Educar para a Sobrevivência ou Educar para a Vida

Frequentemente, quando falo sobre educação pacífica, alguém na plateia se levanta e diz: “Gabriel, eu fui educado com tudo isso aí que você disse – castigos, palmadas, gritos – e estou aqui. Eu sobrevivi”.

Eu entendo quem me diz isso. Defender a educação que tivemos é uma forma de defender a pessoa que nos tornamos.

Respondo assim: “Também sobrevivi. Mas acho que sobreviver é pouco”.

Por milênios, a humanidade foi educada para sobreviver.

Sobreviver, em termos evolutivos, significa algumas coisas:

  • Evitar a morte; – medo
  • Buscar sexo; – prazer
  • Evitar a dor; – medo
  • Buscar comida de alto teor calórico. – prazer

Como resultados de uma educação para a sobrevivência, temos:

  • Avanços tremendos na medicina;
  • Uma sociedade viciada em sexo e pornografia;
  • Uma sociedade exageradamente medicada e que desconhece o próprio corpo;
  • Uma sociedade que se alimenta mal, e cada vez pior.

Fazia sentido educar para a sobrevivência enquanto a sobrevivência era o mais importante. Houve um tempo em que a comida era escassa e saia correndo quando você tentava pegar. E um tempo em que você era comida e tinha que correr. Esse tempo passou. Hoje, o problema da comida é mais de distribuição que de produção. E nós só somos comida para mosquitos.

Graças a essa mudança na sociedade muita coisa é diferente hoje. Por exemplo, a violência em todos os níveis tem diminuído muito historicamente. Nós temos uma impressão diferente porque a imprensa melhorou. Mas vivemos em tempos mais pacíficos do que quase qualquer outro da história humana.

A forma de educar crianças, no entanto, continua igual. Essa forma mudou na estrutura exterior: as crianças hoje não são, por exemplo, vítimas de exploração de trabalho infantil tão frequentemente. Mas a educação não mudou na sua essência. Ela ainda é baseada em medo e prazer. Punição e recompensa. Castigo e prêmio.

Medo e prazer são bases fracas para uma educação complexa, que dê conta de um mundo complexo. Para sobreviver, o medo e o prazer são suficientes. Para viver de verdade, é pouco.

Para viver de verdade, precisamos de uma educação complexa. Uma educação que dê conta de contradições, que abrigue o diálogo, o erro, a exploração, os diversos tipos de trabalho, o desenvolvimento das várias capacidades humanas. Não dá mais para desenvolver tudo em cima de medo e prazer. Nós precisamos de propósito, felicidade, autoconhecimento, autoconstrução, socialização profunda. Por isso, precisamos pensar uma nova educação.

Alguns sinais da educação para a sobrevivência são:

  • Usar ameaças, barganhas e chantagens com frequência;
  • Falar mais alto para construir a autoridade;
  • Tratar a brincadeira, a alegria e a conversa como privilégios, e não como necessidades.

A educação para a vida tem outros sinais:

  • Relação de respeito mútuo na qual o adulto ocupa o lugar daquele que deve manter o equilíbrio;
  • Conversas nas quais os sentimentos de ambos são expostos, compreendidos, acolhidos,
  • A atividade da criança e seu desenvolvimento importam para todos.

A criança que tenta e que tem a sorte de ter adultos que não inibem suas tentativas pode se construir, e construindo-se constrói a humanidade. Se tem a chance de superar frustrações, superar desafios, e não ser premiado por isso, mas sentir a alegria da conquista, então ela desenvolve coragem, um senso de moral que não depende de aprovação externa, uma motivação que tem a ver com o aprendizado, a superação, e fazer a coisa certa.

Se quando erra a criança tem a chance de compreender seu erro, aprender com ele, e não ser castigada por ele, então pode fazer um caminho diferente do de seus pais. Em vez de temer o erro, a criança pode construir uma relação de curiosidade, interesse e companheirismo com ele. É como se dissesse:

Oi, Erro, você outra vez? O que eu fiz para que nos encontrássemos de novo?“.

E essa atitude não assusta o erro. Ele se revela, a criança o compreende, a criança o supera. Até encontrá-lo de novo, companheiro da Vida.

Se a criança não é castigada, premiado ou constrangida em sua socialização, se só é limitada naquilo que claramente causa mal aos outros, tem a chance de aprender a socializar de verdade. A ser uma daquelas pessoas verdadeiras que encontramos na vida, e que porque treinaram muito, são capazes de dizer a verdade, de ser de verdade.

Nós não caçamos mais nossa comida. Não nos escondemos mais em cavernas. Não fugimos mais de animais selvagens.

Nós não precisamos mais lutar pela sobrevivência.

Não precisamos mais educar para a sobrevivência.

Finalmente, graças aos esforços de bilhões de ancestrais, podemos educar para a vida.

Como um tributo a nossos pais, a nossos avós, e aos avós dos avós deles, temos esse dever.

Basta de educar sobreviventes. É preciso educar seres viventes.

A educação precisa ser, sobretudo, uma ajuda à vida.


Quer saber como é uma educação para a vida?

Faça nosso minicurso ainda hoje!


5 comentários sobre “Educar para a Sobrevivência ou Educar para a Vida

  1. Gabriel, gratidão por mais texto tão lindo e verdadeiro!! Mais um daqueles que quero ler e reler infinitas vezes, mais um daqueles que me enchem de esperanças, mais um que me mostra que estou indo cada vez mais pelo caminho certo na educação do meu filho. Um abraço afetuoso!

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