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Na Direção da Eternidade – Primeiros Passos em Montessori em Casa

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Talvez você já tenha ouvido falar de Montessori, e talvez tenha ouvido falar dos resultados incríveis de Montessori: a tranquilidade, a independência, a concentração, o silêncio, a liberdade, a vida. Mas Montessori é um processo, quase infinito de fato, e é preciso começar por algum lugar. Há, basicamente, três lugares para começar: mudando nosso olhar sobre a criança, mudando o ambiente onde a criança vive e mudando nosso comportamento para com a criança. Ciclicamente.

Nosso olhar

Culturalmente, olhamos para a criança inferiorizando-a. Isso aparece bem evidentemente na fala do adulto: “Não aja assim, você não é mais criança!”, “Você parece criança! Tenha dó!”, e o mais comum de todos para educadores da infância: “Puxa, você deve ter paciência!”. Em Montessori, olhamos a criança de outra maneira, para nós a criança é nobre, ela é a construtora da humanidade, é graças à criança que existimos e só graças a ela que o futuro humano existirá. Ela guarda as chaves da vida, e deve ser vista assim. A criança precisa ser vista como um ser cuja principal tarefa no mundo é a conquista de independência e o desenvolvimento da concentração.

Devemos aprender a ver a criança como nossa redentora. Ela nos perdoa todos os erros, ama-nos apesar de todos as nossas falhas. A criança nos indica com suas atitudes os melhores caminhos da vida: atenção plena ao momento presente, interesse pelo mundo que a cerca, concentração total em cada pequeno detalhe do ambiente, carinho e confiança, renovação e paz. A criança indica ao adulto em que ele pode se tornar se desejar ser melhor.

A criança é a fonte do amor humano. Não há adulto que não fique mais leve, mais pleno, mas sabedor de sua vida no tempo ao assistir uma criança agindo feliz no mundo – todos nós sorrimos, porque a criança faz nascer a alegria e o contentamento. Eles brotam da criança, como a água das pedras, e vêm a nós descendo, e não subindo, a partir do olimpo onde habita o Dia de Amanhã.

Não devemos olhar a criança como um ser que precisa ser disciplinado, limitado, violentado, castigado ou humilhado. Mas como alguém que precisa de nossa observação, nossa esperança, , cuidado e ajuda. Observar a criança é fundamental, todos os dias. Só assim poderemos perceber de que ela precisa, o que a frustra, quão justas são suas enfáticas objeções. Só pela observação seremos capazes de agir com ela de forma a estabelecer a paz e a vida em nossas relações. Olhar para a criança com atenção é o primeiro passo para percebermos suas necessidades verdadeiras e sua nobreza, a profundidade de sua magnificência.

O Ambiente onde a Criança Vive

Se queremos salvar animais da extinção, criamos reservas florestais e cuidamos, para que elas se tornem santuários de vida a transbordar. Se queremos compreender bactérias criamos ambientes perfeitos para seu desenvolvimento em placas e tubos de ensaio meticulosamente preparados. Se queremos que a criança crie a humanidade futura da forma mais bela e sublime possível, precisamos preparar ambientes cuidadosamente pensados para elas, para o benefício delas e a vida delas.

O ambiente da criança deve ser seguro, belo, preparado para sua atividade, acessível e limitado em número de objetos. Devemos garantir a liberdade da criança, e se ela será livre, precisamos garantir que ficará bem. Por isso, é importante cuidar da segurança no ambiente. As janelas, as eletricidades, as alturas, os fios (de luz e de corte), tudo deve ser liberado para a criança, mas muito lentamente, conforme ela aprenda a viver, conviver, usar e se proteger de cada um. A proibição total nunca funcionou na história da humanidade. A disciplina que funciona é aquela que ensina como agir, não aquela que impede a ação.

A beleza do ambiente da criança é a das galáxias: há brilho, há luz, há estímulo. Mas espaçado por grandes distâncias. Distâncias que, na Terra, são preenchidas de ar. As paredes devem ser claras, neutras, as estantes, prateleiras, e a mobília também. Essa neutralidade pode ser, deve ser, pontuada por belezas brilhantes: poucos bons brinquedos, poucos bons livros, poucos bons enfeites para decoração. Até seis brinquedos, mas geralmente menos, que se deve alterar a depender do interesse da criança. E todos brinquedos que dependam integralmente da criança para acontecer: nenhum brinquedo a pilha, nenhum brinquedo eletrônico, tudo o que dependa completamente das mãos da criança. Com poucas cores de cada vez, pouco estímulo visual ou auditivo, poucas dificuldades. Muitas dificuldades confundem, tencionam, estressam.

Deve haver poucos objetos, para que a escolha criteriosa seja possível. E estes devem ser acessíveis à criança, fisicamente. Devem ficar baixos para que a criança possa tomar água sozinha, comer sozinha, se vestir e despir sozinha, banhar-se sozinha, cuidar-se sozinha. Quando as coisas não podem ficar mais baixas, pode haver um banquinho, firme, forte, amplo, onde se apoiem bem os dois pés da criança, e ela possa acessar o mundo mais alto.

O Comportamento do Adulto

O maior desafio sempre está dentro de nós. Da pele para dentro. O desafio da tranquilidade, de compreender a vida, de olhar com interesse o que nos cerca, de gostar do que temos e perseguir em paz aquilo de que gostaríamos. O maior desafio é mudar o que há de humano em nós, para progressivamente nos tornarmos dignos da criança – aqui, vale dizer, não há culpa. Nós somos, no fundo, todos suficientes e dignos de amor e conexão. O que há é a perseguição de um melhor estado de vida, convivência e educação.

Precisamos viver com a criança não como servos, nem como tiranos, mas como auxiliares, prontos a ajudar em tudo o que for necessário, e prontos a deixar que a criança faça por si tudo aquilo que ela puder fazer sozinha. Nunca devemos ajudar uma criança em uma tarefa que ela acredita poder fazer sozinha. Quando ajudamos demais, inibimos o desenvolvimento da independência. Quando interrompemos uma criança que tenta, inibimos o desenvolvimento da concentração. O esforço da criança é necessário para o melhor de sua vida, e para o melhor da humanidade.

Precisamos aprender a enxergar a criança com esperança e fé. Precisamos sabê-la suficiente. Precisamos acompanhar a criança na caminhada para a vida durante a qual ela atravessa belíssimos caminhos de independência, alegria, amor. É difícil para nós que acreditemos, mas podemos crer: a criança aprende sozinha, é nosso papel preparar aquilo que a cerca, para que ela possa aprender, conquistar, desenvolver-se. Então, ela caminhará em paz, na direção da eternidade, construindo o que há de mais belo em si mesma e no mundo em volta.

Montessori Exige de Nós um Posicionamento Frente ao Mundo?

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“… ‘Como vou me manter?’ é a pergunta que todos se fazem, neste mundo maravilhoso, cheio de recursos e de novas formas de viver. Muitos estariam prontos a sacrificar tudo para se livrar dessa angústia, que se assemelha em muito com a ansiedade dos pacientes que sofrem da neuroses patológicas. […]

Observem, então, o que acontece com o tipo de educação dada pelos pais e professores. Eles dizem à criança: ‘Vamos, você tem de se concentrar em seus estudos! Você tem de obter um diploma! Você tem de conseguir este ou aquele emprego! De outra forma, como você viverá?’ Pais e professores de hoje esquecem de dizer as palavras que foram a pedra de toque da educação: ‘Todos os homens são irmãos'”. – Maria Montessori, A Educação e a Paz, Cap. 5.

Tive, então, uma visão […] de uma criança de pé, de braços abertos, convidando a humanidade a segui-la.” – Idem, Cap. 15.

– – –

Montessori exige de nós um posicionamento frente ao mundo. Um posicionamento difícil, mais desafiador que os outros todos, eu sinto. E este texto não termina o raciocínio que começa. Ele começa e convida você a pensar conosco, a refletir também, a levar a reflexão a outros – especialmente outros que possam ajudar, mais do que destruir, aquilo que você já foi capaz de compreender. Nós vamos só começar.

Montessori, o método, a forma de viver, a forma de criar, a forma de educar e ajudar a vida, exige de nós uma forma de agir na Terra. Um jeito de debater, um foco para as questões da humanidade, e uma escolha de caminhos a seguir com as ações que levamos a cabo em nossa vida diária. O caminho não parece muito exato, mas talvez possamos entrever algumas coisas.

Primeiro, Montessori defende a interdependência de todos os seres. Todos mesmo. Ela nos lembra de que a forma da Terra hoje é um resultado da ação da vida sobre o relevo, e que o humano é parte da vida e tem um papel fundamental no equilíbrio do todo. Nesse sentido, nos traz à memória o papel que o humano parece desempenhar no mundo: ele busca melhorar a Natureza. Muitas vezes, necessário dizer, com sucesso. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que uma pessoa pudesse morrer por doenças banais e que podem ser prevenidas ou tratadas. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que um membro ferido de família estivesse fadado à morte certa. Nenhum de nós – ou só algumas exceções bastante pontuais – gostaria de voltar para o tempo em que qualquer alimento só poderia ser conseguido por caça e coleta. Nós progredimos, e progredimos bastante, e progredimos positivamente, em nosso trabalho de modificar e melhorar a Natureza. Nós, infelizmente, também modificamos e pioramos a Natureza, mas isso se explica por um outro caminho humano.

Nós por algum motivo desenvolvemos em nós a insaciedade eterna. O humano quer mais, e mais. E não quer dividir. E se recusa a reconhecer que tudo o que lhe pertence também ao outro, porque no fim de qualquer raciocínio, a Natureza produz sem exigir nada em troca, e então todos nós temos exatamente o mesmo direito sobre todas as coisas. Mas o medo profundo de que não haja o suficiente, o medo incutido de que não haja o suficiente, nos leva a lutar por um excesso absolutamente desnecessário.

Também em A Educação e a Paz Montessori defende o ensino de métodos de análise sociológica e econômica para o adolescente, para prevenir o que ele chama de sentir-se um grão de areia em um imenso deserto que não pode ser compreendido. O adulto que pode analise o meio humano, social, econômico, que pode compreender as condições materiais de existência em que se encontra, encontra-se menos órfão, menos perdido, e menos desesperado.

Sobretudo, no entanto, em nosso avanço material esquecemos quase completamente de nosso trabalho interior a ser realizado. Só hoje aos poucos retornamos a pensar sobre o trabalho que precisa ser desenvolvido do humano para dentro, e não tanto do humano para fora. As revoluções, as leis, os decretos, as inúmeras tentativas de progresso baseadas nos meios exteriores ao humano são de total validade. São fundamentais, têm sua importância e precisam ser reconhecidas. É necessária a luta constante por melhores condições de trabalho, salários dignos, e não de sobrevivência, igualdade de gêneros, igualdade de raças, fim das condições de vida degradantes e da humilhação social de grupos humanos imensos. É necessário que haja leis para proteger mulheres, negros, gêneros não-heterossexuais, e para proteger o pobre – uma das grandes faltas da atualidade é a microluta (no sentido da microfísica, e não em qualquer sentido pejorativo) para a proteção de grupos específicos e o esquecimento (proposital?) de que uma imensa parcela do mundo ainda é pobre e ainda é miserável, e de que essa parcela precisa ser protegida, amparada e ajudada.

Ainda assim, entretanto, esquecemos o que está dentro do humano. Nós esquecemos de que há, dentro de nós, potencial infinito. Nós – como pudemos? – esquecemos de que o humano não vem pronto e predestinado, como as lagartas, os golfinhos e as cianobactérias. Nós nos esquecemos de que podemos fazer qualquer coisa. Esquecemos de que somos capazes de tudo. E nós nos esquecemos, embora todas as religiões tenham repetido, que os lírios do campo não trabalham nem fiam, mas se vestem melhor do que nossos maiores CEOs, as majestades da contemporaneidade. Nós ainda não conseguimos nos lembrar de que é possível salvar a humanidade. E de que, como só nós podemos fazer isso, é essa nossa maior responsabilidade, ela é coletiva, e é necessário que todos tomemos parte no progresso interior do humano.

Para caminharmos na direção do infinito, precisamos de um rumo, e não de um objetivo. Não nos cabe procurar um objetivo. Nós não conhecemos o melhor possível para toda a humanidade. Mas nós sabemos que há algo essencial para que o melhor do humano possa brotar. E o essencial é o respeito profundo, feito de conhecimento, amor e reverência, à majestade da criança. A criança como construtora da humanidade, a criança como mãe do adulto.

Assim, parece-nos, devemos buscar tudo aquilo que propicie à criança a melhor condição de vida, de desenvolvimento, de liberdade e de progresso no mundo. Somos a favor de tudo o que ajudar a caminhada nesta direção, e somos contra tudo aquilo o que de alguma forma atrapalhar. Somos a favor de parques e praças, e somos contra o tratamento violento dispensado a crianças e adolescentes. Somos a favor de refeições saudáveis, e somos contra o movimento industrial que impõe pela autoridade médica a famílias e escolas o consumo de produtos alimentícios desnecessários e prejudiciais. Somos a favor de professores que possam viver, dormir, estudar e criar(em-se), para que possam ser melhores professores, e somos contra a destruição progressiva do sistema escolar por sistemas apostilados e provas sistematizadas. Somos a favor de licenças maternidade e paternidade que permitam o convívio dos pais com seus filhos, e contra qualquer desigualdade de gênero, cor ou classe econômica que force o adulto a ser incapaz de dar à sua criança a vida que ela merece ter. Somos a favor de uma comunhão internacional para reconhecer, finalmente, que as crianças são criadoras da humanidade inteira, e não só de seus próprios pais, sua própria religião ou seu próprio país, e que então a criança é cidadã universal e é papel de todo o planeta garantir a qualidade de vida da criança pequena, e não só papel de seus pais, sua escola ou seu governo. Somos contra as fronteiras, a guerra e a política de exclusão internacional.

Somos, por fim, a favor de uma paz que ainda não existe, e que não sabemos como se comportará quando existir. Mas somos a favor da busca por essa paz, uma paz que somente nascerá de gerações vindouras que, respeitadas na geração de seus primeiros pensamentos, movimentos e vontades, for capaz de construir um mundo novo, cheio de milagres.

Este texto foi escrito com base em todo o livro A Educação e a Paz. Também, foi escrito ao som de Imagine, de John Lennon, e qualquer intertexto não é mera coincidência. Por fim, haverá aqui resquícios das ideias do autor, em geral emprestadas de Zyngmunt Bauman, Foucault, Terry Eagleton, Clarissa Pinkola Éstes, Madre Teresa e o Dalai Lama. A sua opinião é muitíssimo bem vinda e, mais uma vez, ressaltamos que a tentativa deste texto é iniciar um processo de pensamento sobre o posicionamento social mínimo do adulto montessoriano.

Montessori: A Luta e a Graça

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Todos os dias, em quase todos os países, pessoas buscam Montessori. Pessoas tentam fazer Montessori. Nós, as pessoas, tentamos construir Montessori. E todos os dias, em todos os países, os hábitos, os governos, as corporações e as crenças vão na direção contrária à das nossas buscas e tentativas. Nós queremos acreditar em Montessori e queremos fazer Montessori, mas todos os dias é necessário nadar contra quarenta correntezas se queremos trazer Montessori para nossos atos, para nossa realidade. Isso transforma fazer Montessori em uma Luta.

Todos nós sentimos essa luta. Ela está nas nossas peles, nos movimentos dos nossos músculos, nos nossos olhares. O tempo todo em nossas respirações e nossos corpos. Para muitos de nós ela está em nosso sono e em nosso olhar no espelho. Essa luta faz parte de nosso dia a dia quando queremos, em um restaurante, permitir que nossas crianças comam sozinhas, com pratos e copos de verdade, e talheres de metal… Enquanto o restaurante parece montar uma força tarefa de boa vontade para ajudar-nos a fazer a criança comer em pratos de plástico estampados, copos coloridos, e devorar um menu todo feito de comidas salgadas demais ou doces demais, enquanto nós tentamos que ela aproveite a comida de verdade, aquela comida pelos adultos.

Sentimos a luta de Montessori quando não percebemos assento nos ônibus para nossas crianças, e quando não há um vaso sanitário, um mictório, uma pia ou um secador de mãos adaptados no banheiro, e sentimos quando temos casas e apartamentos pequenos demais, longe demais, para que nossas crianças possam ter áreas grandes e abertas. Sentimos quando as escolas têm métodos apostilados comprovadamente eficientes e não tem um metro quadrado de área verde, ou têm e não usam, porque há de se ficar em dia com o planejamento, e intervalos longos nem sempre são possíveis. Sentimos a luta de Montessori em cada olhar quando permitimos que nossas crianças se esforcem, tentem e falhem em público, e quando, em particular, pensamos muito seriamente se isso que estamos fazendo está mesmo certo. Afinal, faz sentido, mas é tão contrário a tudo – e a todos.

Há um outro lado, porém, para Montessori. Um lado que não é de luta, que não é de esforço contínuo e cansativo, e que não é de contrariar e discutir. Há um lado outro que é de perceber luz, brilho e florescer. Há um aspecto que é de descoberta contínua, de desabrochar constante, de desenvolvimento pleno, de alegria, de contentamento, de Paz. Esse é o lado da Graça.

Nós percebemos a graça quando nossos filhos e nossos alunos, nossas crianças todas, não nos pedem para beber água e levantam sozinhas de suas camas, fazem-no e retornam, tranquilas. Percebemos a graça quando vemos nossas crianças tentarem comer com os talheres de verdade e não conseguirem por repetidas vezes, até que de repente conseguem, e comem com mais prazer do que poderiam comer qualquer garfada dada por mãos adultas. Nós notamos a graça quando percebemos que nossas crianças comem melhor, dormem melhor e vivem com mais alegria quando caminham em direção à sua independência e, mais tarde, à sua autonomia.

A graça se faz notar quando transparece no brilho dos olhos de nossos alunos e nossos filhos no instante em que eles se abaixam na calçada ou no parque para observar uma formiga, uma folha, uma lagarta ou um graveto. Ela aparece para nós quando, apesar de tudo, eles dão um jeito de viver e nós notamos que nossos esforços fizeram diferença. Quando suspiramos gratos porque conseguimos entender os movimentos, as tentativas, as caminhadas, as buscas dos pequenos. Quando fazemos uma mudança nos ambientes de nossas casas e o fascínio deles nos mostra que acertamos, quando falamos baixo, devagar, e o comportamento deles nos mostra o quanto isso está correto.

De repente, hora ou outra, percebemos que estamos fazendo aquilo porque aquilo nos fez, aquilo nos construiu, aquilo passou a nos ser. Nós somos. E aí fazer diferente não faz o menor sentido. E nós até podemos entender melhor quem faz diferente, porque agora que aquilo nos é, nós não precisamos pensar tanto no fazer, e podemos entender quem é de um jeito diferente. Embora a gente creia com muita certeza e saiba, porque estudamos, que há coisas boas e ruins para a criança, agora podemos conversar em paz. Porque não estamos mais fazendo Montessori. Agora, estamos sendo.

O estado de graça de Montessori chega em nossas vidas quando damos o salto entre fazer Montessori e ser Montessori. Não é algo que possamos fazer muito rápido. Não é uma mudança realmente automática, e ela exige de nós esforço para acontecer. É preciso fazer Montessori com bastante frequência e por bastante tempo para podermos contar com o futuro certo de que aquilo passará a fazer parte de nós.

Não há milagre, na verdade. O que acontece é que quando insistimos por bastante tempo em uma forma de pensar e agir, os nosso cérebros mudam algumas ligações (elas se chamam sinapses) e quando essas sinapses estão alteradas com coerência e por algum tempo, nossas personalidades mudam – todo o nosso cérebro se adequa a conhecimento novos, a novos hábitos e a novas formas de agir. Aí, de repente, nós nos damos conta de que somos o que fizemos, e que fazemos agora aquilo em que nos tornamos. A coerência atingida é que nos permite fluidez e sossego. Nos permite a tranquilidade de sentir se aquilo está certo. Não é obediência aos instintos – nós, culturalmente, os perdemos quase todos. É obediência inconsciente a uma nova gama de atos automáticos de pensamento, e nós podemos sentir se está certo, porque dentro de nós temos tudo delineado com clareza.

O estado de graça de Montessori é quando Montessori acontece mais. E não é possível passar a vida no estado de luta. A luta cansa, exaure, exige mais do que podemos dar. A luta pede de nós tentáculos argumentativos e uma biblioteca de conhecimentos. A luta nos coloca no lugar difícil do soldado, do guerreiro, do explorador, daquele que busca, constrói e faz. A graça nos coloca no lugar pacífico do monge, do amante, do admirador. A luta e a graça se alternam em Montessori, há momentos de luta na graça, e momentos de graça na luta. Mas uma delas se faz predominante em momentos diferentes de nossas vidas.

O estado de graça tem um momento para surgir, o ponto da virada. Ele aparece quando nos conscientizamos de nossa própria suficiência. Quando, sem deixar por um instante de tentar melhorar e superar a nós mesmos, nós nos damos conta de nossa suficiência, de nosso merecimento. Quando sossegamos dentro de nós, sossegamos fora de nós. A graça percebe, sabe que é então bem vinda, e devagarzinho, ela chega.

Maria Montessori: Feminista

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Montessori era feminista. A mãe de Montessori era feminista e ela cresceu em um lar no qual seu poder, suas capacidades e sua força eram respeitados e apoiados. Isso, ao longo da vida de Montessori, fez toda a diferença. Foi a mãe que a apoiou quando decidiu fazer curso técnico em Engenharia. Foi a mãe quem a apoiou quando decidiu por Medicina no curso superior – em uma época na qual isso era inadmissível para uma mulher. Foi a mãe que deu a ela suporte emocional ao longo de tragédias pessoais e durante os momentos em que enfrentou duras pressões sociais impostas a todas as mulheres. O pai era um homem bom e honesto, que nunca atrapalhou os planos de Montessori, um homem com a mente avançada para sua época, e que compreendia os pontos de vista de sua esposa e a força intelectual de sua filha.

Ao longo de sua graduação e depois, Montessori participou de congressos feministas, escreveu e falou em defesa da mulher, de suas condições de trabalho, da exploração a que era submetida. Eu, sendo homem, não me alongarei tentando refletir sobre isso. Entendo que não me caiba. Quero tentar, neste texto, deixar Montessori falar.

Em 1896 – Sobre a mulher pobre, que segundo a lei da Itália na época, deveria trabalhar quando o marido não mais tivesse força física para fazê-lo, Montessori expõe sua interpretação: “Você deve servir para meus prazeres enquanto eu puder ganhar a vida e trabalhar para mim quando eu não puder mais”. (POVELL, p.37).

“[A mulher] trabalha como um homem e em seguida suas responsabilidades domésticas não deixam de existir. Em vez do descanso, que seu marido tem depois do trabalho, tarefas domésticas a esperam e geralmente com uma criança sob seu coração ou em seu seio. Se o homem procura diversão no álcool, a mulher se torna aquele que recebe sua brutalidade e da bebedeira. Com frequência também ele prefere compartilhar seus ganhos com uma mulher menos carregada, em lugar de com a sua [esposa] cercada de crianças; por um sorriso ele priva os seus de um pedaço de pão”. (apud POVELL, pp.37-8).

Em 1899 – “As mulheres elas mesmas devem entrar nos ramos da ciência positiva [exatas e biológicas], devem argumentar com seus cérebros, e não seus corações. Mulheres… devem confrontar os homens, debater com eles, trabalhar ao seu lado, se juntar a eles na descoberta da verdade”

Montessori era excelente quando falava em público. Animava magistralmente milhares de pessoas de uma vez, com palestras que fazia sem anotações – ela levava blocos de papel em branco para o palanque ou a mesa, porque era educado que se tivesse sempre papéis à mão ao falar. Mas ao pedido de um jornalista para que os mostrasse, disse que estavam todos em branco, e em branco os mostrou. Era sempre assim.

Com sucessivas aparições na mídia nas quais sua fotografia era seguida por legendas como “A Bela Acadêmica” (KRAMER, p.79), Montessori decidiu afastar-se da mídia. Em carta de 1896 aos seus pais (Association Montessori Internationale, 1970, p.14 e POVELL, p.39), disse:

“Vejo que muitos jornais falam de mim. […] Falam bem de mim – e mal. Isso não importa. Farei de tudo para ser esquecida! Minha fotografia nunca mais aparecerá em jornais e ninguém ousará poetizar novamente minha suposta beleza. Vou trabalhar seriamente!”

Anos depois, no início de sua primeira grande obra escrita, Pedagogia Científica, incluiu o discurso que proferiu quando da inauguração das Casas das Crianças em Roma. Um trecho segue:

“E que seja lembrado que todas as mães do conjunto poderão aproveitar este privilégio, indo para seus trabalhos de mente tranquila. Até o presente, somente uma classe social podia contar com esta vantagem. Mulheres ricas podiam ir para suas ocupações e divertimentos, deixando suas crianças nas mãos de uma enfermeira ou governanta. Hoje em dia a mulher do povo, que vive nessas casas reconstruídas, pode dizer como a grande dama, “Deixei meu filho com a governanta ou a enfermeira”. Mais que isso, ela pode adicionar, como a princesa de sangue, “E o médico da casa os assiste e apoia seu crescimento são e forte”. Essas mulheres, como as classes mais avançadas das mães americanas e inglesas, possuem uma “Tabela Biográfica”, que, preenchida para a mãe pela diretora ou o médico, dá a ela o conhecimento mais prático do crescimento e das condições de sua criança.

“Estamos, então, tornando comunitária a “função maternal”, um dever materno, na Casa. Podemos ver nesse ato a solução de muitos dos problemas das mulheres que pareciam sem solução. O que acontecerá com a casa, se pergunta então, se a mulher sair dela? A casa se transformará e assumirá as funções da mulher.

“Eu acredito que na sociedade do futuro outras formas de vida comunitária virão.” – do Discurso Inaugural na ocasião da abertura das Casas das Crianças.

Em seu capítulo sobre Independência, no mesmo livro, lemos:

“…os homens trabalham não só para si mesmos, mas para as mulheres. E as mulheres desperdiçam sua força natural e sua atividade e definham em escravidão. Ela não é só mantida e servida, ela é, além disso, diminuída, menosprezada, naquela individualidade que lhe pertence por direito de nascimento como ser humano. Como membro individual da sociedade, ela é um zero. Ela é tornada deficiente em todos aqueles poderes e recursos que tendem à preservação da vida.”

Montessori viveu uma vida de transgressões. Ela viveu uma vida pisando em terrenos não-autorizados. Engenheira, Médica, Psiquiatra. Educadora de crianças “ineducáveis”, viajante em época de guerra, pacifista em época de guerra. Rebelde face a governos totalitários. Cientista de altíssima categoria adiantando, em pelo menos meio século, descobertas da Psicologia Cognitiva e da Neurociência modernas. Montessori fez de sua vida uma revolução de oitenta anos. Ela abriu caminho para outras médicas, outras educadoras, mães e mulheres que desejavam alçar voos amplos e encontraram nela exemplo e suporte. Ela não morou em lugar nenhum, dizia que sua pátria eram as estrelas. Montessori mudou o mundo. Ela não resolveu todos os problemas da Terra, mas junto com as mulheres que a precederam e ladrilhando o caminho das que vieram depois, Montessori foi uma feminista (e se a mim coubesse dizer, eu diria, de primeira grandeza), Montessori lutou pela criança sem esquecer a mulher.

Nesse Dia da Mulher, eu, como homem, talvez tenha muito pouco a dizer. Mas a História, e Maria Montessori na História, têm muito. Eu espero ter permitido a ela discursar por breves instantes em um palanque de nossas imaginações, nos animando para a longa luta da igualdade e do fim dos preconceitos contra a criança e contra a mulher.

As referências deste texto são:

ASSOCIATION MONTESSORI INTERNATIONALE. Maria Montessori: A Centenary Anthology. Amsterdam,AMI, 1970

KRAMER, R. – Maria Montessori: A Biography. Chicago, University of Chicago Press, 1988.

MONTESSORI, M. – The Montessori Method: Scientific Pedagogy as Applied to Child Education in the “Children’s Houses”. New York, Frederick A. Stokes Company, 1912.

POVELL, P. – Montessori Comes to America: The Leadership of Maria Montessori and Nancy McCormick Rambusch. Maryland, University Press of America, 2010.

Paz VI: Esperança e Fé

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Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Há crianças para quem Montessori parece encaixar-se como uma luva. A criança vem em uma direção, caminhando tranquila, sorridente e em silêncio. Na outra direção vem Montessori, nobre, silenciosa, encantadora. As duas se abraçam e caminham juntas a partir de então, em uma vida de concentração, trabalho, empenho contínuo e alegria sublime. Este texto não é sobre essas crianças. Este texto é sobre as outras.

Este texto é sobre aquelas que, ao avistarem Montessori longe à frente, param estagnadas, em susto, medo, dor e desespero. É sobre aquelas que arregalam seus olhos, gritam e se jogam no chão rindo escandalosamente. É sobre aquelas que começam a brincar com seres inexistentes e a fazer seres de fantasia a partir das pedras do chão. É sobre aquelas que correm, abraçam Montessori e depois puxam-na pela mão, querendo que derrube todos os objetos, quebre todos os pratos, empurre todos os colegas, em infinita e temível liberdade. É, finalmente, sobre aquelas que se recolhem, temendo o olhar firme, a mão refinada, as palavras diretas e simples. É sobre aquelas que se rodeiam de um fosso cheio de perigos e, enquanto impedem Montessori de entrar, proíbem a si mesmas de sair.

Este texto é sobre aquelas crianças acerca de quem, em um momento de desespero, dizemos: “Acho que Montessori não serve para ela” ou, em um desespero e desamparo ainda maior: “Acho que ela não serve para Montessori”.

Essas crianças existem. Montessori encontrou algumas delas ao longo da vida – várias. E muitas entre as classes mais abastadas. Montessori comentou sobre essas crianças em capítulos pelo meio do livro A Criança. E nós, famílias, educadores, cuidadores, profissionais da infância, encontramos essas crianças em nosso caminho. Elas desafiam nossas suposições, nosso conhecimento, nossa competência. Essas crianças nos fazem duvidar de nós.

O professor que era tradicional e optou por tentar Montessori, em um gesto de imensa coragem e ousadia, ao encontrar a criança que chuta o material apresentado pensa que quem sabe falte a este método a possibilidade de colocar limites… as crianças precisam de limites. O pai ou a mãe que foram criados com castigos, prêmios e imposições também sussurram para si, ou para quem confiam, que o quarto montessoriano funcionou muito bem, mas que Montessori precisa ser adaptado às crianças de nosso tempo, e precisa de alguns ajustes para o mundo de hoje.

Ainda mais difícil é o que acontece com a criança que, diante de todo material, recua. Com aquela que não deseja ouvir uma história, cantar uma música, participar de uma caminhada no jardim, trabalhar com um colega ou alimentar os animais da sala. Esta é silenciosa, fica a olhar a sala sem destino, e pode passar desapercebida ao professor. Para os pais, passa como um filho tranquilo, obediente. Mas ele não deseja fazer nenhuma daquelas coisas que se sugere em Montessori para casa. Só fica em seu canto, e só o que parece tomar sua atenção é a televisão… e então se vê televisão. Não é Montessori, mas, pensa o adulto, pensamos nós, mas Montessori não tem que ser igual para todo mundo.

A primeira criança é castigada. A segunda, ignorada ou esquecida. A primeira criança é reprimida, a segunda pode ser superestimulada ou deixada de lado. As duas correm um risco em comum: serem deixadas às margens de Montessori. Utiliza-se com elas os materiais todos, mas se abre mão da busca pelo Equilíbrio Natural da Criança. Nós lembramos que a criança deve aprender. Mas esquecemos de que ela pode e deve ser feliz. Lembramos de educar suas mãos para que ela escreva – antes de ler! -, mas nos esquecemos de ajudar a fazer brotar a sua concentração. E aí começam os nossos erros.

Educar as mãos humanas, fazer com que se aprenda um conteúdo, incutir uma habilidade, isso não precisa de Montessori para acontecer. A escola comum ensina a escrever. A família comum ensina a tomar banho e a comer. A escola comum ensina as cores. A família comum ensina a não bater a porta e a escovar os dentes. Nós não precisamos de Montessori para que os aprendizados ocorram e as habilidades sejam adquiridas. Nós precisamos de Montessori para o milagre científico do desenvolvimento fabuloso do cérebro humano. Precisamos de Montessori para a concentração, a alegria, o amor ao trabalho e ao silêncio, a autonomia. Precisamos de Montessori para a independência e a vida.

Mas isso é fácil de esquecer. É fácil esquecer que Montessori não é um conjunto de brincadeiras para deixar o filho ocupado. Que não é uma moda gourmet de decoração infantil. É fácil esquecer que Montessori não é o método da moda, que não é um cult. É fácil esquecer que Maria Montessori não é uma dessas personalidades que surgem para abalar os debates sobre educação e depois sumir em segurança, deixando tudo intocado. É fácil esquecer que Montessori não desenvolveu o método Montessori, mas a Pedagogia Científica, o Método de Ajuda à Vida. É fácil esquecer que o objetivo de Montessori era salvar a humanidade, que era um mundo novo, cheio de milagres e que, sobre os milagres, ela dizia que as crianças sabem fazê-los bem.

Montessori exige de nós, especialmente com as crianças que se fecham ou fogem, esperança e fé. É necessário crer profundamente, em todos os recantos de nossos corações inconscientes, que a criança irá se revelar por meio do trabalho com as mãos. É necessário esperar pacientemente, cheio de energia e vida, cheio de atenção no olhar, pelo momento em que uma criança e um trabalho falarão um com o outro, e o mundo ganhará mais uma peça no lugar certo. Isso, entretanto, não significa esperar inerte. Significa esperar agindo, ajudando, observando, dando distância.

Nós muitas vezes desejamos que as crianças se apaixonem pelos trabalhos disponíveis em nossa sala de aula na mesma sequência em que gostaríamos de apresentá-los. Seria magnífico, quase coreográfico. Mas não é sempre assim. É necessário ter flexibilidade. Acreditar na criança. Ter fé. É necessário lembrar que podemos estar errados sobre um interesse, um período sensível, uma capacidade já (ou ainda não) adquirida. E quando percebemos nosso erro é necessário ter esperança. Esperança de que seguindo a criança poderemos acertar da próxima vez.

Nós temos obrigação de conhecer os planos do desenvolvimento. De saber pelo menos os principais períodos sensíveis. Nos cabe, se queremos Montessori, conhecer as características que um trabalho deve ter para ser digno de nossas crianças. Precisamos saber pelo menos os princípios mais gerais da preparação de um ambiente. É necessário que conheçamos as propriedades da mente infantil e seu estado de graça, o Equilíbrio. Mas isso não basta.

Quando colocamos tudo para funcionar, quando damos o primeiro impulso na teia de relações entre todos os fatores do método Montessori, precisamos alimentar essas engrenagens com esperança e fé. Precisamos crer que, demorando mais, ou demorando menos, a criança surgirá. Que em um ambiente realmente preparado, com trabalhos realmente adequados, em algum momento a criança abraçará Montessori. Em algum momento elas caminharão juntas.

Talvez não para sempre. Talvez haja uma nova discussão, uma nova briga. Talvez aquela criança que demorou sete meses para se concentrar verdadeiramente, por vinte, trinta, quarenta e cinco minutos, sem desviar seu foco, recusando outros estímulos ou interferências externas, talvez aquela criança que depois de um semestre letivo finalmente entrou no caminho do Equilíbrio, talvez ela fraqueje. Especialmente se seu contexto extra-escolar dificultar demais as coisas. Especialmente se, ao contrário da casa, a escola não é Montessori. É nosso trabalho acreditar de novo. Nós não a perdemos para sempre. Nós não a perdemos. Ela só saiu um pouquinho do caminho da alegria, do bem estar, da tranquilidade. Mas ela vai voltar, por vontade.

Não nos cabe chamá-la. Montessori é concentração. E ninguém se concentra porque assim foi mandado. Só é possível se concentrar por vontade. Só é possível retornar ao caminho da felicidade por decisão interior. Nosso trabalho é crer e esperar. Fazer tudo a nosso alcance e então crer e esperar.

Algumas crianças nos desafiam. Desafiam nossa fé. Desafiam nossa esperança. Algumas crianças desafiam tudo o que sabemos. E elas são especiais. São essas crianças que nos farão dar mais um passo, ir um pouco mais longe. São essas crianças que nos obrigarão a saltar uma fenda em pedra mais larga que nossas pernas. São essas que nos farão correr o risco de cair, de desmontar, de falhar sonoramente. Essas crianças são aquelas que nos darão o impulso necessário para tentar algo que jamais tentaríamos antes. São essas que nos farão olhar para Montessori, para seus livros, para nossos treinadores e, gritando com os olhos, silenciar enquanto dizemos: vocês estão todos errados! Montessori não é para todas as crianças.

São essas crianças que nos farão crer que Montessori é para todo mundo. Para cada um. Sem exceção nenhuma. São essas crianças que nos empurrarão até o limite de nossa resistência e nos farão lembrar das palavras da mulher de Calcutá: amando até doer, descobrimos que em um momento não pode haver mais dor – só mais amor. Confiando até o limite, crendo até além de nossas capacidades, descobrimos em um momento que não há mais opção senão acreditar. Senão aperfeiçoar o que sabemos e fazemos de Montessori, acreditar e esperar.

Então, um dia, descobriremos impressionados, incrédulos, cansados, que aquela criança se concentrou. Que ela aceitou saltar a fenda conosco. E que ela chegou do outro lado. Olharemos para todos os livros, para Montessori, para nossos treinadores, com a garganta em um nó de vergonha. Eles estavam certos. Montessori serve para cada uma. Para todas. E nós descobriremos que assim é porque o objetivo de Montessori não é que se aprenda mais e melhor. O objetivo de Montessori é ajudar a vida. E onde há vida, pode haver ajuda. Onde a vida brota, pode haver Montessori.

Este texto foi integralmente baseado em crianças reais. Cada frase, exemplo, metáfora e exagero retrata um caso específico de criança presenciado pelo autor. Os números relativos ao tempo de concentração e a atitude das crianças também foram observados de verdade. Algumas dessas crianças exigem esperança e fé ainda hoje. Outras são bálsamos que garantem: se deu certo com elas, pode dar certo com todas as outras.

O que fizemos juntos em 2014

Leitores queridos,

a plataforma que hospeda o Lar Montessori gera um relatório anual sobre o funcionamento e o desempenho das páginas hospedadas. Há algumas coisas boas, legais, outras menos legais, menos boas. Mas da mesma forma que os textos deste blog estão sob uma licença Creative Commons, e os textos são nossos para quase todos os fins, os números desse blog também são nossos. Você leu, comentou com seus amigos e familiares, compartilhou. A única atitude honesta é mostrar a vocês onde isso levou o Lar – mas muito, muito, muito mais do que isso, a única atitude honesta é mostrar a vocês quantas crianças, em quantos lugares, a gente, junto, ajudou a ajudar.

Obrigado pelo ano passado, e por todos os futuros!

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 210.000 vezes em 2014. Se fosse o Louvre, eram precisos 9 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

Características de uma Escola Montessori

O método Montessori nasceu da observação de crianças trabalhando com objetos para a educação dos sentidos. Esse foi o começo rudimentar do que conhecemos e do que nos maravilha hoje. Montessori, quando começou suas escolas, não tinha o ambiente incrível que desenvolveu depois, nem todos os materiais que hoje utilizamos. No começo a professora tinha liberdade total para criar novidades, e Montessori ia conversando, aconselhando, observando junto. Aos poucos, ambas tomaram notas de coisas que agradavam às crianças e coisas de que elas não gostavam, e Montessori buscou tomar como base essa lista para a elaboração gradual do método todo. Trinta anos depois, em 1936, ela escreveu:

É também maravilhoso constatar que na posterior estruturação de um verdadeiro método educativo longamente elaborado com base na experiência, tenham-se conservado intactas as primitivas diretrizes vindas do nada. […] Assim, no primeiro esboço de um método educativo existe um todo, uma linha básica, onde se destacam três fatores principais: o ambiente, o professor e o material[…]

As primitivas diretrizes vindas do nada compõem a lista de que falamos:

  1. Trabalho individual
  2. Repetição do exercício
  3. Liberdade de escolha
  4. Verificação dos erros
  5. Análise dos movimentos
  6. Exercícios de silêncio
  7. Boas maneiras nos contatos sociais
  8. Ordem no ambiente
  9. Meticuloso asseio pessoal
  10. Educação dos sentidos
  11. Escrita isolada da leitura
  12. Escrita anterior à leitura
  13. Leituras sem livros
  14. Disciplina na atividade livre
  15. Abolição dos prêmios e castigos
  16. Abolição dos silabários
  17. Abolição das lições coletivas
  18. Abolição de programas e de exames
  19. Abolição de brinquedos e guloseimas
  20. Abolição da cátedra da professora

São vinte características que definem em linhas gerais os limites e a área sobre a qual se ergue todo o método Montessori. Se nos perguntam haver mais características, diremos que é claro que há. Se nos perguntam serem estes os princípios mais gerais de Montessori, diremos que não são. Os princípios mais gerais são menos detalhados, mais filosóficos e estão explicados em nossa página O Método, que você pode encontrar acima. Essa é realmente uma lista de características eminentemente prática na qual se detalham pontos muito importantes de uma sala montessoriana, e que, se se mantiveram inalterados ao longo de trinta anos de observação de Montessori, não há porque supor que deveriam ser alterados hoje.

Dessa forma, tomamo-los como base para uma lista de características de uma escola montessoriana. A lista, em formato PDF e com diagramação especial, você encontra ao final do texto, para download. Aqui, detalhamos cada um dos itens da lista, muito brevemente, para você saber o que cada um significa. Pode ser necessário recorrer a outros textos do Lar Montessori para compreender melhor alguns pontos. Este texto e o anexo são suportes para você escolher a escola de seu filho, mas essa é uma tarefa importante demais para ser feita com base em um texto só. Se você não entender alguma coisa, procure no Lar e fora daqui – especialmente, leia no próprio livro A Criança, de cuja tradução para o português foi tirada a lista acima, e que conta com capítulos e trechos explicando cada uma das características nas palavras de quem as descobriu.

  1. Trabalho Individual

A noção de trabalho individual não quer dizer que não há trabalho em grupo ou interação entre as crianças, mas você as encontrará mais sozinhas, trabalhando de forma independente, concentradas, e não em tarefas de grupo, coordenadas pelo professor.

  1. Repetição do Exercício

Há sempre crianças concentradas em salas montessorianas. E é comum que haja muitas repetindo o mesmo trabalho vezes sem conta. Isso é voluntário e não é estimulado ou impedido pelo professor. As crianças aprendem com liberdade para repetir o que gostam.

  1. Liberdade de Escolha

As crianças trabalham com materiais concretos que elas mesmas escolhem nas estantes da sala, onde eles ficam expostos. Há uma sequência de materiais apresentados para a criança e, dentro dela, a criança é absolutamente livre para trabalhar com o que quiser.

  1. Verificação dos Erros

Em uma sala montessoriana, você não encontrará um professor corrigindo o trabalho de uma criança. É possível que ele corrija comportamentos nocivos ao grupo. Os trabalhos são todos corrigidos pelas crianças, percebendo seus erros na interação com o material.

  1. Análise dos Movimentos

O ambiente montessoriano é um local de movimento constante, com as mãos e o corpo. Faz parte desse ambiente um conjunto de exercícios que auxiliam a criança a desenvolver a coordenação motora necessária para se mover cuidadosamente, devagar e com precisão.

  1. Exercícios de Silêncio

Um verdadeiro pilar de Montessori, os exercícios de silêncio são o ápice da concentração da criança e do domínio sobre seus movimentos. Todas as crianças fazem silêncio juntas e mantém o silêncio até que seja quebrado pelo professor, chamando cada um baixinho.

  1. Boas Maneiras nos Contatos Sociais

Quando você visitar uma sala montessoriana, não se surpreenda se as crianças forem educadas demais, gentis e até solícitas. Elas aprendem, no dia a dia, a cuidar bem umas das outras, e a tratar bem os visitantes, pessoas importantes que vêm conhecê-las.

  1. Ordem no Ambiente

Você notará sempre uma ordem quase sublime na sala montessoriana. Tudo está no lugar, limpo e organizado, paredes limpas, ambiente tranquilo, e os únicos estímulos serão os materiais, algumas plantas e peças decorativas delicadas e escolhidas com cuidado.

  1. Meticuloso Asseio Pessoal

Você já sabe que as crianças aprendem a se cuidar. Então vale saber que elas adoram fazer isso. Há numerosos trabalhos de Vida Prática, que ensinam a criança a executar tarefas do dia a dia, como se vestir e despir, lavar as mãos, pentear o cabelo e assoar o nariz.

  1. Educação dos Sentidos

Essa é a base material de toda a pedagogia montessoriana. Há materiais concretos para a educação dos sentidos. A criança os manipula e aprende dimensões, massas, cores, aromas, sabores, texturas e tudo o que pode ser absorvido e organizado pelos sentidos.

  1. Escrita Isolada da Leitura

Em Montessori não ensinamos escrita e leitura ao mesmo tempo. Aprendemos com as crianças que a escrita formal é mais simples, e a ensinamos com materiais concretos, que podem ser manipulados pelas crianças, e pela correspondência entre as letras e seus sons.

  1. Escrita Anterior à Leitura

Pelo fato de a escrita ser mais simples, ela vem antes da leitura. A criança elabora palavras porque aprende os sons das letras, mas não lê o que escreve no começo. A composição é feita e não pode ser sempre checada – vale dizer, ela não é corrigida pelo professor.

  1. Leitura sem Livros

A criança pode aprender a ler por meio de palavras que possa associar diretamente ao seu ambiente. É assim que fazemos. Depois, ela lê ações, em forma de ordens, primeiro muito curtas e depois mais longas, que executa, e assim, literalmente, aprende fazendo.

  1. Disciplina na Atividade Livre

A liberdade para trabalhar existe, e é dominante na sala. Dentro dessa atividade livre, as crianças são surpreendentemente autodisciplinadas e, quando necessário, respeitosamente auxiliadas pelo professor a encontrar o melhor comportamento em uma situação social.

  1. Abolição dos Prêmios e Castigos

Nós nunca usaremos, em uma escola, uma premiação ou um elogio para reforçar um bom comportamento, da mesma forma que punições e castigos jamais serão usados para exterminar um comportamento inadequado. Nós buscamos soluções, não atalhos.

  1. Abolição dos Silabários

A criança aprende por materiais concretos, e pelos sons individuais das letras, ou por dígrafos, em alguns casos. Não usamos os silabários, presentes em algumas instituições mais tradicionais de ensino, mas materiais como o alfabeto móvel e as letras de lixa.

  1. Abolição das Lições Coletivas

Há contação de histórias e músicas cantadas em grupo. Mas a participação nessas atividades deve ser voluntária e lições coletivas nunca são predominantes na sala. Quase todas as lições são individuais, muito breves, sucintas e objetivas.

  1. Abolição de Programas e Exames

É necessário escolher entre um currículo rígido e um programa preciso, ou o respeito à criança. A gente fica com a segunda opção. Temos uma sequência flexível de lições, e não aplicamos exames. A avaliação acontece por observação da atividade livre da criança.

  1. Abolição de Brinquedos e Guloseimas

Uma sala montessoriana não tem brinquedos, em sentido estrito. Não há nada sem objetivo, impensado. Os materiais são todos cuidadosamente criados e escolhidos. Também não usamos doces ou guloseimas para premiar o bom comportamento infantil.

  1. Abolição da Cátedra da Professora¹

Havia na primeira escola de Montessori uma grande mesa para a professora. Hoje não há mais. O professor caminha pela sala e vive no mesmo ambiente das crianças, e o ambiente é das crianças. Tudo é feito do tamanho delas, não há um espaço só do professor.

Lembre-se, a lista que fizemos aqui é só uma lista. Ela não é todo o método Montessori, o método é mais complexo e mais completo que isso. Entretanto, se a escola que você visitar contar com todas, ou pelo menos a maior parte, dessas qualidades, nós acreditamos que seu filho receberá excelente ajuda no caminho longo de seu desenvolvimento. Boa sorte

¹ – Achamos válido mencionar: no caso de o professor não contar com outros espaços para trabalhos burocráticos, é importante que a sala conte com uma mesa e uma cadeira para o professor. Essa cadeira pode ser usada em momentos de contação de histórias, por exemplo, também. É importante, porém, que a cadeira e a mesa não se tornem nunca símbolos da autoridade do professor ou uma muralha atrás da qual ele se guarde.

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