Desenvolvimento como Independência

Há muitas formas de se compreender o que acontece com a criança do momento em que nasce até o tempo de sua maturidade total, por volta dos vinte e quatro anos de idade. Podemos pensar nisso como crescimento, como aprendizado, como experiência. É possível enxergar a sucessão de eventos da vida como uma sucessão de conquistas e de traumas, ou como uma sequência longa de causas e consequências pelas quais somos responsáveis mesmo antes de sabê-lo.

Em Montessori, enxergamos este processo longo como desenvolvimento e o desenvolvimento, deste ponto de vista, é uma sucessão de independências. O objetivo do bebê, da pequena criança, do adolescente e do adulto jovem é independer-se. Entretanto, é claro para todos que a criança que ainda não anda está em um estágio ou em um processo de independência diferente do adolescente que ainda não pode sair sozinho de casa. Ambos, porém, compartilham do mesmo ideal: a capacidade de fazer algo que ainda não fazem e deixar de depender de alguém que faz para ou com eles.

Nessa sucessão de independências, muitos processos microscópicos ocorrem. Um dia a criança se vira sozinha, no outro já engatinha. Pouco tempo depois já fica de pé, e de repente anda, de repente corre, de repente fala, e logo em seguida já lê estuda, repensa, argumenta, e nos vence nos debates. Aí lê, escreve, desenha, se apaixona, aprende um instrumento musical. Aprende a mexer no computador e então se apaixona de novo, aprende outro instrumento musical, uma língua estrangeira e, quando menos esperamos rejeita aquela sua língua materna, sem gírias, sem swing, que vai tão devagar. Depois sai, namora, escolhe uma profissão, muda de ideia. Começa a trabalhar, especializa-se em um ramo, estuda. Um dia, mora sozinha. Essas independências todas, tão pequenas, grandes e cotidianas, são sinais vitais de que o desenvolvimento vem de fato acontecendo.

Quando observadas de perto em muitas crianças, em todo o mundo, e depois comparadas, percebemos que essas explosões menores fazem parte de um quadro completo que pode ser dividido em três grandes partes – e em uma quarta um pouco nebulosa. Primeiro, de zero a seis anos, a criança persegue a independência física. Em seguida, de seis a doze anos, busca sua independência intelectual. Quando a consegue – e mesmo quando não consegue – a partir dos doze e mais ou menos até os dezoito, quer conseguir sua independência social e, ao menos em teoria, entre os dezoito e os vinte e quatro anos, o adulto caça sua independência profissional, que é mais do que uma profissão, pura e simples.

A Independência Física é a primeira a ser encontrada. A criança nasce inerte, dependente de nós para sobreviver, para alimentar-se, para qualquer movimento que deseje fazer. Aos poucos, aprende a pegar, sentar, mover-se, andar, carregar, falar… Os verbos seriam infinitos, pois que a criança faz em seis anos de vida mais do que qualquer adulto faria em meio século. Para que ela seja capaz de alcançar tudo isso,basta que exista no mundo. Porém, para que o faça com maior maestria e para que seja feliz durante o processo, é necessário que nos preparemos e preparemos seu ambiente, deixando-o ordenado, belo e permitindo que estejam presentes nele somente as coisas que auxiliarão o desenvolvimento da criança – nessa época, o supérfluo só atrapalha. O ambiente físico deve respeitar a criança em seu espaço, sendo baixo em altura e permitindo o movimento, enquanto que o ambiente psico-emocional deve respeitar a criança em seu tempo, permitindo que ela demore quanto precisa para realizar suas tarefas com autonomia, enfrentando os desafios em seu ritmo.

A Independência Intelectual começa a ser perseguida uma vez que a identidade individual da criança foi construída. Até os seis anos, a criança constrói a si mesma e pode, então, em seguida, passar a buscar maneiras de compreender o mundo. Não interessam verdadeiramente as repostas à criança desta idade. O que ela realmente quer não é saber os “porquês” e os “comos”, isso muitas vezes ocorre com a criança mais nova.  Para os mais velhos e os pré-adolescentes, importa mesmo o processo de investigação. Por isso, nessa idade é importante oferecer formas de pesquisa, livros, introduzir uma ou outra ferramente virtual, permitir que haja trabalhos de montagem e desmontagem de aparelhos, e estar aberto a conversar com seu filho sobre tudo – a diversão, agora, não é mais conseguir todas as respostas certas dos pais, mas conversar com eles, verdadeiramente. Embora seja uma fase de muita ação intelectual, a criança entre seis e doze anos é tranquila, paciente, e – também por isso – habitualmente vítima do início da escola tradicional, que tende a sufocar sua sede investigativa com uma estrutura disciplinar baseada na concessão de respostas prontas para perguntas que a criança nunca fez.

A Independência Social talvez seja hoje a de pior compreensão entre os adultos. Nós desejamos que o adolescente seja submisso a nós como a criança de seis a doze anos era. Acontece, porém, que dois seis aos doze há pouca transformação e muito mais crescimento. Essa terceira fase é em tudo semelhante à primeira – acontecem mudanças físicas, intelectuais, emocionais e sociais. Essas últimas com maior ênfase e importância. O adolescente busca compreender as regras sociais, os limites da sociedade, suas exigências, sua tolerância e as suas infinitas possibilidades. O tempo todo descobre tanto e sabe tão pouco, que lhe parece sempre saber tudo. Precisa sentir que tem valor para sua comunidade e descobrir em que é bom e para que fim é bom. Nosso papel, então, é ajudá-lo a perseguir sua independência social, permitindo que tenha contato com outros de sua idade, servindo como modelos a seguir, mais do que tiranos a obedecer, e auxiliando no aprendizado de algo que lhe permita receber seus primeiros ganhos financeiros – o passaporte da autonomia social na sociedade em que vivemos.

Independência Profissional é uma possível classificação para a última independência, desta série montessoriana. As poucas páginas que Montessori escreveu sobre o tema estão, junto com as sobre adolescência, no livro “Erdkinder e As Funções da Universidade”, que se localiza também em algumas edições de “Da Infância à Adolescência”. Para este momento da vida é importante não só perceber em quepara que se é bom, mas também realmente colocar as mãos na massa de forma a dominar aquilo que se faz. Isso dá ao ser humano a sensação de poder alterar o seu ambiente segundo sua consciência e lhe desperta para a responsabilidade de sua atividade. Mais do que o aprendizado teórico-prático oferecido pelas universidades, o ser nesta fase do desenvolvimento quer compreender qual é a missão da humanidade e a sua própria. Para isso, é necessário que tenha liberdade e possibilidade de explorar atividades distintas até encontrar aquela para que serve melhor.

No dia sete de setembro, data da Independência do Brasil, parece especialmente pertinente enxergar o desenvolvimento como independência. Da mesma maneira que uma nação não se torna independente enquanto não se desenvolve – e por isso a nossa ainda caminha nessa direção – a criança necessita de muito esforço para independer-se enquanto executa o trabalho ativo de seu desenvolvimento. Aos poucos, torna-se ao mesmo tempo independentedesenvolvida. Não são tanto duas coisas que caminham juntas, mas uma mesma coisa que pode ser vista por mais de uma perspectiva. Nosso trabalho, então, é entender as necessidades de quem se desenvolve – e embora não possamos fazê-lo bem com o país, há como fazê-lo bem com a criança – e oferecer todo o apoio necessário para que a grande viagem rumo a uma existência independente possa se realizar com muita vontade, muito esforço e muita alegria.

 


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