacionais e internacionais por popularização do uso dos materiais montessorianos e sua confecção. No Escola Maria, um braço do Lar Montessori, temos vídeos com apresentação de vários materiais importantes de Montessori, além de downloads para confecção deles. E se você fizer uma busca aprofundada encontrará vários sites internacionais com muita, muita informação. Se quiser, pode começar pelos muitos links disponibilizados no Escola Maria mesmo. Não precisa se perder no Google sem saber no que confiar.

Além disso, o Lar Montessori disponibiliza bolsas de estudos para professores de escolas públicas que desejem fazer nosso minicurso online, e disponibilizará para todos os cursos online que surgirem. Se você quiser ajudar, pode presentear o curso para alguém ou adquirir para você. A cada dez matrículas, uma nova bolsa será gerada.

4. O que queríamos que fosse mais rápido, barato e fácil?
A coisa toda. Queríamos que Montessori chegasse mais rápido à universidade. Queríamos que os livros, as formações e os materiais montessorianos fossem facilmente acessíveis, e queríamos que ler Montessori fosse mais fácil e sistematizado do que é. Infelizmente, isso não é verdade, e não há ninguém a se atacar por isso. Quem dá os cursos cobra tão pouco quanto pode, e Montessori quando escreveu os livros também tentava ser clara – ainda hoje, uma das críticas acadêmicas a ela é que é simplista demais, e muito direta na “receita” do que fazer, o que prova que a academia não leu Montessori. Também, nossa legislação está pronta para Montessori, mas quem a interpreta não está, e é importante que quem for abrir as escolas esteja pronto para esse choque, porque vai precisar enfrentá-lo.

5. Mas, com tudo isso, as escolas continuam caras.

Sim, com frequência ficam entre as mais caras de suas cidades. Eu de tempos em tempos tenho vontade de começar uma. E essa vontade vira sempre uma planilha de Excel. Eu nunca cheguei a uma conta que fechasse em um valor que me encorajasse a seguir em frente, justamente porque atenderia somente a uma minúscula parcela da população. E não importa o que eu faça com os números, não baixo disso se mantenho um patamar mínimo de qualidade. A quem consegue eu entrego os meus aplausos sinceros. É bem verdade que eu não sou um profundo conhecedor de números. Mas eu conheço bem Montessori. É difícil, de verdade, viabilizar. Porque precisamos de mais espaço, precisamos de gente preparada, precisamos de muitas coisas que as escolas todas deveriam precisar – mas nós não podemos abrir mão dessas coisas sem abrir mão do método. O material pedagógico, em si, é a parte menos complicada.

6. Qual a saída, então?

Popularização, mesmo. Mais gente conhecendo. Mais gente conhecendo quer dizer mais gente tentando, e mais gente tendo sucesso nas tentativas. Mais gente conhecendo quer dizer uma creche aqui, uma ONG ali, uma sala de escola pública acolá, uma igreja, uma escola particular de mensalidade comum, famílias, instituições beneficentes e empresas. Assim, a popularização pode verdadeiramente acontecer.

7. Qual não é a saída?

Bradar o elitismo de Montessori sem exercer um papel na mudança. Uma das críticas que se fez recentemente a Montessori para famílias é que exige tempo e, portanto, é elitista. Isso, gente, não é uma crítica que se deva fazer a Montessori, a quem dissemina Montessori ou a quem defende Montessori. Isso é uma crítica que se deve fazer ao mundo em que vivemos, no qual se devora o tempo das famílias e se devolve tão pouco em troca. A mesma coisa vale para o resto inteiro. No método, nada há que justifique a acusação de elitismo. Nas poucas pessoas que nadam contra a corrente e montam escolas que concorrem com nomes imensos e tradicionais de suas cidades, há pouco a apontar de errado. Essas foram as escolas e pessoas que fizeram alguma coisa. E essas são as escolas e pessoas que podem ajudar e ajudam, com muita frequência, como podem, a popularizar mais um pouco.

Mas, infelizmente, cabe a nós mudar alguma coisa. Cabe à geração de educadores, formadores, pais e professores atual mudar o cenário.

8. E como a gente começa?

A gente começa estudando. Se você pode, faça um curso de formação em Montessori e leia Montessori. Se você não pode fazer o curso, leia Montessori. É mais difícil só lendo, mas ela explicou muito, muito mesmo do método dela nos livros, e você pode fazer muito pelas crianças se estudar muito a sério. Vai lá no Escola Maria (www.escolamaria.org) e pega a lista de bibliografia disponível nos downloads. Estude, e busque formas de usar. Sempre há formas de usar. Acesse os links disponibilizados e aprenda sobre como funcionam as escolas, os materiais, as formações existentes. Cabe-nos pressionar o poder público para fazer escolas públicas montessorianas também, mas até para isso a gente precisa estudar e conhecer Montessori. Não tem atalho aí.

9. Parece uma luta ingrata e lenta…

Ela é. Qualquer revolução é. Parece uma onda. A gente avança e volta. Montessori tem um potencial revolucionário total. O potencial de mudar o destino da educação e da humanidade. E isso não pode ser fácil, nem tem que ser fácil, e nem pode ou tem que ser feito por meia dúzia de pessoas com muita vontade. Tem que ser feito por milhares de pessoas com muita vontade. É só assim que a gente muda alguma coisa.

10. Há um sistema…

Finalmente, gente, existe uma coisa que não é o Brasil, não é Montessori, mas é o mundo: ele é um mundo que vive sob um sistema. E aqui eu nem me aprofundo como poderia nessa discussão. Mas no nosso sistema, por vezes a barbárie reina (parece que nas alternativas também, infelizmente) e sim, quem tem dinheiro acaba com mais de seus direitos atendidos: quem tem dinheiro tem teto, comida, água, segurança, educação e saúde. Quem não tem é cruelmente devorado, humilhado e ofendido. Superar o sistema é tema para outra discussão. Levar Montessori a todos dentro do sistema em que vivemos é mais tema de ação direta do que tema para debate no Facebook. Se você ainda tem vontade, depois disso tudo, de colaborar para o trabalho imenso e sério que nos espera, estamos juntos.

Aprenda e colabore:


6 comentários sobre “Montessori e Elitismo

  1. Sabe, fico pensando sempre na origem dos pensamentos de Montessori. Faz diferença, muita diferença ela ter tido uma mãe feminista. Faz diferença ela se entender feminista, ser cientista, e pensar em criar um lugar seguro onde as mães poderiam deixar seus filhos para trabalharem e lutarem pela sua emancipação. E faz muita diferença observar como a cultura pública entende a ciência e o feminismo hoje em dia. Digo isso pq no cenário atual (tanto no Brasil como no mundo), me parece, que as pautas progressistas, que defendem os direitos humanos e tão próximas ao que o feminismo reivindica, estão em um conflito imenso para terem um espaço na base democrática. Este cenário se soma a nossa cultura assimétrica, que normalmente entende o professor como o “detentor do saber” sendo tão naturalizada, enraizada, e praticada mesmo por aqueles cujo o discurso é totalmente montessoriano – e q se apropriam da ciência para validar suas posições. Prá mim, esta hoje é a minha principal observação em relação ao método, onde até na escola montessoriana mais elitizada da cidade não se encontra um horizonte crítico de mudança. Acho que para compreender e acessar montessori, não basta ser experto em materiais, ler toda sua bibliografia, nem ter a melhor infra-estrutura para um espaço preparado. Eu realmente acredito que se o adulto, de verdade, não buscar se desconstruir e se despir de tudo o que aprendeu até então, montessori não deixará de ser uma técnica vulnerável a cooptação do capital. Assim, o que eu vejo muito hoje em dia são práticas montessorianas em grupos livres e autônomos que não sabem muito sobre montessori; e práticas nada montessorianas em lugares que seriam próprios para aplicação de seus ensinamentos, buscando comprovação do método e resultados. Contradições humanas dentro do capitalismo. E assim, seguimos.

  2. Bom dia Gabriel, tudo bem?

    Neste texto você cita Campinas-sp, gostaria de saber mais informações, por que moro aqui e estudo montessori, somente via internet, alem de não poder matricular meu filho nas escolas deste método por serem muita caras para minha realidade financeira atual.

    Karina Martinelli

  3. A melhor crítica que já li sobre a disseminação elitizante do metódo Montessori. Acredito que seja exatamente o que colocou. Só abriria um parentese para falar um pouco do “acesso deficitário” à OMB e o papel desta na avaliação e integração de novas escolas a suas práticas. Além disso, poderíamos também falar do esforço de algumas pessoas de tornar o material montessori mais acessível para compra e de estimular a produção de alguns destes pelos próprios professores. E sem esquecer do bonito movimento que você e as meninas (Camila, Nieke, Valéria) têm feito para melhorar a qualidade da formação em Montessori. Estamos juntos Gabriel, você tem feito completa diferença na promoção no método em nosso país, e acredito que em todo mundo. Obrigada por sua generosidade.

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