A Questão da Liberdade

Amigos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo leram alguns livros de e sobre Montessori e tiveram mais dúvidas que certezas. Pediram-me para conversar sobre a realidade das escolas Montessori e eu achei por bem colocar aqui as dúvidas e respostas principais. Espero que lhes seja útil.
Eu possivelmente utilizarei sem perceber frases inteiras dos livros The Montessori Controversy,Montessori: Her Life and WorkMontessori: The Science Behind the Genius e talvez de obras de Maria Montessori, que não listarei aqui porque são variadas demais. Peço antecipadas desculpas e em avanço aviso: os louros das explicações abaixo cabem a McNichols, E.M. Standing, Angeline Lillard e Maria Montessori. Possíveis erros, no entanto, devem-se a uma leitura não tão atenta das obras destes pesquisadores, e aí a culpa é minha mesmo.

 

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A questão da Liberdade:
Possivelmente este seja o conceito de Montessori mais controverso e mal interpretado por curiosos, pais e professores (montessorianos ou não). Alguns sugerem que Montessori é um método militaresco, outros que se trata de um método anarquista. Alguns dizem que há excessiva disciplina em sala, outros que é um sistema livre demais. É evidente que a verdade não se encontra em nenhum dos extremos, no entanto não está simplesmente no meio do caminho entre o militaresco e o anarquista.
Um método que se baseia na observação científica não pode pressupor que o professor intervenha o tempo todo no desenvolvimento do aluno, pois seria como adicionar novos elementos a uma experiência de laboratório enquanto o processo se dá. Para que cada criança possa ser compreendida em sua totalidade, e assim ser bem orientada, é necessário que ela possa se manifestar livremente o suficiente para que o professor/observador/pesquisador (um educador Montessori é tudo isso) possa constatar que caminho deve ser tomado com aquele ser em formação, com todas as suas idiossincrasias.
Há que se atentar, portanto, para dois tipos-chave de comportamento, que determinarão o nível de intervenção do professor. A criança pode estar a desenvolver dois grandes tipos de atividade:atividades edificantes ou atividades não-edificantes.

  • Atividades edificantes: são aquelas que, de alguma maneira, contribuem para o crescimento intelectual, social ou emocional do ser em formação. Em uma escola Montessori, são as atividades propostas com os materiais, ou atividades que a própria criança desenvolva mas nas quais se perceba, via observação, que há um engajamento do pequeno humano.
    • Por ter passado anos observando as crianças na lida com os materiais, Montessori prevê muitos dos usos edificantes deles. Por isso é possível saber muito rapidamente se a criança está a desenvolver alguma atividade ou se se trata de brincadeira somente. A brincadeira tem lugar no método Montessori, mas tem lugar e tempo apropriados.
  • Atividades não edificantes: à parte da brincadeira, que não tem nada de mau em si mesma, algumas crianças, que geralmente estão há pouco tempo numa escola Montessori e que foram de alguma maneira mimadas ou negligenciadas pelos pais, exercem atividades que causam danos a si mesmas, ao ambiente ou a outras crianças.
    • Em caso de atividades que causem dano ao ambiente (destruição de materiais, utilização inadequada dos mesmos ou atitudes socialmente inadequadas), o professor deve “ensinar ensinando, e não corrigindo“, de maneiras que Montessori explica em seus livros, o professor não corrige a criança levando-a a se tornar inativa (“não faça isso!”, “pare!”,”quieta!”,”chega!”), mas sim de maneira a engajá-la em algo digno de seu tempo e vontade, sugerindo uma nova atividade, que a ela interesse e a que ela queira se dedicar com afinco. A atividade ideal é descoberta via observação científica.
    • O bem-estar social da sala também é parte importante do método, e se uma criança atrapalha o bem-estar social da sala inteira, ela terá de deixar de fazê-lo, em nome de todo o grupo. O professor deve, para isso, engajar a criança em alguma atividade de seu interesse, ainda que ela não esteja prevista nos materiais. Primeiro se resolve o problema de toda a sala, em seguida resolver-se-ão as dificuldades daquela criança específica.
    • Em caso de atividades que causem dano ou perigo a si mesmas ou a outras crianças, o professor pode ultrapassar alguns limites pedagógicos e até impedir a criança fisicamente de realizar a atividade. Afinal, pode se tratar de uma perna, um dedo ou uma vida em perigo, e então o cuidado ultrapassa a ciência.
No caso de o aluno estar a exercer algum tipo de atividade edificante, não importa quão lentamente ele esteja evoluindo, o professor não deve interferir. A interferência deve vir somente caso a criança cause dano a si mesma ou ao grupo, via atividades que não a farão crescer de nenhuma maneira.
O professor deve, sim, estudar a criança em profundidade, para saber a hora certa de apresentar um novo material ou um novo conteúdo. Há de se perceber a manifestação externa dos anseios internos da criança e, a partir dela, decidir-se qual material ou conteúdo levar para o pequeno ser. Isto tudo é ensinado em bons cursos de formação de professores Montessori e nos livros da autora. O professor deve ser bem preparado e decidir tudo com base na ciência e na observação.

Crianças trabalhando em sala de uma escola Montessori.
Disciplina, Primeiras Leituras, Reflexões

Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

um comentário

  1. Olá querido Gabriel Salomão!!! Gostaria que deixasse mais claro quanto a ideologia extremista de entender o Método Montessori, como um estimulador ao desejo de anarquia, visto que um dos princípios do Método é a “Education and Peace” onde desenvolve a idéia de que quando a criança se liberta dos adultos opressivos que agem por ela, a criança também atinge seu segundo objetivo, trabalhando positivamente rumo à sua própria independência. Sendo assim, não estaria promovendo um certo espírito de desobediência a hierarquias, ou seja um pequeno anarquista? Como a educação Montessori lida com essa questão ? Até que ponto essa estimulação a independência da criança pode chegar sem prejudicar à sua vida em sociedade, tendo um senso de respeito e obediência as suas autoridades?
    Desculpe minha falta de informação,estou engatinhando no Método Montessori e gostaria muito de aprender sobre essas questões que me causam dúvida. No demais, sou fascinada por tudo o que tenho descoberto sobre Montessori e seu Legado.
    Ficarei grata pelo feedback!

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