Como Estar Presente para Nossos Filhos – E Como Isso Muda Tudo

Hoje bem cedo o vi dormindo e lembrei de quando era pequeno e cabia em meus braços. Por um instante lembrei com alegria intensa de tudo o que ele aprendeu. E então me peguei ansioso com tudo o que ainda vai aprender, atravessar, enfrentar. E em como pode ser difícil. E glorioso. E dolorido. E feliz. E respirei. E lembrei que ele estava ali agora. Que ele acordaria em minutos e que poderia receber um sorriso meu.

Nossos filhos estão sempre aqui e agora. Quando montam um castelo ou um trem, quando desenham um papagaio ou uma casinha, quando empilham potes de cozinha e quando encontram um inseto na varanda. Nada deles está ontem ou amanhã. Mas é diferente conosco. Nós viajamos no tempo e no espaço o tempo todo, e com frequência para longe de nossos filhos.

Perdemos, em nossas viagens, inúmeros sorrisos, descobertas, crescimentos. Às vezes nos falta mesmo tempo. Há de se trabalhar, não é? E há de se atravessar a cidade para trabalhar, com frequência. Mas também é frequente que nossas viagens aconteçam enquando estamos dentro de casa, não-tão-ocupados, ao lado de nossas crianças, e longe delas mesmo assim. No Facebook, no Instagram, no YouTube, ou na novela e no jornal.

Nós viajamos para todos esses lugares porque acreditamos que eles nos ajudarão a descansar de um dia intenso. Que aliviarão o esgotamento físico e psicológico que sentimos. Não achamos que estamos prontos para o que Montessori pede de nós:

Esteja sempre pronto a responder à criança que precisa de você e sempre escute e responda à criança que a você recorre.

Não estamos prontos para o que a criança pede de nós. Essa disponibilidade constante que nos exaure porque nos falta tempo para nós mesmos. Falta meu tempo. E então, entramos em nossa máquina do tempo e nos transportamos para o lugar onde posso ter o meu tempo. E dá-lo às grandes redes sociais e corporações midiáticas.

Não estamos errados, no sentido de termos culpa pelo que fazemos. Nós aprendemos assim. Mas se percebemos que isso não nos leva à felicidade, e nem leva à felicidade de nossos filhos, podemos transformar as coisas.

A Transformação

Em minha experiência, só há duas coisas capazes de nos ajudar de verdade a voltar para nossos filhos. Uma é parar e a outra é olhar.

Parar

Às vezes estamos ocupados em afazeres e nossos filhos nos interrompem. A impressão é de que precisamos continuar o afazer e depois dar atenção a eles, – e às vezes pode mesmo ser assim – mas frequentemente isso é um engano e nós podemos parar. Mas há duas formas de parar. Imagine-se numa bicicleta, pedalando, e alguém chama você. Você pode continuar pedalando à frente da pessoa, em círculos, enquanto vocês conversam. Ou você pode parar a bicicleta, descer, e conversar. Geralmente, quando nossas crianças nos chamam, nós pedalamos em círculos.

Agora, quando pedalamos em círculos, todo mundo sabe que não paramos de verdade. Nós sabemos, a criança sabe. Todo mundo sabe que a pressa é mais importante que a situação. Para descer, precisamos parar. E a melhor forma para nos treinarmos a fazer isso é pararmos o corpo completamente, e respirarmos uma vez em silêncio. Isso é o primeiro passo do que Montessori chamava de jogo do silêncio:

  1. Parar o corpo completamente;
  2. Respirar uma vez em silêncio.

Quando fazemos isso, a criança sabe que paramos de verdade. Nós sabemos que paramos de verdade. E aí podemos olhar.

Olhar

Existem duas formas básicas de olhar para o mundo (para nossos filhos, para o arroz na panela e para a paisagem na janela): com amor e sem amor. Agora, Montessori tinha uma definição interessante para amor:

…profetas e poetas frequentemente falam do amor como se fosse um ideal; mas não é só um ideal, é, e sempre foi, e sempre vai ser, uma realidade. (…) Ele mantém a estrutura do universo porque é uma força verdadeira, e não só uma ideia. (Mente Absorvente)

Por isso, quando olhamos com amor para qualquer coisa, podemos perceber a conexão entre nós e aquilo que olhamos. Com amor, essa força que mantém a estrutura do universo, percebemos que existe comunicação, que estamos ligados, que estamos juntos.

Sem amor, olhamos para qualquer coisa como um outro. E olhar para qualquer coisa, ou qualquer um, como um outro, é separar-se. Nós podemos optar por olhar sem amor, e isso pode ou não ser uma escolha segura e sábia. Mas com certeza queremos olhar com amor para nossos filhos.

Olhar com amor não é fácil. E nós precisamos treinar. E não podemos treinar só quando somos interrompidos – esse é o pior momento para treinar. Precisamos treinar olhar com amor quando está tudo bem, quando paramos voluntariamente. Mais ou menos como quando paramos de pedalar a bicicleta porque a vista é linda e queremos a admirar de verdade.

Algumas vezes por dia, três ou quatro, podemos parar por um minuto (literalmente contado em um cronômetro, se você se sentir melhor assim) e olhar em paz para qualquer coisa. Não precisa ser para o seu filho. Você pode olhar com amor para a decoração de sua casa. Pode olhar com amor para retratos de família. Para alguma coisa que você fez com suas mãos. Para outro ente querido ou um bichinho de estimação. E você pode olhar com amor para seus filhos. Três ou quatro minutos por dia, contados. Por vinte ou trinta dias. E você vai ver a transformação.

Mapa do Caminho

O mundo contemporâneo tenta nos exaurir. Mas existem passagens secretas, atalhos e segredos não foram descobertos, e Montessori conhecia. Dois desses segredos estão neste texto: é possível parar e é possível olhar com amor. Fazendo isso, descobrimos mais segredos. Um deles, maravilhoso, é que o tempo que passamos com nossos filhos não é só um tempo para nossos filhos, mas pode se tornar, nesse recanto secreto, também um tempo para nós. Um tempo de revolução e transformação, em que apesar de tudo nos empurrar em outra direção, nós escolhemos parar e olhar com amor. E isso muda tudo.

Se você gostou deste texto, compartilhe! Aqui nos comentários, eu gostaria de saber como você faz para estar presente para os seus filhos. Vai ser um prazer ler você.


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Curso Montessori

Paz, Preparação do Adulto, , , ,

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

9 comentários

  1. Maravilhoso… Eu como, professora, educadora e agora mamãe de primeira viagem, simplesmente amei cada palavra, cada linha deste texto. Pude viajar… e perceber o quanto é importante ter esse “ parar e olhar”, de verdade , que infelizmente parece se tão difícil, tão distante da nossa realidade. Como experiência própria, ultimamente, estou sempre correndo atrás do tempo, parece que as horas tem asas, os dias pernas (as do Bolt) e os meses nos empurraram como um efeito dominó. E quando paramos dá a impressão que estamos perdendo. Aí eu me pergunto. Perdendo o que? O TEMPO! Tempo de fazer isso ou aquilo, porque parece que os afazeres não tem fim.
    Como sempre, Montessori, nos fazendo refletir para o mais importante o mais belo que é a vida, o amor, nossas crianças e nossas joias preciosas , que são nossos filhos.

  2. Gabriel, sempre fui uma pessoa muito calma e observadora e estas características me ajudaram a perceber o tempo das minhas filhas. Certa vez estava com a minha mãe em casa e estávamos prestes a sair para um passeio, e minha filha na época com três anos decidiu mudar de roupa, apesar da pressa eu concordei e fomos pro quarto dela para que escolhesse a tal roupa, e ela vestiu duas peças antes de se decidir. Minha mãe já impaciente me olhou e disse: “você tem muita paciência com essa menina”, e eu me lembro de ter respondido que por ser minha única filha eu não poderia deixar de ter paciência com ela.
    Aquele dia ficou muito marcado pra mim, pois com certeza minha mãe jamais teria parado para me ouvir, para ouvir o meu pedido. E eu cresci assim, sem permissão para ser, sem espaço para ocupar.
    Talvez por esse motivo eu encontre dentro de mim espaço de escuta amorosa com as minhas filhas. Outras pessoas ficam surpresas e me elogiam por conta da minha paciência com elas, e eu só penso que todas as crianças merecem ser olhadas com amor e a tal paciência, que nada mais é do que perceber o “tempo” delas.
    Perfeito o seu texto. Gratidão pela partilha!

  3. Olá! Eu tenho um filho de 6 anos e sempre tentei estar presente na vida dele, hoje larguei meu emprego noturno, mudei de São Paulo para a Praia Grande, vou ter um vida mais simples, tive que matricular meu filho numa escola da prefeitura, vou fazer artesanato em casa, tudo pars poder ficar mais próxima do meu filho, acho que estou no caminho certo…

  4. É incrível o quanto aprendo com seus textos Gabriel. Apesar de ser difícil lembrar de por em prática tudo o que aprendo, principalmente nos momentos de estresse rsrs
    Parabéns pelo blog e obrigada por compartilhar tanta coisa boa conosco!

  5. Muito obrigada por tanto conhecimento. Amo e acompanho. Eu tento me desconectar das redes sociais, dos problemas e olhar para o meu filho, ainda que seja muito difícil, pois os problemas diários frequentemente tentam roubar momentos preciosos de nossas vidas que não voltam mais.

    1. Se foi por boleto, espere até uma semana. A plataforma pede isso dos participantes e infelizmente não há como alterar. Se foi por cartão, é só fazer login com o usuário e senha cadastrados na plataforma.

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