Montessori e Porque Não Precisamos Estimular Crianças

As crianças vivem no mesmo mundo que nós vivemos. Mas se por um momento nos colocarmos em seu lugar, e olharmos o mundo por seus olhos, não nos sentiremos em nosso próprio mundo, mas em um outro, mais cheio de encantos, mais cheio de milagres e de mistérios. A criança pisa a mesma terra que nós pisamos, come a comida que comemos, ou quase, sorri para os nossos olhos, brinca com aquilo que fazemos, entregamos ou compramos. O encanto que ela vê e nós não vemos vem de uma só diferença: ela pisa a mesma terra que nós, mas essa é a primeira vez que ela pisa. Ela come a mesma comida que nós, mas é a primeira vez que ela come. Ela vê o mesmo mundo que nós, mas é a primeira vez que ela vê. E os campos de flores, as paisagens novas, as viagens, a meditação, as artes e tantas outras coisas existem para nos lembrar disso, desse encanto que existe quando vivemos pela primeira vez. Para a criança, a vida é toda um estado de graça.

É um sacrilégio interromper o estado de graça da vida com um cubo colorido que faz sons quando apertamos suas faces. É um sacrilégio interromper o milagre da existência para dizer que o nome daquela forma sem forma, de cheiro forte e pele áspera e amarela que a criança segura nas mãos é ba-ta-ta. Nem eu, nem você, nem ninguém, interromperia um monge que contempla o horizonte para lhe fazer uma pergunta sobre a formiga que anda na terra. E nem eu, nem você, nem ninguém interromperíamos um biólogo que observa a formiga para oferecer a ele um cubo mágico e perguntar se ele consegue fazer com que cada face fique com uma só cor.

Cubos e formigas à parte, a vida da criança é inteira o nascer do Sol. Todo o tempo, aquilo que a circunda tem a magia de uma manhã orvalhada e de um céu iluminado em tons de lilás pelo mar de estrelas que ameaçam amanhecer à noite. Ninguém que olhe o céu com encanto precisa de um brinquedo que brilhe no escuro. Ninguém[1] que olhe a vida pela primeira vez precisa de nenhum estímulo que não… que não a vida em si mesma, a brotar do chão.

Vivemos, infelizmente, em um mundo que nos hiperestimula. Nossa comida tem muito sal, muito açúcar e muita gordura. Nossa tecnologia tem muita luz e muito som. Nossas cidades têm imagens demais, barulho demais, fumaça demais. Nossas propagandas têm mensagens demais, e nossos produtos têm propaganda demais. Nossas redes são sociais demais, e nós, bom, nós alimentamos tudo isso porque somos sozinhos demais, e o excesso de estímulo nos dá a cansativa impressão de estarmos fazendo alguma coisa, nos sacia enganadoramente a ânsia de estarmos com alguém, fazendo algo que faz sentido. Vivendo nesse mundo, imersos em hiperestímulo, é reflexo natural que acreditemos que devemos estimular crianças.

Estimulamos demais porque queremos mais e mais cedo. Queremos que elas leiam mais e mais cedo, que falem mais e mais cedo, que andem mais e mais cedo, que associem mais e mais cedo, que lembrem, contem, calculem, conversem, entendam, percebam, peguem, montem, conquistem, entrem, acumulem, tenham e tenham sucesso, mais e mais cedo. E nós acreditamos que, primeiro, isso é bom, que, segundo, é o único jeito de dar certo no mundo de hoje e, terceiro, que pelo menos não vai fazer mal nenhum. Há quem viva pensando que menos é mais. Para a maior parte de nós, no entanto, mais é mais mesmo.

Montessori foi muito clara: para a criança, a vida é suficiente. Testemunhar a vida (primeiros meses), conquistar a vida (primeiros anos), participar da vida (toda a infância), questionar a vida (do meio para o fim da infância e a adolescência), contribuir para a vida (adolescência madura e juventude) e modificar a vida (juventude e maturidade). Nessa ordem. A vida basta.

Nós falamos de móbiles. Montessori falava de móbiles, mas alertava: é ainda melhor se a criança puder ficar deitada em uma almofada inclinada, observando os adultos em movimento e em interação no ambiente. É ainda melhor, ela disse em Mente Absorvente, se a criança puder acompanhar o adulto o tempo todo, especialmente nos primeiros meses, e no primeiro ano e pouco de vida, presa a um sling, observando tudo, acompanhando tudo, dormindo quando necessário. A vida é generosa, ela sabe o que faz: se abre sincera, ampla e sem reservas aos cinco sentidos da criança. E a criança foi feita para a vida e sabe recebê-la e utilizá-la para se desenvolver com perfeição.

O cérebro da criança bem pequena absorve a vida com a sede de quem caminha pelo deserto e encontra um oásis. Ele faz ligações rápidas, testa, muda, experimenta, muda de novo, e aos poucos faz sentido do que vê, do que sente, do que testemunha e do que faz com suas tenras mãos e seu pequeno corpo recente. A mente da criança trabalha em um ciclo: primeiro ela absorve, sem ordem, sem preocupação de ordem. Depois ela organiza, principalmente durante o sono. E por último ela reproduz em teste, em ação, aquilo que entendeu: um gesto, uma palavra, um jeito novo de ser independente.

Nós precisamos adequar o ambiente para que ele possa ser acessado pela criança, e precisamos fazer coisas na altura dela para que ela possa ver. Nós precisamos falar com ela e perto dela, interagir com ela e perto dela. A criança não se desenvolve bem em uma bolha sem vida, sem mundo. Mas se está em contato conosco, com o que a cerca e nos cerca, e vê a vida em desenvolvimento, desenvolve-se também.

Quanto aos materiais, Montessori foi incrivelmente clara: eles não servem para ensinar, não servem para estimular e não devem ser uma adição aos estímulos da vida. O objetivo dos materiais é ajudar a criança a organizar em sua mente aquilo que o mundo já entregou a ela, e ela já absorveu, sem ordem.

Se temos uma caixa de cores (de sons, de pesos, de letras, para todos os efeitos), não devemos esperar que a criança nunca tenha visto as cores. Somente esperamos que assim descriminadas elas façam mais sentido, tenham mais ritmo, afetem mais organizadamente os sentidos da criança e possam ser organizadas com mais facilidade em sua mente, que organiza não a caixa de cores, mas o mundo a partir da lógica da caixa. Cada material, por isso, carrega todo o universo em si. É a partir da ordem adquirida em sua manipulação que a criança enxergará o mundo. O material não é pouco, ele é muito. Mas ele não é estímulo, não é mais uma coisa para ser vista. E por isso não deve abundar em quantidade.

A maior parte do tempo da criança é empregada na vida, e assim deve ser. No cuidado da vida. A partir da organização do mundo que o material ajuda a criança a fazer, fica mais fácil agir: quando entendemos, é mais fácil entrar em ação. Por isso, depois de entender as letras, aquelas todas que a criança já viu antes, fica mais fácil escrever. E também é por isso que não enchemos as paredes das salas de letras as mais diversas: ver mais não é o que queremos propiciar. Queremos que a criança possa ver melhor.

No quarto, em casa, isso é dez vezes mais verdade. Se na escola não queremos fazer a criança transbordar de impressões sensoriais, menos ainda queremos em casa. Estímulo sensorial não é conosco. É com a vida. É com a casa em seu estado normal, é com a rua, é com a natureza – vamos levar nossas crianças à natureza, elas precisam disso! – o estímulo fica por conta do que está aí, do que já faz parte do mundo, do que não pode ser evitado. Nosso papel é a educação sensorial, e isso exige paz sensorial primeiro. O quarto não é o espaço do estímulo, mas do descanso, do sossego, do acolhimento, da tranquilidade. Poucas cores, poucas coisas. Muita, muita humanidade, e muita paz.

Vamos fazer uma nova opção de mundo, uma nova opção de vida. Se queremos, precisamos primeiro aceitar: a mente da criança vive pela primeira vez, observa pela primeira vez. A vida é interessante como uma viagem, mas cansativa como uma viagem. Fabulosa como uma experiência que temos pela primeira vez, mas da mesma forma, exige tempo para assimilação. Como foi da primeira vez que recebemos ou entregamos um beijo. Como é, até hoje, quando terminamos um livro ou um filme fabuloso. Quando nasce um filho. Cada experiência exige um tempo, uma pausa, uma tomada de caminho, de decisão, uma mudança de vida. Para a criança é assim o tempo todo.

Vamos optar pela paz. Nós não precisamos estimular nossas crianças, a vida foi feita nos menores e nos melhores detalhes para isso. A vida e a criança sabem se fazer, se construir, se revolucionar. Nosso papel é o do assistente, do suporte: a gente não apresenta a vida, a gente ajuda a criança a lidar com ela, da melhor maneira possível. Para a criança, a vida já é demais. Nós podemos ficar tranquilos, e só ajudar na organização do espetáculo.

Não somos nós que fazemos o milagre. Nós podemos, nós devemos, ajudar a criança, pouco a pouco, devagar, com a tranquilidade do capim que cresce do chão, pouco a pouco, ajudar a criança a entender, a viver e a reproduzir o milagre. A costurar seu mundo novo.

[1] Recebemos um conselho importantíssimo ao começar este texto. Quando escrevemos que ninguém precisaria de mais estímulo do que aquele que a vida oferece, deixamos de considerar as crianças que precisam de ajuda para absorver o que a vida oferece. Há muitas crianças que, por recomendação médica ou terapêutica, precisam de mais estímulo do que aquele oferecido pelo mundo, e de forma nenhuma é vontade do Lar Montessori convencer você do contrário. Se sua criança está entre aquelas que precisam de um pouco mais de ajuda, sua visita ao Lar Montessori é ainda mais bem vinda. Nós queremos você aqui, e sugerimos que você se aprofunde em Montessori. Ela nos disse muitas vezes, e comprovamos na prática todos os dias: o método Montessori é perfeito para todas as crianças, mas precisa ser adequado a cada uma. Se a sua criança precisa ser apresentada à vida com um pouco mais de insistência, de cuidado, de repetição, estamos com você, e vamos caminhar juntos para encontrarmos na vida todos os encantos que pudermos levar à vida de sua criança, da melhor maneira, para dela.