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Dia das Crianças e Opressão

Uma criança. Vida nova. Imune ao mal e à doença, protegida de sequestros, surras, estupro, racismo, insulto, aversão a si mesma, abandono. Sem erro. Toda bondade. Desprovida de ira. Ou assim creem eles. – God Help the Child, Toni Morrison

Quando foi que nos esquecemos do desrespeito, da opressão e dos abusos que sofremos quando éramos crianças? As palmadas, os gritos, as ordens sem sentido, o assédio na rua, a falta de controle sobre o tempo e o espaço que habitávamos.

Em algum momento bastante precoce de nossas vidas, nos distanciamos de nós e aprendemos que precisávamos viver como eles, como os adultos, porque eles eram mais poderosos e fortes, mais conhecedores e onipotentes que nós. E se nós nos conformássemos às suas ordens, vontades, abusos e tiranias, poderíamos um dia ser incríveis também. Já que, então, ainda éramos crianças, incapazes, risíveis, cômicas, inúteis.

Em 1959, no dia 20 de novembro, se declararam os Direitos da Criança, na ONU. Internacionalmente é esse o Dia da Criança, 20 de novembro. Aqui, temos além dessa, mais uma data, muito mais comemorada: 12 de outubro. Hoje. E eu tenho uma proposta. Façamos com o Dia da Criança o que fazemos com o Dia da Consciência Negra e o Dia da Mulher. Vamos tomar o Dia da Criança não para distribuir rosas, mas para discutir igualdade. Vamos tomar o dia da criança não para celebrar, mas para refletir. Em lugar de (só) presentear ou, como não poderia deixar de ser em um mundo que rouba todo o tempo para devolvê-lo em papel colorido, em lugar de (só) estarmos presentes especialmente nesse dia, singularmente nesse dia, vamos tomar a data para enfrentar. Vamos tomar a data para libertar.

A criança é um grupo social oprimido. Constantemente. A criança é oprimida por ser pequena e nova. Ela é pequena e nova em relação ao quê? A quem? Quem é que a declara pequena e nova? Quem é que a diminui? Por um instante veja esta imagem:

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Respoda, se quiser responda em voz alta, onde está a água? Onde está a comida? Onde estão os espaços mais abrigados de vento e chuva? Onde está quase toda a vida? Se para todas as perguntas você respondeu algo como “na altura do chão” ou “a poucos centímetros de altura”, parabéns. A maior parte da natureza é, como um adulto diria, pequena.

Quase tudo, antes de nossa interferência, acontece mesmo perto da terra, perto da água, perto das raízes do mundo. É nesse mundo que nós fomos preparados para viver, por muito, muito tempo de evolução. Mas aí mudamos as coisas.

Aí, nós saímos da floresta, e fizemos as vilas, depois as cidades – sim, eu estou dando imensos saltos históricos aqui – e nesses espaços, a criança não pode nada. Nesses espaços nós tiramos dela tudo o que podia fazer antes: antes, a sede podia ser resolvida na água do rio, e a higiene também, a fome nas pequenas frutas, nas folhas, nas raízes do mundo. A brincadeira acontecia entre pedras, desníveis de chão, árvores grossas e arbustos. É verdade, havia perigos, a criança precisava de proteção. Mas havia o imperativo natural da independência e, daí, de uma liberdade qualquer inevitável. Nós a roubamos.

Toda opressão é resultado de algum tipo de roubo. Nós, adultos, roubamos a natureza das crianças, e não parece que chegará logo o momento em que a devolveremos. Nós roubamos a água que fluía aos pés da criança menor de todas, e a colocamos a mais de um metro, muitas vezes, em um bebedouro que exige controle motor fino para funcionar. Nós roubamos a comida que ficava pendurada entre as folhas de um arbusto baixo e a escondemos atrás de uma grossa porta de metal fechada por tecnologia magnética, que exige força para abrir. Nós roubamos a diversão que rodeava a criança e a instalamos em prateleiras que exigem dinheiro para serem possuídas. Nós roubamos o sono que acontecia à sombra das árvores e o colocamos numa masmorra de madeira ou plástico envolta em grades, que exige nossos braços para ser acessada. Nós roubamos tudo. Nós só somos superiores à criança porque, aos poucos, roubamos tudo o que ela tinha.

Agora, todo o roubo feito, praticamos escambo. Nada mais apropriado a um colonizador que oprime. Se a criança nos obedece, tem chance de divertir-se. Se ela satisfaz nossas exigências de movimento corporal, tem permissão para beber e comer sozinha. Se ela nos dá razão para não nos preocuparmos, pode dormir quando quer. Se ela não atrapalha o horário de nossas refeições, pode satisfazer sua fome. Se, no entanto, nos desobedece, pode ser trancada na masmorra. Se ela precisa se mover mais do que permite o ambiente restrito que fizemos para nós, mas tanto quanto permitia a terra que roubamos, então fica de castigo, apanha, morre – por fora, por dentro, por vezes de todos os jeitos.

Segundo Montessori, o adulto pensa que seu poder advém do fato simples de ser adulto. Por isso, e só por isso, ele pode. Isso não é questionável porque é axiomático: é assim porque é assim porque é assim porque é assim. Mas é mentira. O poder do adulto não advém do fato de ele ser adulto. O poder do adulto advém do roubo.

O adulto roubou o espaço e, reproduzindo a lógica em que vive, na qual tem seu tempo roubado constantemente, rouba o tempo da criança. Se eu não posso, ela não pode. Ela é uma criança e precisa se acostumar, o mundo é assim. Fomos roubados, nós adultos, também, e não lutamos para que nada nos seja devolvido. Por que é que a criança deveria poder lutar?

E quando luta, quando busca fazer sua revolução, quando exige que suas necessidades sejam atendidas, reagimos como o pior dos governos: reprimimos qualquer coisa. Reagimos como o governo de Foucault, clinicamos o que não nos agrada, e chamamos especialistas que nos expliquem a birra, o escândalo, os terrible twos, tudo o que não é a imobilidade passiva e obediente que, em silêncio, desejamos. Nós não queremos ouvir a criança, nós não olhamos para suas necessidades, e se ela as exige, fazemos com ela o que se fez com as feministas por tanto tempo: trata-se de um caso grave de histeria. Vamos chamar uma especialista que, num programa televisivo nos ensine a recuperar o poder do adulto.

Maria Montessori colocou sabiamente: Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança. Essa frase fica presa à minha lousa de estudos, em casa. Abaixo dela, com a caneta da lousa, se lê “e isso precisa ser percebido”. Isso, infelizmente, não é óbvio.

Que não nos sintamos soterrados em culpa. Não tem culpa demais aquele que discrimina antes que se lhe esclareça que discrimina, antes que alguém chegue até ele e diga: “Escuta, isso, que você faz, está errado. E está errado porque essa criança é um ser humano, e não se age assim com seres humanos”. Vamos fazer do Dia das Crianças um dia simbólico de reflexão, de mudança. Vamos fazer Montessori, porque sabemos que Montessori ajuda a vida da criança, porque sabemos que Montessori é uma forma de pensar e uma forma de agir que previne e inibe a opressão. Mas vamos também refletir muito, demais mesmo, porque mesmo quem não possa conhecer Montessori imediatamente, mesmo quem não possa aplicar Montessori já e agora, mesmo esse adulto não pode oprimir a criança. Ninguém pode. Nós podemos mudar isso com um excesso de esclarecimento e com uma posição extremada: precisamos abraçar o radicalismo da compaixão.

Se você quiser entender mais sobre opressão e a opressão da criança, sugerimos:

A Criança, de Maria Montessori – o livro inteiro

Mente Absorvente, de Maria Montessori – o final do livro, últimos cinco ou seis capítulos.

Readings for Diversity and Social Justice – Editora Routledge, vários autores

A Revolução do Altruísmo – Matthieu Ricard

Os Condenados da Terra – Frantz Fanon

O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Microfísica do Poder – Michel Foucault

O Olho Mais Azul e God Help the Child – Toni Morrison (qualquer romance dela, na verdade)

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

 

Escola Maria

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Desde 2013 que professores pedem que o Lar Montessori dê algum suporte para escolas. Os textos do Lar Montessori vêm sendo usados para preparação de professores no Brasil e os vídeos são assistidos por equipes de escolas em reuniões e planejamentos. Isso tudo me enche de uma alegria que não pode ser traduzida em palavras. Mas, nitidamente, isso não era o suficiente.

Depois de um tempo amadurecendo a ideia, decidi. Em agosto de 2015 começaria uma nova página, amiga, parceira do Lar Montessori, mas voltada para profissionais da infância. Começou agosto e eu achei que seria ainda mais bonito se o lançamento dessa página acontecesse dia 31, no aniversário de Maria Montessori.

Com a pesquisa de mestrado e a disseminação de Montessori no Brasil, pouco tempo ficou para a estruturação dessa página, então, embora bonita, organizada e com uma quantidade agradável de conteúdo, a página vai ficar muito melhor com as adições que o tempo trouxer.

Agora, vamos aos fatos. Hoje, agora, foi ao ar a Escola Maria, uma página de apoio à formação de professores montessorianos, em português. Você é mais que bem-vindo lá! Vamos juntos?

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Montessori e Porque Não Precisamos Estimular Crianças

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As crianças vivem no mesmo mundo que nós vivemos. Mas se por um momento nos colocarmos em seu lugar, e olharmos o mundo por seus olhos, não nos sentiremos em nosso próprio mundo, mas em um outro, mais cheio de encantos, mais cheio de milagres e de mistérios. A criança pisa a mesma terra que nós pisamos, come a comida que comemos, ou quase, sorri para os nossos olhos, brinca com aquilo que fazemos, entregamos ou compramos. O encanto que ela vê e nós não vemos vem de uma só diferença: ela pisa a mesma terra que nós, mas essa é a primeira vez que ela pisa. Ela come a mesma comida que nós, mas é a primeira vez que ela come. Ela vê o mesmo mundo que nós, mas é a primeira vez que ela vê. E os campos de flores, as paisagens novas, as viagens, a meditação, as artes e tantas outras coisas existem para nos lembrar disso, desse encanto que existe quando vivemos pela primeira vez. Para a criança, a vida é toda um estado de graça.

É um sacrilégio interromper o estado de graça da vida com um cubo colorido que faz sons quando apertamos suas faces. É um sacrilégio interromper o milagre da existência para dizer que o nome daquela forma sem forma, de cheiro forte e pele áspera e amarela que a criança segura nas mãos é ba-ta-ta. Nem eu, nem você, nem ninguém, interromperia um monge que contempla o horizonte para lhe fazer uma pergunta sobre a formiga que anda na terra. E nem eu, nem você, nem ninguém interromperíamos um biólogo que observa a formiga para oferecer a ele um cubo mágico e perguntar se ele consegue fazer com que cada face fique com uma só cor.

Cubos e formigas à parte, a vida da criança é inteira o nascer do Sol. Todo o tempo, aquilo que a circunda tem a magia de uma manhã orvalhada e de um céu iluminado em tons de lilás pelo mar de estrelas que ameaçam amanhecer à noite. Ninguém que olhe o céu com encanto precisa de um brinquedo que brilhe no escuro. Ninguém[1] que olhe a vida pela primeira vez precisa de nenhum estímulo que não… que não a vida em si mesma, a brotar do chão.

Vivemos, infelizmente, em um mundo que nos hiperestimula. Nossa comida tem muito sal, muito açúcar e muita gordura. Nossa tecnologia tem muita luz e muito som. Nossas cidades têm imagens demais, barulho demais, fumaça demais. Nossas propagandas têm mensagens demais, e nossos produtos têm propaganda demais. Nossas redes são sociais demais, e nós, bom, nós alimentamos tudo isso porque somos sozinhos demais, e o excesso de estímulo nos dá a cansativa impressão de estarmos fazendo alguma coisa, nos sacia enganadoramente a ânsia de estarmos com alguém, fazendo algo que faz sentido. Vivendo nesse mundo, imersos em hiperestímulo, é reflexo natural que acreditemos que devemos estimular crianças.

Estimulamos demais porque queremos mais e mais cedo. Queremos que elas leiam mais e mais cedo, que falem mais e mais cedo, que andem mais e mais cedo, que associem mais e mais cedo, que lembrem, contem, calculem, conversem, entendam, percebam, peguem, montem, conquistem, entrem, acumulem, tenham e tenham sucesso, mais e mais cedo. E nós acreditamos que, primeiro, isso é bom, que, segundo, é o único jeito de dar certo no mundo de hoje e, terceiro, que pelo menos não vai fazer mal nenhum. Há quem viva pensando que menos é mais. Para a maior parte de nós, no entanto, mais é mais mesmo.

Montessori foi muito clara: para a criança, a vida é suficiente. Testemunhar a vida (primeiros meses), conquistar a vida (primeiros anos), participar da vida (toda a infância), questionar a vida (do meio para o fim da infância e a adolescência), contribuir para a vida (adolescência madura e juventude) e modificar a vida (juventude e maturidade). Nessa ordem. A vida basta.

Nós falamos de móbiles. Montessori falava de móbiles, mas alertava: é ainda melhor se a criança puder ficar deitada em uma almofada inclinada, observando os adultos em movimento e em interação no ambiente. É ainda melhor, ela disse em Mente Absorvente, se a criança puder acompanhar o adulto o tempo todo, especialmente nos primeiros meses, e no primeiro ano e pouco de vida, presa a um sling, observando tudo, acompanhando tudo, dormindo quando necessário. A vida é generosa, ela sabe o que faz: se abre sincera, ampla e sem reservas aos cinco sentidos da criança. E a criança foi feita para a vida e sabe recebê-la e utilizá-la para se desenvolver com perfeição.

O cérebro da criança bem pequena absorve a vida com a sede de quem caminha pelo deserto e encontra um oásis. Ele faz ligações rápidas, testa, muda, experimenta, muda de novo, e aos poucos faz sentido do que vê, do que sente, do que testemunha e do que faz com suas tenras mãos e seu pequeno corpo recente. A mente da criança trabalha em um ciclo: primeiro ela absorve, sem ordem, sem preocupação de ordem. Depois ela organiza, principalmente durante o sono. E por último ela reproduz em teste, em ação, aquilo que entendeu: um gesto, uma palavra, um jeito novo de ser independente.

Nós precisamos adequar o ambiente para que ele possa ser acessado pela criança, e precisamos fazer coisas na altura dela para que ela possa ver. Nós precisamos falar com ela e perto dela, interagir com ela e perto dela. A criança não se desenvolve bem em uma bolha sem vida, sem mundo. Mas se está em contato conosco, com o que a cerca e nos cerca, e vê a vida em desenvolvimento, desenvolve-se também.

Quanto aos materiais, Montessori foi incrivelmente clara: eles não servem para ensinar, não servem para estimular e não devem ser uma adição aos estímulos da vida. O objetivo dos materiais é ajudar a criança a organizar em sua mente aquilo que o mundo já entregou a ela, e ela já absorveu, sem ordem.

Se temos uma caixa de cores (de sons, de pesos, de letras, para todos os efeitos), não devemos esperar que a criança nunca tenha visto as cores. Somente esperamos que assim descriminadas elas façam mais sentido, tenham mais ritmo, afetem mais organizadamente os sentidos da criança e possam ser organizadas com mais facilidade em sua mente, que organiza não a caixa de cores, mas o mundo a partir da lógica da caixa. Cada material, por isso, carrega todo o universo em si. É a partir da ordem adquirida em sua manipulação que a criança enxergará o mundo. O material não é pouco, ele é muito. Mas ele não é estímulo, não é mais uma coisa para ser vista. E por isso não deve abundar em quantidade.

A maior parte do tempo da criança é empregada na vida, e assim deve ser. No cuidado da vida. A partir da organização do mundo que o material ajuda a criança a fazer, fica mais fácil agir: quando entendemos, é mais fácil entrar em ação. Por isso, depois de entender as letras, aquelas todas que a criança já viu antes, fica mais fácil escrever. E também é por isso que não enchemos as paredes das salas de letras as mais diversas: ver mais não é o que queremos propiciar. Queremos que a criança possa ver melhor.

No quarto, em casa, isso é dez vezes mais verdade. Se na escola não queremos fazer a criança transbordar de impressões sensoriais, menos ainda queremos em casa. Estímulo sensorial não é conosco. É com a vida. É com a casa em seu estado normal, é com a rua, é com a natureza – vamos levar nossas crianças à natureza, elas precisam disso! – o estímulo fica por conta do que está aí, do que já faz parte do mundo, do que não pode ser evitado. Nosso papel é a educação sensorial, e isso exige paz sensorial primeiro. O quarto não é o espaço do estímulo, mas do descanso, do sossego, do acolhimento, da tranquilidade. Poucas cores, poucas coisas. Muita, muita humanidade, e muita paz.

Vamos fazer uma nova opção de mundo, uma nova opção de vida. Se queremos, precisamos primeiro aceitar: a mente da criança vive pela primeira vez, observa pela primeira vez. A vida é interessante como uma viagem, mas cansativa como uma viagem. Fabulosa como uma experiência que temos pela primeira vez, mas da mesma forma, exige tempo para assimilação. Como foi da primeira vez que recebemos ou entregamos um beijo. Como é, até hoje, quando terminamos um livro ou um filme fabuloso. Quando nasce um filho. Cada experiência exige um tempo, uma pausa, uma tomada de caminho, de decisão, uma mudança de vida. Para a criança é assim o tempo todo.

Vamos optar pela paz. Nós não precisamos estimular nossas crianças, a vida foi feita nos menores e nos melhores detalhes para isso. A vida e a criança sabem se fazer, se construir, se revolucionar. Nosso papel é o do assistente, do suporte: a gente não apresenta a vida, a gente ajuda a criança a lidar com ela, da melhor maneira possível. Para a criança, a vida já é demais. Nós podemos ficar tranquilos, e só ajudar na organização do espetáculo.

Não somos nós que fazemos o milagre. Nós podemos, nós devemos, ajudar a criança, pouco a pouco, devagar, com a tranquilidade do capim que cresce do chão, pouco a pouco, ajudar a criança a entender, a viver e a reproduzir o milagre. A costurar seu mundo novo.

[1] Recebemos um conselho importantíssimo ao começar este texto. Quando escrevemos que ninguém precisaria de mais estímulo do que aquele que a vida oferece, deixamos de considerar as crianças que precisam de ajuda para absorver o que a vida oferece. Há muitas crianças que, por recomendação médica ou terapêutica, precisam de mais estímulo do que aquele oferecido pelo mundo, e de forma nenhuma é vontade do Lar Montessori convencer você do contrário. Se sua criança está entre aquelas que precisam de um pouco mais de ajuda, sua visita ao Lar Montessori é ainda mais bem vinda. Nós queremos você aqui, e sugerimos que você se aprofunde em Montessori. Ela nos disse muitas vezes, e comprovamos na prática todos os dias: o método Montessori é perfeito para todas as crianças, mas precisa ser adequado a cada uma. Se a sua criança precisa ser apresentada à vida com um pouco mais de insistência, de cuidado, de repetição, estamos com você, e vamos caminhar juntos para encontrarmos na vida todos os encantos que pudermos levar à vida de sua criança, da melhor maneira, para dela.

Na Direção da Eternidade – Primeiros Passos em Montessori em Casa

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Talvez você já tenha ouvido falar de Montessori, e talvez tenha ouvido falar dos resultados incríveis de Montessori: a tranquilidade, a independência, a concentração, o silêncio, a liberdade, a vida. Mas Montessori é um processo, quase infinito de fato, e é preciso começar por algum lugar. Há, basicamente, três lugares para começar: mudando nosso olhar sobre a criança, mudando o ambiente onde a criança vive e mudando nosso comportamento para com a criança. Ciclicamente.

Nosso olhar

Culturalmente, olhamos para a criança inferiorizando-a. Isso aparece bem evidentemente na fala do adulto: “Não aja assim, você não é mais criança!”, “Você parece criança! Tenha dó!”, e o mais comum de todos para educadores da infância: “Puxa, você deve ter paciência!”. Em Montessori, olhamos a criança de outra maneira, para nós a criança é nobre, ela é a construtora da humanidade, é graças à criança que existimos e só graças a ela que o futuro humano existirá. Ela guarda as chaves da vida, e deve ser vista assim. A criança precisa ser vista como um ser cuja principal tarefa no mundo é a conquista de independência e o desenvolvimento da concentração.

Devemos aprender a ver a criança como nossa redentora. Ela nos perdoa todos os erros, ama-nos apesar de todos as nossas falhas. A criança nos indica com suas atitudes os melhores caminhos da vida: atenção plena ao momento presente, interesse pelo mundo que a cerca, concentração total em cada pequeno detalhe do ambiente, carinho e confiança, renovação e paz. A criança indica ao adulto em que ele pode se tornar se desejar ser melhor.

A criança é a fonte do amor humano. Não há adulto que não fique mais leve, mais pleno, mas sabedor de sua vida no tempo ao assistir uma criança agindo feliz no mundo – todos nós sorrimos, porque a criança faz nascer a alegria e o contentamento. Eles brotam da criança, como a água das pedras, e vêm a nós descendo, e não subindo, a partir do olimpo onde habita o Dia de Amanhã.

Não devemos olhar a criança como um ser que precisa ser disciplinado, limitado, violentado, castigado ou humilhado. Mas como alguém que precisa de nossa observação, nossa esperança, , cuidado e ajuda. Observar a criança é fundamental, todos os dias. Só assim poderemos perceber de que ela precisa, o que a frustra, quão justas são suas enfáticas objeções. Só pela observação seremos capazes de agir com ela de forma a estabelecer a paz e a vida em nossas relações. Olhar para a criança com atenção é o primeiro passo para percebermos suas necessidades verdadeiras e sua nobreza, a profundidade de sua magnificência.

O Ambiente onde a Criança Vive

Se queremos salvar animais da extinção, criamos reservas florestais e cuidamos, para que elas se tornem santuários de vida a transbordar. Se queremos compreender bactérias criamos ambientes perfeitos para seu desenvolvimento em placas e tubos de ensaio meticulosamente preparados. Se queremos que a criança crie a humanidade futura da forma mais bela e sublime possível, precisamos preparar ambientes cuidadosamente pensados para elas, para o benefício delas e a vida delas.

O ambiente da criança deve ser seguro, belo, preparado para sua atividade, acessível e limitado em número de objetos. Devemos garantir a liberdade da criança, e se ela será livre, precisamos garantir que ficará bem. Por isso, é importante cuidar da segurança no ambiente. As janelas, as eletricidades, as alturas, os fios (de luz e de corte), tudo deve ser liberado para a criança, mas muito lentamente, conforme ela aprenda a viver, conviver, usar e se proteger de cada um. A proibição total nunca funcionou na história da humanidade. A disciplina que funciona é aquela que ensina como agir, não aquela que impede a ação.

A beleza do ambiente da criança é a das galáxias: há brilho, há luz, há estímulo. Mas espaçado por grandes distâncias. Distâncias que, na Terra, são preenchidas de ar. As paredes devem ser claras, neutras, as estantes, prateleiras, e a mobília também. Essa neutralidade pode ser, deve ser, pontuada por belezas brilhantes: poucos bons brinquedos, poucos bons livros, poucos bons enfeites para decoração. Até seis brinquedos, mas geralmente menos, que se deve alterar a depender do interesse da criança. E todos brinquedos que dependam integralmente da criança para acontecer: nenhum brinquedo a pilha, nenhum brinquedo eletrônico, tudo o que dependa completamente das mãos da criança. Com poucas cores de cada vez, pouco estímulo visual ou auditivo, poucas dificuldades. Muitas dificuldades confundem, tencionam, estressam.

Deve haver poucos objetos, para que a escolha criteriosa seja possível. E estes devem ser acessíveis à criança, fisicamente. Devem ficar baixos para que a criança possa tomar água sozinha, comer sozinha, se vestir e despir sozinha, banhar-se sozinha, cuidar-se sozinha. Quando as coisas não podem ficar mais baixas, pode haver um banquinho, firme, forte, amplo, onde se apoiem bem os dois pés da criança, e ela possa acessar o mundo mais alto.

O Comportamento do Adulto

O maior desafio sempre está dentro de nós. Da pele para dentro. O desafio da tranquilidade, de compreender a vida, de olhar com interesse o que nos cerca, de gostar do que temos e perseguir em paz aquilo de que gostaríamos. O maior desafio é mudar o que há de humano em nós, para progressivamente nos tornarmos dignos da criança – aqui, vale dizer, não há culpa. Nós somos, no fundo, todos suficientes e dignos de amor e conexão. O que há é a perseguição de um melhor estado de vida, convivência e educação.

Precisamos viver com a criança não como servos, nem como tiranos, mas como auxiliares, prontos a ajudar em tudo o que for necessário, e prontos a deixar que a criança faça por si tudo aquilo que ela puder fazer sozinha. Nunca devemos ajudar uma criança em uma tarefa que ela acredita poder fazer sozinha. Quando ajudamos demais, inibimos o desenvolvimento da independência. Quando interrompemos uma criança que tenta, inibimos o desenvolvimento da concentração. O esforço da criança é necessário para o melhor de sua vida, e para o melhor da humanidade.

Precisamos aprender a enxergar a criança com esperança e fé. Precisamos sabê-la suficiente. Precisamos acompanhar a criança na caminhada para a vida durante a qual ela atravessa belíssimos caminhos de independência, alegria, amor. É difícil para nós que acreditemos, mas podemos crer: a criança aprende sozinha, é nosso papel preparar aquilo que a cerca, para que ela possa aprender, conquistar, desenvolver-se. Então, ela caminhará em paz, na direção da eternidade, construindo o que há de mais belo em si mesma e no mundo em volta.

Montessori Exige de Nós um Posicionamento Frente ao Mundo?

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“… ‘Como vou me manter?’ é a pergunta que todos se fazem, neste mundo maravilhoso, cheio de recursos e de novas formas de viver. Muitos estariam prontos a sacrificar tudo para se livrar dessa angústia, que se assemelha em muito com a ansiedade dos pacientes que sofrem da neuroses patológicas. […]

Observem, então, o que acontece com o tipo de educação dada pelos pais e professores. Eles dizem à criança: ‘Vamos, você tem de se concentrar em seus estudos! Você tem de obter um diploma! Você tem de conseguir este ou aquele emprego! De outra forma, como você viverá?’ Pais e professores de hoje esquecem de dizer as palavras que foram a pedra de toque da educação: ‘Todos os homens são irmãos'”. – Maria Montessori, A Educação e a Paz, Cap. 5.

Tive, então, uma visão […] de uma criança de pé, de braços abertos, convidando a humanidade a segui-la.” – Idem, Cap. 15.

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Montessori exige de nós um posicionamento frente ao mundo. Um posicionamento difícil, mais desafiador que os outros todos, eu sinto. E este texto não termina o raciocínio que começa. Ele começa e convida você a pensar conosco, a refletir também, a levar a reflexão a outros – especialmente outros que possam ajudar, mais do que destruir, aquilo que você já foi capaz de compreender. Nós vamos só começar.

Montessori, o método, a forma de viver, a forma de criar, a forma de educar e ajudar a vida, exige de nós uma forma de agir na Terra. Um jeito de debater, um foco para as questões da humanidade, e uma escolha de caminhos a seguir com as ações que levamos a cabo em nossa vida diária. O caminho não parece muito exato, mas talvez possamos entrever algumas coisas.

Primeiro, Montessori defende a interdependência de todos os seres. Todos mesmo. Ela nos lembra de que a forma da Terra hoje é um resultado da ação da vida sobre o relevo, e que o humano é parte da vida e tem um papel fundamental no equilíbrio do todo. Nesse sentido, nos traz à memória o papel que o humano parece desempenhar no mundo: ele busca melhorar a Natureza. Muitas vezes, necessário dizer, com sucesso. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que uma pessoa pudesse morrer por doenças banais e que podem ser prevenidas ou tratadas. Nenhum de nós gostaria de voltar para um tempo em que um membro ferido de família estivesse fadado à morte certa. Nenhum de nós – ou só algumas exceções bastante pontuais – gostaria de voltar para o tempo em que qualquer alimento só poderia ser conseguido por caça e coleta. Nós progredimos, e progredimos bastante, e progredimos positivamente, em nosso trabalho de modificar e melhorar a Natureza. Nós, infelizmente, também modificamos e pioramos a Natureza, mas isso se explica por um outro caminho humano.

Nós por algum motivo desenvolvemos em nós a insaciedade eterna. O humano quer mais, e mais. E não quer dividir. E se recusa a reconhecer que tudo o que lhe pertence também ao outro, porque no fim de qualquer raciocínio, a Natureza produz sem exigir nada em troca, e então todos nós temos exatamente o mesmo direito sobre todas as coisas. Mas o medo profundo de que não haja o suficiente, o medo incutido de que não haja o suficiente, nos leva a lutar por um excesso absolutamente desnecessário.

Também em A Educação e a Paz Montessori defende o ensino de métodos de análise sociológica e econômica para o adolescente, para prevenir o que ele chama de sentir-se um grão de areia em um imenso deserto que não pode ser compreendido. O adulto que pode analise o meio humano, social, econômico, que pode compreender as condições materiais de existência em que se encontra, encontra-se menos órfão, menos perdido, e menos desesperado.

Sobretudo, no entanto, em nosso avanço material esquecemos quase completamente de nosso trabalho interior a ser realizado. Só hoje aos poucos retornamos a pensar sobre o trabalho que precisa ser desenvolvido do humano para dentro, e não tanto do humano para fora. As revoluções, as leis, os decretos, as inúmeras tentativas de progresso baseadas nos meios exteriores ao humano são de total validade. São fundamentais, têm sua importância e precisam ser reconhecidas. É necessária a luta constante por melhores condições de trabalho, salários dignos, e não de sobrevivência, igualdade de gêneros, igualdade de raças, fim das condições de vida degradantes e da humilhação social de grupos humanos imensos. É necessário que haja leis para proteger mulheres, negros, gêneros não-heterossexuais, e para proteger o pobre – uma das grandes faltas da atualidade é a microluta (no sentido da microfísica, e não em qualquer sentido pejorativo) para a proteção de grupos específicos e o esquecimento (proposital?) de que uma imensa parcela do mundo ainda é pobre e ainda é miserável, e de que essa parcela precisa ser protegida, amparada e ajudada.

Ainda assim, entretanto, esquecemos o que está dentro do humano. Nós esquecemos de que há, dentro de nós, potencial infinito. Nós – como pudemos? – esquecemos de que o humano não vem pronto e predestinado, como as lagartas, os golfinhos e as cianobactérias. Nós nos esquecemos de que podemos fazer qualquer coisa. Esquecemos de que somos capazes de tudo. E nós nos esquecemos, embora todas as religiões tenham repetido, que os lírios do campo não trabalham nem fiam, mas se vestem melhor do que nossos maiores CEOs, as majestades da contemporaneidade. Nós ainda não conseguimos nos lembrar de que é possível salvar a humanidade. E de que, como só nós podemos fazer isso, é essa nossa maior responsabilidade, ela é coletiva, e é necessário que todos tomemos parte no progresso interior do humano.

Para caminharmos na direção do infinito, precisamos de um rumo, e não de um objetivo. Não nos cabe procurar um objetivo. Nós não conhecemos o melhor possível para toda a humanidade. Mas nós sabemos que há algo essencial para que o melhor do humano possa brotar. E o essencial é o respeito profundo, feito de conhecimento, amor e reverência, à majestade da criança. A criança como construtora da humanidade, a criança como mãe do adulto.

Assim, parece-nos, devemos buscar tudo aquilo que propicie à criança a melhor condição de vida, de desenvolvimento, de liberdade e de progresso no mundo. Somos a favor de tudo o que ajudar a caminhada nesta direção, e somos contra tudo aquilo o que de alguma forma atrapalhar. Somos a favor de parques e praças, e somos contra o tratamento violento dispensado a crianças e adolescentes. Somos a favor de refeições saudáveis, e somos contra o movimento industrial que impõe pela autoridade médica a famílias e escolas o consumo de produtos alimentícios desnecessários e prejudiciais. Somos a favor de professores que possam viver, dormir, estudar e criar(em-se), para que possam ser melhores professores, e somos contra a destruição progressiva do sistema escolar por sistemas apostilados e provas sistematizadas. Somos a favor de licenças maternidade e paternidade que permitam o convívio dos pais com seus filhos, e contra qualquer desigualdade de gênero, cor ou classe econômica que force o adulto a ser incapaz de dar à sua criança a vida que ela merece ter. Somos a favor de uma comunhão internacional para reconhecer, finalmente, que as crianças são criadoras da humanidade inteira, e não só de seus próprios pais, sua própria religião ou seu próprio país, e que então a criança é cidadã universal e é papel de todo o planeta garantir a qualidade de vida da criança pequena, e não só papel de seus pais, sua escola ou seu governo. Somos contra as fronteiras, a guerra e a política de exclusão internacional.

Somos, por fim, a favor de uma paz que ainda não existe, e que não sabemos como se comportará quando existir. Mas somos a favor da busca por essa paz, uma paz que somente nascerá de gerações vindouras que, respeitadas na geração de seus primeiros pensamentos, movimentos e vontades, for capaz de construir um mundo novo, cheio de milagres.

Este texto foi escrito com base em todo o livro A Educação e a Paz. Também, foi escrito ao som de Imagine, de John Lennon, e qualquer intertexto não é mera coincidência. Por fim, haverá aqui resquícios das ideias do autor, em geral emprestadas de Zyngmunt Bauman, Foucault, Terry Eagleton, Clarissa Pinkola Éstes, Madre Teresa e o Dalai Lama. A sua opinião é muitíssimo bem vinda e, mais uma vez, ressaltamos que a tentativa deste texto é iniciar um processo de pensamento sobre o posicionamento social mínimo do adulto montessoriano.

Montessori: A Luta e a Graça

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Todos os dias, em quase todos os países, pessoas buscam Montessori. Pessoas tentam fazer Montessori. Nós, as pessoas, tentamos construir Montessori. E todos os dias, em todos os países, os hábitos, os governos, as corporações e as crenças vão na direção contrária à das nossas buscas e tentativas. Nós queremos acreditar em Montessori e queremos fazer Montessori, mas todos os dias é necessário nadar contra quarenta correntezas se queremos trazer Montessori para nossos atos, para nossa realidade. Isso transforma fazer Montessori em uma Luta.

Todos nós sentimos essa luta. Ela está nas nossas peles, nos movimentos dos nossos músculos, nos nossos olhares. O tempo todo em nossas respirações e nossos corpos. Para muitos de nós ela está em nosso sono e em nosso olhar no espelho. Essa luta faz parte de nosso dia a dia quando queremos, em um restaurante, permitir que nossas crianças comam sozinhas, com pratos e copos de verdade, e talheres de metal… Enquanto o restaurante parece montar uma força tarefa de boa vontade para ajudar-nos a fazer a criança comer em pratos de plástico estampados, copos coloridos, e devorar um menu todo feito de comidas salgadas demais ou doces demais, enquanto nós tentamos que ela aproveite a comida de verdade, aquela comida pelos adultos.

Sentimos a luta de Montessori quando não percebemos assento nos ônibus para nossas crianças, e quando não há um vaso sanitário, um mictório, uma pia ou um secador de mãos adaptados no banheiro, e sentimos quando temos casas e apartamentos pequenos demais, longe demais, para que nossas crianças possam ter áreas grandes e abertas. Sentimos quando as escolas têm métodos apostilados comprovadamente eficientes e não tem um metro quadrado de área verde, ou têm e não usam, porque há de se ficar em dia com o planejamento, e intervalos longos nem sempre são possíveis. Sentimos a luta de Montessori em cada olhar quando permitimos que nossas crianças se esforcem, tentem e falhem em público, e quando, em particular, pensamos muito seriamente se isso que estamos fazendo está mesmo certo. Afinal, faz sentido, mas é tão contrário a tudo – e a todos.

Há um outro lado, porém, para Montessori. Um lado que não é de luta, que não é de esforço contínuo e cansativo, e que não é de contrariar e discutir. Há um lado outro que é de perceber luz, brilho e florescer. Há um aspecto que é de descoberta contínua, de desabrochar constante, de desenvolvimento pleno, de alegria, de contentamento, de Paz. Esse é o lado da Graça.

Nós percebemos a graça quando nossos filhos e nossos alunos, nossas crianças todas, não nos pedem para beber água e levantam sozinhas de suas camas, fazem-no e retornam, tranquilas. Percebemos a graça quando vemos nossas crianças tentarem comer com os talheres de verdade e não conseguirem por repetidas vezes, até que de repente conseguem, e comem com mais prazer do que poderiam comer qualquer garfada dada por mãos adultas. Nós notamos a graça quando percebemos que nossas crianças comem melhor, dormem melhor e vivem com mais alegria quando caminham em direção à sua independência e, mais tarde, à sua autonomia.

A graça se faz notar quando transparece no brilho dos olhos de nossos alunos e nossos filhos no instante em que eles se abaixam na calçada ou no parque para observar uma formiga, uma folha, uma lagarta ou um graveto. Ela aparece para nós quando, apesar de tudo, eles dão um jeito de viver e nós notamos que nossos esforços fizeram diferença. Quando suspiramos gratos porque conseguimos entender os movimentos, as tentativas, as caminhadas, as buscas dos pequenos. Quando fazemos uma mudança nos ambientes de nossas casas e o fascínio deles nos mostra que acertamos, quando falamos baixo, devagar, e o comportamento deles nos mostra o quanto isso está correto.

De repente, hora ou outra, percebemos que estamos fazendo aquilo porque aquilo nos fez, aquilo nos construiu, aquilo passou a nos ser. Nós somos. E aí fazer diferente não faz o menor sentido. E nós até podemos entender melhor quem faz diferente, porque agora que aquilo nos é, nós não precisamos pensar tanto no fazer, e podemos entender quem é de um jeito diferente. Embora a gente creia com muita certeza e saiba, porque estudamos, que há coisas boas e ruins para a criança, agora podemos conversar em paz. Porque não estamos mais fazendo Montessori. Agora, estamos sendo.

O estado de graça de Montessori chega em nossas vidas quando damos o salto entre fazer Montessori e ser Montessori. Não é algo que possamos fazer muito rápido. Não é uma mudança realmente automática, e ela exige de nós esforço para acontecer. É preciso fazer Montessori com bastante frequência e por bastante tempo para podermos contar com o futuro certo de que aquilo passará a fazer parte de nós.

Não há milagre, na verdade. O que acontece é que quando insistimos por bastante tempo em uma forma de pensar e agir, os nosso cérebros mudam algumas ligações (elas se chamam sinapses) e quando essas sinapses estão alteradas com coerência e por algum tempo, nossas personalidades mudam – todo o nosso cérebro se adequa a conhecimento novos, a novos hábitos e a novas formas de agir. Aí, de repente, nós nos damos conta de que somos o que fizemos, e que fazemos agora aquilo em que nos tornamos. A coerência atingida é que nos permite fluidez e sossego. Nos permite a tranquilidade de sentir se aquilo está certo. Não é obediência aos instintos – nós, culturalmente, os perdemos quase todos. É obediência inconsciente a uma nova gama de atos automáticos de pensamento, e nós podemos sentir se está certo, porque dentro de nós temos tudo delineado com clareza.

O estado de graça de Montessori é quando Montessori acontece mais. E não é possível passar a vida no estado de luta. A luta cansa, exaure, exige mais do que podemos dar. A luta pede de nós tentáculos argumentativos e uma biblioteca de conhecimentos. A luta nos coloca no lugar difícil do soldado, do guerreiro, do explorador, daquele que busca, constrói e faz. A graça nos coloca no lugar pacífico do monge, do amante, do admirador. A luta e a graça se alternam em Montessori, há momentos de luta na graça, e momentos de graça na luta. Mas uma delas se faz predominante em momentos diferentes de nossas vidas.

O estado de graça tem um momento para surgir, o ponto da virada. Ele aparece quando nos conscientizamos de nossa própria suficiência. Quando, sem deixar por um instante de tentar melhorar e superar a nós mesmos, nós nos damos conta de nossa suficiência, de nosso merecimento. Quando sossegamos dentro de nós, sossegamos fora de nós. A graça percebe, sabe que é então bem vinda, e devagarzinho, ela chega.

Maria Montessori: Feminista

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Montessori era feminista. A mãe de Montessori era feminista e ela cresceu em um lar no qual seu poder, suas capacidades e sua força eram respeitados e apoiados. Isso, ao longo da vida de Montessori, fez toda a diferença. Foi a mãe que a apoiou quando decidiu fazer curso técnico em Engenharia. Foi a mãe quem a apoiou quando decidiu por Medicina no curso superior – em uma época na qual isso era inadmissível para uma mulher. Foi a mãe que deu a ela suporte emocional ao longo de tragédias pessoais e durante os momentos em que enfrentou duras pressões sociais impostas a todas as mulheres. O pai era um homem bom e honesto, que nunca atrapalhou os planos de Montessori, um homem com a mente avançada para sua época, e que compreendia os pontos de vista de sua esposa e a força intelectual de sua filha.

Ao longo de sua graduação e depois, Montessori participou de congressos feministas, escreveu e falou em defesa da mulher, de suas condições de trabalho, da exploração a que era submetida. Eu, sendo homem, não me alongarei tentando refletir sobre isso. Entendo que não me caiba. Quero tentar, neste texto, deixar Montessori falar.

Em 1896 – Sobre a mulher pobre, que segundo a lei da Itália na época, deveria trabalhar quando o marido não mais tivesse força física para fazê-lo, Montessori expõe sua interpretação: “Você deve servir para meus prazeres enquanto eu puder ganhar a vida e trabalhar para mim quando eu não puder mais”. (POVELL, p.37).

“[A mulher] trabalha como um homem e em seguida suas responsabilidades domésticas não deixam de existir. Em vez do descanso, que seu marido tem depois do trabalho, tarefas domésticas a esperam e geralmente com uma criança sob seu coração ou em seu seio. Se o homem procura diversão no álcool, a mulher se torna aquele que recebe sua brutalidade e da bebedeira. Com frequência também ele prefere compartilhar seus ganhos com uma mulher menos carregada, em lugar de com a sua [esposa] cercada de crianças; por um sorriso ele priva os seus de um pedaço de pão”. (apud POVELL, pp.37-8).

Em 1899 – “As mulheres elas mesmas devem entrar nos ramos da ciência positiva [exatas e biológicas], devem argumentar com seus cérebros, e não seus corações. Mulheres… devem confrontar os homens, debater com eles, trabalhar ao seu lado, se juntar a eles na descoberta da verdade”

Montessori era excelente quando falava em público. Animava magistralmente milhares de pessoas de uma vez, com palestras que fazia sem anotações – ela levava blocos de papel em branco para o palanque ou a mesa, porque era educado que se tivesse sempre papéis à mão ao falar. Mas ao pedido de um jornalista para que os mostrasse, disse que estavam todos em branco, e em branco os mostrou. Era sempre assim.

Com sucessivas aparições na mídia nas quais sua fotografia era seguida por legendas como “A Bela Acadêmica” (KRAMER, p.79), Montessori decidiu afastar-se da mídia. Em carta de 1896 aos seus pais (Association Montessori Internationale, 1970, p.14 e POVELL, p.39), disse:

“Vejo que muitos jornais falam de mim. […] Falam bem de mim – e mal. Isso não importa. Farei de tudo para ser esquecida! Minha fotografia nunca mais aparecerá em jornais e ninguém ousará poetizar novamente minha suposta beleza. Vou trabalhar seriamente!”

Anos depois, no início de sua primeira grande obra escrita, Pedagogia Científica, incluiu o discurso que proferiu quando da inauguração das Casas das Crianças em Roma. Um trecho segue:

“E que seja lembrado que todas as mães do conjunto poderão aproveitar este privilégio, indo para seus trabalhos de mente tranquila. Até o presente, somente uma classe social podia contar com esta vantagem. Mulheres ricas podiam ir para suas ocupações e divertimentos, deixando suas crianças nas mãos de uma enfermeira ou governanta. Hoje em dia a mulher do povo, que vive nessas casas reconstruídas, pode dizer como a grande dama, “Deixei meu filho com a governanta ou a enfermeira”. Mais que isso, ela pode adicionar, como a princesa de sangue, “E o médico da casa os assiste e apoia seu crescimento são e forte”. Essas mulheres, como as classes mais avançadas das mães americanas e inglesas, possuem uma “Tabela Biográfica”, que, preenchida para a mãe pela diretora ou o médico, dá a ela o conhecimento mais prático do crescimento e das condições de sua criança.

“Estamos, então, tornando comunitária a “função maternal”, um dever materno, na Casa. Podemos ver nesse ato a solução de muitos dos problemas das mulheres que pareciam sem solução. O que acontecerá com a casa, se pergunta então, se a mulher sair dela? A casa se transformará e assumirá as funções da mulher.

“Eu acredito que na sociedade do futuro outras formas de vida comunitária virão.” – do Discurso Inaugural na ocasião da abertura das Casas das Crianças.

Em seu capítulo sobre Independência, no mesmo livro, lemos:

“…os homens trabalham não só para si mesmos, mas para as mulheres. E as mulheres desperdiçam sua força natural e sua atividade e definham em escravidão. Ela não é só mantida e servida, ela é, além disso, diminuída, menosprezada, naquela individualidade que lhe pertence por direito de nascimento como ser humano. Como membro individual da sociedade, ela é um zero. Ela é tornada deficiente em todos aqueles poderes e recursos que tendem à preservação da vida.”

Montessori viveu uma vida de transgressões. Ela viveu uma vida pisando em terrenos não-autorizados. Engenheira, Médica, Psiquiatra. Educadora de crianças “ineducáveis”, viajante em época de guerra, pacifista em época de guerra. Rebelde face a governos totalitários. Cientista de altíssima categoria adiantando, em pelo menos meio século, descobertas da Psicologia Cognitiva e da Neurociência modernas. Montessori fez de sua vida uma revolução de oitenta anos. Ela abriu caminho para outras médicas, outras educadoras, mães e mulheres que desejavam alçar voos amplos e encontraram nela exemplo e suporte. Ela não morou em lugar nenhum, dizia que sua pátria eram as estrelas. Montessori mudou o mundo. Ela não resolveu todos os problemas da Terra, mas junto com as mulheres que a precederam e ladrilhando o caminho das que vieram depois, Montessori foi uma feminista (e se a mim coubesse dizer, eu diria, de primeira grandeza), Montessori lutou pela criança sem esquecer a mulher.

Nesse Dia da Mulher, eu, como homem, talvez tenha muito pouco a dizer. Mas a História, e Maria Montessori na História, têm muito. Eu espero ter permitido a ela discursar por breves instantes em um palanque de nossas imaginações, nos animando para a longa luta da igualdade e do fim dos preconceitos contra a criança e contra a mulher.

As referências deste texto são:

ASSOCIATION MONTESSORI INTERNATIONALE. Maria Montessori: A Centenary Anthology. Amsterdam,AMI, 1970

KRAMER, R. – Maria Montessori: A Biography. Chicago, University of Chicago Press, 1988.

MONTESSORI, M. – The Montessori Method: Scientific Pedagogy as Applied to Child Education in the “Children’s Houses”. New York, Frederick A. Stokes Company, 1912.

POVELL, P. – Montessori Comes to America: The Leadership of Maria Montessori and Nancy McCormick Rambusch. Maryland, University Press of America, 2010.