Montessori à Meia-Noite: a jornada silenciosa do adulto

Montessori acontece de dia, mas começa à noite.

Ainda não existe uma escola montessoriana que dê conta das horas do sono, e as famílias montessorianas costumam colocar as crianças na cama um pouco depois de escurecer. As imagens de Montessori na internet são todas cuidadosamente bem iluminadas.

Aí, anoitece, e fazemos a outra parte de Montessori.

A gente lê, reflete, repensa, planeja, revê as observações que fez durante o dia. A gente se frustra um pouco, desiste um pouco, e insiste de novo. Fazemos material, preparamos atividade, consertamos bandejas, orçamos, escutamos uma aula, um podcast, que vai nos ajudar na tal transformação. Com sorte, a gente dorme.

Este é um texto pequeno só para te dizer que aquilo que você está fazendo à meia-noite também é Montessori. E faz parte de uma longa tradição.

As Noites de Montessori, e as nossas…

Maria Montessori, nos dois anos em que trabalhou na Casa das Crianças de San Lorenzo, “ficava lá das oito da manhã até as sete da noite, observando, experimentando […] À noite, tomava nota de tudo o que havia observado durante o dia, lia tudo o que conseguia encontrar de literatura especializada em educação especial, escrevia suas próprias ideias, fazia rascunhos e esquemas de materiais até achar que tinha chegado no que funcionava melhor. ‘Aqueles dois anos de trabalho’, ela recordaria, ‘são meu primeiro, e na verdade meu único diploma em pedagogia’” (o trecho é da biografia de Maria Montessori escrita por Rita Kramer).

Quase tudo o que fazemos em silêncio passa ignorado. As olheiras aparecem, mas tudo aquilo que justificou algumas horas de sono a menos fica dentro de nós, no nosso silêncio, e não é reconhecido. Eu vim aqui reconhecer.

Fui aluno de uma escola Montessori. Mas redescobri Montessori depois de adulto. Quando peguei o primeiro livro de Montessori que li, fiz o compromisso de só ler a introdução e ir dormir. Eram nove da noite. Às sete da manhã eu terminei o livro, na tela do computador, coloquei o arquivo em uma pen-drive e fui atrás de uma gráfica para imprimir e ler de novo, fazendo anotações.

A Luz da Manhã: Autocuidado na Jornada Montessoriana

Eu não sou uma pessoa que aguenta noites em claro impunemente. Eu quebro. Ainda assim, há crianças, escolas, pesquisas e alguns projetos que me fizeram atravessar noites com alegria. A impressão é de que há alma demais dentro de mim para poder dormir.

Montessori depende deste esforço extraordinário. A dimensão da transformação proposta por Montessori depende de adultos que aceitem o esforço extraordinário. E agora eu tenho outras duas coisas muito importantes para te dizer.

A primeira é que não se passa noites em claro impunemente. Eu não passo, e ninguém passa. A gente não funciona no dia seguinte e toda a preparação interior que nós nos esforçamos para conquistar desaparece, porque não há cérebro que funcione sem sono.

A segunda é que o esforço extraordinário precisa incluir os cuidados com você. Não vale se esforçar extraordinariamente para alcançar algo que está fora de você (o conceito de paz, a apresentação perfeita do material, o ciclo de trabalho de três horas, a concentração da criança) e buscar uma saúde para a criança, futuro da humanidade, enquanto a saúde da parte da humanidade que você é fica descartada, deixada para depois.

Nós somos adultos, você e eu, e este texto é uma conversa entre adultos. Você e eu sabemos que, para quase todos nós, o esconderijo da noite, com suas horas, sua discrição e seu silêncio, serão o chão onde plantaremos o mundo novo. O chão escuro, que ninguém cavoca, onde as novas sementes podem germinar. E você não precisa contar isso para ninguém. Nós dois, aqui, sabemos.

Isso dito, assim que você puder, durma. Tome um banho, coma alguma coisa gostosa e tranquila, beba toda a água que você esqueceu de beber, e vá dormir. Na manhã seguinte, antes de começar, separe quatro minutos. Segredo nosso: esses quatro minutos são um pouquinho de noite anterior, que você guardou, com o silêncio e a liberdade todo-seus. Use todos eles para respirar e pacificar seu corpo, sua alma.

Caminhando juntos: O Poder da Criança

Só depois de aproveitar esses minutinhos de silêncio é que você começa a fazer a parte de Montessori que todo mundo vê – a parte iluminada pelo Sol. Se cuida. Lembre-se: você não está sozinha(o). Ter companhia na sua jornada (inclusive à noite) pode ajudar bastante. Se você quiser se aprofundar na educação que oferece às crianças e estiver buscando um caminho para entender melhor, e praticar melhor, quero te convidar para conhecer O Poder da Criança, o melhor curso do Lar Montessori para famílias e educadores iniciantes. Saiba mais aqui.

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1 comentário

  1. Nossa, a medida que ia lendo, as lágrimas foram correndo, acho que como um alívio de que: “algém finalmente me entende”. Além de estudiosa de Montessori, sou mãe, dona de casa, esposa, cozinheira e produto digital e futura dona de escola montessori, então, esse post pra mim foi um alívio. Alívio de que não estou sozinha nessa jornada. Agradeço pela sensibilidade desse texto.

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