[Não] Tirem as Crianças da Sala – Precisamos Falar Delas

Há dois modos de compreender nossos filhos. Um inclui olhar para eles. Outro não. Há uma forma de compreender nossas crianças que parte de olhar para seus olhos, seus sorrisos, suas ações, passa por conversar com eles, prestar atenção no que dizem e em como respondem a nós e à vida. Uma outra maneira inclui somente a leitura de muitos textos, assistir a muitos vídeos, e agir de acordo com as receitas que nos parecerem mais adequadas. É importante que todos os caminhos passem pela criança. É evidente que isso não significa ignorar o que outras pessoas já observaram – especialmente não significa ignorar o que a ciência pode ensinar –, mas uma forma de compreender as crianças que não passe pelas crianças é incompleta.

Uma das máximas de Montessori[1] exigia de nós:

Nunca fale mal da criança, em sua presença ou ausência.

Essa máxima tem motivo. Se falamos mal da criança, se lhe emprestamos um rótulo, escondemos seu conteúdo. Um rótulo sempre fica por cima da realidade, fantasia a realidade de rótulo, e nós abraçamos a verdade do rótulo e ignoramos a realidade que se apresentaria sem ele. É assim com garrafas de refrigerantes: água, açúcar, saborizante artificial, e compramos “cada gota, uma alegria”. Também é assim com crianças: tentativas de entender o mundo, de conquistar independência, de construir liberdade, e encaramos os “terríveis dois anos”. Se falamos mal da criança, falamos rótulos, e se falamos rótulos, por automático, deixamos de enxergar a criança verdadeira que estaria ali, que está ali, atrás deles.

Quando falamos mal da criança, é comum que tentemos fazer isso longe dela. Há quem não faça questão de esconder nada, e é mais triste quando é assim. Mas é incomum. O comum é falarmos baixo, no cômodo ao lado, na palestra da escola para os pais e sem os filhos, na conversa com o especialista que fala com os adultos sobre as crianças, mas não fala com crianças, sobre adultos. Ao telefone, com nossos amigos ou parentes, sobre nossos filhos, depois que eles dormiram e nós finalmente podemos interpretar a realidade de uma maneira que seria agressiva se eles escutassem.

O desabafo é necessário, em uma sociedade que isola os adultos responsáveis pela criança, e que não possui estruturas sociais de apoio. Mas esse desabafo pode tomar duas formas, e como falamos é como pensamos e como somos. A criança pode ser desastrada, e aí há muito pouco o que fazer, porque ela é desastrada, e aquilo que é nós não alteramos. Ou a criança pode ter derrubado um copo, dois, um prato, uma cadeira. E aí há muitos eventos que podem ser compreendidos, e a partir dessa compreensão eles podem não acontecer de novo. Há uma forma de dizer que leva à guerra – nos nossos peitos e depois nos nossos mundos. E uma forma de dizer que traz a paz – nos nossos olhos e depois no que eles enxergam.

A não ser por uma patologia que se queira investigar antes de comunicar à criança, há muito pouco que diga respeito a ela e que não pode ser conversado na sua frente. Decididamente, quase tudo aquilo – e eu digo quase só por medo de estar esquecendo alguma coisa – quase tudo aquilo que diz respeito ao seu comportamento pode ser conversado em sua presença, ou deveria poder. Vejam os dois textos abaixo:

Crianças de dois anos dizem não! para tudo. Não aceitam nada que os adultos propõem e isso cansa, isso drena as energias dos pais e dos professores. É importante entendermos como contornar essa fase difícil e conseguir continuar a vida com nossos filhos.

Agora:

Crianças de dois anos acabaram de descobrir que quando negam uma opção, outras surgem, e isso lhes dá a chance, pela primeira vez na vida, de fazer escolhas. É uma fase nova e difícil para elas e seus pais, e a escolha e a liberdade são as portas para uma convivência pacífica.

Os dois textos tratam do mesmo tema. Os dois generalizam na mesma intensidade. Os dois aceitam que o adulto sofre, inclusive. Mas o segundo olha o mundo do ponto de vista da criança. O segundo assume que a criança existe e que qualquer coisa que lhe diga respeito terá de considerar seu mundo e sua vida. Nós sempre podemos falar assim. Sempre podemos pensar assim. Nem sempre é fácil.

Pensar-falar do segundo jeito exige algum conhecimento, é claro. Mas nós temos algum conhecimento, não é? Quando a criança quebra o copo, nós sabemos algumas coisas:

  1. Seu controle motor ainda não é completamente maduro;
  2. Ela não tem a mesma força e uma mão do mesmo tamanho da nossa;
  3. O copo foi feito pensando primeiramente em adultos;
  4. Ela estava em uma cadeira alta demais;
  5. Os seus pés não tocavam o chão;
  6. Eram nove da noite, e ela tinha sono;
  7. O dia foi agitado na escola, e ela discutiu com um colega, e levou uma mordida;

Risque o que não disser respeito ao seu filho, adicione o que for relevante. Você descobrirá que nós, de fato, sabemos o suficiente para pensar diferente. O difícil – e é difícil – é pensar diferente.

A pesquisadora – supercitada neste blog – Brené Brown sugere que uma das formas de construir uma convivência aberta e plena entre seres humanos é assumir a possibilidade mais generosa sobre o outro. O que é o melhor que eu posso pensar sobre a criança no momento em que ela fez algo difícil? Qual é a forma mais generosa de pensar sobre ela e seu comportamento? Fazer e repetir. Fazer e repetir. Até ficar fácil. Meses. Anos. Mas fica fácil. E salva vidas. Pelo menos duas – a sua, a da criança.

Quando falar sobre crianças, não tire as crianças da sala. Nenhuma criança se sente agredida porque dizemos que elas têm vontade de fazer cada vez mais escolhas. Porque querem cada vez mais independência. Porque ordem é realmente importante para elas e elas se sentem muito mal quando a ordem não existe. Porque quando vão à escola e não têm tempo no parque ficam muito mais agitadas e que portanto é importante privilegiar brincadeiras ao ar livre. Ninguém se ofende por isso. Nem crianças. Todo mundo se ofende com rótulos. Também crianças.

Vamos falar das crianças como se elas sempre estivessem na sala?


Curso Montessori


[1] Segundo item do documento “Montessori Decalogue”, tradução do Lar Montessori para os Princípios do Educador Montessoriano e para o livro Princípios de Montessori para Famílias.


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