A Libertação da Criança em Montessori

Em 1800, quase metade das crianças morriam antes dos cinco anos de idade. Hoje, quase todas as crianças sobrevivem à primeira infância. Nos últimos dois séculos, nós fomos capazes de libertar as crianças da morte. Agora, precisamos libertá-las para a vida.

Para a criança, há dois fatores que conduzem a uma boa vida: não encontrar obstáculos para o desenvolvimento, externa ou internamente. Entre os obstáculos externos estão falta de comida, água, abrigo, saneamento, remédios. Embora esse problema ainda exista, os obstáculos externos caminham definitivamente para uma solução. Já os obstáculos internos continuam pouco explorados e ainda menos resolvidos pela humanidade. Entre eles, estão os conflitos que a criança tem com o adulto e o ambiente na primeira infância e que marcam seu desenvolvimento cognitivo e sócio-emocional por toda uma vida.

Maria Montessori, que era psiquiatra, apontava que o adulto pode, em terapia, recordar, elaborar e compreender os traumas que carrega da infância, mas não se livra deles. Já a criança está em lençóis piores: não pode recordar a infância, porque ela é a infância. Para ajudar a criança a se libertar, cedo o suficiente, dos conflitos e traumas que podem comprometer toda a sua vida, Montessori sugeria que dois caminhos precisam ser percorridos ao mesmo tempo.

Os Dois Caminhos para a Libertação da Criança

Nós quase não percebemos que as crianças são oprimidas. Para o adulto, parece natural tratar a criança como um ser ligeiramente inferior. De forma geral, a língua portuguesa nos oferece vocabulário para isso, em frases sobre as crianças: é quase gente, é um pedaço de gente, parece gente, fala que nem gente – que denunciam nosso pensamento mais básico sobre a infância: criança não é gente.

Para pensarmos diferente, o primeiro passo é ter dúvida: criança é gente? E então, para tirar a dúvida, é preciso observar a criança. Nisso se resume tudo o que precisamos fazer: demolir nossas certezas todas sobre a infância, incluindo nossos preconceitos, e então observá-la, para que a criança nos revele quem ela realmente é.

Para começarmos a enxergar a criança, podemos observar dois fenômenos:

  1. Os conflitos da criança com o adulto;
  2. Os conflitos da criança com o ambiente.

Veremos, rapidamente, que uma parte importante dos conflitos da criança com o adulto deriva de três origens:

  1. O adulto faz coisas imprevisíveis, e a criança se chateia muito – quando mudamos a organização da casa, temos um comportamento inesperado, ou alteramos a rotina dela;
  2. O adulto deixa de reparar nas necessidades da criança (de movimento, de descanso, de brincar sem ser interrompida e outras) e a criança se sente profundamente ofendida;
  3. O adulto não se comunica verdadeiramente com a criança, e prefere usar somente ordens e proibições – faça isso, venha cá, não pegue isso, não suba aí – em lugar de diálogos verdadeiros, prolongados, em que se escuta tanto quanto, ou mais do que, se fala.

Por outro lado, os conflitos da criança com o ambiente têm basicamente duas origens:

  1. O ambiente é inacessível e proibido para ela (muito alto ou trancado demais), o que gera uma sensação constante de humilhação e impotência, que acumula-se em ansiedade e desespero.
  2. O ambiente é acessível, mas o adulto não demonstra como esse ambiente deve ser utilizado, não mostra como fazer as coisas, devagar e repetidamente, com atenção e paciência.

Se pudermos observar a criança e enxergarmos os conflitos que ela atravessa todos os dias, nós despertaremos e passaremos a enxergar a própria criança, com a dignidade que ela merece. Isso basta para que a forma como convivemos com ela mude profundamente.

Enxergar a criança conduz ao despertar do adulto, que por sua vez, leva à libertação da infância.


Aprenda muito mais sobre como Montessori pode ajudar você a ter uma convivência pacífica e libertadora com as crianças:

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

3 comentários

  1. Não tenho nada a acrescentar, apenas agradecer pela generosidade de compartilhar este conhecimento importantíssimo que está me ajudando bastante na minha missão de pai. Conheci o Lar Montessori através do seu e-book na Amazon e já comprei seu curso de introdução à Montessori na Udemy. Além disso, acompanho com frequência suas publicações. Valeu, Gabriel!

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