Crianças Mandam em Adultos Quando Não Mandam em Si Mesmas

É universal, todos os pais em mães já se sentiram comandados pelos filhos. Em alguns casos, isso parece um pedido cheio de carinho. Em outros, a criança grita, e chora, e bate. Existe um grande motivo para isso acontecer. Montessori descobriu a origem desse tipo de comportamento e nos indicou o que precisa mudar para que a criança não sinta o impulso de mandar no adulto. Ela explicou tudo isso em seu livro A Criança.

A mensagem deste texto é que nós precisamos entender que o impulso infantil de comandar o adulto não é uma falha moral, mas uma falha de desenvolvimento. Não há necessidade de correção, mas de oportunidade para que a criança possa retomar um caminho de desenvolvimento saudável.

No livro, Montessori esclarece que a criança nasce com seu corpo e sua mente funcionando juntos. Um exemplo: quando um bebê olha um móbile e tenta bater nele com a mão, ou pegar, toda a sua intenção está na ação. Ela não tenta pegar o móbile enquanto pensa na próxima mamada. E quando mama, não pensa no móbile. Sua vontade e sua ação estão sempre juntas, enquanto é bem pequena.

Mas ela cresce, e começam os problemas.

Fase 1 – O Divórcio da Vontade e da Ação

Quando começa a andar, a criança quer subir as escadas, e os adultos não deixam. Sua vontade está lá, na escada. Mas sua ação não pode acompanhar. Ela quer pegar as frutas da fruteira, mas entregam-lhe um brinquedo de borracha. A vontade, na fruteira. A ação, presa ao brinquedo. Ela quer engatinhar no chão, mas fica amarrada bebê conforto na frente de uma tela. A vontade está lá, no chão. Mas a ação (ou a inação) está presa à tela.

E assim, pouco a pouco, os adultos separam a vontade e a ação da criança.

Ela poderia conquistar o mundo, se fosse deixada em liberdade. Mas não é. Os adultos não confiam nela e fazem com que as ações dos filhos sigam as vontades dos pais, e ao mesmo tempo tentam dobrar as vontades dos filhos às possibilidades de ação dos pais. Assim, quebram a criança. Em vez de uma criança inteira, sobram duas partes dela. Uma que deseja, e outra que age. E elas esquecem que podem viver juntas, e colaborar.

O que ocorre, então, é o sofrimento mais comum da vida da criança. Por um lado, suas ações não têm mais um comando, e correm o risco de se tornarem desastradas e desatentas. Por outro lado, sua vontade não sabe que pode ser cumprida pelo corpo, e fica à deriva, procurando uma forma de se realizar. Essa vontade, então, descobre o corpo do adulto.

Fase 2 – Um Adulto Para Comandar

A criança, que não pôde conquistar sua independência e não conseguiu descobrir que é capaz de muita coisa, olha para o adulto e vê que ele pode tudo. Os adultos alcançam tudo, fazem qualquer coisa, compram (aparentemente) o que desejam e controlam (aparentemente) todos os acontecimentos. O adulto é um Todo-Poderoso, e a criança, em desespero, imagina que se puder dominar o adulto, poderá ser Todo-Poderosa também – algo muito, muito distante de sua vida comum.

É aí que a criança começa a mandar nos adultos.

Ela tenta, a partir das ferramentas que tem, conquistar um poder que não tem sobre si mesma. Usa as emoções, o choro, o grito, e todo o (des)controle de seu corpo para fazer com que o adulto faça suas vontades. E o adulto, no começo, aceita.

No começo, o adulto acha agradável seguir as vontades da criança. É gostoso fazer as coisas por nossos filhos. Amarrar seus sapatos, colocar suas calças, dar banho. É mais rápido, mais eficiente, e parece mais carinhoso. Também parece carinhoso ceder aos seus pedidos, no começo.

Fase 3 – Pequenos tiranos?

Mas os pedidos da criança não acabam, e a paciência e o dinheiro dos pais, sim. E então, a relação de comando que estava estabelecida é desafiada. A criança recorre a meios cada vez mais extremos para conseguir que o adulto lhe obedeça, dramas cada vez maiores, gritos e choros cada vez mais intensos.

E a comunidade adulta, sem notar que causou toda essa tragédia na vida da criança, chama as crianças de pequenos tiranos. Você com certeza já ouviu dizer que temos de tomar cuidado para as crianças não se tornarem os reis da família. Temos. Mas não agora, não quando sua vontade e sua ação já foram completamente separadas pelo adulto. Temos de tomar esse cuidado antes. Sem causar o divórcio, em primeiro lugar. Mas talvez esse primeiro tempo já tenha passado. Ainda existe um caminho!

Fase 4 – Comunhão

Se a vontade e a ação foram separadas, elas podem também voltar a se unir. É da natureza da criança buscar a comunhão de suas duas partes separadas, e se nós dermos essa oportunidade a ela, ela vai aproveitar.

Um atalho para isso é a natureza. Se você puder oferecer natureza ao seu filho, em grande quantidade, isso facilita muito as coisas. A natureza apresenta desafios para a criança, e tentando superar esses desafios ela recupera, aos poucos, confiança em si mesma e coragem, que são ferramentas essenciais para reunir vontade e ação.

Dentro de casa, e na rotina da vida, será necessário ajudar a criança a descobrir, mais uma vez, que ela é capaz de independência. Algumas crianças entendem isso mais rápido, outras precisam de mais ajuda. Você pode ajudar criando situações em que a criança precise agir cada vez mais por si mesma, no banho, nas refeições, nos cuidados consigo, com a casa, com os bichos de estimação.

Conforme a criança descobre que é capaz de muito e pode dominar seu ambiente, o impulso de dominar os adultos desaparece sozinho, sem que nós precisemos dar broncas, impor castigos ou punir a criança de qualquer maneira.

De novoNós precisamos entender que o impulso infantil de comandar o adulto não é uma falha moral, mas uma falha de desenvolvimento. Não há necessidade de correção, mas de oportunidade para que a criança possa retomar um caminho de desenvolvimento saudável.

Agora você já sabe a causa desse comportamento na vida de seu filho, e sabe como ajudá-lo a viver melhor, acreditar mais em si mesmo, e depender menos de você. Isso vai ajudar você a transformar a vida de sua família e sua convivência com seu filho. Aqui nos comentários, conte como esse comportamento impacta a família hoje, e volte para contar quando a mudança acontecer.

Imagem de divulgação: https://shutr.bz/2kGM1Qn

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Curso Montessori

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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