Nove coisas para fazer em vez de “fazer Montessori” em casa

Há mais de 100.000 famílias brasileiras interessadas em “fazer Montessori” em casa. Quantas acham que têm tempo, dinheiro e condições emocionais para “fazer Montessori” em tempo integral? Pouquíssimas. Você não está sozinha(o). Não “fazer Montessori” pode ser um problema, e pode não ser. Neste texto, vamos ver nove formas de não “fazer Montessori” e mesmo assim, ser feliz e viver em paz com seus filhos.

Às vezes, famílias me dizem que não conseguem fazer Montessori porque falta tempo, às vezes porque falta dinheiro, às vezes porque falta espaço. Às vezes porque os parentes não gostam de Montessori. Então, eu ensino essas famílias a não fazerem mais Montessori, e a fazerem coisas que seu tempo, seu dinheiro e seu espaço permitem. E que os parentes podem achar interessante. São essas coisas que vou contar a você agora

1. Aprender a lidar com as emoções

Só isso já seria uma revolução na vida familiar. Nós não lidamos bem com as nossas emoções, nem com as de nossos filhos. Nós explodimos ou sufocamos. Vale a pena buscar outros caminhos para lidar com elas. Caminhar, respirar, manter um diário… há várias formas cientificamente comprovadas de trabalhar as emoções e se tornar mais vulnerável. Não precisamos ser reféns da vergonha, do medo e da raiva. Podemos fazer diferente.

2. Esperar

Depois de dar uma ordem, quantos segundos você espera até dar a mesma ordem de novo? Dois? Três? Quase ninguém espera quatro. Espere cinco. A mente da criança está sempre fazendo muita coisa, e sua ordem vai demorar para ser assimilada, e demorar para ser obedecida. Pelo menos cinco segundos. Lembre que nem toda criança consegue obedecer, que obedecer é uma competência adquirida lentamente, e que ela pode estar fazendo coisas importantes.

3. Ficar muito menor, e mais forte

Pode soar estranho para quem não tem filhos, mas com frequência eu escuto adultos se sentindo “impotentes” em relação aos seus filhos. A vontade de potência é uma vontade do orgulho. Quando o orgulho que temos de “ser adulto” é grande, qualquer desobediência, resposta ou ação independente da criança nos incomoda. Diminuir o orgulho nos torna mais forte, porque menos coisas tiram nossa calma e nosso chão. Somos mais firmes, mais fortes, quando nossos orgulhos diminuem.

4. Ensinar duas coisas novas por semana (intencionalmente)

É claro que sua criança aprende coisas novas o tempo todo. Mas há independências que ela alcançará mais facilmente se for ensinada: como colocar as meias, como se ensaboar, como abrir e fechar a torneira… ensine devagar, falando pouco ou em silêncio, e ensine várias vezes. Não corrija. A criança não aprende sendo corrigida, ela aprende sendo ensinada. Repare nos interesses da criança e ensine uma coisa nova um dia ou outro na semana. Repita as lições nos outros dias, se precisar.

5. Aumentar (e diminuir) a quantidade de objetos disponíveis

O mundo do adulto exclui fisicamente a criança. É alto, fechado, pesado e difícil. Mas a criança adora o mundo do adulto. Conforme ensinamos a criança a usar o mundo – talheres, utensílios, instrumentos de limpeza ou higiene… – podemos deixar os objetos novos disponíveis para uso independente. Por outro lado, as crianças geralmente têm brinquedos demais, e muito ruins. Escolha bem os brinquedos da criança, e deixei poucos disponíveis. Uns cinco por ambiente da casa já está de bom tamanho.

6. Não interromper seu filho

As crianças fazem coisas importantes que para nós são completamente banais. Encaixar panelas. Lavar as mãos, 14 vezes. Colocar e tirar a cueca ou a calcinha, 12 vezes. E nós interrompemos para mostrar coisas interessantes, dar carinho, chamar para sair de casa, ou cumprir obrigações. Seja sensível à ocupação da criança. Esses afazeres ensinam muito, e desenvolvem concentração. Interrompa o mínimo (mesmo) possível. Se puder, não interrompa nunca a atividade concentrada.

7. Interromper seu filho corretamente

Quando precisar interromper, faça isso suavemente. Não chame de longe, não grite. Além disso, interrompa sempre que a criança estiver fazendo alguma coisa que (1) a coloque em risco, (2) seja prejudicial a outro ser vivo, ou (3) danifique o ambiente. Nesses casos, interrompa com firmeza, interrompa imediatamente, mas não interrompa com raiva. Sua raiva não ensina nada. Fale com seriedade, certeza e clareza, mas não tente ensinar. Resolva o problema. Deixe para dar a lição noutro momento.

8. Conhecer os planos do desenvolvimento e os períodos sensíveis

A criança passa por fases na vida, os Planos de Desenvolvimento. Em casa fase, uma grande necessidade aparece, e determina muitos dos comportamentos infantis. Entre zero e seis anos, há também os Períodos Sensíveis, que forçam a criança a focar toda sua atenção em adquirir habilidades ou conhecimentos específicos. Bem mais da metade dos conflitos entre adultos e crianças acontecem porque os adultos não conhecem essas duas coisas. Planos do desenvolvimento, e períodos sensíveis.

9. Observar seu filho

Cada uma das dicas acima só vai funcionar se você conhecer seu filho. Pouca gente conhece. Quase ninguém olha para a criança. Tire cinco, dez minutos por dia. Respire quatro ou cinco vezes. Sente. Olhe. Anote o que vir. Faça isso por trinta dias. Depois compare o que você sabia sobre seu filho, como você o via, com como o vê agora. Tudo vai se encaixar melhor quando você começar a observar sua criança diariamente.

Dizer que fazemos Montessori pode gerar várias consequências lindas: podemos nos esforçar mais, sabemos onde procurar informação, podemos dar dicas facilmente. Mas pode criar um orgulho indevido, pode afastar pessoas de nós, e pode gerar em nós uma sensação constante de insuficiência e fracasso. Em todos os meus cursos, há algum momento em que eu digo para alguém: não faça Montessori. Em vez disso, faça o máximo que puder do que aprendermos aqui. É suficiente. E não conte às pessoas que faz Montessori, se elas não vão aceitar. Conte o que está fazendo, e porquê. Isso ajuda a vida.


Curso Montessori


Imagem de divulgação: http://www.thekavanaughreport.com

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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