Seu Cérebro Esconde Seu Filho de Você – Encontre-o de Novo

Nosso cérebro cria realidades, e esconde a verdade de nós. Cria imagens mentais de nossos filhos e esconde os filhos verdadeiros. Se pudermos enxergar nossos filhos de novo, temos a chance de construir relações muito melhores com eles.

Sem que a gente perceba, o cérebro cria um mundo paralelo, segundo o professor da Universidade de British Columbia, Evan Thompson. Ele explica com um exemplo simples:

Se você for boa em imaginar coisas, pode ser que só de pensar em uma comida gostosa, comece a salivar. Mas você sabe que está salivando com uma imagem mental, e não com a comida de verdade.

O problema é que o cérebro não faz isso só com morangos, Exatamente o mesmo acontece com as imagens mentais que temos de nossos filhos. E diferente do que acontece com a comida, nós confundimos a imagem com a criança de verdade.

Aquilo que o cérebro constrói automaticamente e sem o nosso controle toma o lugar das crianças verdadeiras. É essa imagem mental que leva broncas porque se comportou mal. É dela que esperamos boas notas na escola. É ela que nós vemos colando durante uma prova. É dela que desconfiamos quando está em silêncio por muito tempo. É ela que amamos.

Montessori, diferente de todos antes dela, conseguiu olhar para a criança verdadeira, e não para uma imagem mental. Ela explica como fez isso:

Quando eu estou com as crianças, eu sou ninguém, e o maior privilégio que tenho quando me aproximo delas é ser capaz de esquecer até mesmo que eu existo, porque isso me permitiu ver coisas que eu perderia se eu fosse alguém – coisas pequenas, verdades simples, mas muito preciosas. – A Educação e a Paz

Montessori conseguiu olhar para a criança pela primeira vez. Por isso  compreendeu tanto. Nós também podemos fazer isso. Uma especialista da Associação Montessori Internacional explica como:

Observação é importante, porque eu vou me aproximar de cada criança, a cada novo dia, como uma nova pessoa. Como uma nova criança. Então eu não trago o que aconteceu ontem para essa nova situação. … eu ofereço uma nova pessoa também. Então a criança pode ter a oportunidade de ser diferente.

Se eu venho com ideias sobre o que houve ontem para uma nova experiência, eu transmito para a criança meus sentimentos de ontem, e a criança vai reagir exatamente como eu espero que ela reaja.

Então, sou eu que posso me transformar, se sou livre. Se eu vejo uma criança com quem eu tenho um problema ou com quem eu passei por alguma situação, e eu me aproximo dela com os mesmos olhos, ou os mesmos sentimentos, eu transmito esses sentimentos, e isso continua para sempre. Mas se eu puder estar presente, e puder observar, eu verei essas crianças como novas crianças todos os dias.

Nós estamos tão acostumados a seguir nosso trem de pensamentos que nem percebemos a realidade passando. Ver as crianças assim é muito pouco. Precisamos descer do trem, sentar, esperar a confusão da descida diminuir e a poeira baixar. E aí, olhar para a criança com uma mente silenciosa:

Tenho de ter uma mente silenciosa. Uma mente silenciosa quer dizer que vou observar de forma tal que não trarei nenhuma experiência pregressa para essa experiência nova. Eu vou me libertar de todas as ideias preconcebidas sobre o que é uma criança, você é novo, e seus olhos são novos, e você aceita situações, seres humanos, as crianças, de uma forma totalmente diferente.

A essa altura, se você estiver se perguntando “Ok, mas como eu faço isso?”, nós estamos juntos. Há alguns anos eu me perguntava a mesma coisa.

No artigo que mencionei, indica-se alguns caminhos para a desautomatização do funcionamento de nossa cognição. O caminho mais indicado é o da meditação de consciência plena (leia sobre no site da UNIFESP). Segundo o artigo, muitos estudos vêm apontando o potencial da meditação nessa direção. O autor do artigo diz: “[com treino,] O estado de repouso do cérebro se aproxima mais do estado meditativo, …mais centrado no presente”.

Montessori sugere:

Em lugar de executar as ações naturais de todos os dias, sem pensar, ou de maneira imperfeita, acreditamos que fazê-las de forma atenta, consciente, cuidadosa e tão perfeita quanto possível, é o primeiro passo para alcançarmos a perfeição. Esse é um dos caminhos, existem muitos.

Devemos fazer as coisas porque devemos fazê-las, e devemos fazemos como elas vierem. Devemos usar tudo, para que aperfeiçoemos tudo. Se tornar mais consciente, esse é o caminho da perfeição; quanto mais ideias, quanto mais ações executamos, mais vamos dominando, mais perfeitos nos tornamos. Essa é a orientação no sentido da perfeição. […]

O caminho da perfeição é aquele no qual todas as ações que executamos em nossas vidas, nós pensamos, e executamos como um meio de chegar à perfeição. – Maria Montessori, Creative Development in the Child

Caminhar na rua, andar sobre a Terra, beber água potável, comer comida de verdade, ver o brilho nos olhos e a risada da descoberta no rosto da criança. Esses são os verdadeiros milagres. Se pudermos viver cada um deles como se fosse a primeira vez, a felicidade está ao alcance da mão.

A criança se revela com facilidade quando olhamos para ela, e o caminho da paz se abre a cada passo que damos. Quais são suas estratégias para enxergar seu filho de verdade, e não a imagem mental que você tem dele? Vamos caminhar juntos?


Veja quem é a criança que Montessori descobriu.

Curso Montessori

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

8 comentários

  1. Interessante demais esse assunto, Gabriel. Eu tenho mergulhado na meditação “mindfulness”, que é a que acredito você ter mencionado, e realmente é algo transformador. Não sabia que Montessori contribui nesse campo também, gratidão por nos descortinar mundo tão vasto de conhecimento.

    Fiz a inscrição no Udemy, espero termos ótima jornada!

  2. Gabriel, desculpe se estiver comentando duas vezes, desconsidere um dos comentários, se for o caso – houve um erro no meu login no wordpress.

    Esse texto é muito interessante pra mim, porque venho mergulhando na meditação “mindfulness”, que é a que acredito ter sido mencionada por você. Venho meditando como forma de exercer melhor meu papel como mãe e é incrível como isso realmente afeta nossa vida como um todo.

    Obrigada por descortinar esse mundo vasto de conhecimento para nós.

    Estou inscrita no curso do Udemy, espero que tenhamos ótima jornada!

  3. Adorei o artigo.
    Perfeito.
    Também acredito que cada ato, cada dia, cada experiência é única. Devemos ter olhares e ações diferentes para termos resultados diferentes e melhores.
    O pouco que conheço do método Montessori acredito ser maravilhoso.

  4. “Vamos caminhar juntos?” – Sim, por favor.
    Na minha familia eu sou a única que voltei meu coração para a criança e me humilho e preparo a cada dia para poder ajudar a sua vida, no caso, da minha filha e sobrinhos. E não é fácil, olhar como criança é perceber o quão opressores os adultos se tornaram, o quanto angústia o constante “não poder” imposto pela tirania adulta que confunde dizendo que ama.
    É mais dificil ajudar uma criança num ambiente assim, pois todos os cuidados minuciosamente dados podem ser quebrados por um adulto ignorante que não compreende as ações dos pequenos. Mas com força e perseverança eu vou, porque eu acredito e quero aprender muito mais para poder ajudar mais ainda.

  5. Puxa Gabriel, que texto lindo é necessário nos dias de hoje! Pratico meditação já há algum tempo e vejo o quanto isso me tornou mais presente em tudo, inclusive na criação do meu filho. E é lindo mesmo poder a cada dia aceitá-lo como ele é. Sem esperar que nada seja diferente do que é. Agradeço por falar sobre isso! Grande abraço

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