Respeitar a Criança é Revolucionário

Nós realmente temos de aceitar um método
de educação que envolva sofrimento?
(Maria Montessori)

Imagine que é noite escura, e você está caminhando por uma rua de terra, com muros altos dos dois lados. Você está de mãos dadas com seus filhos e à sua frente seguem seus pais, de mãos dadas com você, pequena(o). Às suas costas, seguem seus filhos, já adultos, de mãos dadas com seus netos. Todos os adultos seguem em silêncio, resignados. Mas as crianças resistem, tentam se soltar e correr no caminho contrário. Os adultos lhes puxam os braços, carregam-nas no colo ou se abaixam para convencê-las a continuar caminhando. Elas, resistentes, vão com seus pais. E então, de repente, no horizonte, uma mulher de corpo largo, cabelos rebeldes presos num coque, e vestido preto, corre contra a multidão e grita: “Não tem saída! Esse caminho não dá em lugar nenhum! Virem-se e corram para o outro lado! Soltem as mãos de suas crianças e sigam-nas, elas sabem para onde ir!”.

Esse é o cenário apresentado por Maria Montessori para nós. Na educação de nossos filhos, de nossas crianças, estamos caminhando às cegas por um caminho sem saída, desde há muitos séculos, e carregando conosco toda a civilização. Mas, ela afirma, existe outro caminho, e as crianças o conhecem.

Para que sejamos capazes de encontrar o outro caminho, mais iluminado, mais livre, mais cheio de vida, é necessário seguir a criança. Mas isso é difícil, porque por toda a vida, desde quando nós mesmos éramos muito pequenos, aprendemos que a vontade da criança não importa, e que seu mundo e modo de viver podem ser violados pela vontade – mais, pelo capricho e pelo conforto! – do adulto. Então, aprender a seguir a criança, esse processo que transformará toda a humanidade, exige uma transformação interior.

“Temos de aprender algo…” diz Montessori, “essencial e fundamental, algo que precisa ser aprendido desde logo: como respeitar a criança. Talvez você diga que sabe como respeitá-la, e talvez seja verdade, mas de uma maneira teórica e moral. E eu quero dizer literalmente: as crianças devem ser respeitadas como personalidades sociais e humanas de primeira grandeza. Por exemplo, nós achamos natural entrar [em algum lugar] e dizer às crianças: “O que vocês estão fazendo?”, “Por que você fez isso?”. Com grande frequência a criança não sabe responder. Essa interrupção abrupta não é sinal de respeito. Fazemos isso porque achamos que a personalidade da criança é inferior. Nisso estamos errados”.

Os erros que cometemos com a criança, segundo Montessori, são inconscientes. Não erramos de propósito, por um impulso de crueldade, ou porque achamos que “a criança merece” (pelo menos não a maior parte de nós, na maior parte do tempo). Em nossa grande maioria, erramos porque não sabemos fazer melhor, ou porque nunca pensamos em ver a situação de um outro ponto de vista. Por isso, a primeira coisa que Montessori nos oferece é um outro ponto de vista.

Nós, adultos, construímos muita coisa. Das pirâmides aos computadores, passando por sistemas de governo e milhares de línguas, atravessando a música, a poesia e a escultura, e instituições como a escola, a família, o Estado e a religião, adultos criaram e criam, todos os dias, muita coisa. Nós nos acostumamos a dar importância para essas coisas e, porque elas ocupam quase todo o nosso tempo, vemos nelas a maior razão de viver que há – ou agimos como se pensássemos assim. Pensamos com o relógio, as convenções, e os mapas. Achamos estranho quando um adulto escapa a isso, e nos incomoda que quase a totalidade das crianças não deem a mínima para tudo isso que nos importa tanto.

E elas não dão. Porque seu mundo, diz Montessori, é particular. Seus objetivos são invisíveis até mesmo para elas. Seus afazeres são repetitivos e acontecem no tempo da atenção. Mesmo assim, o trabalho que a criança desenvolve é da maior importância e, segundo Montessori em A Criança, o adulto é cego para ele.

A criança trabalha para construir a humanidade.

A construção da criança é a base de todas as construções que vêm depois. Da Mona Lisa às bombas nucleares, tudo foi criado por gente adulta, que foi criada por crianças, ao longo de esforços que foram ou não prejudicados por adultos cegos às necessidades infantis.

Achamos que respeitamos as crianças, e que com respeito as conduzimos a serem exatamente o que esperamos que sejam.

Achamos que respeitamos as crianças, e com respeito acreditamos com grande frequência que aquilo que é positivo para elas coincide com aquilo que é confortável para nós: ela não pode pegar nos meus objetos favoritos e frágeis porque deve aprender que há coisas em que não podemos pegar. Ela deve ficar sentada quietinha porque precisa aprender que há regras que precisam ser respeitadas.

Montessori nos incita à ação radical: “as crianças devem ser respeitadas como personalidades sociais e humanas de primeira grandeza”. Isso não significa melhorar um pouquinho as coisas. Não quer dizer “dar a bronca falando baixinho, devagar e olhando nos olhos da criança”. Não! Respeitar a criança como gente da primeira grandeza quer dizer transformar fundamentalmente a nossa cegueira em visão clara. Quer dizer enxergar no mundo aquilo que não foi visto, talvez, por mais de dez mil anos.

Quer dizer adequar o quarto, sim, mas quer dizer também adequar toda a casa, adequar toda a vida. Significa nunca interromper uma criança que se esforça, significa nunca ajudar uma criança com algo que ela acha que pode fazer sozinha, significa nunca ajudar uma criança que progride, não importa quão lentamente, e significa muito mais. Significa a transformação do olhar que permite enxergar a nobreza da ação infantil – mesmo da ação que nos confunde, desagrada, desconcerta.

Nos nossos tempos, corremos o risco constante de usar a palavra “revolução” de forma leviana. Como “amor”, “verdade” e “liberdade”, a palavra “revolução” foi roubada por excesso de emprego, ficou desbotada de tanto uso. Mas quando Montessori diz que “é uma revolução que pregamos quando falamos de educação” (Mente Absorvente) é de uma revolução que se trata. Uma que “não deixará nada intocado”. Não sobrará restaurante, hotel, praça, escola, transporte público, banheiro, hospital, casa… que não seja integralmente preparada para a criança, uma vez que elas sejam, verdadeiramente, respeitadas como seres de primeira grandeza. Uma vez que caia a venda de nossos olhos, e nós finalmente vejamos que elas estão a construir a humanidade. Nesse sentido, e não em sentidos mais leves, sutis e delicados, mas nesse sentido integral e profundo, é que respeitar a criança é revolucionário.

—–

Todos os trechos e referências sem citação explícita neste texto vêm do artigo Um Ambiente para a Criança, publicado por Montessori em 1931 e republicado no livro Maria Montessori Speaks to Parents. A ideia dos dois tipos de trabalho também está exposta em A Criança, livro de Montessori. A fotografia do post é de David D. (https://www.flickr.com/photos/david_martin_foto/) e foi utilizada de acordo com a Licença Creative Commons Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0) (https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/).

—–

selocurso


3 comentários sobre “Respeitar a Criança é Revolucionário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s