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O que podemos aprender com as crianças

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Fotografia de Thomas Hawk¹, “What a child sees”

Portanto, quem se tornar humilde como
esta criança, esse é o maior… (Mateus 18:4)

Maria Montessori disse, em 1946²:

 Sempre soubemos que os adultos poderiam ajudar as crianças, que os adultos eram necessários para sua existência e desenvolvimento. Mas a criança poderia nos ajudar? Ela poderia ser de ajuda para a civilização? Essa ideia nunca entrou na mente dos seres humanos. No passado, e especialmente ao longo da última geração, as pessoas, e mesmo os grupos sociais, trabalharam para melhorar as circunstâncias da infância, e por criar condições cada vez melhores para ajudar o desenvolvimento das crianças. Mas nunca ninguém pensou que a criança poderia nos ajudar! A ideia de que a criança pudesse ser a esperança de nosso futuro, a esperança de um futuro melhor do que qualquer coisa no passado – isso seria absurdo!

E mesmo assim, desde tempos primevos, todas as crenças humanas nos lembram de que as crianças sabem o que fazem. Aqueles que olharam com mais cuidado, carinho e generosidade para a humanidade não hesitaram em dizer que são elas os mais perfeitos entre nós. Essa é uma mensagem de esperança e de amor, que deve permear toda a civilização, de desejamos verdadeiramente construir futuro melhor do que qualquer coisa no passado. Isso não é mais um absurdo, mas é o caminho certo de uma sociedade que deseje caminhar na direção do amor e da verdadeira natureza humana. Neste texto, vamos ver cinco coisas que podemos aprender com as crianças para melhorar o nosso próprio comportamento, para com elas, para com outros adultos e, talvez mais especialmente, para que possamos ser mais felizes em nossas próprias vidas.

1. As crianças sabem que cada dia trará seus desafios e elas não se preocupam com os desafios de amanhã. Importam para elas aquilo que devem superar agora. As conquistas de hoje são as únicas que ela pode fazer, e por isso concentra todas as suas energias no processo que tem em mãos. Porque ela sabe que é durante o processo que aprende e se desenvolve, esforça-se nele sem pensar no resultado – ela conhece as leis da vida e ainda não esqueceu que é por meio do esforço que alcança seus melhores resultados, e que o maior prazer não está no resultado, mas no esforço em si. Além disso, ela fica genuinamente feliz com desafios maiores, porque são eles que permitirão a ela se tornar, cada vez mais, um ser humano completo e perfeito. Ela colabora para a criação da humanidade todos os dias.

2. Elas perdoam infinitamente as mesmas pessoas, pelos mesmos erros, sem que essas pessoas peçam desculpas. As crianças são melhores em perdão do que qualquer adulto, e o fazem rapidamente e sem reservas. Se num minuto um adulto ou um amigo grita com elas (ou, cruelmente, bate nelas), em dois minutos ela pode rir com o que lhe agrediu, em renovada simpatia. Elas nos curam das feridas que nós causamos a elas, e seu perdão é tão mais belo porque é incondicional: ela não nos perdoa sob a condição de que não repitamos o erro. Ela sabe que nós repetiremos. E perdoa mesmo assim. Se esse amor e essa capacidade de perdão e fé no outro poder penetrar os nossos corações, nós mudaremos a Terra.

3. Elas estão sempre dispostas a aprender, sem se importarem com quem ensina. Ninguém é pequeno demais ou sabe pouco demais para ensinar uma criança. Não importa se o português do adulto respeita ou não a engessada gramática normativa. Não importa se ele é alfabetizado ou não. Nem importa se quando ele encaixa as peças de madeira elas caem ou não – a gente sempre pode mostrar de novo, e a criança, perdoando nossas falhas, busca em nossos atos o que ela pode aprender. Um colega de sala, ou uma criança mais nova, que faça algo que outro ainda não faça, pode ser um professor, às vezes de grupos inteiros, sem que ninguém se preocupe com nada que não seja o aprendizado sendo transmitido. Se alguém sabe alguma coisa, e está disposto a ensinar, sempre haverá uma criança disposta a aprender.

4. Elas aproveitam as alegrias de agora, e as cócegas e o pega-pega, e a comida gostosa e o carinho e os beijos. E elas não se preocupam se, depois de tudo isso, vier um pedido apressado para sair para a escola, uma exigência às vezes ríspida de que elas arrumem o quarto, um anúncio de um passeio indesejado ou até um corte brusco nos carinhos ou nas brincadeiras porque qualquer coisa aconteceu. Se está tudo bem agora, então nós devemos aproveitar agora. Para uma criança, a vida é cheia de desafios. Elas precisam obedecer o tempo inteiro, têm os seus tempos e espaços – e as suas ações – sempre reguladas por outros mais fortes do que elas. Mas elas sabem que aqui e ali há espaço para alegrias, e elas aproveitam essas alegrias com todo o seu ser.

5. Elas são humildes de verdade. Não há, na criança, qualquer traço de orgulho, arrogância ou vaidade. Elas têm vontades, é claro, e impulsos. Elas têm necessidades íntimas também e lutam pela satisfação dessas com todos os parcos recursos à sua disposição. Mas elas não têm orgulho. Não há nada que seja baixo demais, simples demais, pobre demais para uma criança. Não há ninguém feio demais, errado demais, desvirtuado ou desonrado demais para ser um amigo de brincadeiras, um colega de trabalho, ou um mestre. A criança sabe que em todos há qualquer coisa de muito bom e ela sabe enxergar esse detalhe brilhante. Ninguém e nada é pouco demais para uma criança pequena, porque em todos ela enxerga a semente de perfeição que ela mesma luta, todos os dias, para fazer desabrochar.

Que nós possamos aprender com elas e permitir que elas ajudem a humanidade!

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¹ A fotografia que ilustra esse post é de Thomas Hawk, fotógrafo que se posicionou frontalmente contra a prática de Jill Greenberg de provocar estresse emocional e psicológico em crianças para fotografá-las chorando.

² MONTESSORI, M. The 1946 London Lectures, em processo de tradução.

A Casa Viva

Maria Montessori disse que eles, italianos, elevaram a palavra casa ao sentido belo de lar, e por querer oferecer um verdadeiro lar às crianças da vizinhança de São Lourenço é que ela chamou seu grande trabalho pedagógico de Lar das Crianças (Casa dei Bambini, em italiano) – é por isso que o Lar Montessori se chama Lar Montessori, inclusive.

A sensação de lar que Montessori tentou criar em seu espaço funcionou. Era uma escola, mas soava tanto como uma casa que essas crianças voltaram para suas famílias e revolucionaram os locais onde moravam: as janelas ganharam flores, cortinas, limpeza, a casa toda ganhou organização, higiene e cuidado, as mesas ganharam toalhas e o ambiente ganhou delicadeza e atenção – minha vontade é escrever afeto, parece-me a palavra certa. As casas das crianças se transformaram em lares, depois de uma escola que nasceu como um lar.

Muitos anos depois, as escolas montessorianas nem sempre têm total sucesso na transposição da sensação de lar para seus ambientes. É difícil mesmo. Exige uma atenção, um afeto e, escutei essa palavra há alguns dias de uma professora montessoriana, uma apropriação do ambiente de trabalho para o adulto que é desafiadora. É necessário abraçar o ambiente com o som do seu próprio coração para fazer de paredes nuas um lar afetuoso, aconchegante e belo. É difícil superar a técnica Montessori e chegar a um Lar das Crianças.

Mas se isso é de fundamental importância na escola, isso tem ainda mais importância em casa, em nossos redutos de segurança, de amor, de família. Esse texto tem um só objetivo: ajudar você a soprar vida nos contornos da sua casa, e trazer a ela ação, beleza, verdade.

Vamos entrar, pela sala. Aqui temos dois pequenos vasos de flores, um em cada aparador, veem? As folhas estão frescas e viçosas, porque as raízes recebem água quase diariamente. Uma delas está em flor, porque é primavera e ela fica perto da janela que dá para a varanda, pegando mais luz do sol. Há o sofá, e há uma televisão, vejam só! Mas ela não está ligada. Fica assim quase o dia todo, menos colorida, menos viva e menos chamativa do que os dois vasos de flores (neles, de vez em quando, a gente até encontra um ou outro bichinho bem pequeno andando pelas folhas).

A TV é tão cinza que nem nos importa, e notamos rapidamente que há, ali, abaixo dela, três enfeites de mesa. Nitidamente, eles foram escolhidos com cuidado. Um é uma matrioska, aquelas bonecas russas com outras bonecas dentro, que encantam todas as idades pela delicadeza belíssima da pintura, e pela infinitude do seu interior, aquela ordem tão bela do menor que pode ser menor ainda.

Há outros dois ainda. Uma ampulheta de vidro com areia cor-de-rosa dentro, bem fina. A armação da ampulheta é forte, bonita, e ela não é muito leve. Não foi feita para ser transportada, mas para ser vista e, no máximo, invertida. A matrioska traz a beleza do espaço, e a ampulheta a beleza do tempo. É lindo, não é? Mas não é só. Há um globo também, de pedra, principalmente em pedra azul, claro, mas com pedrinhas menores para os países – pedrinhas minúsculas para todos as nações europeias. Minúsculas. Alguém tomou o cuidado de colocar uma pequena toalha rendada debaixo de cada enfeite, indicando onde eles devem ficar… Quanto cuidado!

Aqui ao lado, na varanda, reparamos em quatro vasos, percebem? Dois deles são compridos, são floreiras, com temperos. Outros dois parecem ornamentais, com folhas de tons belíssimos amarelo, vermelho, verde claro e escuro. Na verdade há mais dois vasos, mas neles não há plantas, só terra. Dá para ver que é terra fresca, regada, talvez tenham sementes. Não temos certeza. Também dá para ver que os vasos de temperos são cuidados, há até plaquinhas! Vejam, de cada lado uma cor. Talvez sirvam para indicar se as plantas já foram regadas naquele dia, ou não. Mas está bem, já vimos o suficiente da sala, vamos à cozinha.

É claro, quando entramos, que vive gente aqui. Produtos de ação humana estão por todos os cantos: em uma vasilha de cerâmica – ela é pintada, e com flores delicadas! – há biscoitos assados em casa (são irregulares, talvez uma criança tenha ajudado) e ao lado um pote com tampa guarda pedaços cortados de frutas. Notamos um copo com um fundinho de água ao lado de uma jarra com água até a metade, e vemos que na porta da geladeira há lembretes no alto, e alguns lembretes baixinhos, com figuras. Dentro da geladeira, é claro, também há vida. É de uma Casa Viva que falamos.

Abrimos e vemos: na porta, maços de temperos frescos em copos com água, alguns potes de vidro com restos de molhos ou acompanhamentos, e garrafas de suco ou água. Nas prateleiras nos surpreendemos: parece que alguém aqui se importa com a vida. Há industrializados, mas quase toda a geladeira é tomada por cores vivas de coisas que não vêm em embalagens. Lá embaixo, reparamos, há quase que uma cópia em tamanho menor do que está acima: uma pequena manteigueira com um pedaço de manteiga, quatro frutas, uma jarrinha pequena com suco, uma vasilha metálica com meio pepino, um tomate, algumas folhas de alface e meia cenoura, e fatias de queijo num outro potinho (plástico, aqui). Não vimos antes, mas vemos agora: ao lado daqueles pedaços de frutas que estavam fora da geladeira há uma tábua de cortar de um palmo e meio, uma faca simples, pequena, dois pratos limpos e um avental. Parece que a vida nessa casa não começa a um metro e meio do chão… Ela existe mesmo lá embaixo.

Quando seguimos pelo corredor que vai dar nos quartos, reparamos – que interessante! – que há algumas fotos de família penduradas na parede… à altura de nossas cinturas! Precisamos ajoelhar para ver. Não sabemos se as fotos ou os porta-retratos são mais bonitos… Parece que essa casa foi feita para gente muito pequena, quem sabe até por gente muito pequena, e muito caprichosa. Mas chegamos ao quarto.

Esse sim é feito para gente pequena. Integralmente. Tem uma cama, que fica a um canto do quarto, mas ela quase não é uma cama. É um colchão, assim, simples mesmo. Não tem cerquinha, proteção, nada. Até parece que quem dorme ali é livre! Livre para aprender a não cair, inclusive.

De resto é um quarto comum. Sem muito o que descrever. Paredes quase nuas, com duas fotografias muito bonitas, um desenho lindíssimo de um grande besouro, e só. De mobília, mesmo, há o guarda-roupa, com duas pilhas pequenas de roupas no alto, e umas seis ou sete peças de roupa em duas gavetas, dispostas de forma bem visível. Estamos acabando nossa visita com a impressão de que aqui mora alguém prático, também.

Por último, vemos que há também uma prateleira com objetos interessantes. Parecem brinquedos, mas talvez não o sejam exatamente. Esse capricho é raro em brinquedos… Talvez sejam objetos de estudo. São bonitos, de cores brilhantes, mas cuidadosamente escolhidas. E aqui também encontramos dois vasos com plantas muito vivas.

Nossa exploração chega ao fim. Vamos embora pelo corredor com fotografias baixinhas, fechamos a porta da varanda com os vasos lá fora, e damos uma última olhada na matrioska, nos vasos aqui de dentro e na ordem geral da casa. Há sempre poucas coisas, muita luz, ar… há na casa toda uma impressão de que é possível crescer aqui. Hoje, a única casa que conseguimos visitar foi um pequeno apartamento. Mas sabemos que é possível viver assim em qualquer lugar.

Dia das Crianças e Opressão

Uma criança. Vida nova. Imune ao mal e à doença, protegida de sequestros, surras, estupro, racismo, insulto, aversão a si mesma, abandono. Sem erro. Toda bondade. Desprovida de ira. Ou assim creem eles. – God Help the Child, Toni Morrison

Quando foi que nos esquecemos do desrespeito, da opressão e dos abusos que sofremos quando éramos crianças? As palmadas, os gritos, as ordens sem sentido, o assédio na rua, a falta de controle sobre o tempo e o espaço que habitávamos.

Em algum momento bastante precoce de nossas vidas, nos distanciamos de nós e aprendemos que precisávamos viver como eles, como os adultos, porque eles eram mais poderosos e fortes, mais conhecedores e onipotentes que nós. E se nós nos conformássemos às suas ordens, vontades, abusos e tiranias, poderíamos um dia ser incríveis também. Já que, então, ainda éramos crianças, incapazes, risíveis, cômicas, inúteis.

Em 1959, no dia 20 de novembro, se declararam os Direitos da Criança, na ONU. Internacionalmente é esse o Dia da Criança, 20 de novembro. Aqui, temos além dessa, mais uma data, muito mais comemorada: 12 de outubro. Hoje. E eu tenho uma proposta. Façamos com o Dia da Criança o que fazemos com o Dia da Consciência Negra e o Dia da Mulher. Vamos tomar o Dia da Criança não para distribuir rosas, mas para discutir igualdade. Vamos tomar o dia da criança não para celebrar, mas para refletir. Em lugar de (só) presentear ou, como não poderia deixar de ser em um mundo que rouba todo o tempo para devolvê-lo em papel colorido, em lugar de (só) estarmos presentes especialmente nesse dia, singularmente nesse dia, vamos tomar a data para enfrentar. Vamos tomar a data para libertar.

A criança é um grupo social oprimido. Constantemente. A criança é oprimida por ser pequena e nova. Ela é pequena e nova em relação ao quê? A quem? Quem é que a declara pequena e nova? Quem é que a diminui? Por um instante veja esta imagem:

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Respoda, se quiser responda em voz alta, onde está a água? Onde está a comida? Onde estão os espaços mais abrigados de vento e chuva? Onde está quase toda a vida? Se para todas as perguntas você respondeu algo como “na altura do chão” ou “a poucos centímetros de altura”, parabéns. A maior parte da natureza é, como um adulto diria, pequena.

Quase tudo, antes de nossa interferência, acontece mesmo perto da terra, perto da água, perto das raízes do mundo. É nesse mundo que nós fomos preparados para viver, por muito, muito tempo de evolução. Mas aí mudamos as coisas.

Aí, nós saímos da floresta, e fizemos as vilas, depois as cidades – sim, eu estou dando imensos saltos históricos aqui – e nesses espaços, a criança não pode nada. Nesses espaços nós tiramos dela tudo o que podia fazer antes: antes, a sede podia ser resolvida na água do rio, e a higiene também, a fome nas pequenas frutas, nas folhas, nas raízes do mundo. A brincadeira acontecia entre pedras, desníveis de chão, árvores grossas e arbustos. É verdade, havia perigos, a criança precisava de proteção. Mas havia o imperativo natural da independência e, daí, de uma liberdade qualquer inevitável. Nós a roubamos.

Toda opressão é resultado de algum tipo de roubo. Nós, adultos, roubamos a natureza das crianças, e não parece que chegará logo o momento em que a devolveremos. Nós roubamos a água que fluía aos pés da criança menor de todas, e a colocamos a mais de um metro, muitas vezes, em um bebedouro que exige controle motor fino para funcionar. Nós roubamos a comida que ficava pendurada entre as folhas de um arbusto baixo e a escondemos atrás de uma grossa porta de metal fechada por tecnologia magnética, que exige força para abrir. Nós roubamos a diversão que rodeava a criança e a instalamos em prateleiras que exigem dinheiro para serem possuídas. Nós roubamos o sono que acontecia à sombra das árvores e o colocamos numa masmorra de madeira ou plástico envolta em grades, que exige nossos braços para ser acessada. Nós roubamos tudo. Nós só somos superiores à criança porque, aos poucos, roubamos tudo o que ela tinha.

Agora, todo o roubo feito, praticamos escambo. Nada mais apropriado a um colonizador que oprime. Se a criança nos obedece, tem chance de divertir-se. Se ela satisfaz nossas exigências de movimento corporal, tem permissão para beber e comer sozinha. Se ela nos dá razão para não nos preocuparmos, pode dormir quando quer. Se ela não atrapalha o horário de nossas refeições, pode satisfazer sua fome. Se, no entanto, nos desobedece, pode ser trancada na masmorra. Se ela precisa se mover mais do que permite o ambiente restrito que fizemos para nós, mas tanto quanto permitia a terra que roubamos, então fica de castigo, apanha, morre – por fora, por dentro, por vezes de todos os jeitos.

Segundo Montessori, o adulto pensa que seu poder advém do fato simples de ser adulto. Por isso, e só por isso, ele pode. Isso não é questionável porque é axiomático: é assim porque é assim porque é assim porque é assim. Mas é mentira. O poder do adulto não advém do fato de ele ser adulto. O poder do adulto advém do roubo.

O adulto roubou o espaço e, reproduzindo a lógica em que vive, na qual tem seu tempo roubado constantemente, rouba o tempo da criança. Se eu não posso, ela não pode. Ela é uma criança e precisa se acostumar, o mundo é assim. Fomos roubados, nós adultos, também, e não lutamos para que nada nos seja devolvido. Por que é que a criança deveria poder lutar?

E quando luta, quando busca fazer sua revolução, quando exige que suas necessidades sejam atendidas, reagimos como o pior dos governos: reprimimos qualquer coisa. Reagimos como o governo de Foucault, clinicamos o que não nos agrada, e chamamos especialistas que nos expliquem a birra, o escândalo, os terrible twos, tudo o que não é a imobilidade passiva e obediente que, em silêncio, desejamos. Nós não queremos ouvir a criança, nós não olhamos para suas necessidades, e se ela as exige, fazemos com ela o que se fez com as feministas por tanto tempo: trata-se de um caso grave de histeria. Vamos chamar uma especialista que, num programa televisivo nos ensine a recuperar o poder do adulto.

Maria Montessori colocou sabiamente: Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança. Essa frase fica presa à minha lousa de estudos, em casa. Abaixo dela, com a caneta da lousa, se lê “e isso precisa ser percebido”. Isso, infelizmente, não é óbvio.

Que não nos sintamos soterrados em culpa. Não tem culpa demais aquele que discrimina antes que se lhe esclareça que discrimina, antes que alguém chegue até ele e diga: “Escuta, isso, que você faz, está errado. E está errado porque essa criança é um ser humano, e não se age assim com seres humanos”. Vamos fazer do Dia das Crianças um dia simbólico de reflexão, de mudança. Vamos fazer Montessori, porque sabemos que Montessori ajuda a vida da criança, porque sabemos que Montessori é uma forma de pensar e uma forma de agir que previne e inibe a opressão. Mas vamos também refletir muito, demais mesmo, porque mesmo quem não possa conhecer Montessori imediatamente, mesmo quem não possa aplicar Montessori já e agora, mesmo esse adulto não pode oprimir a criança. Ninguém pode. Nós podemos mudar isso com um excesso de esclarecimento e com uma posição extremada: precisamos abraçar o radicalismo da compaixão.

Se você quiser entender mais sobre opressão e a opressão da criança, sugerimos:

A Criança, de Maria Montessori – o livro inteiro

Mente Absorvente, de Maria Montessori – o final do livro, últimos cinco ou seis capítulos.

Readings for Diversity and Social Justice – Editora Routledge, vários autores

A Revolução do Altruísmo – Matthieu Ricard

Os Condenados da Terra – Frantz Fanon

O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Microfísica do Poder – Michel Foucault

O Olho Mais Azul e God Help the Child – Toni Morrison (qualquer romance dela, na verdade)

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

 

Escola Maria

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Desde 2013 que professores pedem que o Lar Montessori dê algum suporte para escolas. Os textos do Lar Montessori vêm sendo usados para preparação de professores no Brasil e os vídeos são assistidos por equipes de escolas em reuniões e planejamentos. Isso tudo me enche de uma alegria que não pode ser traduzida em palavras. Mas, nitidamente, isso não era o suficiente.

Depois de um tempo amadurecendo a ideia, decidi. Em agosto de 2015 começaria uma nova página, amiga, parceira do Lar Montessori, mas voltada para profissionais da infância. Começou agosto e eu achei que seria ainda mais bonito se o lançamento dessa página acontecesse dia 31, no aniversário de Maria Montessori.

Com a pesquisa de mestrado e a disseminação de Montessori no Brasil, pouco tempo ficou para a estruturação dessa página, então, embora bonita, organizada e com uma quantidade agradável de conteúdo, a página vai ficar muito melhor com as adições que o tempo trouxer.

Agora, vamos aos fatos. Hoje, agora, foi ao ar a Escola Maria, uma página de apoio à formação de professores montessorianos, em português. Você é mais que bem-vindo lá! Vamos juntos?

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Montessori e Porque Não Precisamos Estimular Crianças

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As crianças vivem no mesmo mundo que nós vivemos. Mas se por um momento nos colocarmos em seu lugar, e olharmos o mundo por seus olhos, não nos sentiremos em nosso próprio mundo, mas em um outro, mais cheio de encantos, mais cheio de milagres e de mistérios. A criança pisa a mesma terra que nós pisamos, come a comida que comemos, ou quase, sorri para os nossos olhos, brinca com aquilo que fazemos, entregamos ou compramos. O encanto que ela vê e nós não vemos vem de uma só diferença: ela pisa a mesma terra que nós, mas essa é a primeira vez que ela pisa. Ela come a mesma comida que nós, mas é a primeira vez que ela come. Ela vê o mesmo mundo que nós, mas é a primeira vez que ela vê. E os campos de flores, as paisagens novas, as viagens, a meditação, as artes e tantas outras coisas existem para nos lembrar disso, desse encanto que existe quando vivemos pela primeira vez. Para a criança, a vida é toda um estado de graça.

É um sacrilégio interromper o estado de graça da vida com um cubo colorido que faz sons quando apertamos suas faces. É um sacrilégio interromper o milagre da existência para dizer que o nome daquela forma sem forma, de cheiro forte e pele áspera e amarela que a criança segura nas mãos é ba-ta-ta. Nem eu, nem você, nem ninguém, interromperia um monge que contempla o horizonte para lhe fazer uma pergunta sobre a formiga que anda na terra. E nem eu, nem você, nem ninguém interromperíamos um biólogo que observa a formiga para oferecer a ele um cubo mágico e perguntar se ele consegue fazer com que cada face fique com uma só cor.

Cubos e formigas à parte, a vida da criança é inteira o nascer do Sol. Todo o tempo, aquilo que a circunda tem a magia de uma manhã orvalhada e de um céu iluminado em tons de lilás pelo mar de estrelas que ameaçam amanhecer à noite. Ninguém que olhe o céu com encanto precisa de um brinquedo que brilhe no escuro. Ninguém[1] que olhe a vida pela primeira vez precisa de nenhum estímulo que não… que não a vida em si mesma, a brotar do chão.

Vivemos, infelizmente, em um mundo que nos hiperestimula. Nossa comida tem muito sal, muito açúcar e muita gordura. Nossa tecnologia tem muita luz e muito som. Nossas cidades têm imagens demais, barulho demais, fumaça demais. Nossas propagandas têm mensagens demais, e nossos produtos têm propaganda demais. Nossas redes são sociais demais, e nós, bom, nós alimentamos tudo isso porque somos sozinhos demais, e o excesso de estímulo nos dá a cansativa impressão de estarmos fazendo alguma coisa, nos sacia enganadoramente a ânsia de estarmos com alguém, fazendo algo que faz sentido. Vivendo nesse mundo, imersos em hiperestímulo, é reflexo natural que acreditemos que devemos estimular crianças.

Estimulamos demais porque queremos mais e mais cedo. Queremos que elas leiam mais e mais cedo, que falem mais e mais cedo, que andem mais e mais cedo, que associem mais e mais cedo, que lembrem, contem, calculem, conversem, entendam, percebam, peguem, montem, conquistem, entrem, acumulem, tenham e tenham sucesso, mais e mais cedo. E nós acreditamos que, primeiro, isso é bom, que, segundo, é o único jeito de dar certo no mundo de hoje e, terceiro, que pelo menos não vai fazer mal nenhum. Há quem viva pensando que menos é mais. Para a maior parte de nós, no entanto, mais é mais mesmo.

Montessori foi muito clara: para a criança, a vida é suficiente. Testemunhar a vida (primeiros meses), conquistar a vida (primeiros anos), participar da vida (toda a infância), questionar a vida (do meio para o fim da infância e a adolescência), contribuir para a vida (adolescência madura e juventude) e modificar a vida (juventude e maturidade). Nessa ordem. A vida basta.

Nós falamos de móbiles. Montessori falava de móbiles, mas alertava: é ainda melhor se a criança puder ficar deitada em uma almofada inclinada, observando os adultos em movimento e em interação no ambiente. É ainda melhor, ela disse em Mente Absorvente, se a criança puder acompanhar o adulto o tempo todo, especialmente nos primeiros meses, e no primeiro ano e pouco de vida, presa a um sling, observando tudo, acompanhando tudo, dormindo quando necessário. A vida é generosa, ela sabe o que faz: se abre sincera, ampla e sem reservas aos cinco sentidos da criança. E a criança foi feita para a vida e sabe recebê-la e utilizá-la para se desenvolver com perfeição.

O cérebro da criança bem pequena absorve a vida com a sede de quem caminha pelo deserto e encontra um oásis. Ele faz ligações rápidas, testa, muda, experimenta, muda de novo, e aos poucos faz sentido do que vê, do que sente, do que testemunha e do que faz com suas tenras mãos e seu pequeno corpo recente. A mente da criança trabalha em um ciclo: primeiro ela absorve, sem ordem, sem preocupação de ordem. Depois ela organiza, principalmente durante o sono. E por último ela reproduz em teste, em ação, aquilo que entendeu: um gesto, uma palavra, um jeito novo de ser independente.

Nós precisamos adequar o ambiente para que ele possa ser acessado pela criança, e precisamos fazer coisas na altura dela para que ela possa ver. Nós precisamos falar com ela e perto dela, interagir com ela e perto dela. A criança não se desenvolve bem em uma bolha sem vida, sem mundo. Mas se está em contato conosco, com o que a cerca e nos cerca, e vê a vida em desenvolvimento, desenvolve-se também.

Quanto aos materiais, Montessori foi incrivelmente clara: eles não servem para ensinar, não servem para estimular e não devem ser uma adição aos estímulos da vida. O objetivo dos materiais é ajudar a criança a organizar em sua mente aquilo que o mundo já entregou a ela, e ela já absorveu, sem ordem.

Se temos uma caixa de cores (de sons, de pesos, de letras, para todos os efeitos), não devemos esperar que a criança nunca tenha visto as cores. Somente esperamos que assim descriminadas elas façam mais sentido, tenham mais ritmo, afetem mais organizadamente os sentidos da criança e possam ser organizadas com mais facilidade em sua mente, que organiza não a caixa de cores, mas o mundo a partir da lógica da caixa. Cada material, por isso, carrega todo o universo em si. É a partir da ordem adquirida em sua manipulação que a criança enxergará o mundo. O material não é pouco, ele é muito. Mas ele não é estímulo, não é mais uma coisa para ser vista. E por isso não deve abundar em quantidade.

A maior parte do tempo da criança é empregada na vida, e assim deve ser. No cuidado da vida. A partir da organização do mundo que o material ajuda a criança a fazer, fica mais fácil agir: quando entendemos, é mais fácil entrar em ação. Por isso, depois de entender as letras, aquelas todas que a criança já viu antes, fica mais fácil escrever. E também é por isso que não enchemos as paredes das salas de letras as mais diversas: ver mais não é o que queremos propiciar. Queremos que a criança possa ver melhor.

No quarto, em casa, isso é dez vezes mais verdade. Se na escola não queremos fazer a criança transbordar de impressões sensoriais, menos ainda queremos em casa. Estímulo sensorial não é conosco. É com a vida. É com a casa em seu estado normal, é com a rua, é com a natureza – vamos levar nossas crianças à natureza, elas precisam disso! – o estímulo fica por conta do que está aí, do que já faz parte do mundo, do que não pode ser evitado. Nosso papel é a educação sensorial, e isso exige paz sensorial primeiro. O quarto não é o espaço do estímulo, mas do descanso, do sossego, do acolhimento, da tranquilidade. Poucas cores, poucas coisas. Muita, muita humanidade, e muita paz.

Vamos fazer uma nova opção de mundo, uma nova opção de vida. Se queremos, precisamos primeiro aceitar: a mente da criança vive pela primeira vez, observa pela primeira vez. A vida é interessante como uma viagem, mas cansativa como uma viagem. Fabulosa como uma experiência que temos pela primeira vez, mas da mesma forma, exige tempo para assimilação. Como foi da primeira vez que recebemos ou entregamos um beijo. Como é, até hoje, quando terminamos um livro ou um filme fabuloso. Quando nasce um filho. Cada experiência exige um tempo, uma pausa, uma tomada de caminho, de decisão, uma mudança de vida. Para a criança é assim o tempo todo.

Vamos optar pela paz. Nós não precisamos estimular nossas crianças, a vida foi feita nos menores e nos melhores detalhes para isso. A vida e a criança sabem se fazer, se construir, se revolucionar. Nosso papel é o do assistente, do suporte: a gente não apresenta a vida, a gente ajuda a criança a lidar com ela, da melhor maneira possível. Para a criança, a vida já é demais. Nós podemos ficar tranquilos, e só ajudar na organização do espetáculo.

Não somos nós que fazemos o milagre. Nós podemos, nós devemos, ajudar a criança, pouco a pouco, devagar, com a tranquilidade do capim que cresce do chão, pouco a pouco, ajudar a criança a entender, a viver e a reproduzir o milagre. A costurar seu mundo novo.

[1] Recebemos um conselho importantíssimo ao começar este texto. Quando escrevemos que ninguém precisaria de mais estímulo do que aquele que a vida oferece, deixamos de considerar as crianças que precisam de ajuda para absorver o que a vida oferece. Há muitas crianças que, por recomendação médica ou terapêutica, precisam de mais estímulo do que aquele oferecido pelo mundo, e de forma nenhuma é vontade do Lar Montessori convencer você do contrário. Se sua criança está entre aquelas que precisam de um pouco mais de ajuda, sua visita ao Lar Montessori é ainda mais bem vinda. Nós queremos você aqui, e sugerimos que você se aprofunde em Montessori. Ela nos disse muitas vezes, e comprovamos na prática todos os dias: o método Montessori é perfeito para todas as crianças, mas precisa ser adequado a cada uma. Se a sua criança precisa ser apresentada à vida com um pouco mais de insistência, de cuidado, de repetição, estamos com você, e vamos caminhar juntos para encontrarmos na vida todos os encantos que pudermos levar à vida de sua criança, da melhor maneira, para dela.

Na Direção da Eternidade – Primeiros Passos em Montessori em Casa

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Talvez você já tenha ouvido falar de Montessori, e talvez tenha ouvido falar dos resultados incríveis de Montessori: a tranquilidade, a independência, a concentração, o silêncio, a liberdade, a vida. Mas Montessori é um processo, quase infinito de fato, e é preciso começar por algum lugar. Há, basicamente, três lugares para começar: mudando nosso olhar sobre a criança, mudando o ambiente onde a criança vive e mudando nosso comportamento para com a criança. Ciclicamente.

Nosso olhar

Culturalmente, olhamos para a criança inferiorizando-a. Isso aparece bem evidentemente na fala do adulto: “Não aja assim, você não é mais criança!”, “Você parece criança! Tenha dó!”, e o mais comum de todos para educadores da infância: “Puxa, você deve ter paciência!”. Em Montessori, olhamos a criança de outra maneira, para nós a criança é nobre, ela é a construtora da humanidade, é graças à criança que existimos e só graças a ela que o futuro humano existirá. Ela guarda as chaves da vida, e deve ser vista assim. A criança precisa ser vista como um ser cuja principal tarefa no mundo é a conquista de independência e o desenvolvimento da concentração.

Devemos aprender a ver a criança como nossa redentora. Ela nos perdoa todos os erros, ama-nos apesar de todos as nossas falhas. A criança nos indica com suas atitudes os melhores caminhos da vida: atenção plena ao momento presente, interesse pelo mundo que a cerca, concentração total em cada pequeno detalhe do ambiente, carinho e confiança, renovação e paz. A criança indica ao adulto em que ele pode se tornar se desejar ser melhor.

A criança é a fonte do amor humano. Não há adulto que não fique mais leve, mais pleno, mas sabedor de sua vida no tempo ao assistir uma criança agindo feliz no mundo – todos nós sorrimos, porque a criança faz nascer a alegria e o contentamento. Eles brotam da criança, como a água das pedras, e vêm a nós descendo, e não subindo, a partir do olimpo onde habita o Dia de Amanhã.

Não devemos olhar a criança como um ser que precisa ser disciplinado, limitado, violentado, castigado ou humilhado. Mas como alguém que precisa de nossa observação, nossa esperança, , cuidado e ajuda. Observar a criança é fundamental, todos os dias. Só assim poderemos perceber de que ela precisa, o que a frustra, quão justas são suas enfáticas objeções. Só pela observação seremos capazes de agir com ela de forma a estabelecer a paz e a vida em nossas relações. Olhar para a criança com atenção é o primeiro passo para percebermos suas necessidades verdadeiras e sua nobreza, a profundidade de sua magnificência.

O Ambiente onde a Criança Vive

Se queremos salvar animais da extinção, criamos reservas florestais e cuidamos, para que elas se tornem santuários de vida a transbordar. Se queremos compreender bactérias criamos ambientes perfeitos para seu desenvolvimento em placas e tubos de ensaio meticulosamente preparados. Se queremos que a criança crie a humanidade futura da forma mais bela e sublime possível, precisamos preparar ambientes cuidadosamente pensados para elas, para o benefício delas e a vida delas.

O ambiente da criança deve ser seguro, belo, preparado para sua atividade, acessível e limitado em número de objetos. Devemos garantir a liberdade da criança, e se ela será livre, precisamos garantir que ficará bem. Por isso, é importante cuidar da segurança no ambiente. As janelas, as eletricidades, as alturas, os fios (de luz e de corte), tudo deve ser liberado para a criança, mas muito lentamente, conforme ela aprenda a viver, conviver, usar e se proteger de cada um. A proibição total nunca funcionou na história da humanidade. A disciplina que funciona é aquela que ensina como agir, não aquela que impede a ação.

A beleza do ambiente da criança é a das galáxias: há brilho, há luz, há estímulo. Mas espaçado por grandes distâncias. Distâncias que, na Terra, são preenchidas de ar. As paredes devem ser claras, neutras, as estantes, prateleiras, e a mobília também. Essa neutralidade pode ser, deve ser, pontuada por belezas brilhantes: poucos bons brinquedos, poucos bons livros, poucos bons enfeites para decoração. Até seis brinquedos, mas geralmente menos, que se deve alterar a depender do interesse da criança. E todos brinquedos que dependam integralmente da criança para acontecer: nenhum brinquedo a pilha, nenhum brinquedo eletrônico, tudo o que dependa completamente das mãos da criança. Com poucas cores de cada vez, pouco estímulo visual ou auditivo, poucas dificuldades. Muitas dificuldades confundem, tencionam, estressam.

Deve haver poucos objetos, para que a escolha criteriosa seja possível. E estes devem ser acessíveis à criança, fisicamente. Devem ficar baixos para que a criança possa tomar água sozinha, comer sozinha, se vestir e despir sozinha, banhar-se sozinha, cuidar-se sozinha. Quando as coisas não podem ficar mais baixas, pode haver um banquinho, firme, forte, amplo, onde se apoiem bem os dois pés da criança, e ela possa acessar o mundo mais alto.

O Comportamento do Adulto

O maior desafio sempre está dentro de nós. Da pele para dentro. O desafio da tranquilidade, de compreender a vida, de olhar com interesse o que nos cerca, de gostar do que temos e perseguir em paz aquilo de que gostaríamos. O maior desafio é mudar o que há de humano em nós, para progressivamente nos tornarmos dignos da criança – aqui, vale dizer, não há culpa. Nós somos, no fundo, todos suficientes e dignos de amor e conexão. O que há é a perseguição de um melhor estado de vida, convivência e educação.

Precisamos viver com a criança não como servos, nem como tiranos, mas como auxiliares, prontos a ajudar em tudo o que for necessário, e prontos a deixar que a criança faça por si tudo aquilo que ela puder fazer sozinha. Nunca devemos ajudar uma criança em uma tarefa que ela acredita poder fazer sozinha. Quando ajudamos demais, inibimos o desenvolvimento da independência. Quando interrompemos uma criança que tenta, inibimos o desenvolvimento da concentração. O esforço da criança é necessário para o melhor de sua vida, e para o melhor da humanidade.

Precisamos aprender a enxergar a criança com esperança e fé. Precisamos sabê-la suficiente. Precisamos acompanhar a criança na caminhada para a vida durante a qual ela atravessa belíssimos caminhos de independência, alegria, amor. É difícil para nós que acreditemos, mas podemos crer: a criança aprende sozinha, é nosso papel preparar aquilo que a cerca, para que ela possa aprender, conquistar, desenvolver-se. Então, ela caminhará em paz, na direção da eternidade, construindo o que há de mais belo em si mesma e no mundo em volta.

Montessori Exige de Nós um Posicionamento Frente ao Mundo?

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“… ‘Como vou me manter?’ é a pergunta que todos se fazem, neste mundo maravilhoso, cheio de recursos e de novas formas de viver. Muitos estariam prontos a sacrificar tudo para se livrar dessa angústia, que se assemelha em muito com a ansiedade dos pacientes que sofrem da neuroses patológicas. […]

Observem, então, o que acontece com o tipo de educação dada pelos pais e professores. Eles dizem à criança: ‘Vamos, você tem de se concentrar em seus estudos! Você tem de obter um diploma! Você tem de conseguir este ou aquele emprego! De outra forma, como você viverá?’ Pais e professores de hoje esquecem de dizer as palavras que foram a pedra de toque da educação: ‘Todos os homens são irmãos'”. – Maria Montessori, A Educação e a Paz, Cap. 5.

Tive, então, uma visão […] de uma criança de pé, de braços abertos, convidando a humanidade a segui-la.” – Idem, Cap. 15.

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Montessori exige de nós um posicionamento frente ao mundo. Um posicionamento difícil, mais desafiador que os outros todos, eu sinto. E este texto não termina o raciocínio que começa. Ele começa e convida você a pensar conosco, a refletir também, a levar a reflexão a outros – especialmente outros que possam ajudar, mais do que destruir, aquilo que você já foi capaz de compreender. Nós vamos só começar.

Montessori, o método, a forma de viver, a forma de criar, a forma de educar e ajudar a vida, exige de nós uma forma de agir na Terra. Um jeito de debater, um foco para as questões da humanidade, e uma escolha de caminhos a seguir com as ações que levamos a cabo em nossa vida diária. O caminho não parece muito exato, mas talvez possamos entrever algumas coisas.

Primeiro, Montessori defende a interdependência de todos os seres. Todos mesmo. Ela nos lembra de que a forma da Terra hoje é um resultado da ação da vida sobre o relevo, e que o humano é parte da vida e tem um papel fundamental no equilíbrio do todo. Nesse sentido, nos traz à memória o papel que o humano parece desempenhar no mundo: ele busca melhorar a Natureza. Muitas vezes, necessário dizer, com sucesso. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que uma pessoa pudesse morrer por doenças banais e que podem ser prevenidas ou tratadas. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que um membro ferido de família estivesse fadado à morte certa. Nenhum de nós – ou só algumas exceções bastante pontuais – gostaria de voltar para o tempo em que qualquer alimento só poderia ser conseguido por caça e coleta. Nós progredimos, e progredimos bastante, e progredimos positivamente, em nosso trabalho de modificar e melhorar a Natureza. Nós, infelizmente, também modificamos e pioramos a Natureza, mas isso se explica por um outro caminho humano.

Nós por algum motivo desenvolvemos em nós a insaciedade eterna. O humano quer mais, e mais. E não quer dividir. E se recusa a reconhecer que tudo o que lhe pertence também ao outro, porque no fim de qualquer raciocínio, a Natureza produz sem exigir nada em troca, e então todos nós temos exatamente o mesmo direito sobre todas as coisas. Mas o medo profundo de que não haja o suficiente, o medo incutido de que não haja o suficiente, nos leva a lutar por um excesso absolutamente desnecessário.

Também em A Educação e a Paz Montessori defende o ensino de métodos de análise sociológica e econômica para o adolescente, para prevenir o que ele chama de sentir-se um grão de areia em um imenso deserto que não pode ser compreendido. O adulto que pode analise o meio humano, social, econômico, que pode compreender as condições materiais de existência em que se encontra, encontra-se menos órfão, menos perdido, e menos desesperado.

Sobretudo, no entanto, em nosso avanço material esquecemos quase completamente de nosso trabalho interior a ser realizado. Só hoje aos poucos retornamos a pensar sobre o trabalho que precisa ser desenvolvido do humano para dentro, e não tanto do humano para fora. As revoluções, as leis, os decretos, as inúmeras tentativas de progresso baseadas nos meios exteriores ao humano são de total validade. São fundamentais, têm sua importância e precisam ser reconhecidas. É necessária a luta constante por melhores condições de trabalho, salários dignos, e não de sobrevivência, igualdade de gêneros, igualdade de raças, fim das condições de vida degradantes e da humilhação social de grupos humanos imensos. É necessário que haja leis para proteger mulheres, negros, gêneros não-heterossexuais, e para proteger o pobre – uma das grandes faltas da atualidade é a microluta (no sentido da microfísica, e não em qualquer sentido pejorativo) para a proteção de grupos específicos e o esquecimento (proposital?) de que uma imensa parcela do mundo ainda é pobre e ainda é miserável, e de que essa parcela precisa ser protegida, amparada e ajudada.

Ainda assim, entretanto, esquecemos o que está dentro do humano. Nós esquecemos de que há, dentro de nós, potencial infinito. Nós – como pudemos? – esquecemos de que o humano não vem pronto e predestinado, como as lagartas, os golfinhos e as cianobactérias. Nós nos esquecemos de que podemos fazer qualquer coisa. Esquecemos de que somos capazes de tudo. E nós nos esquecemos, embora todas as religiões tenham repetido, que os lírios do campo não trabalham nem fiam, mas se vestem melhor do que nossos maiores CEOs, as majestades da contemporaneidade. Nós ainda não conseguimos nos lembrar de que é possível salvar a humanidade. E de que, como só nós podemos fazer isso, é essa nossa maior responsabilidade, ela é coletiva, e é necessário que todos tomemos parte no progresso interior do humano.

Para caminharmos na direção do infinito, precisamos de um rumo, e não de um objetivo. Não nos cabe procurar um objetivo. Nós não conhecemos o melhor possível para toda a humanidade. Mas nós sabemos que há algo essencial para que o melhor do humano possa brotar. E o essencial é o respeito profundo, feito de conhecimento, amor e reverência, à majestade da criança. A criança como construtora da humanidade, a criança como mãe do adulto.

Assim, parece-nos, devemos buscar tudo aquilo que propicie à criança a melhor condição de vida, de desenvolvimento, de liberdade e de progresso no mundo. Somos a favor de tudo o que ajudar a caminhada nesta direção, e somos contra tudo aquilo o que de alguma forma atrapalhar. Somos a favor de parques e praças, e somos contra o tratamento violento dispensado a crianças e adolescentes. Somos a favor de refeições saudáveis, e somos contra o movimento industrial que impõe pela autoridade médica a famílias e escolas o consumo de produtos alimentícios desnecessários e prejudiciais. Somos a favor de professores que possam viver, dormir, estudar e criar(em-se), para que possam ser melhores professores, e somos contra a destruição progressiva do sistema escolar por sistemas apostilados e provas sistematizadas. Somos a favor de licenças maternidade e paternidade que permitam o convívio dos pais com seus filhos, e contra qualquer desigualdade de gênero, cor ou classe econômica que force o adulto a ser incapaz de dar à sua criança a vida que ela merece ter. Somos a favor de uma comunhão internacional para reconhecer, finalmente, que as crianças são criadoras da humanidade inteira, e não só de seus próprios pais, sua própria religião ou seu próprio país, e que então a criança é cidadã universal e é papel de todo o planeta garantir a qualidade de vida da criança pequena, e não só papel de seus pais, sua escola ou seu governo. Somos contra as fronteiras, a guerra e a política de exclusão internacional.

Somos, por fim, a favor de uma paz que ainda não existe, e que não sabemos como se comportará quando existir. Mas somos a favor da busca por essa paz, uma paz que somente nascerá de gerações vindouras que, respeitadas na geração de seus primeiros pensamentos, movimentos e vontades, for capaz de construir um mundo novo, cheio de milagres.

Este texto foi escrito com base em todo o livro A Educação e a Paz. Também, foi escrito ao som de Imagine, de John Lennon, e qualquer intertexto não é mera coincidência. Por fim, haverá aqui resquícios das ideias do autor, em geral emprestadas de Zyngmunt Bauman, Foucault, Terry Eagleton, Clarissa Pinkola Éstes, Madre Teresa e o Dalai Lama. A sua opinião é muitíssimo bem vinda e, mais uma vez, ressaltamos que a tentativa deste texto é iniciar um processo de pensamento sobre o posicionamento social mínimo do adulto montessoriano.