Concentração e Pular Corda

O que você mais gosta de fazer? O que te envolve? Arte, cozinha, trabalho, seus filhos, leitura, conversas intensas? Algumas coisas nos envolvem tão profundamente que some o tempo, o espaço e nossa própria percepção de identidade – nós mesmos desaparecemos. Saímos dessas experiências, que podem ser intensas e exigir bastante da gente, revigorados, não é? Mais inteiros. São experiências que fluem. Que conduzem a um nível incomum de concentração.

Montessori levava a concentração a sério. Dizia que o papel do adulto é conduzir a criança às oportunidades de desenvolver sua concentração. Que quando a criança atingir a concentração, devemos agir “como se ela não existisse”. Disse que a não existe educação antes da concentração. Disse que uma vez que atingiu a concentração, a personalidade da criança estava salva, segura. É bastante. Por quê?

A concentração tem um poder maravilhoso sobre o humano. Ela conduz com segurança a níveis maiores de bem-estar, melhora o desempenho em todo tipo de atividade, reduz a chance de um comportamento socialmente negativo aparecer. Felicidade, competência, autodisciplina. A concentração conduz à liberdade, porque leva cada indivíduo ao autoconhecimento, à autopercepção, à entender os próprios comportamentos, a própria vontade, conduz a criança a descobrir e conhecer suas habilidades e sua força interior.

Quando perguntamos a crianças montessorianas por que elas têm vontade de fazer coisas difíceis, a resposta com frequência é “porque eu acho que eu consigo“. Isso, essa confiança e essa força, são consequências da concentração.

Como nasce a concentração? A concentração nasce do trabalho. Um trabalho muito especial, que envolva as mãos, a mente e o coração. Que seja interessante, agradável e envolva movimento. De todos os tipos possíveis de trabalho, os que conduzem mais facilmente à concentração são as atividades de independência – que em Montessori nós chamamos de atividades de Vida Prática.

A criança, especialmente entre 0 e 6 anos de idade, deseja sobretudo ser fisicamente independente do adulto. Para isso, ela precisa conquistar a Terra. Andar, correr, pular, subir e descer degraus, carregar coisas, abrir e fechar caixas e gavetas. Conquistar a Terra. Comer, conseguir comida, preparar comida, preparar o lugar para comer, jogar fora o que não se come, cascas, restos, o que caiu no chão. Varrer. Conquistar a Terra. Passo a passo, um de cada vez, ela conquista a Terra com seu corpo, e nesse processo encontra a concentração.

A concentração, no entanto, não é a primeira coisa que ela encontra. A primeira coisa que a criança encontra quando trabalha é uma sensação gostosa de serenidade e paz. Ela descobre sozinha – descoberta importante! – que é possível ser tranquila e feliz. E ela tem vontade de sentir isso de novo, mas é uma vontade superficial, porque ela só experimentou mesmo a superfície da concentração. A beleza mora na profundidade.

Vai ser necessário ter uma nova chance de se concentrar. Primeiro descascando uma banana, depois vestindo uma meia. Primeiro enchendo um copo com água, e em outro momento dando comida para o cachorro, grão por grão de ração. Vai ser necessário ter outra e outra chance, até que a tranquilidade se transforme em um modo de vida, e ela saiba nadar na serenidade. Então, vai aparecer outro trabalho. Talvez seja lavar louças. Talvez seja pentear os próprios cabelos, ou as franjas de um tapete. E ali se vão vinte, trinta minutos. E alguma coisa aconteceu.

A criança volta de seu mergulho, que não é mais um nado, mas uma exploração profunda de si mesma, renovada, mais alerta do que antes. Para usar uma palavra que nos leva à fronteira da espiritualidade, a criança volta desperta.

Quando penso em uma criança concentrada, quando lembro de minha concentração quando pequeno, e quando sinto a concentração ainda hoje, treinando muito, penso nessa fronteira. Uma pouco compreendida ainda, mas que a criança explora como se pulasse corda. Hora do lado de lá, hora do lado de cá. Desperta, e mundana. Desperta, e mundana.

Para que a criança descubra o oceano de si mesma, e possa mergulhar na concentração, nós temos as mesmas responsabilidades de sempre. Preparar o ambiente, ajudar o mínimo necessário, e desaparecer. A criança precisa de inúmeras possibilidades de atividade, à sua disposição. Precisa que adultos pacientes lhe mostrem como se faz, e depois deixem que ela faça – e erre à vontade. E trilhe seu caminho com a força que mora dentro dela, sem emprestar força de nós. E supere frustrações, ou mergulhe nas frustrações e descubra a saída, com a força que mora dentro dela. Ali, nesse caminho, nessa senda, a criança se descobre, mais do que descobre a atividade. As crianças concentradas conquistam a Terra, herdam o mundo – esse onde pisamos, e aquele mais interior, onde vivemos.


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