Minha cidade não tem uma escola Montessori – O que eu faço?

O Brasil conta com menos de 100 escolas que se propõem montessorianas. O Brasil tem 60 milhões de crianças e adolescentes. Estamos bem longe de termos escolas montessorianas para todas as crianças. Como, então, escolher uma escola, se onde eu moro não existe uma boa escola Montessori, ou eu não posso arcar com os custos frequentemente altos de uma escola montessoriana?

Primeiro, preciso dizer que este texto não vai dizer que uma escola não montessoriana pode substituir uma montessoriana desde que tenha um conjunto determinado de caractertísticas. A escola montessoriana não é um ajuntamento de características, mas todo um sistema que envolve ambiente, adulto, criança e pedagogia. Por outro lado, é possível encontrar escolas maravilhosas e que não são montessorianas, mas que podem dar à criança uma infância e uma adolescência verdadeiramente felizes, preenchidas de significado, com um grau respeitável de liberdade e que favoreçam o desenvolvimento integral. O que devemos buscar, então? Vamos ver dez características interessantes. [Se o que você busca é uma forma de avaliar uma escola montessoriana, então clique aqui].

1. Natureza – Sem sombra de dúvidas, a presença de natureza em uma escola é uma característica das mais desejáveis. Quanto menos domesticada essa natureza for, melhor. Quanto mais usada for, melhor também. Quanto mais tempo as crianças tiverem em liberdade nessa natureza, mais interessante. As crianças mais velhas podem usar a natureza também de forma didática, para estudar, coletar, classificar, pesquisar. A natureza representa papéis diferentes em cada fase do desenvolvimento, mas é sempre igualmente importante.

2. Uso das mãos – Embora quase qualquer educador reconheça que se aprende mais quando se usa as mãos, o uso das mãos em muitas escolas é limitado ao papel, ao lápis e aos outros materiais escolares. Se você encontrar uma escola onde as mãos sejam usadas para mais que isso, preste atenção. Materiais pedagógicos, artesanato, descoberta sensorial, marcenaria, culinária… Tudo isso pode fazer muito bem ao desenvolvimento e ao bem estar da criança. Mais uso das mãos não precisa significar bagunça, sujeira constante e pouco aprendizado, no entanto. As duas coisas podem coexistir, e serem interdependentes. Isso é o ideal.

3. Independência – Mesmo em escolas não-montessorianas, as crianças podem aprender a pendurar as próprias mochilas, limpar as próprias mesas, fazer, servir e limpar o próprio lanche, amarrar sapatos, servir-se de água, lavar o copo, vestir e despir roupas, e muitas outras habilidades do dia a dia mais e menos sofisticadas. Em escolas ainda melhores, podem aprender até mesmo a cozinhar sozinhas, plantar e colher a própria comida, conservar e consertar a mobília e os materiais escolares, estruturar projetos que beneficiem a comunidade… ao longo da educação, a independência em diversos níveis pode existir e ser incentivada, e isso favorece a construção interior de um sujeito cheio de força, disposição e clareza sobre si e o mundo.

4. Ensino Individualizado – Isso é difícil fora de Montessori, mas existe. As crianças não precisam fazer todas as mesmas coisas, ao mesmo tempo, só porque não estão em Montessori. Há inúmeras formas de respeitar a curiosidade, o interesse e o ritmo dos alunos, e ainda assim ter um ensino de qualidade do ponto de vista conteudista, e uma educação de qualidade do ponto de vista humano. Fique de olho.

5. Brilho nos olhos – Numa boa escola, em qualquer escola que preserve a humanidade das crianças, existe brilho nos olhos dos alunos. Eu já visite escolas não montessorianas em que havia olhos brilhantes, e escolas “quase-ssorianas” em que o brilho precisava ser recuperado. É a primeira coisa que eu olho em qualquer escola, e é o primeiro indicador de qualidade do trabalho que se desenvolve ali.

6. Ambiente físico adequado – A sala de qualquer escola pode ser iluminada, arejada, ter mobília exclusivamente ao alcance da criança e carteiras adaptadas ao tamanho das crianças que habitam ali. O ambiente pode ser limpo, sem poluição visual e auditiva, sem telas representando um papel importante, com banheiro e água sempre disponíveis a quem quiser ou precisar (mesmo que só para “respirar um pouco”, e não para usar de verdade).

7. Ambiente emocional positivo – Talvez você se lembre de temer a escola, pela monotonia, ou pela opressão constante. É possível ser diferente, e mesmo em uma escola bastante tradicional, há maneiras de se construir um ambiente emocional que seja positivo na maior parte do tempo. Um ambiente que aceite a vulnerabilidade, que seja de coragem e esforço, e que não seja de vergonha, julgamento e punição – ou premiação, que é punição do não premiado por tabela.

8. Calma, atenção e alegria – Há escolas belíssimas em que, ao entrar, sabemos que se faz algo de bom ao humano lá dentro. Nessas escolas, vemos menos do desespero frequente na escola tradicional – que aparece nos gritos constantes, no riso sem propósito e na movimentação apressada e desordenada das crianças e dos adolescentes. Vemos o sossego de que sabe que estátudo bem, e por isso pode gritar, mas não precisa, pode rir, mas não sente necessidade de o fazer o tempo todo e sem motivo aparente, e pode correr, mas só o faz para exercitar-se, ou por uma pressa ocasional, e não porque é necessário se livrar de alguma coisa. Nesse ambiente, vemos esforço na forma da atenção e da dedicação, e vemos uma alegria que é melhor descrita como contentamento, que tem pouco (de vez em quando, e deliciosamente) de escandalosa, e muito de serena e pacífica.

9. Conhecimento teórico – Costumo dizer que prefiro uma escola não-montessoriana que saiba o que está fazendo, do que uma escola aparentemente montessoriana, mas que não sabe o que faz. Converse com a direção e/ou a coordenação da escola. Converse com os professores. Veja se a escola tem clareza de seus objetivos e processos, se há bases teóricas sólidas para a sua ação pedagógica, se existem um Projeto Político Pedagógico e um Regimento Escolar sólidos e bem escritos. Veja se você concorda e confia.

10. Preparação profissional constante – Tanto em escolas montessorianas quanto em escolas não-montessorianas, é de absoluta importância que os profissionais estejam envolvidos constantemente em preparação e desenvolvimento profissional. Se formar em pedagogia, ou se formar em Montessori, não basta. É necessário que esteja na programação da escola a formação continuada dos profissionais, desde a manutenção até a direção da escola. Com isso, a prática ganha vigor e confiança, permanece precisa e clara, e nós confiamos a educação de nossos filhos a educadores que se educam constantemente.

Espero que essa lista ajude você a escolher a escola de seu filho. Também espero que ela ajude a escola de seu filho a se aperfeiçoar na direção de uma educação que ajude a vida. Conte conosco.

Quer começar a conhecer Montessori ou apresentar Montessori à escola de seu filho? Veja nosso minicurso:


6 comentários sobre “Minha cidade não tem uma escola Montessori – O que eu faço?

  1. Boa tarde esse post foi perfeito pois estou nesse dilema ,se eu colocar minha pequena em uma escola olhando esses requisitos onde o sistema poliedro e muito exigente e trabalhar o montessori em casa atrapalha o desenvolvimento dela ?se puder responder agradeço

  2. Maravilhoso teu artigo com estas dicas. Trabalho em uma escola não-montessoriana por essência, mas vejo muitas destas características no nosso dia a dia, como questões de autonomia e o brilho no olhar das crianças. Infelizmente são poucas escolas Montessori no país e com custos bem elevados. Cabe muito bem esta reflexão a todos os pais para a tomada de decisão da melhor opção para seus filhos.

  3. Esse texto foi um alívio pra mim, muito obrigada! Eu e meu marido havíamos decidido pela metodologia montessoriana para nosso filho e até achamos uma escola que gostamos muito. Mas devido a localização tivemos que abrir mão da mesma. Tínhamos uma segunda opção mas meu coração estava muito pequenininho por ter que abrir mão do que achamos a melhor metodologia pro nosso pequeno que está indo para o primeiro ano. Assim, visitei nada menos que 4 vezes essa segunda escola e hoje acabei por decidir por ela por uma série de razões e qual não foi minha alegria quando vi todas relacionadas nesse post. Fico feliz de estarmos indo no caminho que julgamos certo.

  4. Gabriel, amei seu texto e foi de grande valia e conforto para mim. A única escola montessoriana que existe na minha cidade é longe e o valor não comporta em nosso orçamento familiar. Já visitei várias escolas em minha cidade e estava perdida, sem saber o que fazer por ter que abrir mão da pedagogia que acredito ser melhor para o meu filho e você acaba de me dar um vetor, uma luz, uma direção para que eu possa escolher entre as opções que possuo de forma consciente. Gratidão por sempre compartilhar seus conhecimentos e por estar sempre atento às nossas necessidades e possibilidades de mãe.

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