Crianças Livres Dormem Melhor

Há inúmeros caminhos para fazer uma criança dormir. Quase todos eles, no entanto, funcionam mais para a conveniência do adulto do que para ajudar a vida da criança. Maria Montessori era enfática quando dizia que os adultos forçavam as crianças a dormir, muito mais para o próprio sossego do que para o benefício dos pequenos. E ela podia dizer isso, porque desenvolveu um método que, ao libertar a criança dos obstáculos para o seu desenvolvimento, melhora noites de sono por todo o mundo. Este texto é sobre como a liberdade da criança é a chave para um sono melhor.

Há poucos dias recebi esta mensagem¹ de um pai que participou do curso Viver em Paz com Crianças:

Minha filha tem quase 10 meses. Sei que ela deve dormir cerca de 15h por dia. Ela dorme bem à noite, mas de dia, mesmo mostrando sinais de sono, não gosta de dormir. Nesses dias após o curso, meu relacionamento com ela melhorou muito, e a resistência dela é muito mais aceitável e menos estressante. Mesmo assim, eu devo deixar que ela escolha quando dormir, ou eu decido de acordo com os sinais que ela demonstrar?

As nossas decisões sobre a vida da criança devem partir sempre do sentido profundo de liberdade: poder fazer aquilo que ajuda a vida a se desenvolver. Montessori defendia que é responsabilidade do adulto proteger a criança de escolhas ruins, e ao mesmo tempo dar a ela todas as condições para que possa fazer qualquer escolha entre as opções positivas. Para dormir bem, a criança precisa ter uma vida livre dos obstáculos que impedem seu desenvolvimento para, livre da tensão e da angústia, relaxar e descansar com sossego e paz.

A Primeira Liberdade: Ambiente Preparado

Para dormir tranquila, durante o dia e ao pegar no sono a criança precisa saber que seu ambiente está disponível para ela, que o mundo é amigável. O berço é um inimigo do sono porque é uma masmorra cercada por grades onde a criança é presa todas as noites. Não deveríamos ficar surpresos quando ela passa a noite inteira pedindo por socorro e tentando se libertar.

Em Montessori, usamos colchões que ficam no chão, ou muito próximos do chão, até a idade em que a criança consiga deitar em sua própria cama. Assim, recebe a primeira liberdade. Além disso, o quarto da criança deve ter pouquíssimos estímulos: uma cor neutra nas paredes, mobília clara e monocromática também (madeira é uma excelente opção) e só quatro ou cinco brinquedos bastam, especialmente para bebês. Um cesto com três ou quatro livros é bem vindo, um guarda-roupas baixinho e um espelho horizontal bem fixo na parede, na altura do chão, onde o bebê possa se olhar. Se deixaremos luz no quarto, a melhor opção é que ela seja laranja ou vermelha, pois cores mais próximas do azul e do branco despertam a criança.

Se vamos compartilhar nossos quartos ou camas com as crianças, vamos fazer isso priorizando a criança, e não o adulto. Por isso, o quarto a ser preparado será, então, o nosso. As mesmas regras valem: tudo muito organizado, poucas cores, poucos objetos à vista, dois ou três brinquedos e livros na altura das crianças e… cama no chão. Ou a cama da criança no chão. O espelho pode continuar existindo, numa parede em que a criança possa se ver quando deitada. Muitas vezes, especialmente os mais novos olham-se no espelho até pegarem no sono.

É claro que o resto da casa pode e deve ser preparado também. Para isso, leia aqui, aqui e aqui.

A Segunda Liberdade: Rotina Estruturada

Para alguns adultos, a rotina é um lugar confortável. Para outros, uma camisa de força. Para a criança, é poder libertar-se da confusão, do imprevisível, da incerteza. Sem desprezar a importância da rotina durante todo o dia, ela é ainda mais importante no começo da manhã e logo antes de dormir. Especialmente duas horas antes do sono, vale a pena começar a tranquilizar tudo:

  • Brincadeiras mais e mais tranquilas;
  • Evitar cócegas, sustos de qualquer espécie e surpresas;
  • Não brincar de forma rápida, pseudo-agressiva, ou agitada;
  • Evitar a todo custo divertimentos eletrônicos, como telas, áudios e brinquedos de pilha;
  • Deixar o celular de lado durante todo o final do dia, e dar contato humano e tranquilo à criança;
  • Evitar transmitir a ela a ansiedade que temos para que ela durma rápido e, no médio prazo, nos livrarmos mesmo dessa ansiedade.

Não comer logo antes de dormir, e não dormir comendo, libertam a criança para dormir quando tem sono. Podemos jantar, e depois começar a rotina de sono, com banho, escovar os dentes, ler um livro, conversar um pouco. Mesmo para bebês isso é válido, porque gostam muito de ouvir a voz de seus cuidadores. Parece irônico, mas a maior ajuda que podemos dar ao sono da criança é descansar antes de dormir.

Se tivermos rotina também de manhã, a criança dorme melhor, porque sabe o que esperar do dia seguinte, e não mergulha no desconhecido, mas num breve intervalo, sabendo exatamente o que vem quando retornar.

A Terceira Liberdade: Independência

Quando a criança finalmente é colocada na cama (mais ou menos depois do anoitecer, mas não muito depois), ou deita-se sozinha, às vezes precisa de companhia, e pode ter. Nem sempre é necessário que deitemos com ela, muitas vezes nossa presença, numa cadeira, ou sentados perto, basta, e com as semanas, podemos nos afastar aos poucos, até não sermos necessários mais.

Algumas crianças dormem por si só, sem nenhum suporte adulto. Móbiles, espelho e livros ajudam.

Outras precisam de uma historinha, uma música ou uma conversa.

Outras choram. E se estiver “tudo bem” com elas, basta que fiquemos por perto, com algum contato físico leve, deixando claro que compreendemos, e estamos dispostos a esperar.

Quando as crianças acordam à noite, não precisam ser retiradas do colchão, nem pegas no colo necessariamente. Imagine se a cada vez que você acorda assustado, de um sonho esquisito, alguém fizesse você levantar, para deitar de novo só depois de pegarem bastante em você. Mesmo uma pessoa amada fazendo isso não nos induz ao sono. Estar perto é bom, um toque suave, uma mão pousada sobre o peito, até um cafuné é muito bom. Pegar demais, e levantar demais, desperta demais. Montessori não manda em você, nem no sono do seu filho, e você saberá quando pegar é importante. De forma geral, no entanto, aprendemos que despertar a criança não é a melhor maneira de a colocar para dormir de novo.

Uma Nota sobre Sonecas:

Até os quatro anos de idade, quase todas as crianças precisam de sonecas, aos cinco, começa a ser suficiente ter uma horinha de sossego e tranquilidade à tarde. Para os mais novinhos, a soneca é universal, e mais longa quanto mais cedo na vida. Até os seis meses, duas sonecas são uma ótima ideia. Para a soneca, vale o que vale para o sono: uma rotina estruturada antes e depois dá segurança e paz, e cria hábito. A criança dorme melhor se não precisa “cair” de sono para dormir, se pode entrar no clima devagarinho, e sabe que aquela rotina é o que precede o descanso.

A Regra de Ouro: Sinais e Alegria

A criança dá sinais quando está com sono. A rotina é imprescindível, mas a melhor ideia é estruturar essa rotina a partir dos sinais de sono que a criança indica. Vamos percebendo em que períodos do dia o sono vai chegando, e criamos uma rotina para atender a esses sinais. Se precisamos mudar o horário da soneca ou do sono da noite, vamos fazendo isso devagar. Dez, quinze minutos de cada vez.

Há inúmeras recomendações sobre quanto uma criança deve dormir. E essas recomendações são importantes. Mas há um termômetro ainda melhor do que as recomendações: a alegria e o bem-estar da criança. Se a sua criança vai dormir tranquila e em paz, e acorda feliz e bem disposta, ela está dormindo certo e o suficiente.

Sobretudo, o sono é uma questão profundamente pessoal. Adultos dormem diferente, crianças também. Nós precisamos, como Montessori sempre recomenda, observar e aprender com a criança, encarar a criança menos como alguém que precisa ser ajudado, e mais como alguém que precisa ser libertado… dos obstáculos que os próprios adultos colocam em seu caminho.

O caminho para um bom sono, como o caminho para uma boa vida, é a liberdade para se desenvolver de forma saudável. Seguir a criança é a missão mais nobre do adulto. Inclusive à noite.


Para dormir bem, é necessário viver em paz. O Lar Montessori se dedica a ajudar adultos a criarem relações melhores com seus filhos, e para isso desenvolveu um curso: Montessori: Viver em Paz com Crianças. Participe, e torne a vida de sua família muito mais pacífica.


Para escrever este texto precisei estudar, e quase tudo o que está aqui vem de três livros maravilhosos:

  • The Montessori Toddler, de Simone Davies
  • Montessori From the Start, de Paula Polk Lillard
  • Maria Montessori Speaks to Parents, de Maria Montessori

¹ Mensagem editada para brevidade, fiel ao conteúdo original.

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

3 comentários

  1. Só tenho a agradecer pelo texto. Em um mundo com diferentes vivências e opiniões, é gratificante perceber que acertamos e estamos de acordo com os valores que buscamos.

  2. Gabriel, agradeço por compartilhar seus artigos tão amorosamente concebidos. Parabenizo seu esforço e dedicação na jornada educativa de nossas crianças. Gratidão.

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