Dignidade: Um Novo Presente para as Crianças

Em uma bela passagem do livro Segredo da Infância, Montessori conta que um dia, pensando que as crianças achariam graça, ela ensinou como assoar o nariz. Ninguém achou graça. As crianças olharam fascinadas, enquanto a professora dobrava o papel, usava, e descartava com elegância e cuidado. Quando ela terminou, as crianças irromperam em uma salva de palmas.

As crianças, diz Montessori, não se fascinaram só pela lição. Mas pela possibilidade de escapar da vergonha. Diariamente escutavam adultos dizendo que precisavam assoar o nariz, que estavam sujas, mas ninguém nunca se ocupou de ensinar como fazer isso, e sem aprender, as crianças não tinham como se libertar das broncas e humilhações diárias.

Nossas crianças carecem de dignidade. Não por escolha, nem por natureza, mas porque assim como fez com o espaço para brincar e a liberdade para comer, dormir e beber água, a civilização adulta roubou da criança a dignidade e o orgulho. Com frases como “se comporta que nem gente, meu filho!” nós dizemos às crianças que elas são menos que gente. Com todas as ações que colocam as crianças em segundo plano, comunicamos que elas são menos que nós.

Oferecemos muitos objetos às nossas crianças. Papel para desenhar, blocos para montar, telas para assistir. Podemos oferecer a elas um presente maior – o maior de todos: dignidade para viver.

A uma parte das crianças essa dignidade falta porque lhes faltam condições básicas de sobrevivência que forçam a humilhação diária. É dever coletivo lutar por políticas públicas que defendam essas crianças da humilhação e do sofrimento.

Quanto às outras, podemos tomar algumas atitudes imediatas que ajudem as crianças a recuperar a dignidade perdida.

Como Montessori fez, nós devemos ensinar ensinando, e não corrigindo. Essa é uma lição que Montessori dá e que eu aprendi também com uma de minhas formadoras, Marion Wallis. Se uma criança precisa aprender alguma coisa, devemos ensinar. Corrigir não ensina. Punir também não. Montessori dizia, sobre notas escolares, que um zero “humilha e ofende, mas não ensina nada”. Vamos pensar em alguns exemplos:

  • Em vez de ralhar com a criança porque ela bateu a porta, podemos mostrar a ela como fechar a porta com delicadeza. Uma, duas, ou mais vezes.
  • Em lugar de corrigir de novo e de novo, cada vez mais impaciente, os exercícios que a criança faz errados na tarefa de casa, podemos parar a tarefa com delicadeza e ensinar, com calma e paciência, aquilo que a criança ainda não aprendeu. Claro que o melhor é que não haja tarefa, porque não se pode esperar que uma família domine, ao mesmo tempo, análise sintática de orações subordinadas e sistemas de equações (embora a ideia seja incrível).
  • Podemos substituir a bronca: “sua camiseta está ao contrário!” por uma aula: “Olha só, para você ver se a camiseta está do lado certo, precisa colocar a etiqueta para trás. Ela nunca fica para frente, tudo bem?”. Ainda melhor, por uma demonstração, em que a criança possa ver como se coloca uma camiseta do lado certo, e aí tenha tempo para treinar, várias vezes.

A dignidade é o maior presente. Ela não termina na demonstração, nem na lição. A dignidade se fortalece quando a criança tem a chance de existir sem ser impedida. Por exemplo, quando pode contar com a nossa confiança para coisas como:

  • Subir uma escada (com um objeto na mão);
  • Colocar um prato de porcelana na mesa ou dentro da pia (e lavar a louça);
  • Arrumar a própria mochila (sem que a gente verifique depois).

Claro, a dignidade continua importante quando as crianças são mais velhas e fazem coisas mais complexas ou arriscadas, como:

  • Mexer uma panela de legumes ou carne refogada;
  • Caminhar sozinha vários metros na nossa frente, na rua;
  • Acender o fogo do fogão, ou de uma fogueira;
  • Preparar uma lista de compras, colocar as coisas no carrinho, fazer as contas do gasto, pagar e conferir o troco;
  • Ter uma dúvida, pesquisar, chegar a uma resposta e só nos contar depois de tudo resolvido.

E ainda na adolescência, a dignidade se fortalece quando os jovens podem ir além do que a comunidade pensa que podem fazer, porque um punhado de adultos e colegas acredita neles, e:

  • Trabalham para juntar dinheiro por um objetivo específico;
  • Servem como voluntários em um projeto local;
  • Viajam com outros adolescentes e um adulto, mas sem a família;
  • Engajam-se por mudanças sociais ou ambientais de forma séria e dedicada.

Perceba que o presente da dignidade pode vir com vários embrulhos diferentes. O mais importante não é o pacote, nesse caso, mas o que ele carrega. A depender de seu contexto social, familiar e político, as crianças sob sua responsabilidade podem nutrir e fortalecer a dignidade de maneiras diferentes. O importante não é que elas façam qualquer coisa dos exemplos acima, mas que elas possam contar com a nossa colaboração para aprender, em vez da nossa correção, e que saibam que podem fazer coisas difíceis, porque nós acreditamos nelas e vamos permitir que tentem, e errem até ter sucesso.

A força que as crianças ganham quando são tratadas assim surpreendeu até mesmo Maria Montessori, que estava acostumada a ser surpreendida pelas crianças. Terminamos com palavras dela:

“Por muito tempo permaneci em dúvida, incrédula… Mas finalmente eu compreendi. As crianças tinham sua dignidade, […] e sentiam orgulho de mostrar o melhor que podiam fazer”.

Maria Montessori, em O Segredo da Infância

Ajudar adultos a oferecerem dignidade para suas crianças é uma das motivações principais de meu trabalho. Foi com essa forma de libertação em mente que criei o curso Montessori: Viver em Paz com Crianças, a partir de leituras de toda a obra de Maria Montessori e conversas com centenas de famílias. Veja o que alguns participantes já disseram sobre o curso:

Gente, tô chocada com essa aula. Que visão fantástica do mundo. Faz tanto sentido. Lembrei da opressão da minha infância. Cada dia me apaixono mais por Montessori.

Thaís Serafim

Excelente aula. Gostei muito de ter sido mencionada a fonte das informações em Português e Italiano.

Erica Malaspina

A principal referência para este texto é o capítulo “Dignidade”, do livro O Segredo da Infância, de Maria Montessori.

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Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

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