O Milagre da Concentração

Não existe nada mais importante do que a atenção. Estar atento é saber que se está vivo. Quando a criança presta atenção a alguma coisa, o que acontece não é só que ela aprende a coisa, é que ela aprende a si mesma. Ela descobre que ela mesma existe, age, pensa e sente.

A concentração é o ponto mais importante da vida de qualquer ser humano. Mas para a criança isso é ainda mais verdade.

Quando as crianças nascem, são profundamente concentradas. É esse o brilho que vemos nos olhos do bebê que tenta segurar um bichinho de borracha bem à sua frente. Esse é o segredo da força da criança que cai e levanta dezenas de vezes por dia, sem desistir, quando está aprendendo a andar. A concentração é o milagre que gera força e vida na criança pequena.

As crianças perdem a capacidade de concentração conforme os anos passam, porque não têm mais liberdade para perseguir aquilo que é importante para seu eu interior. Um bebê pode passar horas tentando pegar e bater nas peças de um móbile. Mas nós não permitimos que uma criança de dois anos abra e feche todas as gavetas da casa, incluindo a cozinha, e nem permitimos que ela suba e desça as escadas quantas vezes e pelo tempo que quiser. Isso faz com que não valha mais a pena se concentrar, porque aquilo que é importante de verdade ela não pode fazer.

Em Montessori, nós temos caminhos para ajudar a criança a chegar à concentração de novo. Não são caminhos rápidos, nem fáceis. Mas eles funcionam todas as vezes. O problema é que quase ninguém conhece esses caminhos sem passar por uma formação em Montessori, e então quem aplica Montessori em casa nunca vê a concentração acontecer de verdade. Neste texto, você terá um passo a passo, menos específico do que o da escola, mas útil para integrar à sua vida com seu filho, e ajudá-lo a reencontrar a concentração perdida.

1. Dominar o corpo.

Ninguém se concentra com um corpo descontrolado. Nossa primeira tarefa com a criança é ajudá-la a perceber que ela tem um corpo, de novo. Andar com elas ajuda muito. Incentivar que se equilibrem em muretas, que carreguem objetos (mesmo os delicados) e que puxem suas próprias cadeiras, abram e fechem suas portas e gavetas, tudo isso ajuda o corpo a se controlar. E ajuda a criança a começar a voltar para si mesma.

2. Usar o corpo.

Uma vez que o corpo possa obedecer a criança, ele pode ser usado para trabalhar, para atividades com propósito, e é nessas atividades com propósito que a criança se envolve mais profundamente, e se concentra. Agora, o nosso papel se torna apresentar à criança as maneiras de usar a casa. Para nós, são tarefas domésticas. Mas para a criança são passos na conquista da independência, e descobertas fascinantes.

3. Mostre como se faz.

As crianças querem fazer as coisas, mas estão habituadas a serem proibidas, interrompidas e ajudadas. Mude as coisas. Não faça para a criança, mas mostre a ela como fazer. Mostre devagar, faça gestos lentos e cuidadosos, e quase não fale nada. O silêncio ajuda a criança a olhar para as suas mãos.

4. Convide a criança para fazer.

Depois de você mostrar, deixe muito claro que a criança pode fazer quando quiser, e então permita. Pode ser descascar tangeridas e bananas, e pode ser dobrar roupas limpas. Pode ser lavar as mãos ou lavar os pratos. Deixe claro que a criança pode fazer, de uma forma sedutora mesmo, para que ela queira experimentar.

5. Espere e assista

A criança, mais hora ou menos hora, vai experimentar o que você mostrou. Em muitos casos, não vai se concentrar de verdade. Mas aqui e ali, de vez em quando, você perceberá que ela está completamente entregue ao que está fazendo. Quando isso acontecer, não se aproxime. Não ajude, nem elogie. Não olhe muito, e nem sorria. Não faça nada que possa interromper a concentração, desapareça, para que a concentração possa surgir.

6. Responda da forma apropriada

Quando a criança terminar a ativiade em que se concentrou, pode ser que chame você, e pode ser que não. Se ela chamar, vá ver, e se ela quiser comentários, descreva animadamente o que você está vendo que ela fez, e pergunte coisas a ela, sorrindo sempre. Mas se ela não chamar, não se aproxime. Ela não precisa da sua aprovação, pois ela mesma se aprovou no que fez, e entrou em contato com o melhor de si mesma.

7. Adote termômetros

Para sabermos se estamos fazendo as coisas certas com nossas crianças, existem duas perguntas: “Elas estão serenas e felizes?” é a primeira. E “Elas se concentram?” é a segunda. Se a criança é serena, feliz e concentrada, podemos ter certeza de que está tudo bem e, se continuar pelo mesmo caminho, vai ficar tudo cada vez melhor. Por outro lado, se a criança não está serena, feliz, e não tem nenhuma concentração, é muito provável que experimentar este roteiro ajude muito você a criar uma educação para seus filhos mais apropriada, mais rica e mais profunda em experiências do dia a dia.

A concentração não é pouca coisa. Não é uma habilidade que uns têm e outros não, como fazer tricô, ou pular corda. A concentração é o ser humano entrando em contato consigo, é a experiência mais profunda que a criança pode viver, e é uma experiência que transforma a maneira como a criança vive a vida, e a ajuda a alcançar um belíssimo equilíbrio interior.

Este roteiro, sintético e prático, vai ajudar você a tornar a concentração um hábito em sua casa. Não tenha pressa, e não apresse. A concentração é sempre espontânea, vem sozinha, se as condições estiverem corretas. Nosso trabalho é preparar o terreno, e então assistir e esperar.


A vida da criança pode ser muito melhor do que é agora. Você pode tornar a vida das suas crianças ainda melhor do que ela é hoje. Para ajudar, nós desenvolvemos um curso que sintetiza alguns dos aspectos mais bonitos da educação montessoriana, e permite que adultos e crianças vivam, finalmente, em paz. Conheça:

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Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

5 comentários

  1. Texto maravilhoso. Sou apenas uma mãe que procura incentivar os filhos a serem sua melhor versão. Obrigado por me ensinar como proporcionar isso!

  2. Texto, como sempre, maravilhoso!
    Gabriel, você poderia escrever algo explanando a ideia “quem aplica Montessori em casa nunca vê a concentração acontecer de verdade”?

    Será que no ambiente da escola se percebe bem explicitamente essa concentração por ser um ambiente que isola essa observação, um ambiente científico? Porque, aplicando montessori aqui em casa, há mais de 4 anos já (passou rápido) e agora como homeschool, percebo meus filhos concentrados, imersos em si, em tantos momentos. Fiquei com receio agora de estar com minha capacidade de observação tendenciosa. O que me preocupa, porque estou muito focada em refinar minha capacidade de observá-los para conduzi-los respeitosamente. ❤

  3. Li com a voz do Gabriel, como se fosse kkkk, sempre adoro seus textos e o curso, maravilhoso, espero um encontrá-lo pessoalmente !

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