Oito Princípios para uma Educação Silenciosa

Em uma boa noite estrelada, no centro de uma grande cidade, podemos ver dez ou vinte estrelas. Longe das luzes da cidade, vemos milhões. É fácil perceber essa diferença com coisas que podemos ver. É mais difícil com as coisas que podemos ouvir. Muito tempo atrás, quando o ruído de fundo era o vento no mato, podíamos ouvir cantos de pássaros, galhos quebrando, bichos correndo, a chuva chegando. Hoje, tudo isso fica escondido por trás dos enormes ruídos dos aviões, caminhões, do ar condicionado e da máquina de lavar roupas. Vivemos imersos no barulho, e isso tem consequências.

Em um mundo com muito barulho, as crianças são as primeiras vítimas.

O Barulho e a Saúde das Crianças:

Para aqueles que ainda nem nasceram, o barulho já é um perigo. Alguns estudos (disponíveis nas referências) indicam que ruídos altos e frequentes, ou muito altos e súbitos, podem levar a dificuldades na gestação, deficiência auditiva, hipertensão da mãe e até a problemas na formação fetal. Quando a criança nasce, infelizmente, os problemas continuam.

Para os bebês prematuros, os ruídos na incubadora e ao redor dela podem chegar ao dobro do máximo recomendado para a saúde das crianças, por conta de conversas altas no ambiente e manejo da própria incubadora. O desenvolvimento emocional dos pequenos é uma das coisas que podem ser afetadas, assim como a qualidade do sono, a pressão e a respiração.

Quanto mais cedo na vida, mais graves são as consequências do excesso de barulho. Mas mesmo entre crianças em idade escolar, ruídos constantes e altos, ou muito altos e súbitos, podem ter consequências de curto ou longo prazo, como alteração na pressão, atrasos na aquisição de leitura, efeitos negativos sobre a memória, e dificuldade para separar o que as pessoas estão dizendo dos barulhos ao redor, e isso geralmente é confundido com falta de foco e concentração. Além de tudo isso, excesso de ruído pode aumentar a presença de sintomas relacionados à hiperatividade.

Não é pouco. Seria assustador se isso não tivesse solução. Felizmente, existem modelos de incubadoras que podem diminuir consideravelmente o impacto dos ruídos, e como a maior parte desses ruídos é fruto de conversação ao redor do bebê, é possível fazer muita coisa. Para as crianças mais velhas, os barulhos mais frequentes nem sempre são caminhões e helicópteros. Geralmente eles vêm de telas eletrônicas e conversas muito ruidosas. Não é muito difícil oferecer às crianças ambientes sonoros melhores, em casa e na escola.

O que Podemos Fazer

Uma vez, em uma boa escola, eu conversava com as professoras sobre o ruído dos ambientes, que alcançava 75 decibéis na sala de aula (50% acima do recomendado) e depois de conversarmos bastante, decidimos começar só por uma reorganização das mesas e estantes da sala, sem mudar nada na didática, mas aumentando os espaços de circulação das crianças, e diminuindo o número de crianças ao redor de cada mesa. No dia seguinte, o ruído já havia caído para 55 decibéis, e estava dentro do recomendado para crianças dessa faixa etária.

Neste texto, vamos conversar sobre isso: pequenas mudanças que podemos fazer para oferecer às nossas crianças uma educação mais silenciosa. Vamos partir de uma lista de características para uma educação contemplativa feita por Arthur Zajonc, Professor Emérito de Física no Amherst College e coordenador científico dos diálogos “Mente e Vida”, entre cientistas de diversas áreas e o Dalai Lama, no MIT.

Oito Princípios para uma Educação Silenciosa:

Uma “educação silenciosa” não tem como objetivo eliminar o som. Som é bom. O som de uma criança montando blocos é maravilhoso, mesmo quando uma pilha de blocos cai e nos assusta. O objetivo é eliminar o excesso de ruído: o som que não quer dizer nada, e que nos impede de ouvir o que é importante. Por isso, nosso primeiro princípio é o…

1. Respeito

Em uma biblioteca, encontramos plaquinhas que pedem silêncio. Lá há pessoas pensando. Nas nossas salas de aula e nas nossas casas também há. As crianças estão pensando sempre que tentam vestir uma camiseta sozinhas, quando aprendem a segurar um garfo e quando tentam entender como uma baleia pode sobreviver de krill, animais tão pequenininhos. Deveríamos pensar nos esforços delas (construindo LEGO ou fazendo multiplicações) como pensamos nos estudantes nas bibliotecas. Por outro lado, podemos dar o exemplo para que elas entendam que também devem respeitar seu próprio esforço, e podem fazer uma coisa de cada vez: ler quando estiverem lendo, e assistir TV quando estiverem assistindo, por um tempo curto. Nenhuma tela precisa ficar ligada se ninguém está olhando para ela.

2. Gentileza

É curioso que a gentileza seja sutil e silenciosa, enquanto a rudeza é barulhenta e agressiva. Uma educação silenciosa pede que, ao falar com nossos filhos, a gente só use o volume de voz que é necessário. Ao falar com nossos alunos também. Nenhuma sugestão, ordem, pedido, bronca, elogio ou comentário precisa ser feito de longe e alto. Se só interessa a uma criança, nós podemos ir até ela, ajoelhar ou abaixar, e falar com cuidado. Se vamos emitir pouco som, cada som importa: podemos falar claramente, devagar, baixo e com palavras corretas, e dar um intervalo de silêncio para que a criança possa ouvir, processar e reagir, com palavras ou ações.

3. Intimidade

Quando uma criança tem períodos de silêncio para explorar, seu contato com aquilo que está fazendo se torna mais profundo. Se precisa ler alguma coisa enquanto há música por perto, seu contato com o que lê é superficial, e sua memória também. Por outro lado, se pode se concentrar, estabelece mais relações, entende mais e lembra melhor. Se uma criança puder ter tempo em silêncio em meio à natureza, onde cada som é muito importante, ela aos poucos se torna íntima da natureza, muito mais do que se for acompanhada por adultos que interrompam tudo com comentários e tentativas de conversar. Todas as formas de intimidade acontecem em silêncio.

4. Participação

Em casa, se nós não participamos da vida de nossos filhos, a única “companhia” que eles terão é a televisão, o tablet e as outras telas. Se nós estivermos presentes, essas telas podem desaparecer. Nesse caso, mais gente quer dizer mais som, mas um som com significado. Na escola, o modelo de um professor falando e exigindo silêncio de 20-30-40 crianças nunca funcionou, e os ruídos numa sala de aula chegam a 90 decibéis (o máximo recomendado é de 52-55). De novo, a participação resolve.

É claro que eu acredito que o método Montessori seja a melhor solução, com salas que ficam entre 48 e 62 dB, nas minhas observações. Mas há outras opções, e uma sala de aula invertida, por exemplo, já funciona muito bem, assim como trabalhos por projetos, aulas ao ar livre em roda, e laboratórios. Em todos esses casos, as crianças se concentram no que fazem, e o professor participa de verdade das vidas das crianças, com conversas ricas e profundas, em vez de fazer discursos mais e mais altos, para superar o ruído da conversa das crianças, com pressa para o intervalo.

Além da nossa participação, há a das crianças. Telas e aulas não exigem a participação delas. Quebra-cabeças, pesquisas e projetos exigem que elas se dediquem por inteiro. O som aumenta. Mas o ruído sem sentido desaparece.

5. Vulnerabilidade

Quando estou com adultos e fazemos exercícios curtos de silêncio e respiração atenta, alguns dizem que é “maravilhoso” e “relaxante”, outros que é “difícil” e “insuportável”. Quando ficamos em silêncio, entramos em contato com nós mesmos, e isso é desafiador, porque escutamos nossos pensamentos, emoções, medos e desejos. Isso fica oculto quando temos barulho à nossa volta, e nós podemos esquecer de quem somos e daquilo que habita dentro de nós. Ficar em silêncio e permitir que a criança fique em silêncio também é permitir que todo o mistério interior venha à superfície, e tanto nós quanto nossas crianças possamos conhecer mais de nós mesmos. Em total vulnerabilidade, mas em total verdade também.

6. Transformação

Como o silêncio permite que a gente se veja por dentro, é fácil perceber que há coisas em nós que queremos mudar. Nas crianças, essas coisas mudam a depender da fase do desenvolvimento em que elas se encontram. Dos zero aos seis anos, querem se tornar mais competentes fisicamente, dos seis aos doze, querem compreender melhor o mundo, usando a imaginação e a inteligência, na adolescência, o objetivo é entender como os grupos sociais funcionam e como se integrar socialmente, e na vida adulta, buscamos um sentido, e um papel a cumprir no mundo. No silêncio, na concentração, sem distrações e interrupções, todas essas transformações são alcançadas com mais facilidade, e a satisfação é maior e mais fácil de perceber.

7. Formação

As crianças se constroem pelos seus próprios esforços, e os esforços mais importantes das crianças se dão quando elas estão concentradas em uma tarefa que vai levar à conquista de uma nova habilidade: desde cortar cenouras até completar uma soma muito grande. Os momentos de concentração da criança são formativos, quer dizer, ela se torna aquilo que faz nesses momentos. Quando é privada de períodos de concentração, a criança não consegue se formar de verdade, e sua autoconstrução fica cheia de falhas, que se manifestam na sua instabilidade emocional e em outros traços “turbulentos” da personalidade. Ter a oportunidade de se formar, no silêncio, sem interrupções, no seu tempo e à sua maneira, é de um valor inestimável para toda a vida das crianças.

8. Insight

Insights são lampejos de clareza, descobertas súbitas. Quando você vai até a janela e fica pensando em um problema enquanto sente o vento no rosto, até que finalmente uma solução “vem” até você, isso é um insight. O silêncio oferece mais insights que o barulho. Dezenas de grandes pensadores ao longo da história faziam caminhadas longas todos os dias, por bosques, quintais e florestas, como uma maneira de buscar clareza e ter boas ideias. Períodos diários de silêncio, sem nenhum eletrônico ligado, e até mesmo sem comunicação, só com a calma, a respiração e o tempo, podem deixar a vida mais cheia de sentido. Para nossas crianças as coisas são mais fáceis, e se nós dermos a ela o tempo e o silêncio necessários, elas se envolverão nas atividades corretas para seu desenvolvimento, e os insights virão como uma consequência natural da concentração.

Uma Educação Silenciosa é como uma educação barulhenta. Nós precisamos nos acostumar a ela. A educação barulhenta é aquela que todo o mundo à nossa volta nos impõe de várias maneiras. A educação silenciosa precisa partir de dentro de nós, e aos poucos tomar conta da nossa vida e da vida de nossas crianças. Exige algum esforço, mas também abre novos caminhos para a vida. Caminhos cheios de som e significado, caminhos sem ruído, nos quais tudo o que é importante de verdade pode ser ouvido.


Uma educação silenciosa também é cheia de paz. Em dez anos de estudo da obra de Maria Montessori e de conversas com famílias do Brasil inteiro, eu vi alguns pontos se destacarem nas relações de adultos com crianças que funcionavam para os dois, que eram pacíficas e cheias de alegria. A partir daí, e de experiências pessoais como pai e professor, eu criei o curso Montessori: Viver em Paz com Crianças. É para ele que eu quero te convidar. Quase mil famílias já participam do curso, e todos os retornos que recebi foram muito felizes. Veja alguns:

Que visão fantástica do mundo. Faz tanto sentido. […] Cada dia me apaixono mais por Montessori.

Thaís, Mãe, sobre a aula “A Origem dos Conflitos entre Adultos e Crianças”

Parabéns pelo amor que você nos mostra e obrigada pela oportunidade de vivermos melhor com nossas crianças.

Fernanda, mãe, ao finalizar o curso.


Referências

O Segredo da Infância, Capítulo “Silêncio”, Maria Montessori.

Mente Absorvente, Capítulo “A Contribuição da Criança para a Sociedade: Normalização” Maria Montessori.

The world is louder than ever, and it’s causing ‘schizophonia’, Stephanie Buck, Timeline https://timeline.com/acoustic-ecology-e0386f57dfa6

Ruído sonoro em incubadora neonatal e seus efeitos nas respostas fisiológicas do recém-nascido prematuro/ Letícia Martins e Sá – Rio de Janeiro: UFRJ/COPPE, 2018. http://www.peb.ufrj.br/teses/Tese0294_2018_03_23.pdf

Health effects of noise on children and perception of the risk of noise, 2001 National Institute of Public Health, Denmark https://hoereforeningen.dk/media/1109/health-effects-noise-children.pdf

Stansfeld, S., Clark, C. Health Effects of Noise Exposure in Children. Curr Envir Health Rpt 2, 171–178 (2015). https://doi.org/10.1007/s40572-015-0044-1https://link.springer.com/article/10.1007/s40572-015-0044-1

Noise exposure during pregnancy, birth outcomes and fetal development: meta-analyses using quality effects model. Folia Med (Plovdiv). 2014 Jul-Sep;56(3):204-14 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25434079

Love and Knowledge: Recovering the Heart of Learning Through Contemplation, Arthur Zajonc http://www.arthurzajonc.org/wp-content/uploads/2016/01/Love-and-Knowledge-Recovering-the-Heart-of-Learning-Through-Contemplation.pdf

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Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

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